A IMPORTÂNCIA DA INTERSECCIONALIDADE NA CONSTRUÇÃO DE PROJETOS DE FUTURO COM JOVENS: UMA LEITURA PSICANALÍTICA

THE IMPORTANCE OF INTERSECTIONALITY IN BUILDING FUTURE PROJECTS WITH YOUNG PEOPLE: A PSYCHOANALYTIC PERSPECTIVE

LA IMPORTANCIA DE LA INTERSECCIONALIDAD EN LA CONSTRUCCIÓN DE PROYECTOS FUTUROS CON LOS JÓVENES: UNA PERSPECTIVA PSICOANALÍTICA

Míriam Félix Caruso

Psicóloga e Orientadora Profissional (USP)

Izabella Paiva de Souza

Pós doutora em Psicologia (USP)

Universidade Federal do Pará

Fabrício Augusto Ferreira Soares

Psicólogo (UFES)

RESUMO

Este artigo tem como objetivo discutir ações em Promoção de Saúde, de caráter interseccional que possam facilitar a construção de um projeto de vida para adolescentes. Trata-se de uma pesquisa bibliográfica a partir dos descritores jovens, trabalho, saúde coletiva, psicanálise e interseccionalidade, em diferentes bases de dados, que tivessem sido publicados entre 2020 e 2015. Além disso, procedeu-se a consulta aos autores clássicos da psicanálise, psicologia social e saúde coletiva. De 35 trabalhos encontrados, foram selecionados 13 segundo os critérios de inclusão e exclusão. Fica a reflexão de que, para além da justiça social, faz-se imprescindível escutar os sujeitos e tomar suas realidades como elemento fundante e inegociável de qualquer estratégia que se diga interessada em promover bem estar. É preciso interrogar as posições de poder nas relações de classe, de raça e de gênero, para que assim, não se reproduza um sistema de dominação que decorre em silenciamento discursivo.

DESCRITORES: jovens; trabalho; saúde coletiva; psicanálise; interseccionalidade.

ABSTRACT

This article aims to discuss intersectional actions in Health Promotion that can facilitate the construction of a life project for adolescents. It is a bibliographic research based on the descriptors youth, work, public health, psychoanalysis, and intersectionality, in different databases, focusing on publications between 2020 and 2015. In addition, classic authors in psychoanalysis, social psychology, and public health were consulted. Of 35 works found, 13 were selected according to inclusion and exclusion criteria. The reflection concludes that, beyond social justice, it is essential to listen to individuals and consider their realities as a fundamental and non-negotiable element of any strategy that claims to promote well-being. It is necessary to question power positions in class, race, and gender relations so that a system of domination resulting in discursive silencing is not reproduced.

KEYWORDS: youth; work; public health; psychoanalysis; intersectionality.

RESUMEN

Este artículo tiene como objetivo analizar acciones interseccionales en la promoción de la salud que pueden facilitar la construcción de un proyecto de vida para adolescentes. Se trata de una investigación bibliográfica basada en los descriptores juventud, trabajo, salud pública, psicoanálisis e interseccionalidad, en diferentes bases de datos, centrándose en publicaciones entre 2015 y 2020. Además, se consultó a autores clásicos del psicoanálisis, la psicología social y la salud pública. De las 35 obras encontradas, se seleccionaron 13 según criterios de inclusión y exclusión. La reflexión concluye que, más allá de la justicia social, es esencial escuchar a las personas y considerar sus realidades como un elemento fundamental e innegociable de cualquier estrategia que pretenda promover el bienestar. Es necesario cuestionar las relaciones de poder en las dinámicas de clase, raza y género para no reproducir un sistema de dominación que resulta en el silenciamiento discursivo.

PALABRAS CLAVE: juventud; trabajo; salud pública; psicoanálisis; interseccionalidad.

INTRODUÇÃO

A partir da segunda metade da década de 1990, tem acontecido o alargamento da pirâmide etária na adolescência e juventude no Brasil. A faixa etária compreendida entre 10 e 24 anos corresponde a 21,42% da população brasileira, que gera o efeito de aumentar o número absoluto de pessoas nas faixas etárias seguintes, fenômeno conhecido como onda jovem. O Censo de 2022 apontou que a população de jovens entre 15 e 19 anos não estava estudando e nem trabalhando, sendo que, dentre esse grupo, 43,3% correspondem a mulheres jovens de cor preta ou parda, em detrimento de 20,1% de jovens brancas (1).

A noção de juventude surgiu a partir do desenvolvimento da sociedade moderna, junto a dimensão da vida privada, advinda das instituições família, escola e infância (2). Contudo, frente a acelerada transformação do mundo ocidental a partir do final do século XX, a passagem para a vida adulta e a noção de juventude assume um caráter difuso, repleto de paradoxos e incertezas, pois ao mesmo tempo que possui maior amplitude de possibilidades, parece que muitas vezes não tem o que escolher, dada a “aceleração desenfreada do ritmo da vida, da fugacidade dos (des)encontros, do peso de ter que alcançar o sucesso. Diante disso, o sujeito contemporâneo e os jovens encontram-se, muitas vezes acuados, no cotidiano” (3).

Alguns motivos que tornam as políticas públicas voltadas à juventude propensas ao fracasso: não levam em consideração aspectos interseccionais tais como cor, gênero, situação socioeconômica e raça. Além disso, muitas vezes, deixam de fora a subjetividade e a diversidade entre os jovens no processo de se pensar a integração social que fica, frequentemente, restrita à preocupação com a colocação no mercado de trabalho mascarando o problema estrutural entre o sistema educacional e a empregabilidade (4).

Diante desse cenário, ações na promoção de saúde de adolescentes e jovens tendem a ser pautadas, em sua maioria, na prevenção de doenças e, ainda pouco se ocupam dos aspectos estruturais, que permeiam a transição do jovem à vida adulta, como por exemplo a garantia de direitos básicos, tais como estudo, lazer, esporte, proteção econômica e afetivo familiar. Sem essa base fica utópico ajudá-lo a conquistar um lugar no mundo adulto pela via do trabalho e da renda (5).

A interseccionalidade é uma proposta para levar em conta as múltiplas fontes da identidade diante da necessidade de pensar conjuntamente as dominações, a fim de, justamente, não contribuir para sua reprodução (4). Como se pensar, por exemplo, o processo de Orientação Profissional em um contexto de desemprego, diminuição dos postos de trabalho, diminuição dos direitos trabalhistas, uberização das relações de trabalho, e não incidir na responsabilização dos jovens pelo seu futuro profissional, trazendo para o campo do individual os possíveis fracassos, insucessos, contribuindo desta forma para um incremento de sofrimento e um aumento do distanciamento social? Se furtando a considerar esse contexto, se pode chegar a um silenciamento subjetivo das populações historicamente já discriminadas.

A orientação profissional como estratégia clínica possui como eixo central a exploração/auto conhecimento de si e dos fatores psicossociais. Possui suas bases na psicanálise de modo a auxiliar o jovem na construção da identidade ocupacional e compreende a possibilidade de escolha da profissão como um processo reparatório da subjetividade e dos vínculos com o mundo(6).

A promoção da saúde é um campo conceitual, metodológico e instrumental, que traz em seus pilares e estratégias um conceito amplo de saúde, que expande o paradigma de saúde como ausência de doença. Ao contrário, trata-se de um campo que pressupõe perspectivas de qualidade de vida, prevê parcerias em diversos setores da sociedade e destaca o princípio da autonomia dos indivíduos e comunidades, reforçando o planejamento e poder local (7).

Em outras palavras, a promoção de saúde se refere a um modelo de atenção que vai além da assistências médico-curativa, em que a noção de saúde é tida como produção social e como resultado da interlocução de diferentes áreas, sejam elas de natureza econômica, política, organizacional, ideológica, cultural e subjetiva (8).

Nesta perspectiva ampliada de saúde, a concepção de sujeito tem ganhado espaço no debate e tem se destacado como uma unidade na diversidade de objetos e olhares das diferentes narrativas. Em torno das reflexões acerca desse sujeito e seu território, houve a emergência das noções de fatores de risco (no que tange ao campo da prevenção) e condições de vida (no que concerne à qualidade de vida) (9).

        Tais constructos ampliam o entendimento sobre o que pode estar em jogo quando se fala em saúde, uma vez que fica em destaque a sobredeterminação das conjecturas sociais, econômicas e ambientais no adoecimento e exclusão dos jovens, deixando em evidência que é preciso haver lugar para a escuta da subjetividade (10). Caso contrário, se trabalha para a reprodução das relações de dominação a partir dos modos de realizar intervenções e operacionalizar projetos de saúde coletiva e promoção de bem estar.

       Para se sustentar a aposta em um projeto de futuro dos jovens é preciso recuperar a capacidade de sonhar para que cada um sonhe o seu próprio destino (11). Isso significa recuperar um sentido para a vida (12). A psicanálise na interface com o campo do social contribui na direção de trazer as variáveis que sobredeterminam o sofrimento para o debate, para que possam ser pensadas estratégias coletivas de transformação da(s) realidade(s).

Este artigo tem como objetivo salientar e discutir a relevância de ações em promoção de saúde, de caráter interseccional e transdisciplinar que possam facilitar a livre expressão de adolescentes rumo à construção de um projeto de vida que contemplem sua história, sonhos, aspirações, potencialidades e, também, limites e restrições/impossibilidades.

MÉTODO

Trata-se de uma pesquisa bibliográfica no estilo levantamento do estado da arte. Foram utilizados os descritores jovens, trabalho, saúde coletiva, psicanálise e interseccionalidade, juntos e separados, nas bases de dados Scielo, BVS-psi e google acadêmico. Além disso, procedeu-se a consulta aos autores clássicos da interface entre o campo da psicanálise, o da psicologia social e o da saúde coletiva.

Dentre os artigos resultantes, foram lidos os resumos e selecionados aqueles que satisfizessem os seguintes critérios de inclusão: textos em português, que se sustentassem na supracitada interface e que tivessem sido publicados nos últimos 5 anos, ou seja, que estivessem no intervalo de tempo entre os anos de 2020 e 2025. A partir destes critérios de elegibilidade, foram incluídos tanto estudos empíricos de caráter quantitativo, quanto qualitativos, além de teóricos.

Trabalhos que apontavam para realidades fora do Brasil ou ligados estritamente à área da educação e às ações no contexto das medidas socioeducativas não foram incluídos neste estudo, ou seja, estas variáveis funcionaram como critério de exclusão.

A análise do material buscou englobar os conhecimentos sistematizados de maneira crítica, conforme previsto em uma Revisão Integrativa (13), combinando e sintetizando os resultados de diferentes tipos de estudos. Os trabalhos foram agrupados em torno do descritor que fosse o tema mais central da discussão apresentada, categorização que permitiu a construção de uma tabela para trazer mais visibilidade aos achados da pesquisa. Visando a obtenção de um aprofundamento teórico acerca da articulação entre os determinantes sociais de saúde, a construção de projetos de futuro e a perspectiva psicanalítica em que a subjetividade tem seu lugar de destaque, os dados foram lidos e discutidos a partir do referencial teórico.

RESULTADOS

Foram encontrados 35 trabalhos, dentre eles uma dissertação de mestrado, um editorial e 33 artigos, dos quais 13 foram selecionados segundo os critérios de inclusão. Confome a Tabela 1, as buscas foram realizadas com os descritores juntos e separados, sendo que o conceito de interseccionalidade apareceu somente em 3 dos 35 trabalhos encontrados, o que aponta para uma lacuna de produção acadêmica, cujo tema foi introduzido recentemente nos estudos acadêmicos.

Tabela 1. Síntese dos estudos incluídos

Descrição resumida

Total de trabalhos encontrados

35 trabalhos (1 dissertação; 1 editorial; 33 artigos)

Trabalhos selecionados

13 artigos incluídos conforme critérios de elegibilidade

Descritores utilizados

jovens; trabalho; saúde coletiva; psicanálise; interseccionalidade

Uso do descritor 'interseccionalidade'

Apenas 3 trabalhos utilizaram o termo dentre 35 encontrados

Critérios de exclusão

Estudos fora do Brasil; estudos da educação; pesquisas sobre medidas socioeducativas

Marcadores sociais identificados

Raça, gênero e classe descritos como 'desigualdades' e 'vulnerabilidades'

Artigos sobre projeto de vida e vocação

Ref. (14–19): escolha vocacional, projeto de vida, pertencimento, oficinas

Artigos sobre precarização e desigualdades

Ref. (20–23): precarização, qualificação, transição adulta, desigualdades estruturais

Artigos sobre protagonismo juvenil

Ref. (24–25): experiências em periferias; crítica ao termo 'protagonismo'

Artigo psicanalítico sobre escolha profissional

Ref. (26): análise clínica de 4 casos

No montante dos artigos levantados, o tema trabalho e juventude foram encontrados em estudos referenciados à área da educação e ao determinante social (medidas socioeducativas), os quais também não entraram no escopo deste artigo, uma vez que foi delineado que somente os que estivessem na interface entre o campo da psicanálise, o da psicologia social e o da saúde coletiva seriam selecionados.

Dos 13 artigos que compuseram a amostra, 5 artigos (14), (15), (16), (17), (18) e uma dissertação de mestrado (19) relacionavam trabalho à perspectiva de escolha vocacional, projeção de futuro e projeto de vida com jovens e adolescentes. Também destacaram a importância da noção de pertencimento, tanto no âmbito familiar como no grupo entre pares, a importância do sonhar e refletiram sobre a proposta de oficinas como método de escuta, partilha e reflexão nas ações em promoção de saúde.

Ainda sobre trabalho, outros 4 artigos (20) (21) (22) (23) dentre os selecionados discutiram a precarização da mão de obra, a exigência de qualificação e as peculiaridades da transição da fase adolescente à fase adulta, em mundo que se transforma rapidamente, e descreveram como se dão as desigualdades estruturais que atravessam a trajetória dos jovens de diferentes formas.

Outros dois artigos dentre os selecionados (24), (25), relacionaram a promoção de saúde em comunidades periféricas à noção de protagonismo juvenil. O primeiro deles, fez a análise de registros documentais, de uma experiência exitosa no município do Rio de Janeiro, em que jovens do território foram selecionados para propagar informação sobre cuidados em saúde, formação técnica e trabalho dentre seus pares, junto aos profissionais que capacitaram e coordenaram a participação deles. Já o segundo, destacou para a problemática do termo, referindo-se a um uso que aponta para uma dimensão hegemônica de juventude, propondo-se a fazer uma análise crítica sobre as categorias utilizadas, a saber, millennials ou juventudes vulneráveis.

Foi encontrado somente um artigo que relacionou a escolha profissional do adolescente a partir do referencial psicanalítico (26), cujo método foi a análise de quatro casos atendidos pela clínica psicológica da Universidade de Londrina e que, portanto, se articulou ao campo da saúde mental, mesmo não sendo um equipamento diretamente ligado à rede de atenção à saúde.

DISCUSSÃO

A psicanálise entende como identidade a ilusão de unidade, como uma construção imaginária do “eu”, a partir de uma representação social que contempla em si elementos do ambiente familiar e social e que avaliza sua pertinência no mundo humano a partir da ilusão de que se sabe quem é (27). A identidade pode sofrer abalos quando o sujeito adota para si uma imagem assimilada do imaginário social, com um único sentido, sem modulação, com a função de defesa contra a angústia de não poder saber sobre si, a não ser a partir da imagem dada pelo outro. Não há lugar para alteridade.

Portanto, quanto maior a diversidade das identificações, assim como a base narcísica e de desejo sobre as quais se sustentam, mais o sujeito pode ser regido ora pela antecipação estruturante, ora pela significação retroativa que o re-coloca em posição de saber, própria da condição desejante. Deste movimento dialético se faz possível tanto a apreensão de si e do mundo, a construção da identidade e usufruir do movimento do desejo, assim como também se fazem presentes o desconhecimento e a alienação, ambiguidades que marcam a condição de ser (27). É esse não todo sentimento de pertencimento e de conhecimento de si que possibilitam que o jovem interrogue sua pertinência, de modo a ressignificar e transformar a si e ao mundo.

Contudo, vale diferenciar o conceito de identidade em psicanálise da noção de “onda identitária”, em que este último se refere à valorização, à patrimonialização e ao reconhecimento de formas culturais subalternas, oriundas de grandes setores da sociedade historicamente discriminados (8),(28). Não cabe aqui aprofundamento no tema, mas sim ressaltar a importância da construção e o fortalecimento da identidade dos jovens, em toda a sua pluralidade, rumo à construção de sonhos e de um projeto de vida que possa chamar de seu.

Neste ponto é que se faz imprescindível que, para além de garantia de direitos e da justiça social, um projeto de futuro que faça sentido para cada jovem como elemento fundante e inegociável de qualquer estratégia, precisa surgir a partir da interseccionalidade (29), tendo em vista que o olhar interseccional captura camadas complexas das relações sociais, levando em conta as múltiplas fontes da identidade(6).

Estratégias de saúde coletiva ancoradas nas especificidades da escuta nesses contextos, podem funcionar como forma de resistência contra o apagamento subjetivo/ silenciamento discursivo(27). Para tanto é preciso repensar as dimensões éticas e determinantes sociais no acompanhamento da construção dos projetos  pessoais de futuro. Caso contrário, corrobora-se com as artimanhas do poder que produzem o desamparo discursivo e a dimensão traumática, decorrendo no que se conhece como sofrimento sociopolítico(27).

Como antídoto, fazer sonhar como saída para o futuro, como sustentação dos projetos de futuro nos quais estão imbricados os motivos subjetivos de cada jovem sem abrir mão de ocupar e se manter em seu lugar social, parece ser uma forma de sustentar a aposta em políticas públicas apoiadas em uma política do sujeitos de desejo.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A interseccionalidade ilumina as relações sociais levando em conta as dimensões materiais da dominação. A psicanálise na interface com o campo do social contribui como teoria e prática e, mais ainda, no que concerne à problematização das variáveis que sobredeterminam o sofrimento.

No campo da saúde coletiva, é prioritário escutar os sujeitos, tomar suas realidades como elementos fundantes e suas subjetividades como variáveis inegociáveis de qualquer estratégia que se diga interessada em promover saúde e bem estar.

Diante disso, ajudar na construção de projetos de futuro com os jovens, em um momento em que estão adentrando no mercado de trabalho e construindo suas identidades, precisa ser um delicado processo que considere a interseccionalidade. Precisa ser um percurso no qual haja brechas para o diálogo e para um fazer colaborativo que interrogue as posições de poder nas relações de classe, de raça e de gênero, para que assim não se reproduza um sistema de dominação e, portanto, de apagamento subjetivo /silenciamento discursivo.

Foram poucos os artigos encontrados a partir dos critérios de elegibilidade que incluíssem o descritor interseccionalidade, o que aponta para lacunas na literatura. Portanto, este pode ser um potencial aspecto a ser aprofundado em futuras pesquisas, que nessa direção também contribua com a constante (re)atualização de conceitos da psicanálise e da saúde coletiva historicamente construídos.

Qual a potência desse projeto de futuro dos jovens em tempos neoliberais? Foi apresentado que o investimento em uma empreitada que não inclua as histórias de vida de cada sujeito acaba resultando em um incremento de força no sistema de dominação. Nesse sentido, o sonho também deve ser considerado como uma variável imprescindível na produção de caminhos autônomos e criativos que sustentem a aposta no vir-a-ser desses jovens para além do lugar que podem ocupar no mercado de trabalho.

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