ESQUISTOSSOMOSE: PERFIL EPIDEMIOLÓGICO DOS CASOS NOTIFICADOS EM SERGIPE (2015-2025)    

SCHISTOSOMIASIS: EPIDEMIOLOGICAL PROFILE OF CASES REPORTED IN SERGIPE (2015-2025)  

ESQUISTOSOMIASIS: PERFIL EPIDEMIOLÓGICO DE LOS CASOS NOTIFICADOS EN SERGIPE (2015-2025)

Tipo de artigo: Artigo de estudo primário

 

 Autores

Carlos Daniel Oliveira da Silva

Graduando em Medicina. Universidade Tiradentes (UNIT), Estância, SE, Brasil.

ORCID: https://orcid.org/0009-0006-0416-985X 
 
Clesimary Molina Evangelista Martins

Mestre em Saúde Coletiva (Universidade de Brasília – UNB). Graduada em Fisioterapia e em Educação Física (Universidade Tiradentes – UNIT). Docente da Universidade Tiradentes (UNIT), SE, Brasil.

ORCID: https://orcid.org/0000-0003-2342-6779 
 
Nara Michelle Moura Soares

Doutora em Saúde Pública (Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC). Mestre em Educação Física (Universidade Federal de Sergipe – UFS). Graduada em Educação Física (Universidade Federal de Sergipe – UFS). Docente da Universidade Tiradentes (UNIT), SE, Brasil.

ORCID: https://orcid.org/0000-0001-9910-1730 

Bianca Fernanda Evangelista

Mestre em Ciências Aplicadas à Saúde (UFS-SE). Graduada em Serviço Social. Pós-graduada Lato Sensu em Auditoria, Planejamento e Gestão em Saúde. Graduada em Comunicação Social – Publicidade e Propaganda.

ORCID: https://orcid.org/0000-0003-3410-6869   

Licia Santos Santana

Doutora e Mestre em Ginecologia e Obstetrícia (USP – Ribeirão Preto). Especialista em Saúde da Mulher. Docente da Universidade Tiradentes (UNIT), Brasil.

ORCID: https://orcid.org/0000-0002-4720-8293 

Fernanda Dantas Barro

Mestre em Biotecnologia Industrial. Graduada em enfermagem. Docente da Universidade Tiradentes (UNIT), SE, Brasil.

ORCID: https://orcid.org/0000-0001-9155-1665 
 

Camila Gomes Dantas

Doutora em Biotecnologia Industrial (Universidade Tiradentes – UNIT). Docente da Universidade Tiradentes (UNIT), Brasil.

ORCID: https://orcid.org/0000-0002-3018-1848 

RESUMO

Objetivo: O presente estudo teve como objetivo analisar o perfil epidemiológico dos casos notificados de esquistossomose em Sergipe, no período de janeiro de 2015 a julho de 2025, a partir de dados secundários do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN). Método: Trata-se de um estudo retrospectivo, transversal e de abordagem quantitativa. Foram incluídos casos notificados em todas as faixas etárias, considerando as variáveis: município de infecção, sexo, raça/cor, faixa etária, escolaridade, forma clínica e evolução dos casos. Resultado: Identificaram-se 1.066 registros de esquistossomose no período analisado, com maior concentração em municípios do interior do estado (86,8%). Observou-se predomínio do sexo masculino (55,1%) e de indivíduos pardos (72,0%). Quanto à escolaridade prevaleceu o ensino fundamental incompleto. Clinicamente, a forma intestinal foi a mais frequente (38,3%). O diagnóstico apresentou elevada proporção de resultados positivos em testes qualitativos (41,8%) e quantitativos (43,2%). Conclusão: Os achados reforçam a necessidade de fortalecimento das ações de vigilância epidemiológica, ampliação do diagnóstico e tratamento precoce, além da implementação de políticas públicas voltadas à educação em saúde e à melhoria do saneamento básico. Tais medidas são essenciais para reduzir a incidência e os impactos da doença em áreas endêmicas como o estado de Sergipe.

DESCRITORES: Esquistossomose; Epidemiologia; Monitoramento epidemiológico; Vigilância em saúde pública.

ABSTRACT

Objective: This study aimed to analyze the epidemiological profile of reported schistosomiasis cases in Sergipe, from January 2015 to July 2025, using secondary data from the Notifiable Diseases Information System (SINAN). Method: This is a retrospective, cross-sectional study with a quantitative approach. Reported cases from all age groups were included, considering the variables: municipality of infection, sex, race/color, age group, education level, clinical form, and case evolution. Results: 1.066 schistosomiasis cases were identified during the analyzed period, with a higher concentration in municipalities in the interior of the state (86.8%). A predominance of males (55.1%) and mixed-race individuals (72.0%) was observed. Incomplete primary education prevailed in terms of education level. Clinically, the intestinal form was the most frequent (38.3%). The diagnosis showed a high proportion of positive results in both qualitative (41.8%) and quantitative (43.2%) tests. Conclusion: The findings reinforce the need to strengthen epidemiological surveillance actions, expand diagnosis and early treatment, and implement public policies focused on health education and improved basic sanitation. These measures are essential to reduce the incidence and impact of the disease in endemic areas such as the state of Sergipe.

DESCRIPTORS: Schistosomiasis; Epidemiology; Epidemiological monitoring; Public health surveillance.

RESUMEN

Objetivo: Este estudio tuvo como objetivo analizar el perfil epidemiológico de los casos notificados de esquistosomiasis en Sergipe, desde enero de 2015 hasta julio de 2025, utilizando datos secundarios del Sistema de Información de Enfermedades de Notificación Obligatoria (SINAN). Método: Se trata de un estudio transversal retrospectivo con enfoque cuantitativo. Se incluyeron casos notificados de todos los grupos de edad, considerando las siguientes variables: municipio de infección, sexo, raza/color, grupo de edad, nivel educativo, forma clínica y evolución del caso. Resultados: Se identificaron 1066 casos de esquistosomiasis durante el periodo analizado, con una mayor concentración en los municipios del interior del estado (86,8 %). Se observó un predominio de hombres (55,1 %) y de personas mestizas (72,0 %). Predominó la educación primaria incompleta en cuanto al nivel educativo. Clínicamente, la forma intestinal fue la más frecuente (38,3 %). El diagnóstico mostró una alta proporción de resultados positivos tanto en las pruebas cualitativas (41,8 %) como en las cuantitativas (43,2 %). Conclusión: Los hallazgos refuerzan la necesidad de fortalecer las acciones de vigilancia epidemiológica, ampliar el diagnóstico y el tratamiento precoz, e implementar políticas públicas centradas en la educación para la salud y la mejora del saneamiento básico. Estas medidas son esenciales para reducir la incidencia y el impacto de la enfermedad en zonas endémicas como el estado de Sergipe.

DESCRIPTORES: Esquistosomiasis; Epidemiologia; Monitoreo epidemiológico; Vigilancia en salud pública.

INTRODUÇÃO

A esquistossomose é uma doença parasitária de evolução aguda ou crônica, endêmica em diversas regiões do mundo e prevalente em áreas tropicais e subtropicais, como o Brasil. Caracteriza-se por elevada morbimortalidade e possui forte relação com determinantes socioeconômicos e ambientais, configurando-se como um relevante problema de saúde pública.  A enfermidade é causada por seis espécies do gênero Schistosoma capazes de infectar o ser humano: S. mansoni, S. haematobium, S. japonicum, S. mekongi, S. intercalatum e S. guineensis. Entretanto, nas Américas, o S. mansoni é o principal agente etiológico, responsável pela quase totalidade dos casos notificados (1).

Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), apresentados no Global Neglected Tropical Diseases Dashboard de 2023, aproximadamente 253,8 milhões de pessoas necessitavam de tratamento preventivo contra a esquistossomose no mundo, sendo cerca de 2,27 milhões nas Américas. No Brasil, estima-se que cerca de 1,5 milhão de pessoas vivam em áreas de risco, principalmente nas regiões Nordeste e Sudeste (2). Essa elevada carga epidemiológica reflete não apenas a persistência do ciclo de transmissão, mas também os determinantes sociais e ambientais que sustentam a endemia, como saneamento básico precário e desigualdades sociais (1-3).

A esquistossomose é causada por seis espécies do gênero Schistosoma capazes de infectar seres humanos, sendo o S. mansoni o principal agente nas Américas. Seu ciclo biológico envolve a eliminação de ovos nas fezes, a eclosão de miracídios na água e a penetração destes em caramujos do gênero Biomphalaria, seu hospedeiro intermediário. Neles, ocorre a multiplicação e liberação de cercárias, formas infectantes que penetram a pele humana. No organismo, transformam-se em esquistossômulos, migram para o fígado e atingem a maturidade nas veias mesentéricas, onde produzem novos ovos. Parte desses ovos permanece retida nos tecidos, desencadeando reações inflamatórias crônicas importantes responsáveis por manifestações como fibrose hepática e hipertensão portal (4,5,6).

Clinicamente, a infecção apresenta-se de forma polimórfica, variando de quadros assintomáticos ou oligossintomáticos, que constituem a maioria dos casos, até formas graves, com envolvimento hepatoesplênico e risco de óbito. Além disso, ovos e antígenos do parasita podem atingir órgão extra-hepáticos, ocasionando manifestações pulmonares, renais, tireoidianas, neurológicas e até reprodutivas, contribuindo para a carga da doença e comprometendo a qualidade de vida dos indivíduos (1-4).

No diagnóstico, os métodos laboratoriais diretos, como a detecção de ovos em amostras de fezes pela técnica Kato-Katz, permanecem o padrão recomendado pelos programas de controle. Entretanto, novas abordagens vêm ganhando espaço, como os testes moleculares (PCR) e os ensaios imunoenzimáticos de maior sensibilidade, que podem auxiliar na identificação de infecções de baixa carga parasitária (1-3). O tratamento, por sua vez, é baseado no praziquantel, disponibilizado pelo Sistema Único de Saúde (SUS), com elevada eficácia, segurança e administração relativamente simples, embora sua posologia envolva a ingestão de vários comprimidos, proporcional ao peso do paciente.

Apesar desses avanços, a esquistossomose permanece como um importante problema de saúde pública no Brasil. A continuidade da transmissão está relacionada à ausência de saneamento básico universal, exposição populacional a corpos hídricos contaminados e à dificuldade de acesso aos serviços de saúde. Como resultado, a doença mantém impacto significativo sobre o desenvolvimento social e econômico de comunidades endêmicas (3-7).

No estado de Sergipe, o desafio é expressivo: dos 75 municípios, 51 são considerados endêmicos, segundo a Secretaria de Estado da Saúde (SES). A relevância da temática levou à aprovação da lei Estadual n° 9.700/2025, que institui a semana estadual de Conscientização sobre a Esquistossomose, realizada anualmente em setembro, com o intuito de fortalecer ações educativas e de prevenção (8,9).

Diante desse cenário, torna-se fundamental compreender os principais indicadores epidemiológicos da esquistossomose em Sergipe, considerando aspectos sociodemográficos, métodos de diagnósticos empregados, adesão ao tratamento e complicações associadas. Assim, este estudo tem como objetivo analisar qualitativamente o perfil epidemiológico dos casos notificados de esquistossomose em Sergipe no período de 2015 a 2025, contribuindo para subsidiar estratégias mais eficazes de controle da doença.

MÉTODO

Trata-se de um estudo retrospectivo, transversal e de abordagem quantitativa, desenvolvido a partir da análise de registros do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), do Ministério da Saúde. Foram incluídos no estudo crianças e adultos notificados com esquistossomose no período analisado, considerando as variáveis: município de infecção, sexo, raça/cor, faixa etária, escolaridade, forma clínica e evolução dos casos. Foram excluídos casos sem confirmação laboratorial.

Por utilizar dados secundários de domínio público, esta pesquisa foi dispensada da apreciação do Comitê de Ética em Pesquisa, conforme a Resolução nº 510, de 7 de abril de 2016, do Conselho Nacional de Saúde.

Inicialmente, os dados quantitativos foram tabulados e analisados por meio da estatística descritiva, com cálculo de frequências absolutas e relativas, distribuídas anualmente e segundo as categorias de cada variável. Para representar a evolução temporal dos casos, foi construída uma figura em série temporal com o número total de notificações de 2015 a 2025. A distribuição espacial da doença foi apresentada por meio de mapa coroplético dos municípios de Sergipe, elaborado no Microsoft Excel, relacionando a localização geográfica ao número acumulado de casos no período. Além disso, foi construída uma tabela consolidada com o número de casos anuais segundo variáveis clínicas e sociodemográficas. Todas as análises estatísticas foram conduzidas no software Jamovi, versão 2.3.

RESULTADOS

Entre janeiro de 2015 e julho de 2025, foram notificados 1.066 casos de esquistossomose em Sergipe (Tabela 1). Os dados coletados foram descritos segundo variáveis clínicas e sociodemográficas, permitindo delinear o perfil epidemiológico da doença no estado (10).

No que se refere às formas clínicas, verificou-se predomínio da forma intestinal (408 casos; 38,3%), seguida pela forma hepatoesplênica (71 casos; 6,7%). As formas agudas (26 casos; 2,4%) e hepato-intestinal (33 casos; 3,1%) apresentaram menor frequência. Ressalta-se que em 463 registros (43,4%) a informação foi ignorada ou não preenchida.

Em relação ao diagnóstico qualitativo, observou-se positividade em 446 casos (41,8%). Foram ainda identificados 239 exames não realizados (22,4%) e 330 registros ignorados/brancos (31,0%). Os resultados negativos corresponderam a 51 casos (4,8%). O diagnóstico quantitativo também apresentou elevada positividade, com detecção de um ou mais ovos em 461 casos (43,2%).

Quanto ao desfecho clínico, a maioria dos registros constou como ignorado/branco (664 casos; 62,3%). Entre os informados, observou-se cura em 326 casos (30,6%) e ausência de cura em 15 (1,4%). Foram registrados 46 óbitos atribuídos à esquistossomose (4,3%) e 15 óbitos por outras causas (1,4%).

A variável escolaridade apresentou alta proporção de dados ignorados/brancos (331 casos; 31,1%). Entre os registros informados, destacou-se a 1ª a 4ª série incompleta do ensino fundamental (185 casos; 17,4%), seguida pela 5ª a 8ª série incompleta (137 casos; 12,9%). Outras categorias incluíram 4ª série completa (65 casos; 6,1%), ensino fundamental completo (56 casos; 5,3%), ensino médio incompleto (57 casos; 5,3%) e ensino superior completo (41 casos; 3,8%).

Quanto ao sexo, houve discreto predomínio masculino (587 casos; 55,1%) em relação ao feminino (479 casos; 44,9%). Em relação à cor/raça, predominou a categoria parda (768 casos; 72,0%), seguida por branca (142 casos; 13,3%) e preta (78 casos; 7,3%). Amarela (7 casos; 0,7%) e indígena (4 casos; 0,4%) foram menos frequentes, enquanto ignorado/branco 67 casos (6,3%).

Ademais, quanto ao local de residência, verificou-se que a maioria dos casos ocorreu em municípios do interior do estado (925 casos; 86,8%), enquanto a capital, Aracaju, concentrou 141 casos (13,2%) ao longo da série.

Tabela 1. Distribuição anual dos casos de esquistossomose segundo variáveis clínicas e sociodemográficas em Sergipe de 2015 a 2025

Variáveis clínicas e sociodemográficas

2015

2016

2017

2018

2019

2020

2021

2022

2023

2024

2025

Total

Forma

Clínica

Ignorado/

Branco

105

33

31

63

39

31

31

32

51

37

10

463

Intestinal

33

54

51

43

34

12

35

51

39

39

17

408

Hepato Intestinal

1

4

1

3

7

4

3

3

3

4

-

33

Hepato Esplênica

4

7

7

7

10

7

5

9

12

1

2

71

Aguda

1

9

4

2

3

2

1

-

2

1

1

26

Outra

7

7

5

7

11

2

6

6

8

5

1

65

Diagnóstico Qualitativo

Ignorado/

Branco

68

29

27

38

33

24

19

35

24

28

5

330

Positivo

55

57

46

58

43

21

41

44

50

22

9

446

Negativo

7

7

5

4

6

1

2

10

4

4

1

51

Não realizado

21

21

21

25

22

12

19

12

37

33

16

239

Total

151

114

99

125

104

58

81

101

115

87

31

1066

Diagnóstico Quantitativo

Um ou + ovos

90

34

44

57

43

17

37

41

52

34

12

461

Desfecho

Ignorado

/Branco

92

72

66

85

74

39

45

47

72

52

20

664

Cura

56

34

28

33

22

12

27

42

34

28

10

326

Não Cura

-

3

2

1

1

1

2

1

2

2

-

15

Óbito por Esquistossomose

2

5

3

4

4

5

6

9

3

4

1

46

Óbito por outras causas

1

-

-

2

3

1

1

2

4

1

-

15

Faixa etária

<1 Ano

2

1

-

3

-

-

-

-

-

-

-

6

1-4 anos

5

2

1

2

2

-

3

2

2

3

-

22

5-9 anos

10

7

6

6

3

2

3

4

4

1

1

47

10-14 anos

15

12

10

8

5

2

3

7

9

2

2

75

15-19 anos

8

12

8

11

6

3

7

6

8

5

1

75

20-39 anos

52

32

42

40

37

10

23

28

32

21

10

327

40-59 anos

28

32

25

40

34

30

28

36

33

39

15

340

65-69 aos

12

3

4

1

3

5

-

4

8

4

1

45

70-79 anos

4

4

1

6

2

2

9

4

8

2

1

43

≥ 80 anos

5

-

-

-

2

1

2

4

3

3

-

20

Sexo

Masculino

74

71

57

71

52

41

51

48

57

50

15

587

Feminino

77

43

42

54

52

17

30

53

58

37

16

479

Cor/raça

Ignorado/

Branco

13

10

6

8

3

4

3

7

6

4

3

67

Branca

20

18

9

22

12

4

14

11

16

8

8

142

Preta

4

8

5

17

9

1

5

7

10

8

4

78

Amarela

-

-

2

2

1

-

-

-

2

-

-

7

Parda

112

78

77

76

79

49

59

76

80

66

16

768

Indígena

2

-

-

-

-

-

-

-

1

1

-

4

Escolaridade

Ignorado

/Branco

80

42

39

39

24

16

15

26

33

11

6

331

Analfabeto

4

7

2

4

6

4

4

4

4

2

3

44

1ª a 4ª série incompleta do EF

15

28

21

28

14

15

14

13

14

22

1

185

4ª série completa do EF

9

4

7

9

10

2

5

9

6

3

1

65

5ª a 8ª série incompleta do EF

18

12

6

13

16

6

8

13

16

21

8

137

Ensino fundamental completo

6

2

5

6

8

1

8

7

8

5

-

56

Ensino médio incompleto

3

6

3

7

5

3

7

8

7

7

1

57

Educação superior incompleta

1

2

1

-

-

1

3

3

2

1

1

15

Educação superior completa

1

-

5

5

3

5

6

6

6

2

2

41

Não se aplica

12

3

1

7

2

1

5

3

5

3

1

43

Local da Residência

Aracaju - SE

6

14

7

8

6

7

11

23

25

28

6

141

Demais município - SE

145

100

92

117

98

51

70

78

90

59

25

925

Legenda: (-) representa casos não notificados.

Fonte: elaboração própria (2025), a partir de dados do SINAN.

Outrossim, a figura 1 apresenta a quantidade de casos por ano, ao longo da série temporal de quase 10 anos. O menor número de casos notificados ocorreu no ano de 2020, o ano mais crítico da pandemia da COVID-19, e o maior número de casos foi registrado em 2015. 1

Figura 1. Número total de casos de esquistossomose em Sergipe de 2015 a 2025.

Fonte: elaboração própria (2025), a partir de dados do SINAN.

Por fim, os municípios com maior número de casos foram Neópolis (85 casos), Aracaju (68), Moita Bonita (63), Riachão do Dantas e Nossa Senhora da glória (43 casos em cada) e Estância (41). O mapa coroplético apresenta a distribuição geográfica dos casos notificados nos anos estudados (Figura 2).

Figura 2. Distribuição geográfica de casos notificados de esquistossomose por município de Sergipe de 2015 a 2025

Uma imagem contendo Mapa

O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.

Legenda: as cores mais escuras representam maior número de casos.

Fonte: elaboração própria (2025), a partir de do SINAN.

DISCUSSÃO

O presente estudo analisou os casos de esquistossomose notificados em Sergipe entre 2015 e 2025, delineando o perfil epidemiológico da doença no estado. Os achados revelaram padrões relevantes, que permitem entender a persistência da endemia em áreas específicas e os fatores que condicionam sua manutenção.

Foram notificados 1.066 casos no período, com maior registro em 2015 e menor em 2020. A redução observada nesse ano provavelmente não reflete queda real na incidência, mas sim subnotificação, associada ao impacto da pandemia de COVID-19, que sobrecarregou os serviços de saúde e reduziu a capacidade diagnóstica e de vigilância. Essa situação foi amplamente relatada em diferentes agravos de notificação compulsória durante o período pandêmico (11).

A distribuição espacial mostrou que a maioria dos casos ocorreu em municípios do interior (86,8%), enquanto a capital concentrou apenas 13,2%. Esse padrão reflete tanto a maior densidade populacional dessas áreas quanto as condições ambientais e socioeconômicas que favorecem a transmissão, como saneamento básico precário, contato ocupacional com águas contaminadas (agricultura irrigada, pesca artesanal) e atividades recreativas em rios. Estudos prévios corroboram essa relação entre vulnerabilidade social, condições ambientais e manutenção da esquistossomose em áreas rurais (1-12).

Quanto ao perfil sociodemográfico, houve predomínio do sexo masculino (55,1%), achado consistente com a literatura, que relaciona essa maior prevalência à maior exposição a atividades de risco. A faixa etária mais acometida foi de adultos economicamente ativos, o que reforça a associação entre a doença e ocupações laborais. A predominância de casos entre indivíduos pardos (72,0%) pode refletir as desigualdades sociais e raciais, uma vez que populações negras e pardas estão mais frequentemente expostas a condições de vulnerabilidade e enfrentam barreiras de acesso aos serviços de saúde (1).

A análise da escolaridade revelou predominância de ensino fundamental incompleto, reforçando a relação entre baixa escolaridade, vulnerabilidade social e maior risco de exposição. No entanto, a elevada proporção de dados ignorados (31,1%) limita inferências mais robustas e evidencia fragilidades no preenchimento das fichas do SINAN, situação recorrente em estudos epidemiológicos brasileiros.

No âmbito clínico, predominou a forma intestinal (38,3%), seguida da hepatoesplênica (6,7%), enquanto as formas agudas foram menos frequentes (2,4%). Este achado pode estar relacionado ao caráter oligossintomático ou assintomático das formas iniciais, dificultando o diagnóstico precoce e favorecendo a progressão para formas crônicas, associadas a maiores complicações clínicas e risco de óbito. Nesse contexto, estratégias de rastreamento ativo em áreas endêmicas são fundamentais para a detecção precoce e prevenção (13).

O diagnóstico mostrou elevada proporção de resultados positivos tanto em testes qualitativos (41,8%) quanto quantitativos (43,2%), compatíveis com a persistência da transmissão ativa no estado. Entretanto, a elevada frequência de exames não realizados ou ignorados compromete a acurácia da vigilância. Ressalta-se que o método Kato-Katz, considerado padrão ouro no Brasil, não foi discriminado nas fichas de notificação, o que limita análises mais específicas sobre o diagnóstico.

Quanto ao desfecho clínico, a maioria dos registros constava como ignorado/branco (62,3%), evidenciando falhas no acompanhamento e monitoramento de cura. Entre os casos informados, observou-se taxa de cura de 30,6%, compatível com a efetividade do praziquantel, único fármaco disponível e amplamente utilizado no Brasil (14). Apesar de sua alta eficácia, os 46 óbitos por esquistossomose identificados (4,3%) refletem a persistência de falhas no diagnóstico precoce e no acesso ao tratamento, sobretudo em áreas vulneráveis.

Assim, os achados reforçam que a esquistossomose permanece como importante problema de saúde pública em Sergipe, condicionado por fatores sociais, ambientais e estruturais. A elevada proporção de dados incompletos no SINAN limita análises mais precisas e aponta para a necessidade de capacitação das equipes de saúde no preenchimento das fichas de notificação. Ademais, os resultados evidenciam a urgência de políticas públicas que fortaleçam ações de saneamento básico, educação em saúde, rastreamento ativo e ampliação do acesso ao diagnóstico e tratamento oportuno, visando reduzir a morbimortalidade e interromper a cadeia de transmissão da doença.

CONCLUSÃO

O estudo evidenciou que a esquistossomose permanece como um importante problema de saúde pública em Sergipe, com maior ocorrência entre homens adultos, de baixa escolaridade e residentes em áreas rurais, refletindo a influência dos determinantes sociais da saúde. A concentração de casos no interior do estado e a predominância das formas clínicas mais avançadas reforçam as desigualdades no acesso ao diagnóstico e ao tratamento oportunos. A incompletude dos registros no SINAN destaca a necessidade de aprimorar a vigilância epidemiológica. O enfrentamento da esquistossomose requer ações intersetoriais contínuas, com ênfase na educação em saúde, no fortalecimento da atenção básica e nos investimentos em saneamento, essenciais para reduzir a transmissão e a carga da doença no território sergipano.

REFERÊNCIAS

  1. Brasil. Ministério da Saúde. Vigilância da esquistossomose mansoni: 1ª edição eletrônica [Internet]. Brasília: Ministério da Saúde; 2025 [citado em 2025 set 13]. Disponível em: https://www.eliminateschisto.org/sites/gsa/files/content/attachments/2024-12-01/Vigila%CC%82ncia%20da%20Esquistossomose%20Mansoni%20-%201%C2%AA%20edic%CC%A7a%CC%83o%20eletro%CC%82nica.pdf.
  2. Organização Mundial da Saúde (OMS). Painel global de doenças tropicais negligenciadas 2023 – esquistossomose [Internet]. Genebra: OMS; 2023 [citado em 2025 set 14]. Disponível em: https://apps.who.int/neglected_diseases/ntddata/sch/sch.html.
  3. Organização Mundial da Saúde (OMS). Global report on neglected tropical diseases 2023 [Internet]. Genebra: OMS; 2023 [citado em 2025 set 16]. Disponível em: https://www.who.int/teams/control-of-neglected-tropical-diseases/global-report-on-neglected-tropical-diseases-2023
  4. Colley DG, Secor WE, Campbell CH Jr, King CH. Review of 2022 WHO guidelines on the control and elimination of schistosomiasis. Lancet Infect Dis. 2022;22(3):221–2. doi:10.1016/S1473-3099(22)00221-3.
  5. Dani R, Passos MCF. Gastroenterologia essencial. 4ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2018.
  6. Rey L. Bases da parasitologia médica. 3ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2009.
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  8. Assembleia Legislativa do Estado de Sergipe (ALESE). Sergipe institui Semana Estadual de Conscientização sobre a Esquistossomose [Internet]. Aracaju: ALESE; 2025 [citado em 2025 set 14]. Disponível em: https://al.se.leg.br/sergipe-institui-semana-estadual-de-conscientizacao-sobre-a-esquistossomose/ .
  9. Brasil. Secretaria de Estado da Saúde de Sergipe. Secretaria de Saúde alerta municípios sobre a incidência de casos de esquistossomose [Internet]. Aracaju: Secretaria de Estado da Saúde; 2025 [citado em 2025 set 14]. Disponível em: https://saude.se.gov.br/secretaria-de-saude-alerta-municipios-sobre-a-incidencia-de-casos-de-esquistossomose/ .
  10. Brasil. Ministério da Saúde. Departamento de Informática do SUS – DATASUS. TabNet: esquistossomose – Brasil [Internet]. Brasília: Ministério da Saúde; 2025 [citado em 2025 set 20]. Disponível em: http://tabnet.datasus.gov.br/cgi/tabcgi.exe?sinannet/cnv/esquistobr.def .
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  13. Ferreira MU. Parasitologia contemporânea. 2ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2020.
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