HUMOR E COMPORTAMENTO NA INTERNAÇÃO PSIQUIÁTRICA: O QUE DIZEM OS FAMILIARES SOBRE A CINOTERAPIA?

HUMOR AND BEHAVIOR IN PSYCHIATRIC HOSPITALIZATION: WHAT DO FAMILY MEMBERS SAY ABOUT CANINE-ASSISTED THERAPY?

HUMOR Y COMPORTAMIENTO EN LA HOSPITALIZACIÓN PSIQUIÁTRICA: ¿QUÉ DICEN LOS FAMILIARES SOBRE LA TERAPIA ASISTIDA CON PERROS?

Tipo de artigo: Artigo original

Autores

Maria Eduarda Araujo Tavares

Enfermeira. Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).

Orcid: https://orcid.org/0009-0008-4795-270X

Priscila de Melo Zubiaurre

Psicóloga e mestre em Enfermagem. Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).

Orcid: https://orcid.org/0000-0002-2594-4628

Autora correspondente.

Dilce Rejane Peres do Carmo

Enfermeira e doutora em Enfermagem. Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).

Orcid: https://orcid.org/0000-0002-8053-9131

Laís Mara Caetano da Silva Corcini

Enfermeira e doutora em Enfermagem. Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).

Orcid: https://orcid.org/0000-0001-7596-2333

Clarissa Iensen Boff

Acadêmica de Serviço Social. Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).

Orcid: https://orcid.org/0009-0000-4125-6713

Daiana Foggiato de Siqueira

Enfermeira e doutora em Enfermagem. Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).

Orcid: https://orcid.org/0000-0002-8592-379X 

RESUMO

Objetivo: compreender a percepção de familiares acerca da Cinoterapia no cuidado de pessoas internadas em Unidade de Saúde Mental. Métodos: pesquisa do tipo descritiva e exploratória, realizada entre abril e novembro de 2024, com familiares de usuários internados em Unidade de Saúde Mental de um hospital universitário localizado na região central do Estado do Rio Grande do Sul. A coleta dos dados ocorreu por meio de entrevistas semiestruturadas. Os dados foram analisados a partir da Análise de Conteúdo Temática, com apoio do software MAXQDA 24 para organização, categorização e elaboração de uma nuvem de palavras. Resultado: os familiares percebem que a Cinoterapia proporciona efeitos emocionais e terapêuticos aos usuários, além de favorecer mudanças positivas no humor, comportamento e nos vínculos. Conclusão: a Cinoterapia configura-se como uma estratégia de cuidado alternativo e humanizado em saúde mental que contribui para a reabilitação psicossocial de usuários em crise aguda de sofrimento psíquico.

DESCRITORES: Família; Unidade hospitalar de psiquiatria; Saúde mental; Terapia assistida com animais; Humanização da assistência.

ABSTRACT

Objective: To understand the perception of family members regarding Canine-Assisted Therapy in the care of people hospitalized in a Mental Health Unit. Methods: A descriptive and exploratory study was conducted between April and November 2024 with family members of patients hospitalized in a Mental Health Unit of a university hospital located in the central region of the state of Rio Grande do Sul. Data collection was carried out through semi-structured interviews. The data were analyzed using Thematic Content Analysis, with the support of MAXQDA 24 software for organization, categorization, and the creation of a word cloud. Results: Family members perceive that Canine-Assisted Therapy provides emotional and therapeutic effects to patients, in addition to promoting positive changes in mood, behavior, and relationships. Conclusion: Canine-Assisted Therapy is configured as an alternative and humanized care strategy in mental health that contributes to the psychosocial rehabilitation of patients in acute crisis of psychic suffering.

DESCRIPTORS: Family; Psychiatric hospital unit; Mental health; Animal-assisted therapy; Humanization of care.

RESUMEN

Objetivo: Comprender la percepción de los familiares sobre la Terapia Asistida con Caninos en la atención a personas hospitalizadas en una Unidad de Salud Mental. Métodos: Se realizó un estudio descriptivo y exploratorio entre abril y noviembre de 2024 con familiares de pacientes hospitalizados en una Unidad de Salud Mental de un hospital universitario ubicado en la región central del estado de Rio Grande do Sul. La recolección de datos se realizó mediante entrevistas semiestructuradas. Los datos se analizaron mediante Análisis de Contenido Temático, con el apoyo del software MAXQDA 24 para la organización, categorización y creación de una nube de palabras. Resultados: Los familiares perciben que la Terapia Asistida con Caninos proporciona efectos emocionales y terapéuticos a los pacientes, además de promover cambios positivos en el estado de ánimo, el comportamiento y las relaciones. Conclusión: La Terapia Asistida con Caninos se configura como una estrategia de atención alternativa y humanizada en salud mental que contribuye a la rehabilitación psicosocial de pacientes en crisis agudas de sufrimiento psíquico.

DESCRIPTORES: Familia; Unidad hospitalaria psiquiátrica; Salud mental; Terapia asistida con animales; Humanización del cuidado.

INTRODUÇÃO

Contemporaneamente, a configuração de família é compreendida a partir de vínculos afetivos e de proximidade entre pessoas que se reconhecem como pertencentes ao mesmo núcleo, considerando a percepção dos próprios membros sobre quem o integral(1). A família é incluída no plano de cuidado das pessoas em sofrimento mental a partir do processo de Reforma Psiquiátrica brasileira (RPb), pois passou-se a entendê-la como uma conjuntura privilegiada de cuidados de suporte à vida e à saúde dos indivíduos, seja de forma integral ou parcial. Desse modo, a família tornou-se imprescindível para melhorar a eficácia da assistência e para promover a ressocialização da pessoa em sofrimento psíquico(2-3).

 Ao reconhecer a relevância do contexto de vida e das redes de apoio, incluindo a família, a RPb redirecionou a atenção à saúde mental para serviços de base territorial e comunitária, propondo a integralidade e a continuidade do cuidado. Assim, foi designado leitos especializados ou Unidades de Saúde Mental (USM), em hospitais gerais, que devem garantir um cuidado humanizado e integral aos indivíduos, a partir de internações breves até a estabilização do quadro. Com isso, a internação das pessoas em sofrimento mental passou a ocorrer somente em momentos de crise aguda, quando todos os recursos do cuidado territorial apresentem-se insuficientes(4).

O cuidado humanizado, pautado pela Política Nacional de Humanização, envolve as qualidades dos trabalhadores de saúde na interação com os usuários e familiares, como a empatia, a escuta qualificada, o respeito e uma postura ética. Além do mais, pressupõem o ambiente e os recursos que facilitam o melhor atendimento às necessidades das pessoas assistidas e que dignificam o tratamento ofertado(5).

Nesse viés, como prática humanizadora do cuidado se tem a inserção de animais treinados na terapêutica das pessoas em sofrimento mental, especialmente em cenários hospitalares(6-7). Sabe-se que a relação humano-animal proporciona inúmeros benefícios para ambos, principalmente à saúde mental dos humanos. Diante desse contexto, alguns animais tais como cavalos, cães e coelhos passaram a integrar tratamentos enquanto co-terapeutas para promover saúde de indivíduos em diversos contextos. Essa prática passou a ser compreendida como Terapia Assistida por Animais (TAA)(6,8).

Dentre as TAAs, encontra-se a Cinoterapia que se caracteriza pelo uso de cães como co-terapeutas. Sabe-se que o papel do cão na Cinoterapia é fundamental e terapêutico para a saúde global das pessoas, pois influencia positivamente em aspectos físicos, psíquicos e sociais. Em relação à saúde mental, a Cinoterapia pode promover a melhora da autopercepção, reduzir a ansiedade, melhorar o humor e facilitar o estabelecimento de vínculos afetivos(7).

Diante da importância da inserção dos animais e da família na terapêutica das pessoas em sofrimento mental, surge a seguinte questão de pesquisa: Qual é a percepção dos familiares sobre a Cinoterapia no cuidado de pessoas internadas em Unidade de Saúde Mental? Assim, tem-se como objetivo compreender a percepção de familiares acerca da Cinoterapia no cuidado de pessoas internadas em Unidade de Saúde Mental.

MÉTODO

O presente estudo consiste em uma pesquisa qualitativa do tipo descritiva e exploratória. Foi realizado em uma USM de um hospital universitário de um município da região central do Estado do Rio Grande do Sul. O serviço funciona todos os dias da semana, 24 horas por dia. Atende homens e mulheres, maiores de 18 anos, em crise aguda de sofrimento mental até a estabilização do quadro. Para atendê-los, a unidade possui equipe multiprofissional responsável pelo cuidado integral dos usuário e familiares.

Os participantes da pesquisa foram os familiares das pessoas internadas na unidade e que participaram da atividade de Cinoterapia. Esta atividade ocorre na área interna ou na área externa (pátio) da USM, uma vez por semana, com a duração média de 60 minutos. É realizada por estudantes de diversos campos do saber que integram o grupo de pesquisa Cuidado em Saúde Mental e Formação em Saúde (FORESM) da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), pelo Corpo de Bombeiros Militares e os cães terapeutas, além de trabalhadores da equipe da USM.

Os critérios de inclusão para os participantes foram: familiares maiores de 18 anos que entraram em contato com o usuário internado, seja por ligação telefônica ou visita hospitalar. O convite para a participação da pesquisa foi realizado de forma verbal e intencional aos familiares dos usuários que participaram da Cinoterapia. Assim, a pesquisa contou com a participação de 22 familiares, sendo que não houveram recusas ao convite.

Desse modo, a coleta de dados ocorreu de abril à novembro de 2024. Foram utilizadas entrevistas semiestruturadas que continham perguntas sobre o perfil sociodemográfico do participante e questões norteadoras sobre a sua percepção acerca da prática de Cinoterapia na USM.

 As questões foram as seguintes: a) Algum dia seu familiar comentou sobre ter participado de alguma atividade com cães aqui na unidade? Fale-me sobre o que ele comentou; b) O que você pensa sobre a realização de atividades com cães? c) Você acha que atividades com cães pode trazer benefícios? Alguma mudança? d) Você percebe ou percebeu alguma mudança no tratamento de seu familiar quando ele participa das atividades com os cães? Quais? e) Você percebe ou percebeu alguma mudança no tratamento do seu familiar quando ele não participa das atividades com os cães? Quais? f) Você já ouviu falar em Cinoterapia? O que você entende sobre isso? Destaca-se que, primeiramente, realizou-se entrevista piloto, na qual percebeu-se não haver necessidade de adaptação das questões.

As entrevistas foram realizadas por duas acadêmicas de Enfermagem que receberam treinamento sobre o instrumento de coleta de dados. As entrevistas ocorreram após a leitura e assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido em uma sala reservada da USM. As entrevistas tiveram a duração média de 10 minutos e foram gravadas com a autorização prévia dos participantes e, posteriormente, foram transcritas na íntegra. A interrupção da coleta ocorreu por saturação das informações(9). Para preservar a identidade dos entrevistados, foi utilizado o código “F”, correspondente a palavra “familiar” seguido de números ordinais (F1, F2,...), representando a ordem em que foi realizada a entrevista.

Para a análise dos dados, utilizou-se a Análise de Conteúdo Temática(9). Assim, seguiu-se as seguintes etapas: 1) leitura e organização dos dados; 2) categorização dos dados mais relevantes; e 3) interpretação profunda. Além do mais, utilizou-se o software MAXQDA 24 para auxiliar na organização e categorização do conteúdo e na formação de uma nuvem de palavras com os termos mais prevalentes nas entrevistas.

Seguiu os preceitos éticos da Resolução Nº 466/2012 sobre pesquisas envolvendo seres humanos. Ademais, a pesquisa foi submetida e aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa por meio do parecer final Nº 6.052.639.

RESULTADOS

Em relação ao perfil sociodemográfico dos 22 entrevistados, 15 eram do sexo feminino e sete do masculino. Entre eles, 11 se autodeclararam brancos, sete pardos, três negros e um indígena. Quanto ao estado civil dos entrevistados: oito casados, oito solteiros, quatro divorciados e dois viúvos.

Na escolaridade dos familiares houve a predominância de cinco pessoas com ensino médio incompleto e 12 ensino médio completo. No que se refere aos vínculos familiares, participaram do estudo: seis mães, três irmãs, três irmãos, duas filhas, dois esposos, uma esposa, um pai, um filho, um sobrinho, uma tia e uma cunhada.

Ao analisar as entrevistas, organizou-se duas categorias: percepção dos efeitos emocionais e terapêuticos da Cinoterapia; e, mudanças no humor, comportamento e vínculos a partir da Cinoterapia. Além disso, elaborou-se uma nuvem de palavras com os termos mais recorrentes nas falas, apresentada na Figura 1.

Figura 1 – Nuvem de palavras, Rio Grande do Sul, Brasil, 2024.

Nuvem de palavras - DAS FRASES CODIFICADAS

Percepção dos efeitos emocionais e terapêuticos da Cinoterapia

Os entrevistados relataram que o contato com o cão co-terapeuta favorece a distração durante a crise, promovendo maior conforto do usuário consigo mesmo e com o ambiente, além de proporcionar sentimentos de alegria e tranquilidade.

Quando você tem contato com o animal, você esquece de todos os problemas, de tudo! É um ser que não fala contigo, mas te dá muita atenção. (F12)

Eu entendo que faz bem para o paciente, que vai deixa-lo mais alegre, mais confortável com o ambiente, com a situação que está vivendo... O bichinho vai ajudar muito a pessoa a se sentir melhor, pelo menos por alguns minutos, algumas horas. (F18)

Entendo que seja uma maneira de tentar uma conexão com os animais, que eles possam trazer tranquilidade, uma busca de paz… (F19)

Os familiares percebem que a Cinoterapia contribui positivamente para o enfrentamento da crise em saúde mental, ao promover conexão com o mundo interno e externo, além de favorecer o relaxamento e a melhora do estado psíquico dos usuários.

[...] Ele adora (Cinoterapia)... Para o meu filho que está nessa situação (crise de saúde mental), eu acho maravilhoso! (F6)

[...] você se conecta de alguma forma com um animal... ajuda muito na saúde mental. Acredito que você se conecta mais com seu interior... reflita mais naquela atividade. (F11)

Muito bonito, para mim é ótimo! [...] os animais te acalmam muito. A atividade, o trabalho em si, é o que vai levantar muito o teu psicológico. (F21)

Mudanças no humor, comportamento e vínculos a partir da Cinoterapia

Os participantes identificaram melhorias no humor e no comportamento dos usuários, como maior entusiasmo, atenção, autonomia, comunicação e coordenação motora, refletindo positivamente no quadro de saúde mental.

[...] Eles (usuários) têm mais autonomia de sair do sintoma que eles estão... Eles veem os animais e se animam... A gente nota que, nesse sentido, eles melhoram. (F1)

[...] Deve ser bom (Cinoterapia), porque o contato com o animal deve desenvolver benefícios para eles (usuários), tanto na cabeça como na coordenação motora... (F9)

[...] Com certeza ele (usuário) ficou mais calmo... está mais falante. Ele está mais interessado em cuidar dos animais e das pessoas, coisa que ele não costumava falar... (F12)

Eu acho muito importante! Acredito que o humor melhora, tudo melhora com o animal! (F17)

Para os familiares, o cão é percebido como uma companhia significativa, capaz de reduzir o sentimento de solidão dos usuários e favorecer transformações nos vínculos, estimulando o desenvolvimento do senso de cuidado.

Muita (mudanças no tratamento)! Tem pessoas que aprendem a conviver com o animal e tem certo apego, o que faz uma mudança incrível! [...] O meu irmão gosta muito dos animais. Ele usa o animal como companhia, como amigo. (F2)

[...] Eu acho que pode (Cinoterapia trazer benefícios), porque se ele tem cachorro... ele tem o compromisso de cuidar, de zelar pelo animal. Já é uma grande coisa, ele ter o interesse de cuidado. (F3)

Ele (usuário) sempre gostou de animais. Ver um cachorro no tratamento é muito bom! Deve ser muito gratificante, porque isso ajuda a melhorar um pouco. O comportamento deles, o entender deles em relação à vida dos animais… (F7)

DISCUSSÃO

O perfil sociodemográfico dos familiares indicou predominância de mulheres (15) na função de cuidadoras das pessoas internadas na USM, sendo a maioria composta por mães (6). Sabe-se que, historicamente, o cuidado dos membros da família reincide, com frequência, sobre as mulheres, especialmente as mães, como resultado de construções sociais e culturais. Assim, o exercício do cuidado é, comumente, vivenciado por elas como um dever permeado por simbolismos emocionais e como parte de sua identidade(2,10).

Quanto ao estado civil, observou-se a prevalência de pessoas sem companheiro(a), variando entre solteiros (8), divorciados (4) e viúvos (2). Esse dado pode estar relacionado à adoção da lógica neoliberal pelo Estado e a consequente vulnerabilização das famílias, o que tem contribuído para a redução do número de integrantes dos núcleos familiares e a adoção de diferentes artifícios como (re)arranjos dos papéis familiares ou a solidariedade entre os integrantes(1).

No que se refere à escolaridade, percebeu-se a prevalência entre os participantes com ensino médio completo (12). Compreende-se que determinantes sociais, como idade, gênero, etnia, educação, renda, dentre outros, influenciam na origem e na perpetuação de problemas de saúde mental, assim como no bem-estar dos indivíduos. Além destes determinantes desempenharem um papel causal, também estão relacionados à forma como as pessoas vivenciam as doenças, como reagem à elas e como buscam ajuda(11).

Frente a isso, considera-se que tanto a presença da família no cuidado em saúde mental quanto a prática da Cinoterapia favorecem um cuidado integral ao indivíduo assistido(1,7). A presença da família parte do entendimento de que o estado mental da pessoa em sofrimento psíquico impacta o núcleo familiar, principalmente em situações de crise aguda, uma vez que exige atenção constante dos familiares. Ela possui formas de funcionamento e comunicação diversificadas que podem também contribuir para o sofrimento do indivíduo. Nesse sentido, evidencia-se a necessidade de incluir a família nos planos terapêuticos dos usuários, visando qualificar as ações de cuidado(3).

Em relação à primeira categoria, os familiares percebem que o contato com o cão favorece a distração durante a crise e promove maior conforto do usuário consigo mesmo e com o ambiente, além de proporcionar sentimentos de alegria e tranquilidade. A crise em saúde mental caracteriza-se como um momento de desorganização psíquica, no qual o indivíduo encontra-se temporariamente impossibilitado de autorregular-se(12). Neste caso, a presença dos animais proporciona um ambiente de acolhimento e de conforto aos assistidos, auxiliando-os no gerenciamento de suas emoções. Isso se deve ao fato de que a interação com o cão favorece a liberação de endorfinas e, assim, contribui para sensações de bem-estar, de segurança e de pertencimento nos indivíduos(13).

Segundo os participantes, a conexão entre usuário e cão co-terapeuta proporciona alegria e tranquilidade aos seus entes. Essa conexão com o animal, pode reduzir os parâmetros relacionados ao estresse, tais como os níveis de cortisol, a frequência cardíaca e a pressão arterial, além de facilitar a interação social e promover emoções positivas(8,14). Desse modo, a Cinoterapia pode proporcionar sensações de tranquilidade, felicidade, relaxamento, bom humor e satisfação nos participantes da prática(7,15).

Além disso, os familiares percebem que a Cinoterapia contribui positivamente para o enfrentamento da crise, ao promover conexão com o mundo interno e externo, e favorecer o relaxamento e a melhora do estado psíquico dos usuários. Para Nise da Silveira(16), psiquiatra pioneira no uso de animais na terapêutica de pessoas em sofrimento mental, a relação humano-animal configura-se como relação catalisadora, pois é capaz de coordenar e (re)ordenar as funções psíquicas do indivíduo, colocando-o em consonância com o mundo externo e possibilitando sua reabilitação psicossocial. Nesse viés, a relação com o cão favorece, nos humanos, a aceitação do quadro atual e, gradativamente, o processo de recuperação. Portanto, a Cinoterapia caracteriza-se como uma estratégia de cuidado eficaz e acessível no âmbito da saúde mental(8).

Já na segunda categoria, os entrevistados identificaram melhorias no humor e no comportamento dos usuários, como maior entusiasmo, atenção, autonomia, comunicação e coordenação motora, refletindo positivamente no quadro de saúde mental. Entende-se, com isso, que a Cinoterapia pode contribuir para a melhoria não apenas do funcionamento socioemocional, mas também dos aspectos comportamentais, cognitivos e físicos. Dessa forma, a prática configura-se como uma estratégia recreativa, motivacional e educacional(8).

Destaca-se que a Cinoterapia é capaz de estimular funções psíquicas, tais como percepção, memória, atenção e raciocínio(14). Enquanto prática humanizada do cuidado, pode transformar o ambiente hospitalar de modo a diminuir a tensão presente no espaço, melhorar o humor dos usuários, as relações interpessoais e a comunicação(7,17). Compreende-se que a Cinoterapia, enquanto TAA, promove suporte emocional e social aos assistidos, o que potencializa as habilidades interpessoais, a comunicação e as interações significativas. Tal fato se deve aos estímulos sensoriais e ao contexto de confiança em que o indivíduo é exposto durante a atividade. Estímulos como o toque, o calor e o ato de acariciar o cão ativa o sistema de oxitocina e gera os efeitos positivos relatados(14).

A Cinoterapia também corrobora para uma vida mais independente(17). Estudo(6) aponta que o uso de cão guia para pessoas com privação visual auxiliou a estabilização locomotora dos indivíduos, o que persistiu na ausência do cão. Nesse contexto, ao utilizar a guia do cão para detectar propriedades táteis pode-se melhorar a estabilidade na locomoção dos indivíduos. Além do mais, auxiliou no aperfeiçoamento das habilidades motoras finas, na melhora do equilíbrio e proporcionou maior autonomia aos usuários. Vale apontar que, embora a presente pesquisa não tenha incluído familiares de pessoa com privação visual, o mesmo resultado foi percebido pelos participantes do estudo.

Ainda, os participantes perceberam que o cão é uma companhia significativa, capaz de reduzir o sentimento de solidão dos usuários e favorecer transformações nos vínculos, estimulando o desenvolvimento do senso de cuidado. Entre os benefícios da relação com o cão, especialmente na Cinoterapia, encontram-se melhorias de habilidades sociais, empáticas e de enfrentamento, redução do sofrimento psicológico e do sentimento de solidão(6,15).

Reconhece-se que, para algumas pessoas, pode ser mais fácil formar um vínculo animal-humano em relação a um vínculo humano-humano, tendo em vista que os animais são indiferentes e não julgadores das características pessoais(8). Nesse contexto, o assistido pode experienciar a aceitação incondicional do cão, sem a necessidade de se adaptar às expectativas externas ou, até mesmo, sofrer discriminações(17). Assim sendo, o animal pode promover experiências de aceitação mútua, podendo se tornar a primeira relação do indivíduo em seu processo de maturação(16), de forma a oferecer apoio social e atuar como um amortecedor em situações estressantes(8).

Ademais, a figura do cão co-terapeuta facilita as interações sociais, o estabelecimento de vínculos afetivos, bem como promove sentimentos de tranquilidade, carinho e bom humor(7). Entende-se que a presença do cão possibilita ao indivíduo a recuperação do “estar-com”, isto é, do sentido de alteridade. Ao representar lar e família, companhia e testemunha das aflições humanas, os cães possibilitam experiências de cuidado e amor aos indivíduos que, por sua vez, acabam reproduzindo tais experiências em suas outras relações(16). Salienta-se que esta mudança da forma de se vincular e a transferência de cuidado e amor, possibilitados pelo cão, foram percebidas pelos familiares durante o tratamento dos usuários na USM.

CONCLUSÃO

O estudo analisou a percepção de familiares sobre a Cinoterapia no cuidado de pessoas internadas em Unidade de Saúde Mental, evidenciando efeitos emocionais e terapêuticos positivos, como melhora da crise aguda, conforto, alegria, tranquilidade e fortalecimento da conexão interna e externa dos usuários. A prática foi associada a mudanças no humor, comportamento, comunicação, autonomia, coordenação motora e formação de vínculos, sendo o cão percebido como um companheiro que reduz a solidão e potencializa o cuidado.

Conclui-se que a Cinoterapia constitui uma estratégia de cuidado humanizado e alternativa, com potencial para promover a reabilitação psicossocial em contextos de crise aguda. Contudo, o curto período de internação limitou as intervenções, indicando a necessidade de pesquisas mais robustas, como estudos clínicos randomizados, para validar cientificamente seus benefícios e ampliar sua aplicação.

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APOIO FINANCEIRO OU TÉCNICO: a pesquisa contou com apoio financeiro e técnico próprios.

DECLARAÇÃO DE CONFLITO DE INTERESSE FINANCEIROS E/OU DE AFILIAÇÕES: as autoras declaram não haver conflitos de interesses.