PRÁTICAS DE ESTERILIZAÇÃO: IMPLICAÇÕES NA PREVENÇÃO DE INFECÇÃO CIRÚRGICA E IMPACTOS AMBIENTAIS

Joyce Cristina de Cássio

Mestranda

Mestrado Profissional em Meio Ambiente e Saúde

Centro Universitário UninCor – UNINCOR

Orcid: https://orcid.org/0009-0002-3713-2560

Cristiane Gattini Sbampato

Doutora em Ciências dos Alimentos

Mestrado Profissional em Meio Ambiente e Saúde

Centro Universitário UninCor – UNINCOR

Orcid: https://orcid.org/0009-0008-1171-2149

João Paulo Soares Fonseca

Doutor em Enfermagem

Mestrado Profissional em Meio Ambiente e Saúde

Centro Universitário UninCor – UNINCOR

Orcid: https://orcid.org/0000-0003-4886-1718

Resumo

Objetivo: Analisar as práticas de esterilização e desinfecção, suas implicações na prevenção das Infecções de Sítio Cirúrgico (ISC) e seus impactos ambientais, discutindo a integração entre segurança do paciente e sustentabilidade hospitalar.

Método: Revisão narrativa da literatura, baseada na análise crítica de estudos identificados nas bases PubMed/MEDLINE, LILACS, SciELO e Web of Science, por descritores DeCS e MeSH.

Resultados: Os métodos de esterilização, associados à implementação de bundles, checklists e protocolos perioperatórios, reduziram as ISC. Entretanto, o processamento de produtos para saúde demanda elevado consumo de água, energia e agentes químicos, gerando impactos ambientais relevantes e desafios para conciliar segurança microbiológica e sustentabilidade.

Conclusão: A esterilização permanece essencial para prevenir infecções cirúrgicas. Contudo, protocolos institucionais devem incorporar estratégias sustentáveis, tecnologias inovadoras e gestão ambiental, garantindo assistência segura, eficiente e comprometida com a redução dos impactos ecológicos.

DESCRITORES: Infecção da Ferida Cirúrgica. Esterilização. Segurança do Paciente. Sustentabilidade Ambiental.

Abstract

Objective: To analyze sterilization and disinfection practices, their implications for the prevention of Surgical Site Infections (SSI), and their environmental impacts, discussing the integration between patient safety and hospital sustainability.

Method: Narrative literature review based on the critical analysis of studies identified in the PubMed/MEDLINE, LILACS, SciELO, and Web of Science databases using DeCS and MeSH descriptors.

Results: Sterilization methods, combined with the implementation of bundles, checklists, and perioperative protocols, reduced the incidence of Surgical Site Infections. However, the processing of health products requires high consumption of water, energy, and chemical agents, resulting in significant environmental impacts and challenges in reconciling microbiological safety with sustainability.

Conclusion: Sterilization remains essential for preventing surgical infections. However, institutional protocols should incorporate sustainable strategies, innovative technologies, and environmental management to ensure safe, efficient healthcare while reducing ecological impacts.

DESCRIPTORS: Surgical Wound Infection. Sterilization. Patient Safety. Environmental Sustainability.

Introdução

A Infecção de Sítio Cirúrgico (ISC) representa um dos principais desafios para a segurança do paciente e para a gestão de qualidade nas instituições de saúde, elevando as taxas de morbimortalidade e os custos hospitalares1. Nesse cenário, o controle rigoroso de infecções na prática cirúrgica é um princípio inegociável, exigindo avanços contínuos nas técnicas de prevenção2. A caracterização epidemiológica dessas infecções demonstra que falhas nos processos perioperatórios, desde o preparo do paciente até a esterilização dos instrumentais, são fatores determinantes para o desfecho clínico3.

A translação do conhecimento científico para a prática clínica é fundamental para padronizar rotinas e reduzir a lacuna entre as evidências disponíveis e as ações diárias dos profissionais de saúde4,5. O Centro de Material e Esterilização (CME) atua como o coração do centro cirúrgico. A eficácia dos métodos de esterilização e dos procedimentos de limpeza e desinfecção de rotina não apenas garante a inativação de microrganismos, mas também prolonga a vida útil dos materiais6. Contudo, há uma preocupação crescente com a sustentabilidade. A alta demanda por energia, água e o uso de produtos químicos agressivos geram impactos ambientais significativos, exigindo que as intervenções, como o uso de curativos especiais e tecnologias de pressão negativa, sejam aliadas a uma gestão de resíduos mais eficiente7,8.

Dessa forma, a gestão do cuidado, liderada pela equipe de enfermagem, torna-se essencial para equilibrar a segurança do paciente e a responsabilidade ambiental9. A implementação de protocolos de vigilância, especialmente em cirurgias de alta complexidade, tem demonstrado sucesso na mitigação de riscos10,11. Este estudo tem como objetivo analisar, de forma reflexiva, as práticas de esterilização e desinfecção, suas implicações diretas na prevenção de infecções do sítio cirúrgico e debater os impactos ambientais atrelados a essas rotinas, buscando a integração de práticas seguras e sustentáveis12,13.

Método

A presente investigação fundamenta-se em uma revisão narrativa de literatura. A estratégia de busca foi conduzida em bases de dados científicas, PubMed/MEDLINE, LILACS, SciELO e Web of Science, utilizando descritores extraídos dos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) e do Medical Subject Headings (MeSH), combinados por operadores booleanos: ("Surgical Wound Infection" OR "Infecção de Sítio Cirúrgico") AND ("Sterilization" OR "Esterilização") AND ("Patient Safety" OR "Segurança do Paciente") AND ("Environmental Sustainability" OR "Sustentabilidade Ambiental"). Adotou-se como critérios de inclusão: artigos originais, revisões, diretrizes e estudos teóricos publicados entre 2002 e 2025, em português, inglês ou espanhol, que abordassem a interface entre práticas de esterilização, prevenção de ISC e/ou impactos ambientais em serviços de saúde. Excluíram-se editoriais, cartas ao editor, resumos de eventos e estudos com foco exclusivo em animais ou in vitro sem implicações clínicas.

A seleção dos estudos seguiu um processo iterativo e reflexivo de leitura, análise e categorização temática. Os artigos foram lidos na íntegra e organizados em matrizes de síntese interpretativa, considerando variáveis como ano de publicação, abordagem metodológica, contexto de aplicação e principais argumentos relacionados à prevenção de ISC e sustentabilidade no CME. A construção da síntese teórica foi orientada pela articulação dialética entre segurança do paciente e responsabilidade ambiental, buscando mapear tensões, convergências e lacunas no campo4,8.

Resultados e Discussão

Para organizar os dados de forma clara e sistemática, elaborou-se a tabela a seguir, que apresenta as principais características dos estudos selecionados, permitindo uma leitura comparativa entre as diferentes produções analisadas.

Tabela 1. Síntese dos estudos incluídos na revisão narrativa sobre práticas de esterilização, prevenção de ISC e sustentabilidade

Nº

Autor(es)

Ano

Periódico

Delineamento Metodológico

Principal Objetivo/Foco

1

Alfa MJ

2013

Am J Infect Control

Revisão de Literatura

Avaliar o monitoramento da eficácia da limpeza de dispositivos médicos.

2

Alverdy JC, Knechtges D

2016

J Surg Res

Revisão

Discutir princípios e avanços no controle de infecção cirúrgica.

3

Anchieta DW, et al.

2019

Vigil Sanit Debate

Estudo Descritivo

Caracterizar infecções de sítio cirúrgico (ISC) em hospital de ensino.

4

Apóstolo JLA

2017

ESEnfC

Estudo Teórico/Livro

Estruturar a síntese de evidências e a translação da ciência.

5

Ardeshna A, et al.

2023

J Indian Orthod Soc

Estudo Experimental

Avaliar a eficácia de diferentes métodos de esterilização.

6

Assadian O, et al.

2021

J Hosp Infect

Revisão Narrativa

Fornecer recomendações práticas para rotinas de desinfecção.

7

Atherton K, et al.

2025

JAMA

Ensaio Clínico Randomizado

Avaliar curativos de pressão negativa em laparotomias de emergência.

8

Badia JM, et al.

2020

Int J Surg

Estudo Qualitativo

Analisar a lacuna persistente entre evidência e prática na prevenção de ISC.

9

Borchhardt SVB, et al.

2022

Res Soc Dev

Revisão Integrativa

Mapear a gestão do cuidado e contribuições do enfermeiro no bloco cirúrgico.

10

Canon M, et al.

2016

Am J Crit Care

Estudo Observacional

Melhorar vigilância e prevenção de ISC em cirurgia cardíaca pediátrica.

11

Castellà L, et al.

2020

Am J Infect Control

Estudo de Intervenção

Reduzir a incidência de ISC em cirurgias de coluna.

12

Costa AC, et al.

2020

Arq Bras Cir Dig

Revisão de Literatura

Apresentar atualizações em ISC e antibioticoprofilaxia cirúrgica.

13

Dior UP, et al.

2020

JAMA Surg

Ensaio Clínico Randomizado

Avaliar efeitos da antissepsia da pele em cirurgia laparoscópica.

14

Dutra GG, et al.

2015

Rev Pesqui Cuid Fundam

Artigo de Revisão

Descrever a função do enfermeiro no controle de infecção hospitalar.

15

Franco LMC, et al.

2017

REME

Estudo Clínico Piloto

Avaliar os efeitos do banho pré-operatório na prevenção de infecção.

16

Gillespie BM, et al.

2015

Surg Innov

ECR Piloto

Analisar curativos de pressão negativa em artroplastia de quadril.

17

Gonçalves GN, et al.

2025

Braz J Implantol Health Sci

Revisão de Literatura

Estruturar estratégias atualizadas para prevenção de infecções perióperatórias.

18

Gonzalez EA, et al.

2015

Am J Infect Control

Estudo In vitro

Testar a capacidade de lenços umedecidos na remoção de bactérias.

19

Hancer AT, Yilmaz M

2023

J Perianesth Nurs

Ensaio Clínico Randomizado

Avaliar o efeito de um checklist de controle glicêmico nas taxas de ISC.

20

Jang X, et al.

2016

Turk Neurosurg

Estudo Retrospectivo

Relatar intervenções para prevenção de infecção em neurocirurgia.

21

Johnson MP, et al.

2016

Obstet Gynecol

Estudo de Coorte

Utilizar bundles (pacotes) para reduzir ISC em cirurgia ginecológica.

22

Jost MT, et al.

2018

Rev Sobecc

Revisão Integrativa

Analisar a Sistematização da Assistência (SAEP) na segurança do paciente.

23

Kakemam E, et al.

2022

J Nurs Manag

Estudo de Modelagem

Correlacionar profissionalismo e pensamento sistêmico à segurança do paciente.

24

Khouri RK, et al.

2019

Ann Surg

Estudo Retrospectivo

Identificar fatores de risco do paciente (nutrição e tabagismo) para ISC.

25

Lakoh S, et al.

2022

Antimicrob Resist Infect Control

Coorte Prospectiva

Investigar a incidência de ISC e a resistência antimicrobiana associada.

26

Lee E, Kim Y

2020

PLoS One

Estudo Transversal

Avaliar a sensibilidade moral na notificação de incidentes de segurança.

27

Ling ML, et al.

2018

Antimicrob Resist Infect Control

Diretrizes Clínicas

Estabelecer diretrizes (APSIC) para desinfecção e esterilização hospitalar.

28

Loftus RW, et al.

2020

JAMA Netw Open

Ensaio Clínico Randomizado

Avaliar medidas preventivas básicas na transmissão perióperatória de S. aureus.

29

Martins T, et al.

2020

Rev Estima

Revisão Integrativa

Identificar intervenções de enfermagem para redução de ISC.

30

Oliveira AC, et al.

2002

Rev Saúde Pública

Estudo Comparativo

Comparar diagnósticos de ISC durante e após a internação do paciente.

31

Patiño-Marín N, et al.

2025

Cureus

Revisão de Literatura

Avaliar práticas de esterilização e desinfecção em cenários odontológicos.

32

Prado MA

2016

Enferm Global

Estudo Transversal

Estruturar indicadores de processo sob a ótica da segurança do paciente.

33

Protano C, et al.

2019

Ann Ig

Revisão de Literatura

Discutir o ambiente hospitalar como reservatório de transmissão cruzada.

34

Roscani ANCP, et al.

2015

Acta Paul Enferm

Estudo Metodológico

Validar um checklist cirúrgico voltado especificamente para a prevenção de ISC.

35

Rutala WA, et al.

2023

Am J Infect Control

Revisão Narrativa

Atualizar o panorama global sobre desinfecção, esterilização e antissepsia.

36

Song X, et al.

2019

Antimicrob Resist Infect Control

Revisão de Literatura

Analisar a eficácia de lenços impregnados com desinfetante no ambiente hospitalar.

Fonte: Autores da pesquisa, 2026.

A análise reflexiva das Infecções de Sítio Cirúrgico (ISC) revela um cenário complexo no qual a falha em processos aparentemente básicos pode resultar em graves desfechos clínicos. O estudo epidemiológico em hospitais de ensino demonstra que a caracterização detalhada das infecções constitui o primeiro passo para o mapeamento de riscos institucionais³. Contudo, um dos maiores desafios para as comissões de controle de infecção refere-se ao subdiagnóstico, visto que a literatura comprova que parcela significativa das infecções cirúrgicas apenas se manifesta ou é diagnosticada após a alta hospitalar, exigindo vigilância ativa e acompanhamento contínuo para refletir a real taxa de incidência³⁰. Nesse contexto, os princípios de controle de infecção na prática cirúrgica precisaram evoluir substancialmente, deixando de assumir um caráter apenas reativo para incorporar tecnologias de monitoramento contínuo da eficácia da limpeza de dispositivos e ambientes¹˒².

Apesar dos avanços teóricos e tecnológicos, observa-se uma persistente lacuna entre a evidência científica disponível e a prática clínica cotidiana nas salas cirúrgicas e nos centros de esterilização⁸. A superação dessa barreira depende diretamente de métodos estruturados de translação do conhecimento, processo em que a evidência científica é sintetizada, adaptada e efetivamente implementada na prática assistencial⁴. Sem essa translação rigorosa, as recomendações permanecem restritas aos protocolos institucionais, ocasionando desperdício de recursos, aumento da pegada ambiental hospitalar em decorrência do retrabalho e perpetuação de riscos infecciosos evitáveis aos pacientes cirúrgicos.

Nesse cenário de aplicação prática, a liderança e a gestão do cuidado exercidas pela equipe de enfermagem assumem papel indispensável para a segurança no ambiente perioperatório⁹. A atuação do enfermeiro no controle da infecção hospitalar ultrapassa a assistência direta, abrangendo a articulação de fluxos assistenciais, a supervisão do Centro de Material e Esterilização (CME) e a garantia da manutenção das barreiras assépticas¹⁴. A literatura demonstra que a aplicação sistemática de intervenções preventivas de enfermagem reduz significativamente as taxas de contaminação, inclusive em cirurgias classificadas como de alto risco²⁹. Para assegurar consistência e mensuração dessas intervenções, a Sistematização da Assistência de Enfermagem Perioperatória (SAEP) atua como base metodológica do cuidado, promovendo padronização desde a admissão até a recuperação anestésica²².

A sustentação das ações desenvolvidas pela enfermagem e pela equipe médica depende da implementação de ferramentas de gestão de risco e fortalecimento da cultura de segurança. O uso de indicadores de processo permite às instituições monitorar não apenas os desfechos infecciosos, mas também etapas preventivas fundamentais, como o momento adequado da antibioticoprofilaxia e a manutenção da normotermia³². Instrumentos validados, a exemplo dos checklists cirúrgicos voltados especificamente à prevenção de infecções, reduzem a dependência exclusiva da memória humana³⁴. Além disso, a aplicação dessas ferramentas pode ser expandida para o controle metabólico perioperatório, especialmente no manejo rigoroso da hiperglicemia, fator diretamente associado ao prejuízo da cicatrização e ao aumento da colonização bacteriana¹⁹. Entretanto, a adesão efetiva a tais estratégias exige sensibilidade moral, profissionalismo e pensamento sistêmico por parte das equipes, características relacionadas à maior propensão de notificação de incidentes e quase falhas²³˒²⁶.

Antes mesmo do ingresso do paciente no bloco cirúrgico, as estratégias de otimização pré-operatória configuram a primeira linha de defesa contra as ISC. Estudos evidenciam que fatores intrínsecos e comportamentais, como estado nutricional comprometido e tabagismo ativo, aumentam significativamente os riscos de deiscência e infecção, demandando intervenções prévias²⁴. Paralelamente às abordagens sistêmicas, o preparo físico mediante banho pré-operatório com antissépticos reduz a carga microbiana cutânea, funcionando como barreira química inicial¹⁵. Imediatamente antes da incisão, a escolha adequada e a correta técnica de antissepsia da pele no centro cirúrgico apresentam eficácia comprovada na redução das contaminações locais, inclusive em procedimentos minimamente invasivos, como a laparoscopia¹³.

Durante e após o procedimento cirúrgico, o emprego de intervenções combinadas, conhecidas como bundles ou pacotes de medidas, potencializa a prevenção ao exigir adesão integral ao protocolo terapêutico²¹. A incorporação de tecnologias aplicadas ao sítio cirúrgico trouxe avanços relevantes, destacando-se os curativos de pressão negativa. Ensaios clínicos demonstram que a utilização profilática dessa tecnologia em cirurgias abdominais de grande porte e procedimentos ortopédicos, como artroplastia primária de quadril, contribui para o controle do exsudato, redução do edema e isolamento da ferida do ambiente externo, diminuindo expressivamente as complicações locais⁷˒¹⁶. Além disso, o reforço sistemático de medidas básicas no perioperatório mostrou-se eficaz na contenção da transmissão de patógenos altamente virulentos, como o Staphylococcus aureus²⁸.

A complexidade e as particularidades anatômicas das diferentes especialidades cirúrgicas exigem adaptações específicas nos protocolos preventivos. Em cirurgias cardíacas pediátricas, por exemplo, a vigilância e o controle necessitam de fluxos extremamente rigorosos devido à elevada vulnerabilidade imunológica dos pacientes¹⁰. De modo semelhante, procedimentos neurocirúrgicos e cirurgias de coluna apresentam risco elevado diante da ocorrência de infecções profundas ou comprometimento do sistema nervoso central, justificando a adoção de profilaxias direcionadas e políticas institucionais de tolerância zero às falhas assépticas¹¹˒²⁰. Tal cenário é agravado pelo avanço da resistência antimicrobiana, fenômeno que compromete a eficácia das profilaxias tradicionais e exige atualização contínua das diretrizes relacionadas ao uso de antibióticos perioperatórios¹²˒²⁵.

Ao deslocar o olhar do paciente para o ambiente físico hospitalar, torna-se evidente que o centro cirúrgico atua como reservatório dinâmico para transmissão cruzada de microrganismos³³. Superfícies inanimadas próximas ao campo operatório e áreas de intensa circulação profissional constituem vetores silenciosos de disseminação infecciosa. Dessa forma, a redução desse risco invisível depende da implementação de estratégias ambientais robustas que contemplem o controle do fluxo de ar, a restrição rigorosa do trânsito de pessoas no bloco operatório e a adoção de tecnologias de desinfecção complementares ao trabalho humano¹⁷.

No âmbito do controle ambiental, a eficácia dos métodos de limpeza e desinfecção de superfícies apresenta caráter determinante. Diretrizes e recomendações internacionais enfatizam que a remoção prévia da matéria orgânica e do biofilme representa etapa essencial antes da aplicação de agentes químicos desinfetantes⁶. Entre as inovações incorporadas à rotina hospitalar, destacam-se os lenços descartáveis impregnados com desinfetante, cuja eficácia in vitro e em revisões de literatura demonstra elevada capacidade de remoção bacteriana em dispositivos médicos e superfícies de alto toque¹⁸˒³⁶. Além de padronizar a fricção mecânica, essa tecnologia otimiza o tempo da equipe e contribui para a redução do erro humano.

Por fim, o processamento de produtos para a saúde encerra o ciclo de segurança relacionado à prevenção das ISC. Diretrizes globais sobre desinfecção, esterilização e antissepsia apontam o Centro de Material e Esterilização como setor crítico no qual falhas tecnológicas podem resultar diretamente em infecção do paciente²⁷˒³⁵. Tanto em ambientes hospitalares de alta complexidade quanto em contextos odontológicos e ortodônticos, a avaliação rigorosa da eficácia dos métodos físicos e termoquímicos de esterilização é indispensável para garantir a letalidade microbiana⁵˒³¹. Nesse contexto, associar elevados padrões de segurança aos princípios da sustentabilidade representa um dos principais desafios contemporâneos da ciência da esterilização, exigindo processos capazes de atingir os níveis de segurança microbiológica necessários ao mesmo tempo em que reduzem consumo hídrico, gastos energéticos e descarte de resíduos químicos nocivos ao meio ambiente.

Considerações Finais

As práticas de esterilização e desinfecção constituem o alicerce fundamental para a prevenção das Infecções de Sítio Cirúrgico (ISC), atuando como uma barreira inegociável para a segurança do paciente. A literatura analisada reforça que o controle rigoroso no ambiente perioperatório, que se estende desde o preparo inicial do indivíduo até o processamento complexo do instrumental, é o principal determinante para a redução das taxas de morbimortalidade e dos custos hospitalares. Falhas nessas etapas críticas, por menores que sejam, resultam em desfechos clínicos severos, prolongamento das internações e falhas sistêmicas no cuidado.

Para que essa segurança microbiológica seja efetiva e contínua, a adoção de intervenções preventivas sistematizadas mostrou-se imprescindível. O uso de bundles de prevenção, checklists cirúrgicos validados e a consolidação da Sistematização da Assistência de Enfermagem Perioperatória (SAEP) traduzem a robustez teórica para a prática diária, mitigando o erro humano e padronizando a assistência. Além disso, a constante atualização tecnológica, ilustrada pela implementação de curativos de pressão negativa, antissepsia avançada e monitoramento rigoroso da limpeza, demonstra que a vigilância ativa e a translação do conhecimento são as armas mais eficazes para combater a crescente ameaça da resistência antimicrobiana.

No entanto, esta reflexão evidencia um desafio contemporâneo urgente que não pode mais ser negligenciado: o impacto ambiental atrelado a essas práticas de excelência clínica. O modelo tradicional de processamento no Centro de Material e Esterilização (CME) é caracterizado por uma altíssima demanda energética e hídrica, além do uso intensivo e descarte de produtos químicos altamente tóxicos. A busca implacável pela garantia da esterilidade tem gerado um passivo ecológico insustentável a longo prazo, exigindo que gestores hospitalares e comissões de controle de infecção repensem seus protocolos sob a ótica da sustentabilidade e da otimização de recursos.

Conclui-se, portanto, que o futuro da gestão em centros cirúrgicos exige um equilíbrio meticuloso entre a máxima eficácia na inativação microbiana e a responsabilidade socioambiental. O avanço científico na prevenção de infecções cirúrgicas deve caminhar lado a lado com a adoção de tecnologias verdes e fluxos operacionais mais limpos no CME. Somente através da educação permanente das equipes, da inovação em métodos de desinfecção ecologicamente eficientes e da aplicação de diretrizes rigorosas baseadas em evidências será possível salvaguardar a vida dos pacientes sem comprometer irremediavelmente a saúde do meio ambiente.

Contribuição dos autores

Concepção e desenho da pesquisa: Cássio JC; Sbampato CS; Fonseca JPS. Coleta de dados: Cássio JC; Sbampato CS; Fonseca JPS. Análise e interpretação dos dados: Cássio JC; Sbampato CS; Fonseca JPS. Análise estatística: Cássio JC; Sbampato CS; Fonseca JPS. Redação do manuscrito: Revisão crítica do manuscrito quanto ao conteúdo intelectual importante: Cássio JC; Sbampato CS; Fonseca JPS.

Conflitos de Interesse

Os autores declaram não haver conflito de interesse.

Fontes de Financiamento

Não houve financiamento.

Declaração sobre o Uso de Inteligência Artificial

Os autores declaram a utilização de ferramenta de inteligência artificial no desenvolvimento deste trabalho. A utilização da IA empregada foi exclusivamente como suporte para correção gramatical, refinamento textual e auxílio na estruturação do resumo. Todo o conteúdo gerado foi submetido à revisão crítica e validação pelos autores antes de sua incorporação ao manuscrito.

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