PRÁTICA DE ATIVIDADE FÍSICA ANTES E DURANTE A PANDEMIA DE COVID-19: ESTUDO DE BASE POPULACIONAL

PHYSICAL ACTIVITY BEFORE AND DURING THE COVID-19 PANDEMIC IN PIAUÍ: POPULATION-BASED STUDY

ACTIVIDAD FÍSICA ANTES Y DURANTE LA PANDEMIA DE COVID-19 EN PIAUÍ: ESTUDIO POBLACIONAL

 

Tipo de artigo: Artigo original

Autores

Sarah Beatriz Rocha Lima

Universidade Federal do Piauí, UFPI, Programa de Pós-graduação em Saúde e Comunidade, Teresina, PI, Brasil

ORCID: https://orcid.org/0000-0003-2619-9866

Márcio Dênis Medeiros Mascarenhas

Universidade Federal do Piauí, UFPI, Programa de Pós-graduação em Saúde e Comunidade, Teresina, PI, Brasil

ORCID: https://orcid.org/0000-0001-5064-2763

Malvina Thaís Pacheco Rodrigues

Universidade Federal do Piauí, UFPI, Programa de Pós-graduação em Saúde e Comunidade, Teresina, PI, Brasil

ORCID: https://orcid.org/0000-0001-5501-0669

Alberto Pereira Madeiro

Universidade Federal do Piauí, UFPI, Programa de Pós-graduação em Saúde e Comunidade, Teresina, PI, Brasil

ORCID: https://orcid.org/0000-0002-5258-5982

RESUMO

Objetivo: Analisar a prevalência e fatores associados da prática de atividade física antes e durante a pandemia de covid-19  no Piauí. Métodos: Estudo transversal de base populacional, realizado no estado do Piauí em 2022. Realizaram-se entrevistas domiciliares com aplicação de questionário eletrônico, avaliando-se a prática de atividade física antes e durante a pandemia. Foram calculadas prevalências e intervalos de confiança de 95%. Resultados: Antes da pandemia, 50,4% dos adultos faziam atividade física suficiente; durante a pandemia, a prevalência foi de 39,2%. Sexo, faixa etária, escolaridade, uso de tabaco, renda familiar, possuir plano de saúde e ter comorbidades/condições crônicas foram associados significativamente à prática de atividade física. Conclusões: A prática de atividade física diminuiu durante a pandemia no estado e esteve relacionada com fatores sociodemográficos, comportamentais e clínicos.

DESCRITORES: Pandemia COVID-19; Adultos; Estilo de Vida Sedentário; Inatividade física; Inquéritos Epidemiológicos.

ABSTRACT

Objective: To analyze prevalence and associated factors of physical activity before and during the COVID-19 pandemic in the state of Piauí, Brazil. Methods: This was a population-based cross-sectional study conducted in the state of Piauí in 2022. Household interviews were carried out using an electronic questionnaire to assess physical activity before and during the pandemic. Prevalence estimates and 95% confidence intervals were calculated. Results: Before the pandemic, 50.4% of adults engaged in sufficient physical activity; during the pandemic, this prevalence decreased to 39.2%. Sex, age group, educational level, tobacco use, family income, having private health insurance, and the presence of comorbidities/chronic conditions were significantly associated with physical activity. Conclusions: Physical activity decreased during the pandemic in the state and was associated with sociodemographic, behavioral, and clinical factors.

DESCRIPTORS: COVID-19 Pandemic; Adults; Sedentary Lifestyle; Physical Inactivity; Health Surveys.

RESUMEN

Objetivo: Analizar prevalência y factores asociados a la práctica de actividad física antes y durante la pandemia de COVID-19 en estado de Piauí. Métodos: Estudio transversal de base poblacional realizado en estado de Piauí, 2022. Se realizaron entrevistas domiciliarias mediante la aplicación de un cuestionario electrónico para evaluar la práctica de actividad física antes y durante la pandemia. Se calcularon prevalencias e intervalos de confianza del 95%. Resultados: Antes de la pandemia, el 50,4% de los adultos realizaba suficiente actividad física; durante la pandemia, la prevalencia disminuyó al 39,2%. El sexo, el grupo de edad, el nivel educativo, el consumo de tabaco, el ingreso familiar, la posesión de seguro de salud y la presencia de comorbilidades o enfermedades crónicas se asociaron significativamente con la práctica de actividad física. Conclusiones: La práctica de actividad física disminuyó durante la pandemia en el estado y estuvo relacionada con factores sociodemográficos, conductuales y clínicos.

DESCRIPTORES: Pandemia de COVID-19; Adultos; Estilo de Vida Sedentario; Inactividad Física; Encuestas de Salud.

INTRODUÇÃO

A atividade física é entendida como comportamento que envolve movimentos voluntários do corpo, com gasto de energia acima do nível de repouso. Esse gasto ocorre durante interações sociais e com o ambiente, podendo acontecer no tempo livre, no deslocamento, no trabalho ou estudo e nas tarefas domésticas1. A Organização Mundial da Saúde (OMS) afirma que, em adultos, a atividade física proporciona diversos benefícios para a saúde, incluindo melhora da saúde mental, da qualidade de vida e do bem-estar. Além disso, contribui para a prevenção e o tratamento das doenças crônicas não transmissíveis, como cardiopatias, acidente vascular cerebral, diabetes e neoplasias, além de auxiliar na prevenção da hipertensão e da obesidade2.

O Plano de Ação Global para a Atividade Física 2018–2030, da OMS, estabelece como meta reduzir em 15% a prevalência da inatividade física até 2030, por meio da implementação de políticas e ações voltadas à promoção da atividade física em diferentes contextos3. O combate ao sedentarismo constitui estratégia importante para reduzir a morbimortalidade da população, uma vez que ser fisicamente ativo é uma das principais recomendações para manutenção e melhoria da qualidade de vida4. Entretanto, durante a pandemia de covid-19, medidas de restrição social modificaram o cotidiano da população e comprometeram a manutenção desse comportamento saudável.

A restrição social foi a medida mais difundida pelas autoridades e a mais efetiva para evitar a disseminação da doença e achatar a curva de transmissão do coronavírus5. Considera-se que, além dos efeitos da vacinação, o cumprimento das diretrizes de atividade física foi fortemente associado com risco reduzido para casos de covid-19 graves entre adultos infectados6. Porém, com o fechamento de alguns estabelecimentos (como as academias) e a proibição de esportes coletivos para evitar aglomerações e transmissão da doença, a população encontrou maior dificuldade para se manter fisicamente ativa. O incentivo às pessoas para permanecerem em suas casas foi medida significativa, mas também pode ter surtido efeitos negativos sobre os comportamentos saudáveis, como a diminuição da prática de atividade física7.  

Estudos demonstram que a prevalência de inatividade física aumentou entre adultos brasileiros durante a pandemia de covid-198. Nesse contexto, este estudo teve como objetivo analisar a prática de atividade física antes e durante a pandemia de covid-19 no estado do Piauí e os fatores associados.

MÉTODO

Estudo transversal na modalidade inquérito domiciliar de base populacional, embasado no protocolo de investigação soroepidemiológica estratificada por idade para infecção pelo vírus SARS-CoV-2 (EpiCOVID-Piauí).

 O estudo foi realizado no estado do Piauí, no período de março a novembro de 2022. Utilizou-se plano amostral com dois domínios, sendo o primeiro deles constituído pelo município de Teresina (capital do Piauí) e, o segundo, por municípios do interior do estado (23 municípios). Foram sorteados os municípios, em seguida os setores censitários, as quadras e, por fim, os domicílios.

O tamanho da amostra de indivíduos para cada domínio foi calculado no programa OpenEpi® através da equação: n= [EDFF * Np(1-p)] / [(d2 / Z2 1-α/2 * (N-1) + p * (1-p)], sendo N=tamanho da população de cada domínio; p=prevalência de infectados estimada em 50%; EDFF=efeito de desenho por conglomerado igual a 2,0; d=erro tolerável de 4,5%; e Z=escore padrão de distribuição normal de 1,96 (delimita 95% do nível de confiança). O número mínimo de indivíduos por domínio foi 950, totalizando 1.900 indivíduos para compor a amostra. Para este estudo foram incluídos adultos com idade igual ou superior a 18 anos, que residiam na área urbana ou no interior, totalizando  amostra de 1.806 indivíduos, do total de 2.104 pessoas entrevistadas.

Para a coleta de dados foram realizadas entrevistas mediante aplicação de questionário eletrônico com perguntas fechadas, utilizando-se o aplicativo EpiCollect.  A variável dependente foi a prática de atividade física, a partir das seguintes perguntas: 1. “ANTES da pandemia (antes de março/2020), você realizava pelo menos 30 minutos de exercício físico ou esporte (corrida na rua, corrida em esteira, ginástica aeróbica, futebol, basquetebol pular corda; pedalada) durante, ao menos, 5 vezes na semana?”, tendo como possibilidade de respostas: sim; não; 2. “DURANTE a pandemia (desde março/2020), você tem realizado pelo menos 30 minutos de exercício físico ou esporte (corrida na rua, corrida em esteira, ginástica aeróbica, futebol, basquetebol, pular corda, pedalada) durante, ao menos, 5 vezes na semana?”: sim; não.

Como variáveis independentes foram utilizadas as características sociodemográficas (sexo, faixa etária, renda, raça/cor da pele, escolaridade, parceria conjugal, uso de álcool, uso de tabaco, recebimento de benefícios do governo) e clínicas (plano de saúde, condições crônicas/comorbidades, doenças cardíacas e sintomas de covid-19 nos últimos 15 dias).

O método rake foi utilizado para construir os pesos após estratificação em cada região (principal e interna), de forma que a distribuição da amostra após a ponderação fosse idêntica à da população9. Para isso foram utilizadas estimativas da população residente por sexo, faixa etária e escolaridade máxima das famílias com base nos dados do quarto trimestre da PNAD Contínua desde 2022, realizado pelo IBGE10. Foram calculadas prevalências e respectivos intervalos de confiança de 95% e, para verificar a associação entre as variáveis independentes e os desfechos de interesse, utilizou-se o teste qui-quadrado de Pearson, com nível de significância de 5%. Os dados foram tabulados no programa Excel e as análises foram realizadas no programa Stata, versão 16.1, utilizando-se o módulo survey, que atende aos parâmetros do plano amostral complexo e da ponderação da amostra.

 Em conformidade com as recomendações da resolução 466/2012, o protocolo do estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da UFPI (parecer no 4.644.991, de 12.04.2021). Todos os indivíduos selecionados para a amostra foram informados sobre os objetivos do estudo, riscos e vantagens. Foi solicitada a assinatura do termo de consentimento livre e esclarecido (TCLE) e mantida a confidencialidade dos participantes durante e após o estudo.

RESULTADOS

Dos 1.806 indivíduos que participaram da pesquisa, a maior parte deles era do sexo feminino (53,6%), com faixa etária entre 18 e 39 anos (49,1%), de raça/cor da pele parda (62,3%), com escolaridade até o ensino médio completo (38,7%) e sem parceria conjugal (54,5%) e morava no interior (62,4%). A maioria informou renda familiar de até dois salários-mínimos (64,2%), recebia algum benefício do governo (55,8%), fazia uso de álcool até 01 dia (66,8%) e não fumava (91,7%). Sobre os dados clínicos, a maior parte dos participantes não possuía plano de saúde (73,5%), não relatou doenças do coração (94,5%) e alegou não ter tido sintomas da covid-19 nos últimos 15 dias (54,5%) (Tabela 1).

Tabela 1. Características sociodemográficas e clínicas da população estudada. Piauí, 2022 (N = 1.806).

Variáveis

n

%*

Total

1.806

100,0

Região

   Capital

864

37,6

   Interior

942

62,4

Sexo

   Feminino

1.161

53,6

   Masculino

645

46,4

Faixa etária (em anos)

   18-39

649

49,1

   40-59

648

32,5

   ≥60

509

18,4

Raça/cor da pele

   Branca

366

21,5

   Preta

279

16,1

   Parda

1.123

62,2

Escolaridade

   Sem instrução/Fundamental

697

29,7

   Médio

710

38,7

   Superior

399

31,6

Parceria conjugal

   Não

945

54,5

   Sim

861

45,5

Uso de álcool1

   Até 1 dia

1.206

66,8

   2 dias ou mais

254

14,1

Uso de tabaco

   Não

1.627

91,7

   Sim

179

8,3

Renda (em salários-mínimos)2

   Até 2

1.160

64,2

   Mais que 2

593

32,8

Benefício do governo

   Não

757

44,2

   Sim

1.049

55,8

Plano de saúde

   Não

1.379

73,5

   Sim

427

26,5

Condições crônicas/comorbidades

   Nenhuma

880

54,1

   Uma ou mais

926

45,9

Sintomas de covid-19

   Assintomático

939

54,5

   Oligossintomático

427

22,9

   Sintomático

440

22,6

   *Percentual ponderado conforme plano amostral complexo.

   1 Não responderam: 346 (19,1%); 2 Não responderam: 53 (2,9%).

A Tabela 2 evidencia que, antes da pandemia de covid-19, 50,4% dos adultos praticavam atividade física suficiente; durante a pandemia, esse percentual passou a ser de 39,2%. Tal prevalência foi superior entre os homens (54,8%), em comparação às mulheres (46,5%). Durante a pandemia, embora com redução em ambos os sexos, os homens mantiveram proporção maior de atividade física (43,5%) do que as mulheres (35,5%) Houve diminuição da prática de atividade física entre adultos jovens (18-39 anos) (antes da pandemia: 52,0%/durante: 41,3%) e  entre pessoas com 60 anos ou mais, que passaram de 47,0% para 34,0%.

A prática de atividade física foi significativamente mais frequente entre indivíduos com ensino superior completo, cuja prevalência foi de 62,3% antes e 52,3% durante a pandemia, em comparação àqueles com menor escolaridade (36,4% e 24,8%, respectivamente; p<0,001). Da mesma forma, os não fumantes apresentaram prevalências mais elevadas de atividade física antes (51,8% vs. 34,1%) e durante a pandemia (40,4% vs. 23,7%) quando comparados aos fumantes (p≤0,006). Em relação à renda familiar, aqueles que possuíam renda maior ou igual a dois salários-mínimos diminuíram a prática de atividade física de 54,8% antes para 43,4% durante a pandemia (Tabela 2).

Tabela 2. Prática de atividade física em adultos antes e durante a pandemia da COVID-19, segundo características sociodemográficas. Piauí, 2022.

Variáveis

Atividade física antes

Atividade física durante

n

%*

IC95%1

p-valor

n

%*

IC95%1

p-valor

Total

849

50,4

(46,9-53,8)

631

39,2

(35,4-43,0)

Região

   Capital

420

52,3

(47,4-57,2)

0,362

298

38,8

(34,5-43,3)

0,869

   Interior

429

49,2

(44,5-53,9)

333

39,4

(34,1-45,0)

Sexo

   Feminino

513

46,5

(42,0-51,1)

0,028

372

35,5

(31,8-39,3)

0,013

   Masculino

336

54,8

(49,2-60,3)

259

43,5

(37,6-49,5)

Faixa etária (em anos)

   18-39

310

52,0

(46,9-56,0)

<0,001

237

41,3

(35,5-47,3)

0,178

   40-59

306

49,9

(45,0-54,8)

225

39,0

(34,2-44,0)

   ≥60

233

47,0

(40,6-53,5)

169

34,0

(28,7-39,7)

Raça/cor da pele

   Branca

170

49,8

(43,3-56,3)

0,888

143

42,6

(36,2-49,3)

0,462

   Preta

132

52,0

(43,9-59,9)

89

38,8

(31,6-46,5)

   Parda

528

49,8

(45,0-54,6)

385

37,7

(32,6-43,1)

Escolaridade

   Sem/

Fundamental

257

36,4

(31,7-41,3)

<0,001

175

24,8

(20,9-29,1)

<0,001

   Médio

348

51,3

(46,4-56,2)

257

39,5

(34,6-44,5)

   Superior

244

62,3

(56,1-68,2)

199

52,3

(45,8-58,8)

Parceria conjugal

   Não

447

52,0

(46,9-57,1)

0,275

342

41,7

(36,4-47,1)

0,080

   Sim

402

48,4

(44,2-52,7)

289

36,2

(32,1-40,6)

Uso de álcool

   Até 1 dia

568

49,7

(46,0-53,4)

0,574

554

38,9

(35,3-42,7)

0,731

   2 dias ou mais

109

46,9

(38,2-52,6)

77

40,4

(31,7-49,8)

Uso de tabaco

   Não

796

51,8

(48,1-55,6)

0,001

601

40,4

(36,4-44,6)

0,006

   Sim

53

34,1

(25,4-44,1)

30

23,7

(15,6-43,1)

Renda familiar (em salários-mínimos)

   Até 2

506

47,4

(42,7-52,2)

0,038

371

36,5

(31,9-41,4)

0,036

   Mais que 2

318

54,8

(49,8-59,7)

242

43,4

(38,6-48,3)

Benefício do governo

   Não

377

53,2

(48,2-58,2)

0,096

308

44,0

(38,7-49,5)

0,055

   Sim

472

48,1

(43,9-52,3)

323

35,3

(30,6-40,3)

*Percentual ponderado conforme plano amostral complexo. 1 IC95%: intervalos de confiança de 95%.

Possuir plano de saúde (antes: 60,4%; durante: 36,4%) e ter comorbidades/condições crônicas (antes: 48,3%; durante: 33,9%) apresentaram associação estatisticamente significativa à prática de atividade física (Tabela 3).

Tabela 3. Prática de atividade física em adultos antes e durante a pandemia da COVID-19, segundo características clínicas. Piauí, 2022.

Variáveis

Atividade física antes

Atividade física durante

n

%*

IC95%1

p-valor

n

%*

IC95%1

p-valor

Total

849

50,4

(46,9-53,8)

631

39,2

(35,4-43,0)

Plano de saúde

Não

596

46,7

(43,1-50,4)

0,001

439

36,4

(32,0-40,5)

0,001

    Sim

255

60,4

(53,0-67,4)

192

46,8

(40,5-53,2)

Condições crônicas/comorbidades

Nenhuma

431

52,1

(47,6-56,6)

0,254

338

43,7

(39,2-48,2)

0,002

    Uma e mais

418

48,3

(43,3-53,4)

293

33,9

(28,9-39,2)

Sintomas de covid-19

   Assintomático

463

53,5

(48,8-58,1)

0,075

348

41,2

(36,0-46,5)

0,055

   Oligossintomático

190

46,5

(40,4-52,8)

155

39,9

(34,6-45,4)

   Sintomático

196

46,7

(40,8-52,7)

128

33,7

(28,1-39,8)

*Percentual ponderado conforme plano amostral complexo. 1 IC95%: intervalos de confiança de 95%.

DISCUSSÃO

A prevalência de prática suficiente de atividade física reduziu de 50,4% antes para 39,2% durante a pandemia de covid-19. Os homens mantiveram maiores prevalências de atividade física em ambos os períodos quando comparados às mulheres, embora tenha sido observada redução em todos os grupos etários. A prática de atividade física foi significativamente mais frequente entre indivíduos com maior escolaridade, não fumantes, maior renda familiar e beneficiários de programas governamentais. Além disso, possuir plano de saúde e não apresentar comorbidades estiveram associados a maiores prevalências de atividade física, evidenciando o impacto de fatores sociodemográficos, econômicos e de saúde sobre a manutenção desse comportamento durante a pandemia.

Os resultados deste estudo mostraram variação no comportamento da prática da atividade física entre os participantes antes e durante das restrições da pandemia covid-19. Mais pessoas ficaram fisicamente inativas e isso pode ser um dos efeitos negativos causados pelo medo e pela maior contingência de movimentação em locais públicos. As restrições mais severas durante a pandemia provocaram mudanças significativas nos hábitos de vida das pessoas, levando-as a passarem mais tempo em casa e resultando em aumento do tempo sedentário e na diminuição da prática de atividades físicas11.

O presente estudo apresenta algumas limitações que devem ser levadas em consideração. O viés de informação, que pode ser afetado pela falta de memória, necessidade de aprovação e medo de críticas relacionadas à prática de atividade física. Além disso, os resultados não foram ajustados para outras variáveis de confusão que também podem ser relevantes, como tempo de telas e alimentação.

Resultados semelhantes foram observados em estudo que demonstrou que o nível de atividade física durante a pandemia apresentou redução em comparação ao período anterior12. O inquérito de saúde virtual ‘ConVid, Pesquisa de Comportamentos’, conduzido pela Fundação Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz), analisou 45.161 indivíduos residentes no território brasileiro durante a pandemia de covid-1913 e relatou resultados similares, em que a prevalência de atividade física era superior entre os homens (33,0%) frente às mulheres (27,6%) anteriormente ao período pandêmico, havendo redução em ambos os sexos durante a pandemia. As restrições pandêmicas ou a orientação de proteção muitas vezes resultaram  em abdicação da rotina de trabalho extradomiciliar para trabalhar em casa. Esse fato foi referido como barreira à atividade física, exceto entre adultos mais velhos que eram em sua maioria aposentados14. 

Há risco aumentado de inatividade física relacionado à transição para o trabalho em casa15, já que durante a maior parte da pandemia, trabalhar em casa, quando possível, era obrigatório ou recomendado na maioria dos países. Nesse contexto, embora o isolamento social tenha sido estratégia fundamental de prevenção, essas medidas geraram impactos negativos no comportamento das pessoas, provocando mudanças na saúde física e mental16. Para alguns, a incerteza, a preocupação e o estresse provocados pela pandemia podem ter afetado a motivação para se exercitar e manter uma rotina de atividade física regular. Além disso, o medo do adoecimento individual e de familiares, a incerteza quanto às decisões e estratégias adotadas pelas autoridades para o controle da pandemia e as condições financeiras foram situações que podem repercutir negativamente na saúde das pessoas17,18.

De acordo com dados socioeconômicos encontrados no estudo, os que possuíam renda maior ou igual a dois salários-mínimos tiveram a prática de atividade física reduzida. Em revisão sistemática que teve como objetivo analisar a relação entre os níveis de prática de atividade física e condições socioeconômicas em adultos e idosos foi indicado que a população de classe econômica mais baixa apresentava mais chances de ser inativa quando comparada às classes mais altas. Isso ocorreu provavelmente em decorrência da pouca disponibilidade de horário ou opções acessíveis para conseguir efetuar a prática regular de atividade física, uma vez que indivíduos com maior estabilidade financeira tendem a ter menos estresse financeiro e mais flexibilidade para dedicar tempo à prática de atividade física, em comparação àqueles que precisaram focar em trabalho ou outras prioridades para manter a subsistência19.

Diante disso, a renda pode ter impactado a prática de atividade física durante a pandemia através do acesso a recursos, condições de espaço e tempo disponível e impactos psicológicos relacionados à segurança econômica. Esses fatores podem ter contribuído para disparidades na continuidade e intensidade da atividade física entre diferentes grupos socioeconômicos durante esse período desafiador, visto que ter espaço em casa, tempo livre, boa motivação e estar livre de trabalho e responsabilidades familiares são alguns dos facilitadores para a prática regular de exercícios 20.

Outro fator que se mostrou significante associado à prática de atividade física foi o tabagismo. A maior prevalência de tabagismo, menor renda, presença de doença cardiovascular se correlacionaram com o maior número de barreiras à prática de exercício4. A relação observada entre o tabagismo e a redução da prática de atividade física pode estar associada aos efeitos maléficos deste hábito social. Fumantes são indivíduos mais propensos a ter baixos níveis de atividade física, presença de doenças limitantes de longa data, doenças pulmonares crônicas diagnosticadas e sintomas depressivos clinicamente relevantes21.

A OMS definiu metas fundamentais para reduzir a mortalidade por doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) em 25%. Entre estas metas estariam a redução dos fatores de risco como tabaco, álcool, sal e inatividade física22. A inatividade física está associada ao desenvolvimento de DCNT, aumentando a taxa de mortalidade, o risco de internações hospitalares e problemas psicossociais23. A primeira medida de prevenção ao vírus, a quarentena, se destacou como maior morbidade em relação às doenças cardiovasculares. Nesse período, os indivíduos exibiram mais comportamentos sedentários, adquiriram hábitos alimentares com consumo cada vez maior de produtos industrializados (alto teor de sódio e açucares), elevaram o uso do tabaco e, frequentemente, diminuíram a prática de atividade física24.

Os participantes sintomáticos para covid-19 apresentaram maior redução da prática de atividade física durante a pandemia. Como regra geral, os sintomas mais recorrentes durante a covid-19 são febre, tosse não produtiva, dispneia, fadiga, mialgia, comprometimento cognitivo, ansiedade e falta de ar. Soma-se a isso, condições cardiovasculares e complicações do sistema nervoso central também podem se manifestar em alguns casos. Sintomas como fadiga, dispneia, mialgia e comprometimento respiratório podem limitar a realização de exercícios, especialmente aqueles que exigem maior esforço aeróbico24.

CONCLUSÃO

Nesse contexto, a falta de engajamento com a prática de atividade física antes e durante a pandemia está associada a fatores que incluem condições sociodemográficas, socioeconômicas e de saúde. Além disso, o período pandêmico trouxe mudanças drásticas na rotina e no estilo de vida das pessoas, tornando a redução dos níveis de atividade física ainda mais alarmante, já que a população enfrentou desafios constantes para equilibrar sua saúde de diferentes maneiras. Portanto, é essencial promover um debate mais frequente e focado sobre a importância da adoção de hábitos saudáveis, incluindo alterações no estilo de vida, especialmente no que diz respeito prática de atividade física, considerando as diversas realidades individuais.

REFERÊNCIAS

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Conflitos de interesses

Os autores declaram não possuir conflitos de interesse.

Financiamento

A presente pesquisa foi financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).

Sarah Beatriz Rocha Lima

Rua Tenente Antônio Correia, 60, Bela Vista, 65637577, Timon, MA

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Márcio Dênis Medeiros Mascarenhas

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Malvina Thaís Pacheco Rodrigues

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Alberto Pereira Madeiro

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