ANÁLISE ESPACIAL DA COBERTURA VACINAL CONTRA O POLIOVÍRUS DURANTE A PANDEMIA DE COVID-19

SPATIAL ANALYSIS OF POLIO VACCINATION COVERAGE DURING THE COVID-19 PANDEMIC

ANÁLISIS ESPACIAL DE LA COBERTURA DE VACUNACIÓN CONTRA LA POLIO DURANTE LA PANDEMIA DE COVID-19

Tipo de artigo: Artigo de pesquisa original

Autores

Amanda Tavares Ziviani Toledo        

Discente de Enfermagem. Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Brasil

Orcid:  https://orcid.org/0009-0003-3010-1662 

Amanda Rezende Ruggio

Discente de Enfermagem. Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Brasil.

Orcid:  https://orcid.org/0009-0006-6792-5915 

Cynthia Márcia Romano Faria Walty

Doutorado em Enfermagem e Saúde. Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Brasil

Orcid:  https://orcid.org/0000-0003-3998-8418 

RESUMO

Objetivo: Analisar a distribuição espacial da cobertura vacinal contra a poliomielite antes e durante a pandemia de COVID-19 no Brasil. Método: Estudo ecológico com dados do Programa Nacional de Imunizações entre 2011–2019 e 2020–2021. As coberturas vacinais foram tabuladas para 27 unidades federativas e comparadas pelos testes U de Mann-Whitney (5% de significância) e variação percentual da mediana. A análise espacial, utilizando malhas municipais, identificou clusters (alto-alto; baixo-baixo; alto-baixo; baixo-alto) de redução significativa da cobertura. Resultados: Predominaram aglomerados alto-alto nas Regiões Norte e Nordeste, com reduções entre 22% e 83%. A Região Sul concentrou clusters baixo-baixo. Conclusão: Houve redução da cobertura da vacina contra a poliomielite durante a pandemia, intensificando desigualdades sociorregionais e aumentando o risco de reintrodução do poliovírus no país.

DESCRITORES: Vacina contra Poliovirus; Programas de Imunização; COVID-19; Brasil; Enfermagem.

ABSTRACT

Objective: To analyze the spatial distribution of polio vaccination coverage before and during the COVID-19 pandemic in Brazil. Method: Ecological study using data from the National Immunization Program between 2011–2019 and 2020–2021. Vaccination coverage was tabulated for 27 federative units and compared using the Mann-Whitney U test (5% significance) and percentage change from the median. Spatial analysis, using municipal grids, identified clusters (high-high; low-low; high-low; low-high) of significant reduction in coverage. Results: High-high clusters predominated in the North and Northeast Regions, with reductions between 22% and 83%. The South Region concentrated low-low clusters. Conclusion: There was a reduction in polio vaccination coverage during the pandemic, intensifying socio-regional inequalities and increasing the risk of reintroduction of the poliovirus in the country.

RESUMEN

Objetivo: Analizar la distribución espacial de la cobertura de vacunación contra la polio antes y durante la pandemia de COVID-19 en Brasil. Método: Estudio ecológico con datos del Programa Nacional de Inmunizaciones entre 2011-2019 y 2020-2021. La cobertura de vacunación se tabuló para 27 unidades federativas y se comparó mediante la prueba U de Mann-Whitney (significancia del 5%) y el cambio porcentual de la mediana. El análisis espacial, utilizando cuadrículas municipales, identificó conglomerados (alto-alto; bajo-bajo; alto-bajo; bajo-alto) de reducción significativa en la cobertura. Resultados: Los conglomerados alto-alto predominaron en las regiones Norte y Nordeste, con reducciones entre el 22% y el 83%. La Región Sur concentró conglomerados bajo-bajo. Conclusión: Hubo una reducción en la cobertura de vacunación contra la polio durante la pandemia, intensificando las desigualdades socioregionales y aumentando el riesgo de reintroducción del poliovirus en el país.

INTRODUÇÃO

Durante a pandemia da COVID-19, muitos países interromperam as campanhas de imunização contra doenças infecciosas ao priorizar o combate ao coronavírus(1,2). Isso resultou em aumento de risco para a população devido a chance de recirculação de doenças infecciosas anteriormente controladas ou eliminadas em alguns países(2).

Dentre as doenças infecciosas que estão eliminadas das Américas, destaca-se a poliomielite, causada pelo Poliovírus, conhecida como paralisia infantil(3). A imunização das crianças menores de cinco anos com a vacina oral da poliomielite (VOP) e com a vacina inativada da poliomielite (VIP) interrompeu a transmissão autóctone do Poliovírus em quase todas as regiões do mundo(3,4). Contudo, houve um aumento do contingente de crianças suscetíveis ao Poliovírus na América Latina, que caracterizou o Brasil como elevado risco de disseminação do mesmo(5).

No Brasil, a cobertura vacinal contra a poliomielite não é homogênea: há áreas com baixas coberturas vacinais preconizadas para a infância, principalmente nas Regiões Norte e Nordeste(6). As baixas coberturas das vacinas que previnem a poliomielite ameaçam o alcance do Mundo Livre da Poliomielite até 2026, meta prevista na Estratégia de Erradicação da Pólio 2022–2026(3), sendo necessários estudos que apontem onde estão os bolsões com baixas coberturas vacinais no Brasil, tendo como referência para comparação o cenário anterior à pandemia da COVID-19(7,8).

Este estudo objetivou analisar a cobertura da vacina contra a poliomielite em crianças antes e durante a pandemia da COVID-19 no Brasil.

MÉTODO

Trata-se de um estudo ecológico que analisou a coberturas da vacina contra a poliomielite (VCP) em crianças de zero a quatro anos, no período de 2011 a 2019 (pré-pandemia) e 2020 a 2021 (pandemia), utilizando dados do Sistema de Informação do Programa Nacional de Imunizações (SI-PNI). Consideraram-se as vacinas VIP e VOP devido à sua coexistência no calendário vacinal durante parte do período analisado. A seguinte fórmula foi usada para calcular a cobertura das VCP:

Cobertura das VCP = Nº total de doses aplicadas das vacinas VIP e VOP, em determinado local e ano / População na idade alvo, no mesmo local e ano X 100. 

Calcularam-se as médias de cobertura nos períodos pré-pandêmico e pandêmico, e as diferenças entre eles foram avaliadas pelo teste U de Mann-Whitney, considerando IIQ e significância de 5%. Utilizaram-se técnicas de análise espacial com as malhas municipais e elaborou-se cartogramas LISA (Local Indicators of Spatial Association) para identificar clusters estatisticamente significativos (p < 0,05) dos tipos baixo-baixo, alto-alto, alto-baixo e baixo-alto, conforme classificação tradicional. A significância do Índice de Moran Local (IML) foi definida a partir de 999 permutações, adotando p ≤ 0,05(9).

As análises espaciais foram realizadas com os softwares GeoDa (1.20.0.8) e QGIS (3.18.3), enquanto as estatísticas pelo Stata versão 16.0, adotando-se nível de significância de 5% (0,05). 

Foram elaborados cartogramas para a apresentação dos clusters formados por municípios que apresentaram significância estatística (p < 0,05) na redução na cobertura das VCP. Foram exibidos os aglomerados espaciais do tipo baixo-baixo (azul escuro), formados por municípios com baixa redução da cobertura vacinal e circundados por municípios com o mesmo comportamento; alto-alto (vermelho escuro), formados por municípios com redução da cobertura vacinal e cercados por municípios similares, alto-baixo (municípios com elevada redução da cobertura vacinal cercados por municípios que apresentaram baixa redução das coberturas vacinais) e baixo-alto (municípios com redução da cobertura vacinal baixa cercados por municípios com elevada redução da cobertura vacinal).

Por serem dados públicos, agregados, secundários e anonimizados, o estudo dispensa apreciação por Comitê de Ética em Pesquisa, conforme Resolução CNS nº 510/2016.

RESULTADOS

De janeiro de 2011 a dezembro de 2020, a cobertura das VCP no Brasil foi de 75,17% (IC95% 67,18 – 80,99) e durante a pandemia da COVID-19, período de 2020 a 2021, a cobertura vacinal mediana foi de 61,21% (52,38 – 68,17) (p=0,000), correspondendo a redução de 18,57%. 

Todas as regiões apresentaram redução estatisticamente significativa na mediana de cobertura vacinal das VCP durante as medidas de distanciamento social. 

Todos as 27 Unidades Federativas (UF) apresentaram redução estatisticamente significativa na mediana de cobertura vacinal, variando de 3,4% no Piauí (p=0,027) a 38,50% em Roraima (p=0,000) (Tabela 1).

Tabela 1- Mediana e variação percentual da mediana da cobertura das vacinas contra a poliomielite no Brasil, entre os meses de janeiro de 2011 a dezembro de 2019 e de janeiro de 2020 a dezembro de 2021. Programa Nacional de Imunização, Brasil.

% da Mediana de cobertura vacinal (P25-P75)

Regiões e UF

Antes

Durante

Jan/2011 a dez/2019

Jan/2020 a dez/2021

Variação (%)

p*

BRASIL

75,17 (67,18 - 80,99)

61,21 (52,38 - 68,17)

-18,57

0,000

NORTE

71,18 (62,12 - 77,73)

53,41 (45,465 - 65,345)

-24,96

0,000

AC

67,93 (62,6 - 70,08)

46,81 (43,26 - 53,67)

-31,09

0,000

AP

44,42 (38,40 - 61,37)

36,66 (32,1 - 42,93)

-17,47

0,002

AM

77,02 (68,19 - 81,18)

57,85 (51,49 - 61,59)

-24,89

0,000

PA

58,89 (53,14 - 62,35)

47,68 (43,94 - 50,13)

-19,035

0,000

RO

76,88 (75,26 - 79,73)

68,23 (65,88 - 75,98)

-11,25

0,000

RR

82,44 (71,51 - 86,21)

50,70 (47,66 - 62,40)

-38,50

0,000

TO

75,77 (71,90 - 79,06)

72,02 (69,45 - 74,38)

-4,95

0,009

NORDESTE

71,20 (63,95 - 79,44)

56,90 (52,29 - 61,25)

-20,08

0,000

AL

81,79 (80,61 - 85,95)

57,35 (55,91 - 61,73)

-29,88

0,000

BA

60,11 (55,28 - 63,52)

42,77 (40,63 - 51,01)

-28,85

0,000

CE

84,11 (79,88 - 88,72)

62,19 (60,61 - 74,16)

-26,06

0,000

MA

65,29 (62,01 - 68,93)

47,19 (44,21 - 49,96)

-27,72

0,000

PB

75,45 (67,69 - 81,59)

56,15 (54,59 - 61,95)

-25,58

0,000

PE

75,59 (71,10 - 77,78)

53,34 (52,39 - 56,57)

-29,44

0,000

PI

65,71 (63,12 - 70,18)

63,43 (60,28 - 66,25)

-3,46

0,027

RN

67,28 (61,97 - 73,73)

57,55 (54,13 - 59,05)

-14,46

0,000

SE

73,11 (64,58 - 76,45)

58,18 (54,99 - 59,14)

-20,42

0,000

CENTRO-OESTE

77,08 (72,77 - 81,77)

66,65 (64,03 - 71,34)

-13,53

0,000

DF

78,42 (75,27 - 79,14)

70,81 (69,09 - 72,93)

-9,70

0,000

GO

75,45 (72,43 - 78,94)

61,94 (57,96 - 64,60)

-17,91

0,000

MT

72,60 (69,22 - 75,85)

65,37 (64,22 - 68,30)

-9,96

0,000

MS

89,96 (79,55 - 95,73)

67,48 (65,17 - 71,92)

-24,99

0,000

SUDESTE

77,96 (69,02 - 81,40)

64,82 (49,49 - 69,80)

-16,85

0,000

ES

79,46 (71,54 - 80,91)

63,02 (61,09 - 64,87)

-20,69

0,000

MG

83,53 (77,01 - 84,48)

68,78 (65,90 - 77,06)

-17,66

0,000

RJ

61,16 (55,85 - 73,87)

43,97 (40,84 - 44,79)

-28,11

0,000

SP

78,30 (71,50 - 81,00)

69,71 (68,15 - 72,50)

-10,97

0,001

SUL

80,34 (77,89 - 83,96)

72,00 (64,50 - 77,65)

-10,38

0,000

PR

79,26 (71,74 - 81,88)

64,15 (58,74 - 69,20)

-19,06

0,000

SC

83,95 (80,63 - 86,66)

76,13 (74,83 - 82,06)

-9,32

0,000

RS

79,47 (75,91 - 82,75)

66,52 (65,09 - 77,04)

-16,30

0,000

Nota: p= Percentil; * Teste de Mann-Whitney (diferença entre medianas).

Pela análise espacial, há predomínio de aglomerados espaciais do tipo alto-alto nas Regiões Norte e Nordeste do país, enquanto os clusters do tipo baixo-baixo predominaram na Região Sul. (Figura 1) 

Figura 1 - LISA Cluster Map - Distribuição dos aglomerados espaciais das reduções das coberturas da VCP durante a pandemia da COVID-19 nos municípios brasileiros, no período de 2011–2021.  

DISCUSSÃO

 Durante a pandemia da COVID-19 observou-se redução significativa na mediana de cobertura vacinal nas cinco Regiões do Brasil: Norte (-24,98%), Nordeste (-20,08%), Centro-Oeste (-13,53%), Sudeste (-16,85%) e Sul (-10,38%) e nas 27 UF, principalmente em Roraima (-38,50%), Acre (-31,09%), Alagoas (-29,88%) e Pernambuco (-29,44%). Aglomerados espaciais do tipo alto-alto (redução entre 22,0% a 83,0%) predominaram nas Regiões Norte e Nordeste do Brasil, explicitando o elevado contingente de crianças suscetíveis à poliomielite nestas regiões do país.  

A partir de 1988, a imunização em massa com as vacinas VOP e VIP(10) possibilitou a redução em 99% da taxa global de poliomielite(2,11). Em 1994, a Região das Américas foi a primeira a ser declarada livre da poliomielite, devido à vacinação sistematizada contra a poliomielite pelo PNI, que oferece gratuitamente VIP aos 2, 4 e 6 meses e reforço aos 15 meses, com meta anual de 95% de cobertura da população alvo(3,4,12). Embora as estratégias de vacinação contra os Poliovírus selvagens tipo 2 (WPV-2) e tipo 3 (WPV-3) do mundo, o tipo 1 (WPV-1) ainda circula no Afeganistão e no Paquistão(2,3,13).

Em 2019, a cobertura vacinal média no Brasil não alcançou a meta de 95%, situação que foi agravada pela pandemia da COVID-19(5).que impactou nas coberturas das vacinas preconizadas para a infância agravando as diferenças históricas de cobertura vacinal entre as regiões do país(6,12,14). Destaca-se o Norte e o Nordeste, com redução de 24,96% e 22,08% na cobertura das VCP, respectivamente. Isso ocorre pelas desigualdades no acesso aos serviços de saúde nessas regiões, tradicionalmente marcadas pelos menores indicadores de imunização(14,15).

Historicamente, além da pandemia, diversos fatores reduziram as coberturas vacinais, como a hesitação vacinal, que pode ser explicada pela falsa percepção de que as doenças infecciosas estão controladas ou foram eliminadas e, portanto, não representam risco para as criança e a indisponibilidade de alguns imunobiológicos nos serviços de Atenção Básica(12,15).

CONCLUSÃO

Evidenciou-se a redução das coberturas da vacina contra a poliomielite em crianças no Brasil durante a pandemia de COVID-19, que acentuou as desigualdades na cobertura das vacinas que previnem a poliomielite. Dessa forma, este estudo poderá direcionar estratégias de vacinação prioritárias para os locais com piores indicadores de cobertura vacinal contra a poliomielite para impedir seu retorno no país.

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Declaramos não possuir apoio financeiro, nem conflito de interesse de natureza financeira ou de afiliações. Esta pesquisa foi desenvolvida como parte de atividades acadêmicas do curso de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais.