Avaliação de um Livro de Abordagem Preventiva na prevenção ao abuso sexual infantil
Evaluation of a Preventive Approach Book in the prevention of child sexual abuse
Evaluación de un Libro de Abordaje Preventivo en la prevención del abuso sexual infantil
Rayssa Lima Braga Tiago
Mestranda em Psicologia. Universidade Federal do Maranhão
Orcid: https://orcid.org/0000-0003-0005-9419
Catarina Malcher Teixeira
Doutora em Psicologia. Universidade Federal do Maranhão
Orcid: https://orcid.org/0000-0003-0005-9419
RESUMO
Introdução: O abuso sexual infantil é considerado um problema de saúde pública, com alta taxa de incidência e que acarreta consequências físicas e psicológicas para as vítimas e seus familiares. Por outro lado, Livros Infantis de Abordagem Preventiva têm sido utilizados com a finalidade de informar, prevenir e identificar casos de abuso sexual infantil. Objetivo: Assim, o presente estudo tem o objetivo de avaliar o potencial de prevenção de um livro infantil brasileiro especializado, por meio de um instrumento de avaliação baseado em critérios da literatura internacional. Método: Foram selecionados 07 juízes pesquisadores na área de ASI, contactados por e-mail. Após aceite, os juízes receberam o livro em formato PDF (Portable Document Format), e o instrumento de avaliação (CAL), inserido na plataforma Google Formulários. Resultados e Conclusão: Como resultados o livro apresentou potencial no desenvolvimento das habilidades autoprotetivas: Reconhecer, Resistir e Relatar situações de abuso sexual infantil.
DESCRITORES: Prevenção ao Abuso sexual infantil; Violência sexual infantil; Livros infantis
ABSTRACT
Introduction: Child sexual abuse is considered a public health problem, with a high incidence rate and significant physical and psychological consequences for victims and their families. On the other hand, preventive children's books have been used to inform, prevent, and identify cases of child sexual abuse. Objective: Thus, the present study aims to evaluate the preventive potential of a specialized Brazilian children's book using an assessment instrument based on criteria from the international literature. Method: Seven expert judges in the field of child sexual abuse (CSA) were selected and contacted by e-mail. Upon acceptance, the judges received the book in PDF (Portable Document Format) and the assessment instrument (CAL), administered through the Google Forms platform. Results and Conclusion: The results showed that the book demonstrated potential in the development of self-protective skills: Recognizing, Resisting, and Reporting situations of child sexual abuse.
DESCRIPTORS: Child Sexual Abuse Prevention; Child Sexual Violence; Children's Books.
RESUMEN
Introducción: El abuso sexual infantil es considerado un problema de salud pública, con una alta tasa de incidencia y que ocasiona consecuencias físicas y psicológicas para las víctimas y sus familiares. Por otro lado, los libros infantiles de enfoque preventivo han sido utilizados con la finalidad de informar, prevenir e identificar casos de abuso sexual infantil. Objetivo: Así, el presente estudio tiene como objetivo evaluar el potencial preventivo de un libro infantil brasileño especializado, mediante un instrumento de evaluación basado en criterios de la literatura internacional. Método: Se seleccionaron siete jueces investigadores en el área de abuso sexual infantil (ASI), quienes fueron contactados por correo electrónico. Tras aceptar la invitación, los jueces recibieron el libro en formato PDF (Portable Document Format) y el instrumento de evaluación (CAL), disponible en la plataforma Google Forms. Resultados y Conclusión: Como resultado, el libro presentó potencial para el desarrollo de las habilidades de autoprotección: Reconocer, Resistir y Reportar situaciones de abuso sexual infantil.
DESCRIPTORES: Prevención del Abuso Sexual Infantil; Violencia Sexual Infantil; Libros Infantiles.
INTRODUÇÃO
O abuso sexual infantil se caracteriza pelo envolvimento de uma criança ou adolescente em qualquer ato sexual, concluído ou não, que ocorre entre uma criança ou adolescente a partir da coerção por outra pessoa em situação de poder (1-2). O ASI é considerado um problema de saúde pública, com alta taxa de incidência, presente no cotidiano de crianças e adolescentes (3). No Brasil, entre 2015 e 2021, foram notificados 202.948 casos de violência sexual infantil(4) .
Apesar dos números, esse tipo de violência é difícil de ser notificada, em razão do tabu social na discussão de aspectos sexuais (5) e, por esses abusos ocorrerem de forma mais frequente em ambientes em que a criança deveria ser protegida e cuidada (4). A maior parte (82,5%) dos abusos foram cometidos por conhecidos da vítima, sendo que 40,8% eram pais ou padrastos; 37,2% irmãos, primos ou outro parente; e 8,7% avós (6) .
O ASI acarreta consequências a curto e a longo prazo: efeitos na saúde física e psicológica (7), dificuldade no desenvolvimento intelectual e acadêmico (8) e dificuldade de relacionamentos íntimos (9) . Diante das evidências apresentadas sobre as graves consequências do ASI, torna-se indispensável investir em medidas preventivas. Na literatura, programas de prevenção que incluem o treinamento de Habilidades Autoprotetivas (HA) têm sido eficazes na promoção de mudanças no comportamento de crianças e adolescentes. (1,10) .
Essas habilidades incluem: Reconhecer a aproximação inadequada de um adulto, discriminando um risco; Reagir, com o desenvolvimento de respostas verbais (por exemplo, dizer “Não!” em voz alta) e respostas motoras (por exemplo, afastar-se) e Relatar para alguém sobre o ocorrido (10). Dentro desses programas, diversos recursos são utilizados para desenvolver essas habilidades. Dentre eles, os Livros Infantis de Abordagem Preventiva (LIAPs), que possibilitam que temas desafiadores sejam abordados de forma lúdica, capturando a atenção de crianças e adolescentes (11) .
Em contato com a literatura as crianças têm a possibilidade de viverem novas descobertas e novas experiências sobre o mundo que está à sua volta (12) e desenvolvem a capacidade de resolver problemas semelhantes aos dos personagens (11,13), através de elementos como histórias e narrativas atraentes, identificação com os personagens, ilustrações e linguagem acessível (13) . Com isso, as histórias contadas em livros servem como facilitadores para promover discussões sobre o cotidiano das crianças e abordar temas relacionados à violência vivenciada (11).
Um levantamento de LIAPs, por meio dos bancos de dados de sites de editoras nacionais que publicam materiais voltados para educadores, psicopedagogos e psicólogos, usando como descritores: abuso sexual infantil e livro infantil, identificou vinte e três obras, publicadas no período de 2008 a 2023. Das obras identificadas apenas seis foram avaliadas quanto ao seu potencial de alcance na prevenção ao abuso, o que corrobora com resultados anteriores, que identificaram a escassez de estudos brasileiros que avaliam o potencial de prevenção que estes livros oferecem (11).
Um trabalho reuniu 27 critérios da literatura internacional em um instrumento
brasileiro de avaliação de LIAPs, chamado CAL – Critérios para Avaliação de LIAPs – Livros Infantis de Abordagem Preventiva com o objetivo de avaliar livros infantis brasileiros sobre prevenção de abuso sexual. Como resultado, identificaram seis livros infantis brasileiros que apresentam potencial para a prevenção do abuso sexual infantil, embora nenhum deles tenha preenchido todos os critérios analisados. A maior parte dos livros relata o abusador como um familiar ou conhecido. Três dos livros avaliados não contemplaram o critério para ensinar as habilidades de Resistir e, apenas um livro incentivou a denúncia em casos de abuso (11).
Resultados semelhantes foram encontrados em uma análise de 44 livros, que verificou que, embora a maioria dos livros siga conselhos derivados da literatura acadêmica, apenas 7 livros continham 70% ou mais da pesquisa de informações consideradas essenciais (1,10) .
Um estudo indicou, entre várias possibilidades de pesquisa, a de apontar para os pesquisadores a direção para a validação de obra em nível nacional, no que se refere a sua capacidade de prevenção ao abuso sexual infantil, uma vez que indica o alcance da obra no processo de ensino de HA (11).
Embora a produção nacional concentre-se em maior parte na infância e adolescência, ainda é pequena a produção em pesquisas de avaliação de programas de prevenção e suas evidências de eficácia e de efetividade ainda são frágeis, se fazendo necessário a avaliação dos reais impactos e benefícios das ferramentas utilizadas para prevenção, avaliando se, de fato, elas contribuem para a promoção de competências para lidar com situações de abuso (1,10). Neste contexto, o presente estudo tem como objetivo analisar a Literatura Infantil e a Prevenção ao Abuso Sexual, com uma análise de “CARINHO SIM, ABUSO NÃO: Aprendendo com Ivete”.
Participantes
Foram convidados 07 juízes pesquisadores da área de ASI. Os juízes que participaram da avaliação do livro CARINHO SIM, ABUSO NÃO: Aprendendo com Ivete possuem formação nas áreas de Psicologia e Psiquiatria, abrangendo diferentes níveis de titulação, incluindo graduação, especialização, mestrado e doutorado.
Em relação à experiência com ASI, a maioria dos juízes tem atuação direta na área, seja no atendimento clínico, no setor público (como no Sistema Único de Assistência Social - SUAS e nos Centros de Referência Especializados de Assistência Social - CREAS) ou em contextos acadêmicos e de pesquisa. Alguns juízes trabalham especificamente com vítimas de abuso sexual infantil, enquanto outros atuam de forma mais abrangente, profissionalmente e/ou academicamente, na proteção da infância e adolescência.
Há também juízes doutores que possuem ampla experiência profissional e atuam como pesquisadores na área de validação de instrumentos, mas não atuam diretamente com vítimas de abuso sexual infantil, o que pôde trazer diferentes percepções sobre a eficácia dos critérios avaliados. A diversidade na formação e experiência dos juízes contribuiu para uma análise ampla e multifacetada do livro, considerando tanto aspectos clínicos e psicológicos quanto perspectivas institucionais e de políticas públicas voltadas à proteção da infância.
Instrumento
A avaliação foi realizada com base em critérios definidos na literatura, organizados em um instrumento denominado Critérios para Avaliação de LIAPs, abreviado como CAL (10). O instrumento inclui 27 critérios extraídos da literatura internacional. O instrumento utilizado é dividido em quatro critérios: reconhecer, resistir, relatar e outros. Esses critérios foram elaborados a partir de estudos anteriores (12,13), com o intuito de promover características eficazes na criação de livros que realmente atendam ao propósito de prevenir o abuso sexual infantil. Para cada critério, as opções de resposta são: Atende o critério (S), atende parcialmente o critério (P) e não atende o critério (N).
Tabela 1- Critérios para Avaliação de LIAPS (livros infantis de abordagem preventiva)
Habilidades Auto Protetivas | Critérios |
RECONHECER | Apresenta modelos positivos? |
Ensina o pensamento crítico e habilidades de tomada de decisão? | |
Apresenta personagens com os quais os leitores possam se identificar? | |
Ensina sobre as partes íntimas e anatomia do seu próprio corpo? | |
Desmistifica o sexo e contribui para atitudes saudáveis em relação à sua sexualidade e seu corpo? | |
Fornece instruções explícitas sobre a posse de seu próprio corpo (meu corpo me pertence)? | |
Evita soluções simples, que não são úteis ou realistas, pois não existem finais felizes sem trabalho árduo? | |
Ajuda a discriminar entre um toque adequado e inadequado? | |
Ajuda a discriminar a diferença entre segredos e surpresas, ressaltando que alguns segredos devem ser informados? | |
Ensina que os adultos às vezes agem de forma inadequada ou inapropriada? | |
Procura diferenciar os tipos de abusos sexuais, diferenciando ainda carícias abusivas de toques afetuosos? | |
Inclui informações para ajudar os leitores a reconhecer se os mesmos são vítimas de abuso? | |
É cuidadoso ao apresentar o(a) ofensor(a)? | |
Salienta que o comportamento inadequado de um adulto nunca é culpa da criança? | |
Ensina que as vítimas não têm um estereótipo, ou seja, podem ser de qualquer gênero, idade e etnia? | |
Ensina que não existe um estereótipo de ofensor, que o mesmo pode ser um adulto do sexo masculino ou feminino, ou ainda uma criança maior ou adolescente? | |
Ensina que os ofensores podem ser pessoas de sua confiança ou pessoas conhecidas? | |
RESISTIR | Ensina normas de segurança geral (endereço, telefone, telefones de emergência) para crianças? |
Ensina à criança que ela pode dizer não e rejeitar insinuações não desejadas? | |
Fornece a exposição repetida de mensagens de segurança? | |
Salienta que as crianças têm o direito de ficar em segurança? | |
RELATAR | Ensina à criança a identificar pessoas de sua confiança? |
Incentiva a criança a contar a um adulto de confiança sobre coisas que a incomodam? | |
Incentiva a denúncia e a notificação dos casos? | |
OUTRAS | Oferece oportunidade para a participação ativa das crianças durante a leitura? |
Fornece material de apoio para pais e professores? | |
Evita cenas gráficas de abuso e violência? |
Nota. (Soma & Williams, 2017)
Materiais
Livro CARINHO SIM, ABUSO NÃO: aprendendo com Ivete (15): é um LIAP cujo objetivo principal é informar, prevenir e identificar casos de abuso sexual infantil. Podendo ser utilizado por profissionais da área da Psicologia, Educação e Serviço Social com fins específicos de: (a) aumentar a conscientização das crianças a respeito da temática do abuso sexual infantil; (b) informar as crianças sobre o que é o abuso sexual e que elas podem dizer NÃO às investidas do(a) ofensor(a) e; (c) informar a quem recorrer caso identifique uma situação de abuso sexual consigo ou outrem. Conta a história de uma formiguinha, chamada Ivete, que reside com a mãe e os irmãos menores. No bairro em que Ivete mora, há a quitanda de Sr. Itamar, uma formiga-macho que se mostra sempre disponível para auxiliar Ivete. Ao se aproximar de Ivete com a falsa intenção de ajudá-la, Sr. Itamar se torna um ofensor sexual. Após assistir uma palestra na escola sobre “abuso sexual infantil”, Ivete passa a entender o que está acontecendo em sua vida e se sente motivada a relatar o ocorrido. Contudo, somente após observar outra criança em situação de vitimização e com orientações de uma professora, ela e sua mãe conseguem denunciar o ofensor, sendo o caso encaminhado aos órgãos responsáveis e o ofensor sofrendo as penalidades da lei.
Procedimentos
Os juízes convidados foram recrutados por meio de e-mail e, após o aceite, receberam o LIAP em formato PDF (Portable Document Format), e o instrumento de avaliação (CAL), inserido na plataforma Google Formulários. As orientações sobre o estudo e preenchimento do instrumento de avaliação estavam descritas no corpo do e-mail.
Tabela 2. Respostas de Juízes Especialistas ao Livro Carinho sim, abuso não
Critério | Juiz 1 | Juiz 2 | Juiz 3 | Juiz 4 | Juiz 5 | Juiz 6 | Juiz 7 |
Apresenta modelos positivos | S | S | S | S | S | S | S |
Ensina pensamento crítico e tomada de decisão | S | S | S | S | S | S | S |
Apresenta personagens identificáveis | S | S | S | S | S | S | S |
Ensina sobre partes íntimas e anatomia | P | P | P | N | P | N | N |
Desmistifica o sexo e atitudes saudáveis | S | P | P | P | S | N | P |
Fornece instruções explícitas sobre posse do corpo | S | P | P | S | S | N | S |
Evita soluções simples, que não são úteis ou realistas, pois não existem finais felizes sem trabalho árduo | S | S | S | S | S | S | S |
Ajuda a discriminar entre toque adequado/inadequado | S | S | S | S | S | S | S |
Ajuda a discriminar entre segredos e surpresas | S | S | P | P | S | S | S |
Ensina que adultos às vezes agem de forma inadequada | S | S | S | S | S | S | S |
Diferencia tipos de abusos e carícias abusivas | S | S | S | S | S | S | S |
Ajuda leitores a reconhecerem abuso | S | S | S | S | S | S | S |
Cuidadoso ao apresentar o(a) ofensor(a) | S | S | S | S | S | S | S |
Salienta que o comportamento inadequado do adulto não é culpa da criança | S | S | S | S | S | S | S |
Ensina que vítimas não têm estereótipos | P | S | S | S | S | P | P |
Ensina que ofensores não têm estereótipos | P | P | S | S | S | P | P |
Ensina que ofensores podem ser conhecidos | S | S | S | S | S | S | S |
Ensina normas de segurança geral | N | S | N | P | P | P | N |
Ensina que a criança pode dizer não | S | P | S | S | P | S | P |
Fornece exposição repetida de mensagens de segurança | S | S | S | S | S | S | S |
Salienta que crianças têm direito à segurança | S | S | S | S | S | S | S |
Ensina a identificar pessoas de confiança | S | S | S | S | S | S | S |
Incentiva a contar a um adulto sobre incômodos | S | S | S | S | S | S | S |
Incentiva denúncia e notificação de casos | S | S | S | S | S | S | S |
Oportuniza participação ativa das crianças na leitura | S | S | S | S | S | S | S |
Fornece material de apoio para pais e professores | S | S | S | S | S | P | S |
Evita cenas gráficas de abuso e violência | S | S | S | S | S | S | S |
Nota. S = Atende completamente o critério; P = Atende parcialmente o critério; N = Não atende o critério
O nível de concordância entre os juízes variou entre moderada e quase perfeita, dependendo do critério avaliado. Os juízes apresentaram alto grau de concordância para critérios como Incentiva a denúncia (Kappa = 0.85) e Apresenta modelos positivos (Kappa = 0.75), enquanto para Ensina normas gerais de segurança (Kappa = 0.40), houve menor consenso, com concordância moderada, ou seja, houve algum nível de consenso, mas ainda com divergências significativas. Isso pode indicar que alguns juízes consideraram que o critério foi atendido, enquanto outros avaliaram que foi apenas parcialmente atendido ou não atendido, gerando variação nas respostas.
A figura 1 aponta a frequência dos critérios atendidos em cada habilidade. Na habilidade de Reconhecer, dos 17 critérios presentes no CAL, 70,6% foram atendidos completamente, 23,5% foram atendidos parcialmente. e 5,9% não foram atendidos. O livro demonstrou eficácia ao ensinar as crianças a identificarem toques inadequados, reconhecerem comportamentos suspeitos e compreenderem que os ofensores podem ser pessoas conhecidas, diferenciar toques abusivos e toques afetuosos. No entanto, alguns aspectos, como a explicação sobre estereótipos de ofensores e desmitificação do sexo foram considerados insuficientemente. Na habilidade de Resistir, 75% dos critérios foram atendidos completamente, 25% foram atendidos parcialmente e 0% dos critérios não foram atendidos. consistente sobre a importância de a criança dizer "não" em situações desconfortáveis, rejeitar toques indesejados e reafirmar seu direito à segurança. Entretanto, os juízes apontaram que a inclusão de informações sobre normas gerais de segurança, como números de emergência. Na habilidade de Relatar (3 critérios), 100% dos critérios foram atendidos completamente, destacando a importância de contar a um adulto de confiança e reforçando a não culpabilização da vítima.
Na pergunta aberta do CAL, os especialistas elogiaram o LIAP por sua linguagem acessível, história envolvente e de fácil compreensão, reflexões e questionamentos que incentivam a participação ativa da criança, ilustrações convidativas e abordagem lúdica. Também destacaram que o uso de personagens animais foi eficaz para criar um distanciamento emocional, permitindo que as crianças se identificassem com a história sem sofrimento excessivo.
Este estudo, que tem o objetivo de analisar a Literatura Infantil e a Prevenção ao Abuso Sexual, com uma análise de “CARINHO SIM, ABUSO NÃO: Aprendendo com Ivete”, por meio do instrumento CAL, no que se refere aos critérios apontados pela literatura para o desenvolvimento de habilidades autoprotetivas voltadas à prevenção do abuso sexual infantil, identificou que, embora lacunas, como normas gerais de segurança e ensino de anatomia e partes íntimas tenham sido identificadas, o LIAP avaliado apresenta potencial de prevenção ao ASI. Abordar um tema tão complexo de forma acessível, sem ser excessivamente gráfico ou assustador, e ainda manter o envolvimento do leitor por meio de uma linguagem literária atrativa. O ideal, é que a obra consiga cobrir os diferentes aspectos da prevenção de forma lúdica, informativa e sensível (13) .
Nesse sentido, o LIAP foi bem-sucedido ao equilibrar elementos sem abrir mão da ludicidade, como destacaram os juízes em suas análises qualitativas. A linguagem adotada contribui significativamente para a sua efetividade, sendo apontada como acessível, próxima e envolvente. O uso de animais como personagens e a ambientação em cenários familiares permitem que a criança se reconheça na história com segurança emocional, sem intensificar possíveis vivências traumáticas.
Apesar de lúdico, envolveu todos os aspectos essenciais para o desenvolvimento das habilidades de autoproteção. A habilidade de Reconhecer, fundamental para que a criança ou adolescente consiga identificar situações de risco e minimizar os possíveis impactos do abuso (1), envolve saber diferenciar toques adequados e inadequados, além de compreender que certas partes do corpo são privadas e não devem ser tocadas sem consentimento (10). Esses conteúdos foram abordados: todos os juízes atribuíram a opção "Atende ao Critério (S)" para os itens “Diferencia tipos de abusos e carícias abusivas” e “Ajuda a discriminar entre um toque adequado e inadequado”, evidenciando a efetividade do livro nesse aspecto. O Juiz 7 destacou:
“Achei brilhante a contextualização, a escolha lúdica dos animais, e a revelação de que Ademar na verdade era um tamanduá. Esse aspecto reforça aquilo que enfatizamos ao falar de prevenção do abuso: não existe um perfil de agressor.”
Contudo, alguns juízes marcaram Atende Parcialmente (P) para critérios como “Ensina que os ofensores podem ser de qualquer idade, gênero ou grupo étnico”, ressaltando que o ofensor retratado segue o estereótipo clássico de um homem adulto. A literatura indica que é fundamental desconstruir tais estereótipos, pois abusadores também podem ser adolescentes, mulheres ou membros da família (2). Essa limitação reforça a importância de ampliar a representação de possíveis agressores para que a criança possa reconhecer riscos reais, mesmo que venham de pessoas próximas ou inesperadas.
A segunda habilidade, Resistir, refere-se à capacidade de rejeitar avanços inapropriados e se afastar de situações desconfortáveis. Essa habilidade está relacionada ao desenvolvimento da assertividade, ou seja, à capacidade de expressar sentimentos, desejos, opiniões e direitos de maneira clara, direta e respeitosa, levando em consideração tanto os próprios direitos quanto os das outras pessoas (16) . O livro trata dessa habilidade de maneira positiva, com 57,1% dos juízes indicando Atende ao Critério (S) no item “Ensina a criança a dizer não”, e 42,9% como Atende Parcialmente (P).
A habilidade de Relatar, está relacionada às outras duas, uma vez que, não basta reconhecer e resistir, se não conseguir contar para um adulto de confiança (11). Ela envolve não apenas a denúncia do fato, mas a confiança da criança em contar para um adulto de confiança, e a garantia de que será acolhida e protegida. Estudos apontam que muitas vítimas não relatam o abuso por medo de não serem acreditadas ou por sentirem-se culpadas (17).
Nesse aspecto, o livro foi unanimemente bem avaliado: 100% dos critérios foram marcados como Atende ao Critério (S). A história destaca que Ivete não teve sua fala devidamente acolhida no primeiro momento, precisando repetir o relato posteriormente, algo que gera impacto emocional importante e fiel à realidade de muitas vítimas (18).
Ainda assim, os juízes apontaram a ausência de instruções práticas sobre onde denunciar: faltam informações claras sobre o papel do Conselho Tutelar, da delegacia ou de canais de denúncia. Essa ausência impacta diretamente dois critérios: “Ensina normas de segurança geral” e “Fornece material de apoio para pais e professores”. Embora o livro traga orientações importantes ao final, elas não são inseridas ao longo da narrativa, o que dificulta sua assimilação durante a leitura. A literatura recomenda que essas informações estejam incorporadas de forma funcional à história para que crianças e adultos possam agir com maior clareza diante de situações de risco (10).
É importante destacar, que essas habilidades podem estar relacionadas a um repertório de habilidades sociais (11). A habilidade de Reconhecer, por exemplo, envolve a capacidade de perceber quando uma situação é desconfortável ou inadequada, interpretar os sinais sociais emitidos pelos outros e nomear os próprios sentimentos. Para isso, é necessário que a criança tenha desenvolvido algumas habilidades sociais importantes, como o autocontrole, a empatia e a expressividade emocional (11). Essas habilidades permitem que a criança compreenda melhor suas próprias reações, identifique quando algo não está certo e consiga comunicar o que sente. O LIAP contribui nesse sentido ao trazer personagens que demonstram emoções, expressam desconforto e enfrentam situações de dúvida e confusão, o que pode favorecer a identificação por parte da criança leitora.
Já a habilidade de Resistir envolve dizer “não”, afastar-se de situações ameaçadoras e rejeitar comportamentos invasivos. Essas atitudes estão diretamente ligadas à assertividade e, déficits em habilidades assertivas podem tornar meninas mais vulneráveis a situações de violência sexual e à revitimização (11,19). Observa-se que os personagens principais enfrentam situações em que precisam se posicionar, e a história reforça que a criança tem o direito de se proteger, dizer “não” e buscar ajuda.
Por fim, a habilidade de Relatar exige que a criança saiba em quem confiar, consiga falar sobre o que aconteceu e acredite que será escutada e acolhida. Trata-se de uma habilidade complexa, que depende do desenvolvimento de repertórios como a expressividade emocional, o autocontrole, a capacidade de fazer amizades e, novamente, a assertividade (20). Muitas crianças não relatam o abuso por medo, vergonha ou por não acreditarem que serão levadas a sério (17). Por isso, é essencial que os LIAPs apresentem modelos de relato bem-sucedidos e que mostrem adultos que escutam e acolhem. Na obra essa habilidade é representada de forma bastante fiel à realidade: a personagem Ivete precisa repetir seu relato para ser escutada, o que mostra para a criança que nem sempre é fácil contar, mas que insistir é importante, e que o relato pode, sim, levar à proteção. Portanto, é possível afirmar que o desenvolvimento das habilidades autoprotetivas está diretamente relacionado ao fortalecimento de repertórios sociais mais amplos. Livros infantis como o analisado, quando cuidadosamente elaborados, podem contribuir significativamente para essa formação.
O livro CARINHO SIM, ABUSO NÃO: Aprendendo com Ivete se configura como uma valiosa ferramenta para a prevenção do abuso sexual infantil, contemplando os principais aspectos da autoproteção: Reconhecer, Resistir e Relatar. A abordagem é acessível e lúdica, permitindo que crianças compreendam conceitos complexos sem perder o engajamento na narrativa.
No entanto, é fundamental destacar que, embora a obra consiga equilibrar a informação com a ludicidade, atender plenamente a todos os critérios de um LIAP continua sendo um desafio. Além disso, o livro infantil deve ser visto como um recurso complementar dentro de uma abordagem mais ampla de prevenção, que envolva diálogo aberto, participação ativa de educadores e familiares, bem como outras estratégias educativas. Considerando os resultados deste estudo, seria interessante que pesquisas futuras explorassem, por exemplo, se há diferença na forma como as crianças compreendem e se engajam com o conteúdo quando o livro é apenas lido em voz alta ou quando é contado com mediações expressivas, como variações no tom de voz e caracterização dos personagens. Estudos que avaliem a permanência das aprendizagens ao longo do tempo e a recepção do material por parte de professores, cuidadores e crianças também poderiam contribuir para ampliar o conhecimento sobre o potencial dos LIAPs em diferentes contextos educativos e preventivos.
Dessa forma, o LIAP contribui para informação, prevenção e identificação de casos de ASI e deve ser utilizado em conjunto com outras ferramentas dentro dos programas de prevenção.