Acidentes com Material Biológico na Mesorregião Centro-Norte de Goiás, Brasil: Perfil Epidemiológico e Desafios Preventivos

Accidents Involving Biological Material in the Center-North Mesoregion of Goiás, Brazil: Epidemiological Profile and Preventive Challenges

Accidentes con Material Biológico en la Mesorregión Centro-Norte de Goiás, Brasil: Perfil Epidemiológico y Desafíos Preventivos

Alessandra Patrícia Cardoso Tavares

Mestranda em Ciências da Saúde

Universidade Estadual de Goiás. Ceres, Goiás. Brasil

Amanda Fernandes de Oliveira

Bacharel em Enfermagem

Hospital Ortopédico de Ceres

Amanda Porte da Silva

Mestranda em Ciências da Saúde

Universidade Estadual de Goiás. Ceres, Goiás. Brasil

Kennedy Feliciano

Mestre em Enfermagem

Escola de Saúde Pública do Distrito Federal

Flávia Alves Amorim Souza Sales

Doutoranda em Educação

Pontifícia Universidade Católica de Goiás

Meillyne Alves dos Reis

Doutora em Enfermagem

Universidade Estadual de Goiás

RESUMO

Objetivo: traçar o perfil epidemiológico dos acidentes ocupacionais com material biológico entre trabalhadores das unidades de saúde da rede SUS na mesorregião Centro-Norte de Goiás, Brasil. Métodos: estudo descritivo, transversal e quantitativo, conduzido entre 2022 e 2023, conforme as diretrizes STROBE. Parecer no CEP, Nº 6.152.181. Resultados: idade média de 40 anos, com predominância de ensino superior completo. Prevalência de acidentes com material perfurocortante / biológico: 44,6%. Entre os casos, 74,2% eram mulheres e 38,7% técnicas de enfermagem. Predominaram agulha com bisel (48,7%) e sangue (79,2%). Realizaram sorologia 66,1% e quimioprofilaxia 77,1%; 25,8% não notificaram. Observou-se descarte inadequado de perfurocortantes, prevenível com recipientes apropriados em pontos estratégicos. Conclusão: as subnotificações resultaram de omissão profissional e falhas gerenciais no registro. A prevenção exige educação permanente, capacitação para manejo e descarte seguro, cultura institucional de segurança e estímulo à notificação, com impacto na proteção ocupacional.

DESCRITORES: Acidentes de Trabalho, Acidentes Biológicos, Profissionais de Saúde, Ferimentos Penetrantes Produzidos por Agulha.

INTRODUÇÃO

Acidentes com material biológico são exposições a agentes infecciosos, como vírus, bactérias, parasitas e fungos, durante a manipulação de sangue, saliva, urina, fezes, tecidos, entre outros1. Esses acidentes ocorrem, sobretudo, pelo manuseio de perfurocortantes, como agulhas, bisturis e tesouras ou por exposição cutânea, com respingos em mucosas, pele lesada ou feridas1,2. Tais acidentes podem causar lesões, disfunções ou morte, comprometendo a capacidade funcional do trabalhador. Geram impactos profissionais e pessoais, como afastamento, tratamentos prolongados, estresse, ansiedade e infecções de diferentes gravidades3.

A assistência prestada pelo profissional de saúde ao paciente pode envolver situações propícias à ocorrência de acidentes de trabalho, tanto na assistência direta quanto na indireta4. Devido à alta demanda de procedimentos invasivos em unidades de saúde, há um alto risco de contaminação por doenças infecciosas, como Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV), Hepatite B e C5.

O desconhecimento da patogenicidade, o não cumprimento de protocolos e normas de biossegurança, a negligência no uso de equipamentos de proteção individual (EPIs) e o descarte incorreto de perfurocortantes elevam o risco de acidentes biológicos entre profissionais de saúde. Os acidentes decorrem, em geral, de manuseio e descarte inadequados, falhas no uso de EPIs e falta de treinamento6.

Nesse sentido o Brasil instituiu a Norma Regulamentadora nº 32 (Segurança e Saúde no Trabalho em Serviços de Saúde) com o objetivo de proteger a saúde e a segurança dos profissionais da área. A norma prevê a oferta de EPIs, ações de educação permanente, vacinação contra hepatite B e dispositivos adequados para descarte de perfurocortantes, contribuindo para melhores condições de trabalho e menor risco de acidentes biológicos e infecções7.

Em caso de acidente com exposição a material biológico, o profissional deve informar imediatamente o responsável pela unidade, que deve realizar a notificação compulsória no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN). Cabe ao empregador emitir a Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT), informando a Previdência Social. Esse documento pode ser utilizado pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e outros órgãos públicos8.

A falta de conhecimento sobre os riscos biológicos, jornadas exaustivas, ausência de protocolos definidos e a desvalorização do acidente contribuem para subnotificações e falhas no encaminhamento dos casos9. Compreender os dados epidemiológicos é fundamental para formular estratégias públicas, promover educação em saúde e prevenir acidentes.

Acidentes com material biológico geram impactos negativos no sistema de saúde, como aumento de custos, absenteísmo, perda de produtividade, risco de surtos infecciosos e prejuízos à saúde mental dos profissionais. Apesar dos avanços em biossegurança, capacitações e materiais disponíveis, as notificações continuam a crescer, evidenciando a urgência de mais pesquisas científicas sobre o tema. Assim o estudo objetivou traçar o perfil epidemiológico dos acidentes ocupacionais com material biológico entre trabalhadores das unidades de saúde da rede Sistema Único de Saúde (SUS) na mesorregião Centro-Norte de Goiás, Brasil.

MÉTODOS

Trata-se de um estudo descritivo de corte transversal com abordagem quantitativa, realizado no período de 2022 a 2023, atendendo aos critérios do Strengthening the Reporting of Observational studies in Epidemiology (STROBE)10.  

A amostra foi composta por 139 profissionais de saúde das seguintes categorias: auxiliares de saúde bucal, auxiliares de serviços gerais, condutores, dentistas, enfermeiros, maqueiros, médicos e técnicos em enfermagem. Dentre os critérios de inclusão estavam: idade maior que 18 anos, vínculo empregatício efetivo, capacidade cognitiva e comunicativa preservada. Dentre os critérios de exclusão adotou-se: profissionais afastados por licença médica, licença maternidade/paternidade, férias ou outras ausências no período da coleta de dados, profissionais com vínculo indireto com a instituição, tais como prestadores de serviço terceirizados sem atuação direta nas rotinas assistenciais ou administrativas de saúde.

Os dados foram coletados através de um roteiro semiestruturado elaborado pelos pesquisadores e contemplou informações relativas ao perfil sociodemográfico (sexo, faixa etária e escolaridade); caracterização ocupacional e epidemiológica (unidade de atuação, função exercida e tempo de trabalho na ocupação); e acidente ocupacional com perfurocortante e/ou material biológico (ocorrência de acidente com perfurocortante, agente causador, circunstâncias do evento, contato com material biológico, uso de EPI, horário do acidente, carga horária no dia do evento, tempo de profissão à época, identificação da fonte, realização de sorologia, quimioprofilaxia, notificação e encaminhamento da notificação).

O estudo foi desenvolvido no município de Ceres, localizado na mesorregião do centro norte goiano, Brasil. Segundo o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2022, em Ceres a população é de 22.046 habitantes, em uma área de aproximadamente 214,322km². O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de 0,775 conforme o último censo de 201011. A rede SUS do município compreende atenção ambulatorial (Estratégia Saúde da Família – ESF e Centro de Atenção Psicossocial – CAPS), hospitalar (Hospital São Pio X – HSPX), vigilância em saúde e serviços de urgência e emergência (Unidade de Pronto Atendimento – UPA e Serviço de Atendimento Móvel de Urgência – SAMU).

Os dados colhidos dos prontuários foram tabulados em planilhas do programa Microsoft Excel. A partir do banco de dados foi realizada a estatística descritiva utilizando medidas de frequência absoluta e relativa. O estudo atende às diretrizes estabelecidas na Resolução 466/12 do Conselho Nacional de Saúde (CNS)12 respeitando os princípios éticos da pesquisa com seres humanos. Além disso, obteve aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Estadual de Goiás (UEG), com o número em Pesquisa da CAEE: 70263123.9.0000.811 e Parecer Nº 6.152.181.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Integraram o estudo um total de 139 profissionais de saúde (Tabela 1).

Tabela 1 - Caracterização das variáveis demográficas e ocupacionais participantes do estudo, n=139.

Variável

N

%

 Sexo

Feminino

101

72,66

Masculino

38

27,34

 Idade

20-30

10

7,19

31-40

45

32,37

41-50

56

40,29

51-60

25

17,99

> 61

03

2,16

 Escolaridade

Pós-graduação Latu Sensu 

18

12,95

Pós-graduação Stricto Sensu

03

2,16

Ensino Superior Completo

68

48,92

Ensino Superior Incompleto

32

23,02

Ensino médio Completo

18

12,95

Local de Trabalho

   HSPX

18

12,95

SAMU

32

23,02

UBS

47

33,81

Unidade de Pronto Atendimento (UPA)

42

30,22

Ocupação

Auxiliares de saúde bucal

04

2,88

Auxiliares de serviços gerais

16

11,51

Condutores

10

7,19

Dentistas

05

3,60

Enfermeiros

24

17,27

Maqueiros

01

0,72

Médicos

29

20,86

Técnicos em enfermagem

50

35,97

Tempo na ocupação

1-5 anos

59

42,45

6-10 anos

48

34,53

11-15 anos

32

23,02

Total

139

100

Legenda: HSPX - Hospital São Pio X; SAMU - Serviço de Atendimento Móvel de Urgência; UBS - Unidade Básica de Saúde; UPA - Unidade de Pronto Atendimento.

Fonte: Oliveira AF, et al., 2025.

Os achados apontam: predomínio do sexo feminino 72,66% (n=101/139), seguido do masculino 27,34% (n=38/139). A média de idade foi de 40 anos, com maior concentração entre 41-50 anos 40,29% (n=56/139) e menor > 60 anos 2,16% (n=3/139). Quanto à escolaridade a maioria possuíam ensino superior completo 48,92% (n=68/139).

Em relação aos locais de atuação: a maioria lotada na UBS 33,81% (n=47/139), UPA 30,22% (n=42/139), SAMU 23,02% (n=32/139) e HSPX 12,95% (n=18/139).

A maioria pertence à categoria dos técnicos de enfermagem 5,7% (n=50/139), seguidos por médicos 20,86%; (n=29/139), enfermeiros 17,27% (n=24), auxiliares de serviços gerais 11,51% (n=16/139), condutores 7,19%; (n=10), dentistas 3,60% (n=5), auxiliares de saúde bucal 2,88% (n=4/139) e maqueiros 0,72% (n=1/139). Em relação ao tempo de exercício no cargo a média é de 9,4 anos.

A ocorrência de acidente com perfurocortante e/ou material biológico ao longo da carreira profissional aparece assim distribuída: 55,40% (n=77/139) para não e 44,60% (n=62/139) para sim (Gráfico 1).

Gráfico 1 – Ocorrência de acidente com perfurocortante e/ou material biológico, participantes do estudo, n=139.

Fonte: Oliveira AF, et al., 2025.

A amostra foi majoritariamente feminina (72,66%), com média de idade 40 anos e maior concentração entre 41-50 anos, perfil compatível com a feminização da força de trabalho em saúde, especialmente na Enfermagem. Técnicos em enfermagem constituíram a principal categoria (35,97%), o que é relevante diante da execução frequente de procedimentos invasivos e manipulação de perfurocortantes13.

Observou-se maior concentração de profissionais na Atenção Primária à Saúde (APS) e nos serviços de urgência e emergência, cenários caracterizados por alta demanda assistencial e exposição contínua a riscos biológicos. A ocorrência de acidentes com perfurocortantes e/ou material biológico ao longo da carreira foi de 44,60%, proporção expressiva considerando média de 9,4 anos de exercício profissional, o que sugere risco ocupacional cumulativo.

Embora 55,40% tenham relatado ausência de acidente, a magnitude da exposição observada indica vulnerabilidade persistente. A distribuição ocupacional e os contextos assistenciais podem influenciar esse cenário, sobretudo em ambientes marcados por pressão temporal, sobrecarga e imprevisibilidade clínica9. Deve-se considerar, ainda, a possibilidade de subnotificação.

Os achados reforçam a necessidade de estratégias estruturadas de prevenção, com fortalecimento da cultura de segurança, educação permanente em precauções padrão, adoção de dispositivos com engenharia de segurança e monitoramento sistemático dos acidentes9,14. No contexto regional investigado, tais medidas são essenciais para reduzir a exposição ocupacional e qualificar a vigilância em saúde do trabalhador.

Características demográficas e ocupacionais dos acidentados

A ocorrência de acidentes com material perfurocortante ou material biológico ocorreu em 62 dos entrevistos.  Predominou o sexo feminino 74,2% (n=46/62), em comparação ao masculino 25,8% (n=16/62). A idade variou a partir de 24 anos, com média de 40 anos. A maioria concentrou-se entre 31 e 59 anos 77,4% (n=48/62), seguida pelo grupo de 24 a 30 anos 19,4% (n=12/62), enquanto indivíduos com 60 anos ou mais representaram 3,2% (n=2/62).

Quanto à escolaridade, prevaleceu ensino superior completo ou pós-graduação 51,6% (n=32/62), seguido de ensino médio completo 33,9%; (n=21/62). Percentuais menores foram observados para ensino superior incompleto 6,5% (n=4/62) e mestrado 3,2% (n=2/62). Ensino fundamental incompleto, fundamental completo e médio incompleto corresponderam a 1,6% (n=1/62) cada.

Os acidentes ocorreram principalmente nas UBS 37,0% (n=23/62), seguidas da UPA 35,4% (n=22/62), do SAMU 21,0% (n=13/62) e do HSPX 6,6% (n=4/62). Entre os profissionais acidentados, predominaram técnicos de enfermagem 38,7% (n=24/62), enfermeiros 21,0% (n=13/62) e médicos 21,0% (n=13/62). Condutores representaram 6,5% (n=4/62), auxiliares de saúde bucal 4,8% (n=3/62), dentistas e auxiliares de serviços gerais 3,2% (n=2/62) cada, e maqueiro 1,6% (n=1/62).

O tempo de atuação mais frequente foi de 1 a 5 anos 32,3% (n=20/62), seguido de 11 a 20 anos 25,8% (n=16/62) e 6 a 10 anos 22,6% (n=14/62). Profissionais com até 11 meses corresponderam a 6,5% (n=4/62), entre 21 e 30 anos a 9,7% (n=6/62) e acima de 31 anos a 3,2% (n=2/62). A média de tempo na ocupação foi de 10,7 anos. A Tabela 2 apresenta a síntese das características demográficas e ocupacionais dos participantes que sofreram acidente com perfurocortante ou material biológico.

Tabela 2 - Caracterização das variáveis demográficas e ocupacionais do total de acidentados da pesquisa (n=62), da cidade de Ceres, Goiás, Brasil, 2023.

VARIÁVEIS

N*

%

IC 95%**

Sexo

Feminino

46

74,2

(62,26% - 83,91%)

Idade

31-59 anos

48

77,4

Média

40 anos

-

(39,18 – 40,82)

Desvio Padrão

3,345

-

Escolaridade

Superior completo / Pós-graduação

32

51,6

(39,24% - 63,84%)

Local de trabalho

UBS

23

37,0

(25,79% - 49,59%)

UPA

22

35,4

(24,35% - 47,94%)

SAMU

13

21,0

(12,19% - 32,40%)

HSPX

4

6,6

(2,08% - 14,83%)

Ocupação

Técnico de enfermagem

24

38,7

(27,23% - 51,22%)

Tempo na ocupação

1-5 anos

20

32,3

Média

10,7 anos

-

(9,48 – 11,92)

Desvio Padrão

4,911

-

Legenda: * número de acidentados da pesquisa; ** Intervalo de Confiança 95% (α0,005).

Fonte: Oliveira AF, et al., 2025.

Os intervalos de confiança apresentados na tabela, especialmente para sexo feminino (62,26%–83,91%) e técnicos de enfermagem (27,23%–51,22%), indicam consistência estatística das estimativas, embora a amplitude de alguns ICs sugira cautela na generalização dos resultados, em razão do tamanho amostral (n=62).

CATEGORIZAÇÃO DOS ACIDENTES DE TRABALHO

Categorização dos acidentes de trabalho

A Tabela 3 apresenta a caracterização dos acidentes de trabalho com material perfurocortante ou biológico entre os profissionais da pesquisa.

Tabela 3 – Categorização dos acidentes de trabalho com perfurocortante ou material biológico com os profissionais da pesquisa, Ceres, Goiás, Brasil - 2023.

VARIÁVEIS

N*

%

IC 95%**

Agente causador

Agulha com bisel

38

48,7

(37,77% - 59,76%)

Circunstância do acidente

Descarte inadequado

12

16,9

(9,49% - 26,96%)

Procedimento cirúrgico

12

16,9

(9,49% - 26,96%)

Contato com material biológico

Sim

43

69,4

(57,09% - 79,85%)

Qual material biológico

Sangue

38

79,2

(66% - 88,9%)

Quais EPI’s estava usando

Luva

50

44,2

(35,29% - 53,49%)

Nenhum

12

10,6

(5,88% - 17,35%)

Horário do acidente

Manhã

27

39,7

(28,62% - 51,65%)

Carga horária no dia do acidente

7-12

39

61,9

Média

14,5 horas

-

(12,5 – 16,4)

Desvio Padrão

8,1

-

Tempo de trabalho no dia do acidente

1-5

31

49,2

Média

5 anos

-

(5,86 – 4,14)

Desvio Padrão

3,52

-

Fonte conhecida

Sim

42

79,2

(66,8% - 88,57%)

Realizadas sorologias

Sim

41

66,1

(53,72% - 77,06%)

Realizada quimioprofilaxia

Sem indicação

47

77,1

(65,28% - 86,3%)

Realizada notificação

Sim

46

74,2

(62,26% - 84,91%)

Não

16

25,8

(16,09% - 37,74%)

Notificação foi encaminhada

Sim

32

69,6

(55,22% - 81,52%)

Não sabe

14

30,4

(18,48% - 44,78%)

Legenda: * número de participantes da pesquisa; ** Intervalo de Confiança 95% (α0,005).

Fonte: Oliveira AF, et al., 2025.

Observou-se que a agulha com bisel constituiu o principal agente causador (48,7%; n=38; IC95%: 37,77%–59,76%), evidenciando a centralidade dos dispositivos perfurocortantes na gênese dos acidentes ocupacionais. Quanto às circunstâncias, o descarte inadequado (16,9%; n=12; IC95%: 9,49%–26,96%) e a realização de procedimento cirúrgico (16,9%; n=12; IC95%: 9,49%–26,96%) apresentaram frequências semelhantes, o que sugere fragilidades tanto na etapa pós-procedimento quanto durante a execução de práticas assistenciais invasivas.

A maioria dos acidentes envolveu contato com material biológico (69,4%; n=43; IC95%: 57,09%–79,85%), sendo o sangue o fluido mais frequentemente implicado (79,2%; n=38; IC95%: 66,0%–88,9%). Em relação ao uso de equipamentos de proteção individual (EPIs), a luva foi o item mais referido (44,2%; IC95%: 35,29%–53,49%), embora 10,6% (n=12; IC95%: 5,88%–17,35%) tenham relatado não utilizar nenhum EPI no momento do acidente.

Os eventos ocorreram predominantemente no período da manhã (39,7%; n=27; IC95%: 28,62%–51,65%). A carga horária no dia do acidente apresentou média de 14,5 horas (DP=8,1; IC95%: 12,5–16,4), e 61,9% (n=39) dos profissionais haviam trabalhado entre 7 e 12 horas. O tempo médio de atuação foi de 5 anos (DP=3,52; IC95%: 5,86–4,14), com maior concentração entre 1 e 5 anos de experiência (49,2%; n=31).

Quanto às condutas pós-exposição, 79,2% (n=42; IC95%: 66,8%–88,57%) relataram identificação da fonte. Sorologias foram realizadas por 66,1% (n=41; IC95%: 53,72%–77,06%). A quimioprofilaxia não foi indicada em 77,1% (n=47; IC95%: 65,28%–86,3%), o que pode refletir avaliação de baixo risco biológico. A notificação do acidente ocorreu em 74,2% (n=46; IC95%: 62,26%–84,91%), porém 25,8% não notificaram. Entre os que notificaram, 69,6% (n=32; IC95%: 55,22%–81,52%) informaram encaminhamento formal, enquanto 30,4% declararam desconhecer esse fluxo.

Os resultados corrobam com padrão epidemiológico descrito na literatura, no qual as agulhas com lúmen figuram como principal vetor de exposição ocupacional, em razão do uso frequente em punções venosas, administração de medicamentos e coleta de sangue9,15,16. A elevada proporção de acidentes relacionados ao descarte inadequado sinaliza falhas nos processos de biossegurança e na gestão de resíduos, indicando necessidade de reforço em treinamentos periódicos e supervisão institucional9,17,19,20,21.

O predomínio de exposições envolvendo sangue reforça o risco potencial de transmissão de patógenos como HIV, HBV e HCV. Embora a maioria referisse uso de luvas, esse EPI não elimina o risco de perfuração, o que evidencia a importância de dispositivos de segurança com mecanismos de retração ou proteção ativa da agulha.

A carga horária média elevada no dia do acidente sugere influência da fadiga ocupacional como fator contribuinte. Jornadas prolongadas associam-se à redução da atenção, aumento de erros técnicos e maior probabilidade de incidentes, sobretudo em contextos assistenciais de alta demanda9,18.

O percentual de não notificação permanece relevante e aponta sub-registro, o que compromete a vigilância epidemiológica e a implementação de medidas preventivas. A ausência de indicação de quimioprofilaxia na maioria dos casos pode refletir exposições de menor gravidade; contudo, a não realização de sorologias em parte dos trabalhadores revela lacunas no manejo pós-exposição19,20.

Os achados evidenciam que os acidentes com material biológico permanecem associados a práticas assistenciais rotineiras, fragilidades no descarte de perfurocortantes, jornadas extensas e lacunas na cultura de segurança. Os resultados reforçam a necessidade de políticas institucionais estruturadas, com ênfase na adoção de dispositivos de segurança, educação permanente, dimensionamento adequado de pessoal e fortalecimento dos fluxos de notificação e acompanhamento pós-exposição, a fim de reduzir a ocorrência e mitigar os impactos desses eventos no contexto ocupacional em saúde.

Apesar das contribuições do presente estudo, algumas limitações devem ser consideradas. O delineamento transversal não permite estabelecer relações de causalidade entre as variáveis analisadas. Além disso, a utilização de dados autorreferidos pode estar sujeita a viés de memória e possível subnotificação dos acidentes ocupacionais. Destaca-se ainda que a investigação foi realizada em um único município da mesorregião Centro-Norte de Goiás, o que pode limitar a generalização dos achados para outros contextos. Ainda assim, os resultados oferecem subsídios relevantes para o planejamento de ações de vigilância e prevenção de acidentes com material biológico.

CONCLUSÃO

O estudo identificou maior ocorrência de acidentes com material biológico em mulheres com destaque para técnicos de enfermagem, em média com 5 anos na função. Observou-se descarte inadequado de perfurocortantes, conduta evitável com a oferta de coletores acessíveis. As evidências também apontam subnotificações decorrentes da omissão pelos profissionais ou do não encaminhamento pelos gestores.

A prevenção de acidentes com material biológico é essencial para a segurança dos profissionais e controle de infecções. Gestores têm papel central ao promover educação permanente, uso correto de EPI, capacitação para descarte seguro e incentivo à notificação, reforçando a importância do registro e os riscos da ausência de profilaxia. Pesquisas na área contribuem para o avanço científico, influenciando a formação e práticas profissionais, e fortalecendo a cultura de segurança no trabalho.

REFERÊNCIAS

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Alessandra Patrícia Cardoso Tavares1

E-mail: alessandra.tavares@ueg.br

Telefone: (62) 986116764

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Amanda Fernandes de Oliveira2

E-mail: amandafernandes_08@hotmail.com

Telefone: (62) 999523683

Rua Sebastião Dante Camargo, 499 Centro – Ceres – GO – CEP: 76300-000

Amanda Porte da Silva3

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Kennedy Feliciano4

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Flávia Alves Amorim Souza Sales5

E-mail: flavia.a.amorim@hotmail.com

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Rua C237, 85, Edifício Palco Vaca Brava, apartamento 1803, Jardim América, Goiânia/GO, CEP 74290-140

Meillyne Alves dos Reis6

E-mail: meilyne.reis@ueg.br

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[1]


[1]1. Mestranda em Ciências da Saúde. Universidade Estadual de Goiás. Ceres, Goiás. Brasil. e-mail: alessandra.tavares@ueg.br. Orcid: https://orcid.org/0009-0009-7359-3605

2. Bacharel em Enfermagem. Hospital Ortopédico de Ceres. Ceres, Goiás. Brasil. e-mail: amandaporteds@ueg.br. Orcid: https://orcid.org/0009-0002-3760-8442

3. Mestranda em Ciências da Saúde. Universidade Estadual de Goiás. Ceres, Goiás. Brasil. e-mail: amandaporteds@ueg.br. Orcid: https://orcid.org/0000-0003-1363-0717

4Mestre em Enfermagem. Escola de Saúde Pública do Distrito Federal. Brasília, Distrito Federal.

Brasil. e-mail: feliciano.k@hotmail.com. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-0157-7883

5 Doutoranda em Educação. Pontifícia Universidade Católica de Goiás. Goiânia, Goiás, Brasil. e-mail: flavia.a.amorim@hotmail.com. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-7820-5805.

6 Doutora em Enfermagem. Universidade Estadual de Goiás. Ceres, Goiás. Brasil. e-mail:

meillyne.reis@ueg.br. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-5953-4398