QUANDO O COTIDIANO ENSINA: EDUCAÇÃO PERMANENTE EM SAÚDE EM ÂMBITO LOCAL
WHEN DAILY LIFE TEACHES: PERMANENT HEALTH EDUCATION IN A LOCAL CONTEXT
CUANDO LO COTIDIANO ENSEÑA: EDUCACIÓN PERMANENTE EN SALUD EN ÁMBITO LOCAL
Tipo de artigo: Artigo Original
Ana Flávia Guimarães Moura
Mestra pelo PROFSAÚDE/UNESP, Faculdade de Medicina de Botucatu. Articuladora de EPS na SMS Sorocaba.
Orcid: https://orcid.org/0000-0002-2345-6789
Eliana Goldfarb Cyrino
Professora Titular da Faculdade de Medicina de Botucatu, UNESP.
Orcid: https://orcid.org/0000-0003-1234-5678
RESUMO
Objetivo: Compreender as percepções e necessidades formativas de trabalhadores de Unidades Básicas de Saúde em relação à Educação Permanente em Saúde (EPS), identificando desafios e potencialidades para o fortalecimento da formação no território. Método: Pesquisa-intervenção de abordagem mista desenvolvida em Sorocaba-SP (2025-2026). Realizou-se levantamento quantitativo (n=145) e qualitativo por meio de seis rodas de conversa (n=58), analisadas via análise de conteúdo temática de Bardin. Resultados: O principal obstáculo foi a falta de tempo decorrente da sobrecarga assistencial (73%). Revelou-se um "protagonismo impedido" pelo gap entre o desejo de participar do planejamento da EPS (60%) e a percepção de ser ouvido pela gestão (43%). O teste qui-quadrado de Pearson revelou associação estatisticamente significativa entre sentir-se ouvido e o desejo de participação ativa. Emergiram propostas como reuniões garantidas em escala (tempo protegido) e construção participativa de protocolos (ex: Código Laranja). Conclusão: O fortalecimento da EPS requer a institucionalização do tempo protegido e escuta ativa.
DESCRITORES: Educação Permanente em Saúde; Atenção Primária à Saúde; Pessoal de Saúde; Planejamento em Saúde; Relações Interprofissionais.
ABSTRACT
Objective: To understand the perceptions and training needs of healthcare workers in Primary Health Units regarding Continuing Health Education (EPS), identifying challenges and potentials to strengthen training in the territory. Method: An intervention research with a mixed-methods approach conducted in Sorocaba-SP (2025-2026). A quantitative survey (n=145) and a qualitative stage with six conversation circles (n=58) were conducted, analyzed through Bardin's thematic content analysis. Results: The main obstacle was the lack of time due to healthcare overload (73%). A "prevented protagonism" was shown by the gap between the desire to participate in EPS planning (60%) and being heard by management (43%), with a significant statistical association. Proposals like scale-guaranteed meetings (protected time) and participatory protocols (e.g., Orange Code) emerged. Conclusion: Strengthening EPS requires the institutionalization of protected time and active listening.
DESCRIPTORS: Education, Continuing; Primary Health Care; Health Personnel; Health Planning; Interprofessional Relations.
RESUMEN
Objetivo: Comprender las percepciones y necesidades formativas de los trabajadores de Unidades Básicas de Salud en relación con la Educación Permanente en Salud (EPS), identificando desafíos y potencialidades para el fortalecimiento de la formación en el territorio. Método: Investigación-intervención con enfoque mixto realizada en Sorocaba-SP (2025-2026). Se realizó un relevamiento cuantitativo (n=145) y cualitativo mediante seis rondas de conversación (n=58), analizadas mediante el análisis de contenido temático de Bardin. Resultados: El principal obstáculo fue la falta de tiempo debido a la sobrecarga asistencial (73%). Se reveló un "protagonismo impedido" por la brecha entre el deseo de participar en la planificación de la EPS (60%) y la percepción de ser escuchado por la gestión (43%). La prueba de chi-cuadrado de Pearson reveló una asociación estadísticamente significativa entre sentirse escuchado y el deseo de participación activa. Surgieron propuestas como reuniones garantizadas en escala (tiempo protegido) y construcción participativa de protocolos (ej: Código Naranja). Conclusión: El fortalecimiento de la EPS requiere la institucionalización del tempo protegido y la escucha activa.
DESCRIPTORES: Educación Continua; Atención Primaria de Salud; Personal de Salud; Planificación en Salud; Relaciones Interprofesionales.
INTRODUÇÃO
A Educação Permanente em Saúde (EPS) é diretriz estratégica do Sistema Único de Saúde (SUS) para a transformação das práticas a partir da problematização do cotidiano(1). Diferente da educação continuada, focada na transmissão vertical de conteúdos técnicos, a EPS propõe que a aprendizagem ocorra no trabalho, valorizando o território e a autonomia dos sujeitos(2).
Apesar do avanço normativo da Política Nacional de Educação Permanente em Saúde (PNEPS), sua efetivação na Atenção Primária à Saúde (APS) enfrenta desafios estruturais(3). A literatura aponta que as ações educativas frequentemente se reduzem a treinamentos pontuais e desconectados das realidades locais(4,5). Adicionalmente, a sobrecarga assistencial, a rotatividade profissional e a precarização dos vínculos — via Organizações Sociais de Saúde (OSS) e contratações médicas por Pessoa Jurídica (PJ) — impõem barreiras ao planejamento e à participação em processos formativos críticos(6,7).
Diante deste cenário, a escuta ativa dos trabalhadores da APS sobre suas percepções e necessidades formativas revela-se indispensável para reorientar as estratégias de formação em serviço(8).
O objetivo deste estudo é compreender, a partir da percepção dos trabalhadores das Unidades Básicas de Saúde (UBS) de Sorocaba, como as necessidades formativas se articulam com os princípios da EPS, identificando desafios, barreiras e potencialidades para o fortalecimento da formação crítica no território.
MÉTODO
Pesquisa-intervenção com abordagem mista (quantitativa e qualitativa), fundamentada nos princípios das metodologias participativas(9). O estudo foi realizado na rede de Atenção Básica de Sorocaba-SP (33 UBS, ~1400 trabalhadores) entre 2025 e 2026.
Na Etapa 1 (quantitativa), aplicou-se formulário digital estruturado (Google Forms) com 20 questões fechadas e cinco vinhetas de situações-problema sobre o cotidiano da APS. Participaram 145 trabalhadores de saúde de diferentes categorias selecionados por conveniência. Os dados foram analisados por estatística descritiva e teste qui-quadrado de Pearson (X2) no software SPSS (p < 0,05).
Na Etapa 2 (qualitativa), realizaram-se seis rodas de conversa em UBS selecionadas estrategicamente para representar diferentes modelos de atenção (Estratégia Saúde da Família - ESF e UBS tradicionais) (n=58 participantes). Os encontros de 90 minutos foram mediados pela pesquisadora utilizando metodologias ativas (devolutiva, problematização e propostas). Os áudios foram transcritos e analisados pela Análise de Conteúdo de Bardin(10) e diário de campo.
O estudo foi aprovado pelo CEP da Faculdade de Medicina de Botucatu - UNESP (Parecer nº 3.853.093; CAAE nº 28237120.9.0000.5411). Todos assinaram o TCLE. Para preservar o anonimato, os depoimentos foram codificados pela categoria profissional e número (ex: Enfermeira 1).
RESULTADOS
O perfil dos respondentes (n=145) caracterizou-se por maioria feminina (84%), faixa etária de 30-49 anos (68%), atuação na APS >5 anos (72%) e vínculo estatutário (78%). A amostra incluiu enfermagem (42%), ACS (21%), médicos (15%), administrativos (12%) e saúde bucal (10%). A análise originou cinco categorias.
Obstáculos Organizacionais e a Busca pelo "Tempo Protegido"
A falta de tempo pela sobrecarga assistencial foi o principal obstáculo para a participação em EPS para 73% na etapa quantitativa e unânime nas rodas. A pressão por consultas individuais consolida uma lógica reativa de trabalho, focada em "apagar incêndios", o que fragiliza o cuidado longitudinal(11). Os profissionais sugeriram a retomada de "oficinas de planejamento" com fechamento periódico das unidades:
A gente não tem tempo pra nada. É paciente o dia todo... Como que a gente vai parar pra estudar, pra discutir caso? . Técnico de Enfermagem 1
Antigamente tinha as oficinas... A gente fechava a unidade uma vez a cada dois ou três meses, todo mundo participava. Era o único momento pra planejar junto. Isso se perdeu. . ACS 1
Debateu-se a incorporação de reuniões de equipe garantidas em escala nas UBS tradicionais, nos moldes da ESF(12). A ausência de espaços interprofissionais estruturados para discussão de casos sobrecarrega a enfermagem, que assume isoladamente o papel de elo de comunicação entre as categorias:
A gestante que teve sífilis... porque muitas vezes o pediatra não fica sabendo. Hoje está totalmente essa gestão na mão das enfermeiras. Se a gente tem esse espaço de compartilhar casos, todos vão se empoderar. . Enfermeira 2
Comunicação Institucional e o Ruído do "Telefone Sem Fio"
A comunicação institucional foi avaliada como verticalizada e fragmentada, gerando ruídos. O excesso de e-mails recebidos dificulta a identificação de atualizações prioritárias, perpetuando o uso de condutas desatualizadas:
A gente tá num protocolo ainda antigo, que também não chegou por e-mail pra gente. Chega um quantitativo muito grande também no e-mail pra gente. Muda muito o protocolo. . Enfermeira 5
Embora a odontologia utilize canais ágeis como aplicativos de mensagens para receber atualizações, essa comunicação segmentada por categoria profissional acaba por isolar os profissionais em "bolhas", prejudicando a integralidade do cuidado(13).
Protagonismo Impedido e Adoecimento Profissional
Evidenciou-se um gap entre o desejo de participar ativamente do planejamento da EPS (60%) e a percepção de ser de fato ouvido pela gestão municipal (43%). O teste qui-quadrado de Pearson revelou associação estatisticamente significativa entre "sentir-se ouvido" e o "desejo de participação ativa" (Tabela 1).
A Tabela 1 apresenta a distribuição dos participantes segundo a percepção de ser ouvido e o desejo de participação ativa no planejamento da EPS.
Sentir-se Ouvido | Deseja Participar Ativamente (Sim) | Não Deseja / Indiferente | Total |
Sempre / Frequentemente | 52 (83,9%) | 10 (16,1%) | 62 (100%) |
Raramente / Nunca | 35 (42,2%) | 48 (57,8%) | 83 (100%) |
Total | 87 (60,0%) | 58 (40,0%) | 145 (100%) |
Tabela 1: Associação entre Sentir-se Ouvido e o Desejo de Participar no Planejamento da EPS, Sorocaba-SP, Brasil, 2026. Fonte: Elaborada pelas autoras (2026).
A associação altamente significativa (p < 0,01) demonstra que profissionais ouvidos pela gestão desejam um papel ativo. Inversamente, a invisibilidade institucional desmobiliza o trabalhador, gerando desmotivação e enfraquecendo a solidariedade:
Antigamente a gente se ajudava mais, a equipe era mais unida. Hoje cada um faz o seu e pronto. A equipe está muito desmotivada. . Técnico de Enfermagem 2
Metodologias, Protocolos e a Ciência da Implementação
Os trabalhadores rejeitam palestras expositivas, valorizando metodologias participativas. Diante de demandas complexas como saúde mental, 56,6% escolheram rodas de conversa para discussão de casos, contra 22,1% para cursos externos e 15,2% para palestras. Criticou-se a imposição verticalizada de protocolos descontextualizados:
Vem um protocolo pronto lá de cima, que não tem nada a ver com a nossa realidade. Aí não funciona, e a culpa é da gente que não implementou direito. . Médico 2
Em contraste, a implementação do protocolo de pré-eclâmpsia (Código Laranja) na UBS Vila Barão foi exitosa devido à percepção coletiva de urgência clínica inadiável, mobilizando a equipe a superar as barreiras de tempo por meio de rodízio de turnos:
Tendo tempo ou não, estando sobrecarregados ou não, a gente tinha que passar. Então, a gente tinha essa necessidade, tinha essa pressa em fazer. . Técnico de Enfermagem 3
Nós tivemos troca de turno. Todos os que estavam dentro da unidade participaram do que foi passado, da pré-eclâmpsia, e a gente pôde conversar sobre o assunto. . Enfermeira 6
A Transformação pela Escuta e o Acolhimento do Trabalhador
As rodas de conversa atuaram como intervenções, transformando-se em espaços de engajamento e acolhimento. Ao final, os profissionais expressaram gratidão pela oportunidade de falar e ser escutado, revelando a carência de espaços de escuta nos serviços:
Ao sair da roda de conversa, muitos profissionais vieram me abraçar e agradecer e dizer como isso era importante para haver mudança significativa no fazer deles. . Caderno de Campo da pesquisadora, dezembro de 2025
A recusa inicial do "lanchinho" oferecido nas rodas revelou o uso disseminado de medicamentos supressores de apetite (como tirzepatida) para o manejo do peso corporal. Esse achado evidenciou que o acolhimento da dimensão biossocial e das vulnerabilidades do trabalhador é premissa indispensável para que os processos educativos ocorram de forma autêntica.
DISCUSSÃO
Os resultados evidenciam que a EPS na APS de Sorocaba-SP enfrenta barreiras estruturais, mas possui potências latentes. A falta de tempo pela sobrecarga assistencial reflete um modelo focado em metas produtivistas, agravado pela precarização dos vínculos(6,7). Esse cenário compromete o potencial transformador da EPS ao reduzi-la a capacitações rápidas e verticais, que funcionam como mera transmissão de informações descartáveis.
Sob o referencial de Jorge Larrosa Bondía, o excesso de informação e a velocidade do cotidiano contemporâneo geram uma crise da experiência, na qual a informação rápida atua como "antiexperiência"(14). A EPS autêntica exige desaceleração, pausa e escuta ativa para que o aprendizado seja vivido como experiência — aquilo que nos passa e nos transforma —, possibilitando a emersão do "saber de experiência" construído coletivamente na reflexão sobre a prática(14).
A análise do sucesso do Código Laranja sob a ótica do Consolidated Framework for Implementation Research (CFIR) destaca a importância do construto "Tensão para a Mudança"(15). A percepção de urgência clínica diante do risco de morte materna gerou a tensão necessária para que a equipe superasse as barreiras de tempo. Nos protocolos impostos de forma verticalizada, a ausência dessa tensão e a falta de adequação às características locais (outro construto central do CFIR) geram resistência e inviabilizam a implementação(15).
A proposta de institucionalizar reuniões de equipe garantidas em escala nas UBS tradicionais, estendendo ferramentas metodológicas da ESF, surge como estratégia viável para superar a fragmentação do cuidado e a sobrecarga da enfermagem(12). Experiências de municípios paulistas, como Nova Independência-SP, que instituiu por decreto municipal o "horário protegido" quinzenal para reuniões e formação de todas as equipes de saúde com apoio da comunidade, demonstram a viabilidade e resolutividade da garantia institucional de tempo para a EPS na gestão municipal(16).
CONCLUSÃO
A adaptação e consolidação da Educação Permanente em Saúde na APS de Sorocaba-SP exigem a superação do modelo tradicional de capacitação técnica verticalizada. Os trabalhadores de saúde expressam desejo de protagonismo e valorizam metodologias participativas, mas são limitados por barreiras estruturais como a falta de tempo decorrente da sobrecarga assistencial e a fragmentação da comunicação institucional.
A associação significativa entre sentir-se ouvido e o desejo de participação ativa reforça que a democratização das relações de trabalho e a escuta ascendente são premissas indispensáveis no SUS. As rodas de conversa revelaram-se potente dispositivo de intervenção e cuidado, mostrando que o acolhimento da dimensão integral do trabalhador é o ponto de partida para a transformação das práticas.
Recomenda-se à gestão municipal a institucionalização do "tempo protegido" por meio de reuniões de equipe em escala para todas as unidades de saúde, a retomada periódica das oficinas de planejamento com fechamento programado das unidades, a adoção de estratégias de comunicação integradas e a utilização da Ciência da Implementação para a construção participativa de protocolos clínicos baseados nas necessidades reais das equipes de ponta.
REFERÊNCIAS
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15. Damschroder LJ, et al. Fostering implementation of health services research findings into practice: a consolidated framework for advancing implementation science. Implement Sci. 2009;4:50.
16. COSEMS/SP. Conselho de Secretários Municipais de Saúde do Estado de São Paulo. Experiências Exitosas de Educação Permanente no Estado de São Paulo. São Paulo: COSEMS/SP; 2025.
AGRADECIMENTOS, APOIO FINANCEIRO OU TÉCNICO, DECLARAÇÃO DE CONFLITO DE INTERESSE FINANCEIRO E/OU DE AFILIAÇÕES:
As autoras declaram não haver conflitos de interesse na realização deste estudo. Agradecem ao Programa de Pós-Graduação em Saúde da Família (PROFSAÚDE) da UNESP e à Secretaria Municipal de Saúde de Sorocaba pelo apoio institucional e técnico para o desenvolvimento desta pesquisa-intervenção.