FATORES ASSOCIADOS AOS HÁBITOS DE SUCÇÃO DELETÉRIOS NA INFÂNCIA: REVISÃO INTEGRATIVA DA LITERATURA

FACTORS ASSOCIATED WITH DELETERIOUS SUCKING HABITS IN CHILDHOOD: AN INTEGRATIVE LITERATURE REVIEW

FACTORES ASOCIADOS A LOS HÁBITOS DELETÉREOS DE SUCCIÓN EN LA INFANCIA: REVISIÓN INTEGRATIVA DE LA LITERATURA

Tipo de artigo: Revisão de literatura integrativa

Caroline Rodrigues Thomes

Mestre em Saúde Coletiva, Universidade Federal do Espírito Santo.

Orcid: https://orcid.org/0000-0003-3522-5368 

Thaylline Quaioto de Arruda

Cirurgiã-dentista, Universidade Federal do Espírito Santo.

Orcid: https://orcid.org/0009-0007-3584-6806 

Nádia Maria Guimarães Monteiro

Mestre em Saúde da Família, Prefeitura Municipal de Vitória.

Orcid: https://orcid.org/0000-0003-2740-469X 

Ana Claudia Cordeiro Alvarenga

Mestre em Saúde Coletiva, Prefeitura Municipal de Vitória.

Orcid: https://orcid.org/0000-0002-9495-0001 

Lilian Citty Sarmento

Professora Doutora em Odontopediatria, Universidade Federal do Espírito Santo.

Orcid: https://orcid.org/0000-0002-0409-1638 

RESUMO

Objetivo: Compreender os fatores associados aos hábitos de sucção deletérios na infância. Método: Revisão integrativa identificou, em sete estudos recentes, os principais fatores associados à instalação e manutenção de hábitos de sucção deletérios infantis. Resultados: Os hábitos de sucção não nutritiva, como chupeta e sucção digital, foram influenciados por fatores biológicos e infantis, maternos, familiares/culturais e emocionais. O tempo reduzido de aleitamento materno destacou-se como determinante central. A mamadeira, embora seja um meio de sucção nutritiva, foi considerada pelos autores como fator associado, pois contribui para o desmame precoce e aumenta a probabilidade de introdução e manutenção de hábitos não nutritivos.  Conclusão: Os hábitos de sucção deletérios em crianças resultam de um conjunto de fatores interligados, envolvendo condições biológicas e infantis, maternas e familiares, além de aspectos culturais, emocionais e contextuais. Entre todos, o tempo reduzido de aleitamento materno destaca-se como determinante central.

DESCRITORES: Criança; Qualidade de Vida; Sucção.

ABSTRACT

Objective: To understand the factors associated with deleterious sucking habits in childhood. Method: An integrative review identified, across seven recent studies, the main factors associated with the onset and persistence of harmful sucking habits in children. Results: Non-nutritive sucking habits, such as pacifier use and finge sucking, were influenced by biological and child-related factors, as well as maternal, family/cultural, and emotional aspects. Shorter duration of breastfeeding emerged as a central determinant. Although the feeding bottle represents a form of nutritive sucking, it was considered by the authors as an associated factor because it contributes to early weaning and increases the likelihood of introducing and maintaining non-nutritive habits. Conclusion: Harmful sucking habits in children result from an interconnected set of factors involving biological and child-related conditions, maternal and family influences, and cultural, emotional, and contextual aspects. Among all factors, shorter breastfeeding duration stands out as the main determinant.

DESCRIPTORS: Child; Quality of Life; Suction.

RESUMEN

Objetivo: Comprender los factores asociados a los hábitos de succión deletéreos en la infancia. Método: Una revisión integrativa identificó, en siete estudios recientes, los principales factores relacionados con la aparición y el mantenimiento de hábitos de succión perjudiciales en niños. Resultados: Los hábitos de succión no nutritiva, como el uso de chupete y la succión digital, estuvieron influenciados por factores biológicos y propios del niño, así como por aspectos maternos, familiares/culturales y emocionales. El tiempo reducido de lactancia materna se destacó como un determinante central. Aunque el biberón representa un medio de succión nutritiva, fue considerado por los autores como un factor asociado, ya que contribuye al destete precoz y aumenta la probabilidad de introducción y mantenimiento de hábitos no nutritivos. Conclusión: Los hábitos de succión deletéreos en los niños resultan de un conjunto interrelacionado de factores que incluyen condiciones biológicas y propias del niño, influencias maternas y familiares, además de aspectos culturales, emocionales y contextuales. Entre todos los factores, el tiempo reducido de lactancia materna se destaca como el determinante principal.

DESCRIPTORES: Niño; Calidad de Vida; Succión.

INTRODUÇÃO

A O hábito de sucção é um reflexo natural nos primeiros anos de vida, desempenhando função central no processo de alimentação, na busca por conforto e na interação afetiva. Durante a primeira infância, é reconhecido como uma prática fisiológica vinculada à fase oral do desenvolvimento psicossexual, conforme descrito por Freud¹.

A sucção não nutritiva, por sua vez, também é considerada um comportamento esperado nos primeiros meses de vida, trazendo benefícios quando ocorre dentro de um período adequado, pois contribui para o fortalecimento da musculatura orofacial e para a maturação funcional do sistema estomatognático².

No entanto, sua persistência por 36 meses ou mais caracteriza um hábito prolongado, o que pode acarretar alterações dentárias, distúrbios fonoarticulatórios e desvios no crescimento craniofacial, comprometendo a harmonia funcional e estrutural da cavidade oral³. Entre as alterações mais comumente relacionadas, destacam-se a mordida aberta anterior e a mordida cruzada posterior, que comprometem o equilíbrio funcional e estético do sistema estomatognático4.

Estudo de base populacional realizado com 1.463 crianças brasileiras, com idades entre 7 e 11 anos, comparou a prevalência de hábitos de sucção não nutritiva prolongados entre duas coortes: uma de Ribeirão Preto (47,6%) e outra de São Luís (20,2%), demonstrando associação entre o uso prolongado de mamadeira e a manutenção desses hábitos, enquanto o aleitamento materno por 12 meses ou mais demonstrou efeito protetor. Variáveis contextuais, como o sexo feminino, o trabalho materno e o tipo de união conjugal, também influenciaram a ocorrência desses comportamentos, conforme o território analisado5.

Organizações internacionais e nacionais também ressaltam a importância do aleitamento materno exclusivo e da limitação dos hábitos de sucção não nutritiva. A World Health Organization (WHO) recomenda evitar a introdução precoce de chupetas e mamadeiras até que a amamentação esteja bem estabelecida, como parte dos “10 passos para o sucesso do aleitamento materno”6.

 A American Academy of Pediatric Dentistry (AAPD) orienta que o uso prolongado de chupeta pode ocasionar alterações orofaciais, recomendando sua interrupção até os três anos de idade7. De forma convergente, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) alerta para os riscos associados ao uso rotineiro de chupeta, reforçando a necessidade de aconselhamento às famílias sobre práticas de sucção não nutritiva8.

A Associação Brasileira de Odontopediatria (ABOPED) posiciona-se contrária ao uso rotineiro de chupetas, em consonância com a SBP, o Ministério da Saúde e a OMS, devido ao risco de desmame precoce pela confusão de bicos. A ABOPED recomenda que, quando utilizadas, sejam removidas até os 3 anos de idade, respeitando o amadurecimento psicoemocional da criança. Ressalta ainda que o uso prolongado está associado a alterações orofaciais, como mordida aberta anterior, mordida cruzada posterior, deglutição atípica e respiração bucal9.

Apesar da ampla documentação dos efeitos dos hábitos de sucção não nutritiva, os fatores associados à sua ocorrência e manutenção ainda são abordados de forma fragmentada na literatura. Dessa forma, torna-se relevante sintetizar as evidências disponíveis para oferecer uma visão mais integrada e contribuir com subsídios para a prática clínica e para a formulação de políticas públicas em saúde. Mediante o exposto anteriormente, este estudo teve como objetivo compreender quais são os fatores associados aos hábitos de sucção deletérios na infância.

MÉTODO

Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, guiada pela seguinte pergunta norteadora: “Quais são os fatores associados aos hábitos de sucção deletérios em crianças?” Segundo Botelho, Cunha e Macedo10, esse tipo de revisão constitui um recurso metodológico que possibilita a sistematização do conhecimento científico, seja ele desenvolvido teórica ou empiricamente, além de permitir a visualização de novas perspectivas para pesquisas futuras. Diferente de revisões mais restritivas, esse tipo de estudo permite a inclusão de artigos que adotam diferentes metodologias, contemplando abordagens qualitativas e quantitativas, a partir de uma visão interpretativa das evidências científicas.

A seleção dos artigos foi realizada em agosto de 2025 nas bases de dados PubMed/MEDLINE, Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), Scientific Electronic Library Online (SciELO) e Biblioteca Virtual em Saúde (BVS). Foram incluídos artigos científicos publicados nos idiomas inglês e espanhol, no período dos últimos dez anos.

Utilizaram-se descritores controlados e não controlados extraídos dos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) e Medical Subject Headings (MeSH), tais como: ("Sucking Behavior"[MeSH] OR "Non-nutritive sucking" OR "Pacifier use" OR "Thumb sucking" OR "Finger sucking" OR "Oral habits") AND ("Child"[MeSH] OR "Children" OR "Infant" OR "Pediatric" OR "Toddler") AND ("Risk Factors"[MeSH] OR "Associated factors" OR "Contributing factors" OR "Correlates" OR "Determinants"), “Hábitos de Sucção”, “Sucção Não Nutritiva”, “Crianças” e “Fatores Associados”. Os descritores foram combinados com os operadores booleanos “AND” e “OR”, conforme a lógica de busca de cada base de dados demonstrada abaixo (Quadro 1).

Quadro 1 - Estratégia de busca dos estudos incluídos na revisão de literatura integrativa (2015 a 2025), Vitória, Espírito Santo, Brasil (2025).

PubMed/MEDLINE

("Sucking Behavior"[MeSH] OR "Non-nutritive sucking" OR "Pacifier use" OR "Thumb sucking" OR "Finger sucking" OR "Oral habits") AND ("Child"[MeSH] OR "Children" OR "Infant" OR "Pediatric" OR "Toddler") AND ("Risk Factors"[MeSH] OR "Associated factors" OR "Contributing factors" OR "Correlates" OR "Determinants")

LILACS

(“Hábitos de Sucção” OR “Sucção Não Nutritiva” OR “Uso de Chupeta” OR “Sucção Digital” OR “Sucção de Dedo”) AND (“Crianças” OR “Infantil” OR “Pré-escolar”) AND (“Fatores Associados” OR “Determinantes” OR “Fatores de risco”)

SciELO

("Non-nutritive sucking" OR "Pacifier use" OR "Thumb sucking" OR "Finger sucking" OR “Hábitos de Sucção”) AND ("Children" OR "Infant" OR “Crianças”) AND ("Associated factors" OR "Risk factors" OR “Fatores Associados”)

BVS

(“Hábitos de Sucção” OR “Sucção Não Nutritiva” OR “Chupeta” OR “Sucção Digital”) AND (“Crianças” OR “Infantil”) AND (“Fatores Associados” OR “Determinantes”)

Fonte: Elaboração própria (2025).

Os critérios de inclusão adotados seguiram as recomendações do Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses PRISMA 202011 e foram: estudos primários, com abordagem quantitativa, qualitativa ou mista, publicados em periódicos científicos, que abordassem total ou parcialmente os fatores associados à presença de hábitos bucais deletérios em crianças, como: sucção digital, uso prolongado de chupeta e mamadeira. Foram considerados elegíveis estudos do tipo: observacionais transversais, caso-controle, coorte, ensaios clínicos e estudos qualitativos.

Foram excluídos: artigos de revisão de literatura sistemáticas e não sistemáticas, editoriais, trabalhos de conclusão de cursos, monografias, dissertações, teses, cartas ao editor, resumos de eventos científicos e estudos que tratassem exclusivamente das consequências clínicas ou do tratamento ortodôntico, sem discutir os fatores associados aos hábitos de sucção. Também foram excluídos estudos que incluíam populações com condições clínicas, neurológicas ou sindrômicas específicas, como transtornos do neurodesenvolvimento ou síndromes genéticas, por apresentarem fatores potencialmente confundidores na análise dos hábitos bucais deletérios, garantindo maior comparabilidade entre os estudos incluídos.

A extração dos dados foi realizada por meio de um instrumento padronizado, contendo as seguintes informações: autor, ano de publicação, país, objetivo, delineamento, população envolvida, fatores investigados, principais achados., enquanto a análise foi conduzida de forma descritiva e interpretativa, possibilitando a categorização dos fatores mais recorrentes relacionados à instalação e manutenção dos hábitos de sucção deletérios na infância.

RESULTADOS

Na busca bibliográfica, foram identificados 1.086 artigos científicos. Após a aplicação de filtros de ano, idioma e estudos em humanos, 509 registros permaneceram para avaliação. A remoção de 91 duplicatas resultou em 418 registros para triagem de títulos e resumos, da qual 357 foram excluídos por não atenderem aos critérios de elegibilidade. Sessenta e um textos completos foram avaliados e 54 foram excluídos, principalmente por não discutirem fatores associados aos hábitos de sucção (n = 23), por se tratar de tipos de publicação não elegíveis (n = 17), por população fora do escopo (n = 8) ou por desenho/dados insuficientes (n = 6). Ao final, 7 estudos foram incluídos na análise (figura 1).

Figura 1 - Fluxograma de seleção dos estudos que fazem parte da revisão integrativa da literatura (2015 a 2025), Vitória, Espírito Santo, Brasil (2025).

Diagrama

O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.

Fonte: Adaptado do modelo PRISMA (2025)11.

A análise dos estudos incluídos nesta revisão integrativa revelou uma distribuição temporal equilibrada das publicações ao longo da última década. Cada um dos sete estudos foi publicado em anos distintos: 2015, 2016, 2017, 2018, 2019, 2020 e 2024, representando 14,3% do total. Essa distribuição homogênea evidencia um interesse científico contínuo e consistente sobre os hábitos de sucção não nutritiva entre os anos de 2015 e 2025, indicando que o tema permanece atual e relevante na literatura nacional.

No que se refere ao delineamento metodológico, observou-se a predominância de estudos transversais, presentes em 57,1% das publicações analisadas. Esse tipo de estudo tem sido amplamente utilizado por sua viabilidade e capacidade de identificar associações em populações específicas. Os demais estudos foram classificados como de coorte (28,6%) e caso-controle (14,3%), evidenciando uma diversidade de abordagens metodológicas que contribuem para a compreensão multifatorial dos hábitos de sucção não nutritiva na infância.

Destaca-se que, embora a mamadeira seja considerada um meio de sucção nutritiva, os estudos a identificam como variável associada à redução do aleitamento materno e ao maior risco de introdução de hábitos não nutritivos, motivo pelo qual foi incluída neste quadro como fator associado aos hábitos deletérios de sucção não nutritiva.

O Quadro 2 apresenta os resultados com a síntese dos principais dados extraídos dos estudos incluídos na revisão integrativa. Nele estão organizadas informações referentes aos autores, título, ano de publicação, país, tipo de estudo, fatores associados aos hábitos deletérios de sucção não nutritiva e os principais achados de cada investigação.

Quadro 2 - Instrumento de extração de dados dos estudos incluídos na revisão de literatura integrativa (2015 a 2025), Vitória, Espírito Santo, Brasil (2025)

Autores/ ano

Título

País e Delineamento

Fatores associados

Principais achados

Fernandes et al., 201512

Non-nutritive sucking habits after three years of age: a case-control study

Brasil: Estudo caso-controle com 638 crianças na fase transversal e 330 no caso-controle.

Biológicos: prematuridade

Maternos: escolaridade materna

Práticas orais: uso prolongado de mamadeira

Hábitos de sucção deletérios após os 3 anos associaram-se à prematuridade e ao uso prolongado de mamadeira, enquanto a baixa escolaridade materna atuou como fator protetor.

Buccini; Pérez-Escamilla; Venancio, 201613

Pacifier Use and Exclusive Breastfeeding in Brazil

Brasil: Estudo transversal com 42.395 lactentes menores de 6 meses.

Infantis: idade e sexo da criança.

Maternos: idade adolescente, baixa escolaridade, trabalho fora do lar.

Contextuais: tipo de parto, período histórico.

O uso de chupeta esteve associado à interrupção do aleitamento materno exclusivo.

Houve maior risco em meninos, filhos de mães adolescentes, com baixa escolaridade ou que trabalhavam fora; associação com cesárea em 1999; tendência de redução do uso em 2008.

Melo et al., 201714

Análise dos hábitos de amamentação e sucção não-nutritiva em crianças de 0 a 12 anos

Brasil: Estudo transversal com 353 crianças de 0 a 12 anos.

Maternos: causas de desmame (retorno ao trabalho, dor, doença, nova gestação, recusa do bebê), falta de informação materna.

Práticas orais: tempo reduzido de aleitamento materno, uso de mamadeira.  

Culturais/familiares: introdução precoce da chupeta.

Emocionais: sucção digital ligada a insegurança e ansiedade.

O aleitamento materno por menos de 3 meses associou-se ao maior uso de chupeta; mamadeira contribuiu para manutenção dos hábitos.

A introdução precoce da chupeta reflete influência cultural, e muitas mães desconheciam a importância do aleitamento para o desenvolvimento facial.

Sucção digital associada a fatores emocionais.

Pereira et al., 201815

Associação entre tempo de aleitamento materno, hábitos de sucção não nutritiva e deglutição em pré-escolares

Brasil: Estudo transversal com 150 pré-escolares de 4 e 5 anos.

Práticas orais: menor tempo de aleitamento materno, uso de mamadeira.

Crianças em aleitamento materno por menos de 6 meses tiveram maior prevalência de chupeta e sucção digital. O uso de mamadeira também se associou, mas a variável mais forte foi a menor duração do aleitamento.

O estudo também relaciona maior prevalência de deglutição atípica (60,4% das crianças) com os hábitos de sucção não nutritiva.

Bezerra et al., 201916

Prevalência e determinantes do uso de chupeta e mamadeira: um estudo no Sudoeste da Bahia

Brasil: Estudo transversal com 354 crianças menores de 12 anos.

Maternos: baixa escolaridade, idade ≥ 35 anos, ausência de companheiro, falta de experiência prévia em amamentação, trabalho fora do lar, dificuldade para amamentar, ausência de incentivo ao aleitamento na puericultura.

Práticas orais: uso combinado ou exclusivo de chupeta e mamadeira.

Elevada prevalência do uso de bicos artificiais com 94,4%. Chupeta: 63,8%; mamadeira: 91,2%; uso combinado (chupeta + mamadeira): 60,7%

O uso de chupeta associou-se à baixa escolaridade materna, inexperiência na amamentação, dificuldades no aleitamento e ausência de incentivo na puericultura

O uso exclusivo de mamadeira esteve ligado a mães mais velhas e sem companheiro.

Já o uso combinado de chupeta e mamadeira relacionou-se ao trabalho materno e às dificuldades para amamentar.

Braga et al., 202017

Breastfeeding in the First Hours of Life Protects Against Pacifier Use: A Birth Cohort Study

Brasil: Estudo de coorte com 532 crianças acompanhadas desde o nascimento até 12 meses de idade.

Infantis: sexo masculino.

Maternos: idade materna <18 anos.

Comportamentais ao nascimento: tempo até a primeira mamada (amamentação em <30 min, 30 min–6h, ou >6h/não amamentou).

A incidência de uso de chupeta no primeiro ano foi de 60%, sempre iniciado nos primeiros 6 meses de vida.

O risco foi 33% maior entre filhos de mães adolescentes e 16% maior em meninos.

Por outro lado, o aleitamento materno iniciado nos primeiros 30 minutos após o nascimento reduziu em 25% o risco de uso de chupeta, e o início entre 30 min e 6h reduziu em 18%.

Pastro et al., 202418

Continued Breastfeeding in a Birth Cohort in the Western Amazon of Brazil: Risk of Interruption and Associated Factors

Brasil: Estudo de coorte com 1.136 crianças acompanhadas desde o nascimento até 2 anos de idade.

Infantis: sexo da criança, uso de chupeta.

Maternos: idade materna jovem, baixa escolaridade, multiparidade, trabalho fora de casa.

Contextuais: assistência pré-natal insuficiente, condições socioeconômicas desfavoráveis.

A prevalência de aleitamento materno continuado foi de 74% aos 12 meses e 45% aos 24 meses.

O uso de chupeta destacou-se como um dos fatores mais fortemente associados à interrupção precoce do aleitamento, assim como o sexo masculino da criança.

 Também estiveram associados ao desmame a baixa escolaridade materna, a multiparidade e o trabalho materno fora do lar.

Fonte: Elaboração própria (2025).

DISCUSSÃO

 Os estudos analisados permitem compreender os principais fatores associados aos hábitos de sucção deletérios a partir de diferentes perspectivas, que podem ser agrupadas em três grandes dimensões: biológicas/da infância; maternas /familiares; e culturais/contextuais. Essa categorização evidencia que tais hábitos não são provenientes de um único determinante, mas derivam de um conjunto de condições interligadas que influenciam tanto no estabelecimento do hábito quanto sua persistência.

Na dimensão biológica e infantil, Fernandes et al.12 apontaram a prematuridade como fator associado à manutenção de hábitos de sucção deletérios após os três anos de idade, enquanto Braga et al. 17 e Pastro et al. 18 identificaram o sexo masculino como variável que aumenta o risco de introdução ou manutenção da chupeta. Esses achados destacam que características inerentes à criança podem contribuir para maior vulnerabilidade ao desenvolvimento dos hábitos bucais deletérios, devendo ser consideradas no acompanhamento clínico.

Já no campo dos fatores maternos e familiares, houve convergência entre os estudos ao identificar a baixa escolaridade materna12, 13, 16,18 e o trabalho fora do lar 13,16,18 como condições que favorecem a interrupção precoce do aleitamento materno e a adoção de chupeta ou mamadeira. Outros elementos como idade materna adolescente13,17, idade avançada16, multiparidade18 e arranjo conjugal monoparental16 também inferiram impacto na maior probabilidade de estabelecimento dos hábitos de sucção deletérios, o que reforça a influência das condições de vida materna na dinâmica do cuidado infantil.

Na categoria dos fatores culturais e contextuais, Melo et al.14 destacaram a introdução precoce da chupeta como prática comum e muitas vezes vinculada a tradições familiares, além de revelar que a sucção digital pode estar associada a questões emocionais como insegurança e ansiedade, uma dimensão pouco explorada em outros estudos. Bezerra et al.16 reforçaram o peso das dificuldades do aleitamento materno e da ausência de apoio na puericultura como fatores de risco, enquanto Braga et al.17 trouxeram uma contribuição inovadora ao mostrar que o aleitamento materno precoce, ainda na primeira meia hora após o nascimento, exerce efeito protetor contra o uso de chupeta, indicando um caminho preventivo relevante.

De forma integrada, as evidências mostram que o tempo reduzido de aleitamento materno é o fator mais recorrente, aparecendo direta ou indiretamente associado ao uso de chupeta, mamadeira e sucção digital em diversos estudos14, 15,18. Portanto, o uso de bicos artificiais não apenas se confirma como hábito de sucção deletério, mas também como determinante da interrupção do aleitamento materno, reforçando a necessidade de políticas de apoio ao aleitamento materno exclusivo.

Depreende-se que os hábitos de sucção deletérios não resultam de escolhas isoladas, mas de um conjunto de vulnerabilidades biológicas, sociais e culturais que afetam o início e a manutenção do aleitamento materno. Fatores como prematuridade, idade materna, escolaridade, trabalho fora do lar e sexo da criança emergem como determinantes consistentes, ao passo que a introdução precoce de chupeta e mamadeira desempenha papel central na manutenção desses hábitos. Ainda, merece destaque o caráter protetor do aleitamento materno exclusivo e prolongado, especialmente quando iniciado precocemente após o parto.

Entre as limitações desta revisão de literatura destacam-se a heterogeneidade metodológica dos estudos, a predominância de estudos brasileiros sobre o tema e o número reduzido de investigações da dimensão psicossocial, especialmente da sucção digital. Tais limitações foram minimizadas pela adoção de critérios abrangentes de inclusão, descritores controlados e não controlados e busca em múltiplas bases, o que garantiu a consistência e representatividade dos achados.

Como perspectivas futuras, recomenda-se a ampliação de pesquisas que explorem mecanismos psicossociais e culturais relacionados aos hábitos de sucção, bem como a avaliação de intervenções educativas e políticas públicas voltadas à promoção do aleitamento materno. Tais investigações poderão aprofundar a compreensão dos determinantes desses hábitos e subsidiar estratégias preventivas mais eficazes na infância, bem como auxiliar profissionais da saúde e gestores na formulação de estratégias preventivas e de promoção da saúde bucal infantil.

CONCLUSÃO

Os hábitos de sucção deletérios na infância resultam de um conjunto de fatores interligados, envolvendo condições biológicas e infantis, maternas e familiares, além de aspectos culturais, emocionais e contextuais. Entre todos, o tempo reduzido de aleitamento materno destaca-se como determinante central. Compreender os fatores associados à instalação e à manutenção dos hábitos de sucção deletérios é essencial para o incentivo ao aleitamento materno, orientação precoce às famílias e profissionais da Atenção Primária à Saúde, e possibilitar o desenvolvimento orofacial adequado na criança.

REFERÊNCIAS

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