FARMÁCIAS VIVAS E PLANTAS MEDICINAIS DE INTERESSE DERMATOLÓGICO NO SUS: INOVAÇÃO BIOCULTURAL PARA A SAÚDE COLETIVA
LIVING PHARMACIES AND MEDICINAL PLANTS OF DERMATOLOGICAL INTEREST IN SUS: BIOCULTURAL INNOVATION FOR PUBLIC HEALTH
FARMACIAS VIVAS Y PLANTAS MEDICINALES DE INTERÉS DERMATOLÓGICO EN ÉL SUS: INNOVACIÓN BIOCULTURAL PARA LA SALUD
Tipo de artigo: artigo original
Autores
Ana Carolina Martins de Oliveira
Acadêmica de Farmácia. Universidade Evangélica de Goiás
Orcid 0009-0006-6840-3238
Ana Luiza Diniz Rosa
Acadêmica de Farmácia. Universidade Evangélica de Goiás
Orcid 0009-0005-8223-1754
Jonatã Guimarães da Silva
Acadêmica de Farmácia. Universidade Evangélica de Goiás
Orcid 0009-0003-5589-7599
Larissa de Oliveira Santos Severino
Acadêmica de Farmácia. Universidade Evangélica de Goiás.
Orcid 0009-0006-8990-6440
Josana de Castro Peixoto
Docente. Universidade Evangélica de Goiás e Universidade Estadual de Goiás
Orcid 0000-0002-3496-1315
RESUMO
As Farmácias Vivas representam uma inovação biocultural estratégica no Sistema Único de Saúde, pois integram o conhecimento tradicional sobre plantas medicinais com evidências científicas, promovendo saúde coletiva. O objetivo deste estudo foi avaliar o papel das farmácias vivas e plantas medicinais de interesse dermatológico como uma inovação biocultural para a saúde coletiva no âmbito do sistema único de saúde pela pesquisa documental e análise exploratória de conteúdo. Destacou-se o potencial de espécies nativas como algodãozinho e pé-de-perdiz, além de espécies oficializadas no Sistema Único de Saúde e a insipiência na relação das farmácias vivas com o Sistema Único de Saúde e bioculturalidade. Conclui-se que a expansão das Farmácias Vivas e a divulgação da Farmacopeia Popular do Cerrado são fundamentais para a consolidação da política de saúde pública.
DESCRITORES: Bioculturalidade; Cerrado; Medicina Tradicional; Cosméticos
ABSTRACT
Living Pharmacies represent a strategic biocultural innovation within the Brazilian Unified Health System (SUS), as they integrate traditional knowledge about medicinal plants with scientific evidence, promoting collective health. The objective of this study was to evaluate the role of living pharmacies and medicinal plants of dermatological interest as a biocultural innovation for collective health within the SUS through documentary research and exploratory content analysis. The potential of native species such as algodãozinho and pé-de-perdiz, as well as species officially recognized in the SUS, was highlighted, as well as the incipient relationship between living pharmacies and the SUS and bioculturality. It is concluded that the expansion of Living Pharmacies and the dissemination of the Popular Pharmacopoeia of the Cerrado are fundamental for the consolidation of public health policy.
DESCRIPTORS: Bioculturality; Cerrado; Traditional Medicine; Cosmetics
RESUMEN
Las Farmacias Vivas representan una innovación biocultural estratégica dentro del Sistema Único de Salud (SUS) de Brasil, ya que integran el conocimiento tradicional sobre plantas medicinales con la evidencia científica, promoviendo la salud colectiva. El objetivo de este estudio fue evaluar el rol de las farmacias vivientes y las plantas medicinales de interés dermatológico como una innovación biocultural para la salud colectiva dentro del SUS, mediante investigación documental y análisis de contenido exploratorio. Se destacó el potencial de especies nativas como el algodãozinho y el pé-de-perdiz, así como de especies reconocidas oficialmente en el SUS, y la incipiente relación entre las farmacias vivientes, el SUS y la bioculturalidad. Se concluye que la expansión de las Farmacias Vivas y la difusión de la Farmacopea Popular del Cerrado son fundamentales para la consolidación de las políticas de salud pública.
DESCRIPTORES: Bioculturalité ; Cerrado ; Médecine Traditionnelle ; Cosmétiques
INTRODUÇÃO
A fitoterapia possui raízes profundas na consciência popular que reconhece, desde a Antiguidade, sua eficácia e legitimidade.
O Sistema Único de Saúde do Brasil (SUS) trabalha com a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC) que incentivam a implementação da medicina tradicional chinesa/acupuntura, da homeopatia, da fitoterapia, da medicina antroposófica e do termalismo/crenoterapia (1).
Neste cenário, as Farmácias Vivas emergem como dispositivos estratégicos que materializam estes princípios políticos, integrando cultivo, processamento e dispensação de plantas medicinais com base em evidências científicas e respeito ao conhecimento tradicional (2). Estas iniciativas assumem especial relevância no cuidado de condições dermatológicas - agravos de alta prevalência na Atenção Primária que frequentemente demandam alternativas terapêuticas acessíveis e culturalmente apropriadas.
A Farmacopeia Popular do Cerrado, por sua vez, constitui instrumento fundamental nesse processo, sistematizando o conhecimento tradicional sobre espécies medicinais do bioma e estabelecendo parâmetros para seu uso seguro (3). Este trabalho se propôs a analisar a interface promissora entre farmácias vivas, plantas medicinais de interesse dermatológico e saúde coletiva, examinando seu potencial como inovação biocultural no Sistema Único de Saúde.
MÉTODO
Este estudo caracteriza-se como uma pesquisa de natureza qualitativa, que adotou a metodologia de pesquisa documental e a análise de conteúdo exploratória para atingir seu objetivo central: avaliar o papel das Farmácias Vivas e das plantas medicinais de interesse dermatológico como uma inovação biocultural para a Saúde Coletiva no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). A análise documental foi composta por duas categorias principais de fontes: A) Documentos Oficiais e Normativos: Foram analisados a Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos (PNPMF), a Relação Nacional de Plantas Medicinais de Interesse ao SUS (RENISUS) e a Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) nº 18/2013 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que dispõe sobre as boas práticas de processamento e armazenamento de plantas medicinais. B) Referencial Técnico-Cultural: A análise centrou-se na Farmacopeia popular do Cerrado, com ênfase especial nas monografias populares das espécies Cochlospermum regium (algodãozinho) e Pfaffia sp. (pé-de-perdiz), valorizando o conhecimento tradicional associado a essas plantas.
O procedimento analítico seguiu as etapas da análise de conteúdo exploratória. Inicialmente, foi realizada uma leitura completa do material para uma imersão no conteúdo. Em seguida, os textos foram codificados e organizados em unidades de análise temáticas, que permitiram a categorização dos dados. As categorias criadas foram: A) Categoria 1: Inserção e desafios da fitoterapia e das farmácias vivas nas políticas públicas de saúde; B) Categoria 2: Espécies de interesse dermatológico: Potencial biocultural e evidências e C) Categoria 3: Integração entre conhecimento tradicional e evidência científica no cuidado dermatológico.
A interpretação dos resultados foi guiada pelo marco teórico da saúde coletiva e do conceito de inovação biocultural, permitindo uma discussão que articula a biodiversidade, os saberes tradicionais e a assistência farmacêutica no SUS. O estudo limitou-se à análise do material documental selecionado, sem coleta de dados empíricos primários.
OBJETIVO
O presente estudo analisou o papel das Farmácias Vivas e as plantas medicinais de interesse dermatológico como uma inovação biocultural para a Saúde coletiva no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS) na perspectiva de caracterizar a inserção da Fitoterapia e das Farmácias Vivas nas políticas públicas de saúde do Brasil, com ênfase no contexto do Sistema Único
RESULTADOS
FARMÁCIAS VIVAS
A Farmácia Viva é um projeto técnico por meio de ações de pesquisa, extensão e ação comunitária que envolve desde o cultivo a dispensação de preparações magistrais e oficinais de plantas medicinais e fitoterápicos e surge pela necessidade de ampliação da oferta de fitoterápicos e de plantas medicinais que atenda à demanda e às necessidades locais, respeitando a legislação pertinente às necessidades do SUS.
A implantação da Farmácia Viva visa em preservar o conhecimento tradicional e as espécies nativas da região, além de suprir a carência de alternativas para a melhoria da saúde da população e a integração dos conhecimentos populares aos resultados de pesquisas acadêmicas com adequação às diferenças regionais
PLANTAS DERMATOLÓGICAS NAS FARMÁCIAS VIVAS
As Farmácias Vivas destacam-se como espaços privilegiados para a disponibilização de plantas medicinais com comprovada ação dermatológica.
Dentre as espécies de reconhecida importância dermatológica, a babosa (Aloe vera L.); A aroeira (Schinus terebinthifolius Raddi) (4). No contexto do Cerrado, espécies como o Algodãozinho (Cochlospermum regium (Mart. ex Schrank) Pilg.) (5); O pé-de-perdiz (6); A calêndula (Calendula officinalis L.). A integração dessas espécies nas Farmácias Vivas segue as diretrizes da RDC nº 18/2013 da Anvisa, que estabelece as boas práticas de processamento e armazenamento de plantas medicinais no âmbito do SUS. Esta normatização garante a qualidade, segurança e eficácia dos produtos manipulados, fundamentais para o cuidado dermatológico (7).
DESCRIÇÃO DAS MONOGRAFIAS DAS PLANTAS
ALGODÃOZINHO
O algodãozinho é uma planta comum em ambientes do Cerrado, os raizeiros eles afirma que existe dois tipos de algodõezinhos roxo e branco de talos compridos, que pode ou não formar touceiras, seus talos são finos, casca fina também, o gosto da casca é travoso e levemente amargo. A casca, ao ser cortada, solta uma babinha de cheiro parecido ao cheiro do fruto do algodão de quintal. No mês de agosto e setembro ele seca as folhas ficando somente os talos. As flores do algodãozinho branco e roxo são semelhantes. O algodãozinho floresce a partir do mês de maio e permanece com flores até o mês de setembro. Pode acontecer que a planta ao ser cortada, brote novamente e a partir daí, nasçam flores fora de época, conhecidas como flores temporãs (5).
Os algodõezinhos branco e roxo possuem o mesmo uso medicinal. O pó ou polvilho feito com o algodãozinho roxo é mais forte e deve ser usado em doses menores que o branco. Seus preparos podem tratar: mioma no útero, coceiras, manchas na pele, serve como depurativo do sangue, é usado como anti-inflamatório, principalmente para tratar inflamações de útero e ovário, menstruação desregulada, doenças sexualmente transmissíveis, reumatismo, gastrite e úlcera; é usado para tratar inchaço das pernas, por meio de banhos locais; usado para tratar dor de ouvido e impingem. Da planta se utiliza as flores, folhas, raízes e frutos (5).
MONOGRAFIA POPULAR DA PÉ DE PERDIZ
Existem dois tipos de pé-de-perdiz lisa e peluda, têm o mesmo valor medicinal. Tradicionalmente, o uso da pé-de-perdiz lisa é mais indicado para a mulher e, o uso da peluda é indicado para o homem. A raiz da pé-de-perdiz é indicada como anti-inflamatório, depurativo do sangue, infecções, reumatismo e doenças sexualmente transmissíveis, como a sífilis. Para a mulher, a pé-de-perdiz é usada para tratar infecção do útero e ovário, estimular gravidez, regular a menstruação e limpar o útero, após o parto. Para o homem, é usada para tratar inflamação da próstata (6).
As partes usadas da pé-de-perdiz para a preparação de remédios caseiros são as folhas e as raízes frescas ou secas. O fruto da pé de perdiz é pequeno. Suas medidas são aproximadamente meio centímetro de altura por meio centímetro de diâmetro. Ele possui forma arredondada e é coberto por pelos bem finos. Parecido com o fruto da mamona, o fruto de pé de perdiz é formado por três gomos, é seco e tem consistência dura (6).
DISCUSSÃO
O Ministério da Saúde disponibilizou à população a lista de 71 plantas medicinais (RENISUS) para dispensação no SUS. Atualmente, o SUS oferece em estratégia de saúde 12 fitoterápicos: Alcachofra, Aroeira, Babosa, Cáscara Sagrada, Espinheira Santa, Garra do diabo, Guaco, Hortelã, Isoflavona de soja, Plantago habitual, Salgueiro e Unha de gato (8).
No Brasil, em 2006, a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC), oferece aos usuários do Sistema Único de Saúde (SUS), principalmente no âmbito da Atenção Primária à Saúde (APS), a Fitoterapia. Entretanto, há uma resistência proeminente de gestores dentro das administrações públicas municipais, principalmente, e consequentemente uma baixa aceitação desta prática por parte dos profissionais da APS. Além de uma falta de capacitação dos profissionais da APS (2).
A integração das Farmácias Vivas e do uso de plantas medicinais com atividade dermatológica no SUS representa um avanço significativo para a Saúde Coletiva, alinhando-se aos princípios da universalidade, integralidade e equidade. Essa estratégia vai além da simples oferta de um produto fitoterápico, constituindo-se como uma tecnologia social que articula o saber popular, biodiversidade e assistência farmacêutica (2).
A disponibilidade de espécies como a Aloe vera (Babosa), com comprovada ação emoliente e cicatrizante, e do Schinus terebinthifolius (Aroeira), com atividade anti-inflamatória e antimicrobiana, oferece alternativas concretas para problemas de saúde que, muitas vezes, não encontram respostas satisfatórias na alopatia convencional ou cujo tratamento é economicamente oneroso para a população (9).
O aproveitamento de espécies nativas como o Algodãozinho e Pé-de-Perdiz potencializa o desenvolvimento de cadeias produtivas locais, reduzindo a dependência de insumos externos e fomentando a economia solidária (4).
Portanto, o fomento às Farmácias Vivas e a pesquisa com plantas de interesse dermatológico configuram-se como uma estratégia de Saúde Coletiva que valoriza a diversidade biocultural brasileira. Ela promove justiça sanitária ao ampliar o acesso a cuidados eficazes e culturalmente significativos, fortalece a sustentabilidade ambiental e contribui para a construção de um sistema de saúde verdadeiramente plural e centrado nas necessidades da população.
CONCLUSÃO
Este estudo permitiu concluir que as Farmácias Vivas, articuladas ao uso de plantas medicinais com comprovado potencial dermatológico, configuram-se como uma inovação biocultural de grande relevância para o SUS. Elas materializam os princípios da Saúde Coletiva ao integrar, de forma sinérgica, a valorização dos saberes tradicionais, a conservação da biodiversidade do Cerrado e a oferta de cuidados em saúde mais acessíveis, equitativos e culturalmente apropriados.
A análise demonstrou que espécies como o algodãozinho e o pé-de-perdiz, documentadas na Farmacopeia Popular do Cerrado, representam um patrimônio terapêutico ainda subutilizado.
No entanto, a plena realização desse potencial enfrenta obstáculos representativos, e a necessidade de superar resistências de gestores e de qualificar os profissionais da Atenção primária de saúde para o manejo seguro e racional desses recursos.
REFERÊNCIAS
1. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de
Atenção Básica. Política nacional de práticas integrativas e complementares no SUS: atitude de ampliação de acesso / Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. – 2. ed. – Brasília: Ministério da Saúde, 2015.96 p.: il.
2. TAVARES, A. F. et al. Farmácias Vivas no Sistema Único de Saúde: uma análise
sobre sustentabilidade e acesso a plantas medicinais. Saúde em Debate, v. 45, n. 129, p. 335-349, 2021.
3. DIAS, J. E.; LAUREANO, L. C. (Coord.). Farmacopeia Popular do Cerrado. 1. ed. Goiás: Articulação Pacari, 2010.
4. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e
Insumos Estratégicos em Saúde. Departamento do Complexo Industrial e Inovação em Saúde. Plantas Medicinais e Fitoterápicos no SUS: Inovações e Desafios para a Saúde Coletiva. Brasília: Ministério da Saúde, 2022.
5. FARMACOPEIA POPULAR DO CERRADO. Monografias populares:
algodãozinho. Goiás: Articulação Pacari, 2009.
6. FARMACOPEIA POPULAR DO CERRADO. Monografias populares: pé-de
perdiz. Goiás: Articulação Pacari, 2010.
7. BRASIL. Ministério da Saúde. Agência Nacional de Vigilância Sanitária
(Anvisa). Resolução RDC nº 18, de 3 de abril de 2013. Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/anvisa/2013/rdc0018_03_04_2013.html. Acesso em: 30 set.2025.
8. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos
Estratégicos. Departamento de Assistência Farmacêutica e Insumos Estratégicos. Programa Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos. Brasília: Ministério da Saúde, 2009. 136p. (2009).
9. OLIVEIRA JÚNIOR, W. P. et al. Potencial anti-inflamatório e cicatrizante de
espécies vegetais do Cerrado: uma revisão integrativa. Revista Fitos, v. 14, n. 3, p. 345-362, 2020.