PERFIL EPIDEMIOLÓGICO DOS PACIENTES COM SÍFILIS CONGÊNITA NO MUNICÍPIO DE PORTO VELHO - RO
EPIDEMIOLOGICAL PROFILE OF PATIENTS WITH CONGENITAL SYPHILIS IN THE MUNICIPALITY OF PORTO VELHO, RO
PERFIL EPIDEMIOLÓGICO DE LOS PACIENTES CON SÍFILIS CONGÉNITA EN EL MUNICIPIO DE PORTO VELHO, RO
Tipo de artigo: Artigo original - Estudo Epidemiológico Descritivo
Pahola Fonseca dos Santos Discente do curso de Medicina do Centro Universitário São Lucas - Afya. Orcid: https://orcid.org/0009-0008-4234-0181
Amanda Antunes de Paula Discente do curso de Medicina do Centro Universitário São Lucas - Afya. Orcid: https://orcid.org/0009-0000-6885-9880
Beatriz Gago Pereira Discente do curso de Medicina do Centro Universitário São Lucas - Afya. Orcid: https://orcid.org/0009-0007-7781-8299
Maikon Barbosa Barros Discente do curso de Medicina do Centro Universitário São Lucas - Afya. Orcid: https://orcid.org/0009-0005-6278-7659
Laiane Reis Teixeira Médica. Especialista em Pediatria. Docente do Centro Universitário São Lucas - Afya. Orcid: https://orcid.org/0009-0008-5236-3782
Arlindo Gonzaga Branco Junior Médico. Mestre em Medicina de Família e Comunidade - Universidade Federal de Rondônia – UNIR. Doutor em Biodiversidade e biotecnologia – FIOCRUZ/RO Orcid: https://orcid.org/0000-0003-4821-8677
Objetivo: Analisar o perfil epidemiológico da sífilis congênita em Porto Velho entre 2021 e 2023. Método: Estudo ecológico, descritivo e retrospectivo, baseado em dados secundários públicos do sistema nacional de notificações. Foram incluídos todos os casos registrados no período. Resultado: Foram identificados 63 casos de sífilis congênita, com variação anual e maior ocorrência em 2022. A distribuição temporal sugeriu instabilidade no controle da transmissão vertical e possíveis falhas no cuidado pré-natal e no acompanhamento das gestantes. Conclusão: Os resultados evidenciam a persistência da sífilis congênita como importante desafio para a saúde materno-infantil em Porto Velho. Observou-se necessidade de aprimorar ações de rastreamento, tratamento oportuno e vigilância epidemiológica, além de fortalecer políticas que enfrentam determinantes sociais associadas ao agravo. O estudo aponta lacunas que podem orientar futuras pesquisas sobre qualidade do pré-natal e barreiras de acesso aos serviços de saúde.
DESCRITORES: Sífilis Congênita; Epidemiologia; Saúde Materno-Infantil; Vigilância Epidemiológica; Transmissão Vertical de Doença.
Objective: To analyze the epidemiological profile of congenital syphilis in Porto Velho between 2021 and 2023. Method: Ecological, descriptive and retrospective study using publicly available secondary data from the national notification system. All confirmed cases reported during the period were included. Result: A total of 63 cases were identified, with temporal fluctuation and a peak in 2022. The pattern observed suggests instability in the control of vertical transmission and possible weaknesses in prenatal follow-up, maternal care and surveillance activities. Conclusion: The findings indicate that congenital syphilis remains a significant challenge for maternal and child health in Porto Velho. The study reinforces the need to strengthen early testing, timely treatment, continuous surveillance and actions addressing social determinants associated with the condition. The investigation also highlights gaps related to information quality and access to care, which may guide future research focused on prenatal services and barriers within the local health system.
DESCRIPTORS: Congenital Syphilis; Epidemiology; Maternal and Child Health; Epidemiological Surveillance; Vertical Transmission of Disease.
Objetivo: Analizar el perfil epidemiológico de la sífilis congénita en Porto Velho entre 2021 y 2023. Método: Estudio ecológico, descriptivo y retrospectivo basado en datos secundarios públicos del sistema nacional de notificación. Se incluyeron todos los casos confirmados registrados en el período. Resultado: Se identificaron 63 casos, con variación temporal y mayor frecuencia en 2022. El comportamiento observado sugiere inestabilidad en el control de la transmisión vertical y posibles debilidades en el seguimiento prenatal, la atención materna y las actividades de vigilancia. Conclusión: Los hallazgos indican que la sífilis congénita sigue siendo un desafío importante para la salud materno-infantil en Porto Velho. El estudio refuerza la necesidad de fortalecer la detección temprana, el tratamiento oportuno, la vigilancia continua y las acciones dirigidas a los determinantes sociales relacionados con el agravio. También se identifican vacíos que pueden orientar futuras investigaciones sobre el prenatal y las barreras de acceso al sistema de salud local.
DESCRIPTORES: Sífilis Congénita; Epidemiología; Salud Materno-Infantil; Vigilancia Epidemiológica; Transmisión Vertical de Enfermedad.
A sífilis congênita é uma infecção causada pela transmissão vertical da bactéria Treponema pallidum, ocorrendo durante a gestação ou no momento do parto. Trata-se de um agravo que persiste como desafio global de saúde pública, apesar da disponibilidade de métodos diagnósticos eficazes e tratamento de baixo custo. No cenário mundial, a Organização Mundial da Saúde (World Health Organization – WHO) alerta que a eliminação da transmissão vertical permanece distante, especialmente em regiões com desigualdades estruturais e dificuldade de acesso a serviços de saúde reprodutiva¹.
No Brasil, a doença apresentou crescimento significativo nas últimas décadas, evidenciando falhas no cuidado pré-natal, na cobertura de tratamento dos parceiros sexuais e na vigilância epidemiológica. O Ministério da Saúde destaca que, embora haja avanços nos métodos diagnósticos e na ampliação das estratégias de rastreamento, a sífilis congênita ainda revela taxas elevadas de morbidade neonatal e desfechos adversos à gestação, como prematuridade, baixo peso ao nascer e mortalidade perinatal². Estudos nacionais mostram que regiões economicamente vulneráveis apresentam maior incidência da infecção, consequência de barreiras sociais, dificuldades de acesso ao pré-natal e lacunas no acompanhamento materno³. Pesquisas internacionais reforçam que a persistência da doença está diretamente associada a desigualdades sociais, atraso no diagnóstico e tratamento
inadequado durante a gravidez⁴.
No cenário amazônico, o município de Porto Velho apresenta desafios particulares devido às barreiras geográficas e socioeconômicas que impactam o acesso aos serviços de saúde. Dados recentes do Boletim Epidemiológico Municipal (2025) indicam um crescimento
acentuado nas notificações de sífilis adquirida e em gestantes no triênio 2021-2023⁵. Este
incremento nas taxas de incidência pode estar associado à desestruturação dos serviços de saúde durante a pandemia de COVID-19, que resultou em diagnósticos tardios e falhas no
tratamento oportuno das gestantes e de seus parceiros sexuais⁶. Diante desse panorama,
torna-se imperativo analisar as variáveis sociodemográficas e clínicas que caracterizam esses pacientes, a fim de subsidiar políticas públicas mais eficazes de controle e prevenção.
Portanto, o presente estudo tem como objetivo analisar o perfil epidemiológico da sífilis congênita em Porto Velho entre os anos de 2021 e 2023, descrevendo as principais
características maternas e os desfechos neonatais registrados no sistema de vigilância epidemiológica.
Foi realizado um estudo ecológico, descritivo e retrospectivo, com abordagem quantitativa, utilizando dados secundários provenientes do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) e do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS). As bases foram acessadas conforme a legislação vigente sobre transparência pública, garantindo a obtenção de informações oficiais referentes aos casos de sífilis congênita notificados no município de Porto Velho, Rondônia.
Foram incluídos todos os casos registrados entre 2021 e 2023 que apresentavam fichas completas com dados maternos e neonatais. As variáveis analisadas abrangeram idade materna, escolaridade, raça ou cor, local de residência, tipo de parto e evolução clínica do recém-nascido. Registros duplicados, incompletos ou inconsistentes foram excluídos, assim como notificações referentes a gestantes que não realizaram ou não concluíram o tratamento, assegurando a consistência da análise.
Após a seleção dos casos, foram calculadas as taxas de morbimortalidade e descritas as características epidemiológicas observadas. A interpretação dos achados considerou os princípios da Epidemiologia Social, permitindo relacionar os padrões encontrados às desigualdades estruturais que influenciam a saúde da população do território estudado.
Por se tratar de dados secundários, de domínio público e sem identificação individual, não houve necessidade de submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa, em conformidade com as diretrizes da Resolução nº 466, do Conselho Nacional de Saúde.
Foram identificados 63 casos confirmados de sífilis congênita no município de Porto Velho, Rondônia, no período de 2021 a 2023, conforme registros disponibilizados pelo Sistema de Informação de Agravos de Notificação. Observou-se variação anual no número de notificações, com 17 casos em 2021, aumento expressivo para 33 casos em 2022 e redução para 13 casos em 2023.
Figura 1- Casos de Sífilis Congênita em Porto Velho (2021–2023)
Fonte: Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) – DATASUS, 2025.
A distribuição temporal indicou um acréscimo de aproximadamente 94 por cento entre 2021 e 2022, seguido de queda de 60,6 por cento entre 2022 e 2023. Apesar da diminuição no último ano analisado, os resultados evidenciaram instabilidade no padrão de ocorrência da sífilis congênita no município, sugerindo oscilações na transmissão vertical, na qualidade do pré-natal ou na sensibilidade da vigilância epidemiológica. Os valores consolidados apontam para a persistência da sífilis congênita como importante agravo de saúde pública em Porto Velho, reforçando a necessidade de monitoramento contínuo e intervenções voltadas à prevenção, diagnóstico precoce e tratamento adequado das gestantes.
No triênio compreendido entre 2021 e 2023, o município de Porto Velho registrou uma trajetória ascendente nos indicadores de sífilis. A sífilis adquirida apresentou um crescimento
expressivo de 74%, saltando de 536 casos em 2021 para 933 em 2023⁵. Esse incremento
reflete diretamente na saúde materno-infantil, com as notificações de sífilis em gestantes elevando-se de 215 para 393 registros no mesmo período, evidenciando desafios
persistentes na eficácia do pré-natal e na interrupção da cadeia de transmissão vertical⁵,⁷.
A caracterização das variáveis revelou que a vulnerabilidade social desempenha um papel determinante na evolução clínica dos casos. A análise dos dados maternos demonstrou uma predominância de mulheres jovens, de cor parda e com baixa escolaridade, fatores que correlacionam-se com o aumento dos casos de sífilis congênita, que atingiram 50 notificações em 2023⁵,⁶. A complexidade do cenário é agravada pelo fato de que a maioria
dos recém-nascidos apresenta-se assintomática ao nascimento, exigindo um rigoroso acompanhamento pós-natal para evitar sequelas tardias decorrentes da infecção não
tratada⁵. Cabe ressaltar que, embora análises preliminares em bases de dados secundárias
pudessem sugerir um quantitativo inferior, o Boletim Epidemiológico Sífilis 2025, publicado pela Secretaria Municipal de Saúde de Porto Velho (SEMUSA), aponta uma realidade mais severa: foram confirmados 133 casos de sífilis congênita no triênio estudado, sendo 40 casos em 2021, 43 em 2022 e um pico de 50 notificações em 2023. Essa divergência nos números reforça a importância da atualização constante dos sistemas de vigilância e indica que a magnitude da transmissão vertical no município pode ser maior do que o inicialmente reportado, evidenciando uma tendência de crescimento contínuo de 25% no período.
Figura 2 - Panorama Epidemiológico e Perfil da Sífilis em Porto Velho (2021-2023)
Categoria | Variável | Indicador / 2021 | 2022 | 2023 | Tendência Observada |
Volume de Casos | Sífilis Adquirida | 536 | 781 | 933 | Crescimento de 74% |
Sífilis Gestante | 215 | 315 | 393 | Crescimento de 82,8% | |
Sífilis Congênita | 40 | 43 | 50 | Crescimento de 25% | |
Perfil Materno | Faixa Etária Predominante | 20-29 | 20-29 | 20-39 | Concentração em idade fértil |
Raça/Cor (Parda) | ~70% | ~74% | ~79% | Grupo com maior vulnerabilidade | |
Escolaridade (Fund. Incompleto) | Alta | Alta | Alta | Correlação com pré- natal tardio | |
Desfecho | Evolução RN (Assintomático) | Estável | Estável | Estável | Maioria nasce sem sintomas imediatos |
Fonte: Elaborado pelo autor com base em Porto Velho (2025)⁵; Pereira et al. (2025)⁷; Kisner et al. (2021)⁶.
A oscilação observada nos casos de sífilis congênita em Porto Velho acompanha tendências nacionais descritas na literatura, indicando que a persistência do agravo está
associada às desigualdades sociais e à fragilidade da atenção pré-natal. Em estudo ecológico nacional, Costa et al.⁸ demonstraram que a incidência de sífilis congênita é maior em municípios com menor acesso a testagem, tratamento e acompanhamento de gestantes,
reforçando que o cuidado pré-natal é um determinante central para o controle da transmissão vertical. Essa desigualdade é corroborada por Marques dos Santos et al.⁹ que identificaram aumento progressivo da sífilis congênita no Brasil entre 2007 e 2017, impulsionado por falhas
estruturais no sistema de vigilância e na cobertura do pré-natal.
Na região Norte, estudos revelam que a sífilis congênita permanece mais prevalente em cenários de vulnerabilidade socioeconômica, baixa escolaridade materna e dificuldade de acesso aos serviços de saúde, condições verificadas em municípios amazônicos similares a
Porto Velho¹⁰. Análises espaciais ao longo de uma década mostram que áreas com pior
saneamento e maior desigualdade apresentam maiores concentrações da doença, evidenciando a influência dos determinantes sociais de saúde¹¹.
A literatura também alerta que reduções pontuais no número de casos podem refletir oscilações na notificação e não necessariamente melhora epidemiológica. Rodrigues et al.¹² demonstraram importante subnotificação de sífilis congênita em sistemas de vigilância brasileiros, especialmente em regiões com menor estrutura operacional. De forma semelhante, Amaral et al.¹³ observaram dificuldade de detecção precoce e inconsistências no registro, fatores que podem mascarar a real magnitude do problema.
Além disso, falhas no tratamento de parceiros sexuais e a dificuldade de garantir o tratamento completo da gestante continuam entre os principais fatores que perpetuam a
transmissão vertical, conforme apontado por Abrão et al.¹⁴. Estudos internacionais reforçam
esse cenário: Korenromp et al.¹⁵ demonstraram que atrasos no diagnóstico e na terapêutica explicam boa parte dos casos evitáveis de sífilis congênita no mundo, enquanto Bowen et al.¹⁶ destacam que a coordenação das ações de vigilância é fundamental para reduzir desfechos adversos.
Diante desse conjunto de evidências, os resultados observados em Porto Velho provavelmente refletem não apenas mudanças reais na incidência, mas também diferentes níveis de eficiência diagnóstica, cobertura de pré-natal e capacidade de vigilância ao longo dos anos. A persistência da doença indica necessidade urgente de fortalecer estratégias de educação em saúde, ampliar testagem em múltiplos momentos da gestação, assegurar
tratamento adequado de gestantes e parceiros, e aprimorar a integração entre atenção primária e vigilância epidemiológica.
Entre as limitações do estudo, destaca-se a utilização de dados secundários, sujeitos a subnotificação e preenchimento incompleto, problema amplamente reconhecido na
literatura sobre sífilis congênita no Brasil¹⁷. Essas limitações reduzem a precisão da análise e
impedem avaliação de variáveis clínicas mais detalhadas, embora não comprometam a capacidade do estudo de identificar tendências relevantes para o planejamento em saúde.
O estudo permitiu analisar o perfil epidemiológico da sífilis congênita em Porto Velho no período de 2021 a 2023, evidenciando variações anuais na ocorrência do agravo e revelando fragilidades no cuidado pré-natal, na vigilância epidemiológica e no enfrentamento dos determinantes sociais de saúde. A oscilação identificada sugere que ações pontuais não têm sido suficientes para garantir a interrupção contínua da transmissão vertical, reforçando a necessidade de estratégias permanentes de rastreamento, acompanhamento e tratamento adequado das gestantes e seus parceiros.
Os achados demonstram que a sífilis congênita permanece como importante indicador das desigualdades estruturais que impactam a saúde materno-infantil na região. A análise aponta lacunas relacionadas à qualidade de preenchimento das fichas de notificação, continuidade do cuidado, integração entre atenção primária e vigilância, além da ausência de informações clínicas mais detalhadas que permitam compreender de forma abrangente os fatores associados aos desfechos neonatais. Tais limitações indicam a necessidade de investigações futuras que explorem variáveis sociais, territoriais e clínicas com maior profundidade, bem como estudos que avaliem a efetividade das políticas públicas implementadas e os impactos das estratégias de educação em saúde. Há também potencial para pesquisas que examinem barreiras enfrentadas por gestantes e profissionais de saúde, contribuindo para o desenvolvimento de intervenções mais sensíveis às realidades locais.
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