ADESÃO À TERAPIA ANTIRRETROVIRAL SOB A ÓTICA DA META 95-95-95 EM JARAGUÁ DO SUL-SC

ADHERENCE TO ANTIRETROVIRAL THERAPY UNDER THE 95-95-95 TARGET IN JARAGUÁ DO SUL, BRAZIL

ADHESIÓN A LA TERAPIA ANTIRRETROVIRAL SEGÚN LA META 95-95-95 EN JARAGUÁ DO SUL, BRASIL

Autores

Helen Gracieli da Cruz Furmann Knop

Mestra em Saúde Coletiva (FURB)

Faculdade Estácio IDOMED de Jaraguá do Sul 

ORCID: https://orcid.org/0000 -0002-0257-7626

Aline Lourdes Pasqualli

Graduada em Medicina

Faculdade Estácio IDOMED de Jaraguá do Sul 

ORCID: https://orcid.org/0000-0002-8737-3875

Amanda Nassur Corrêa Leite

Graduada em Medicina

Faculdade Estácio IDOMED de Jaraguá do Sul

ORCID: https://orcid.org/0000-0001-9189-1432

Willy Mamoru Hiraga

Médico Infectologista

Secretaria Municipal de Saúde – Jaraguá do Sul

ORCID: https://orcid.org/0009-0004-7777-321X

Rosana Mara da Silva

Mestre em Gestão de Políticas Públicas – UNIVALI

Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC

ORCID: https://orcid.org/0000-0002-4195-026X

RESUMO

Objetivo: avaliar o perfil pacientes soropositivos no município de Jaraguá do Sul para verificar a adesão ao tratamento do HIV em correspondência aos componentes da meta 95-95-95. Método: estudo transversal realizado em Jaraguá do Sul, com dados secundários (prontuários médicos), em 892 pessoas atendidas no serviço público, com idade superior  a 18 anos de idade. Resultados: Encontrou-se  892 pessoas vivendo com HIV (2,2% da população total), o sexo masculino (64,2%), raça branca (76,9%) e o grau de instrução escolar ensino médio completo (37%),  com procedência de outras localidades (81,8%),  167 pessoas se apresentaram como detectáveis,  2,8% abandonaram o tratamento. O município alcançou a meta em dois aspectos, 97,1% dos indivíduos em tratamento e 96,4% com carga viral indetectável, em relação ao  diagnóstico houve uma redução (90,4%). Conclusão: O município não alcançou a meta em todos os aspectos, principalmente quanto ao diagnóstico.

DESCRITORES: HIV; Terapia Antirretroviral; Carga viral

ABSTRACT

Objective: To evaluate the profile of HIV-positive patients in the municipality of Jaraguá do Sul to verify adherence to HIV treatment according to the 95-95-95 target components. Method: A cross-sectional study conducted in Jaraguá do Sul using secondary data (medical records) from 892 individuals over 18 years old receiving care in the public health service. Results: A total of 892 people living with HIV were identified (2.2% of the total population); most were male (64.2%), White (76.9%), and had completed high school (37%). The majority came from other municipalities (81.8%). Among them, 167 individuals had detectable viral loads, and 2.8% abandoned treatment. The municipality achieved the target in two indicators: 97.1% on treatment and 96.4% with undetectable viral load. However, diagnosis coverage reached only 90.4%. Conclusion: The municipality did not fully achieve the 95-95-95 target, mainly due to lower diagnostic coverage.

DESCRIPTORS: HIV; Antiretroviral therapy; Viral load

RESUMEN

Objetivo: Evaluar el perfil de los pacientes seropositivos en el municipio de Jaraguá do Sul para verificar la adhesión al tratamiento del VIH según los componentes de la meta 95-95-95. Método: Estudio transversal realizado en Jaraguá do Sul, con datos secundarios (historias clínicas) de 892 personas mayores de 18 años atendidas en el servicio público de salud. Resultados: Se identificaron 892 personas que viven con VIH (2,2% de la población total); la mayoría hombres (64,2%), de raza blanca (76,9%) y con educación secundaria completa (37%). La mayoría procedía de otros municipios (81,8%). Entre ellos, 167 presentaron carga viral detectable y el 2,8% abandonó el tratamiento. El municipio alcanzó la meta en dos indicadores: 97,1% en tratamiento y 96,4% con carga viral indetectable. En cuanto al diagnóstico, hubo una reducción (90,4%). Conclusión: El municipio no alcanzó la meta completamente, principalmente en el diagnóstico.

DESCRIPTORES: VIH;  Terapia Antirretroviral ; Carga Viral

INTRODUÇÃO

A expansão global da terapia antirretroviral (TARV) reduziu a morbidade relacionada ao HIV, assumindo um papel essencial do ponto de vista da efetividade do tratamento 1,2. A ingestão de medicamentos deve ser superior a 95% das doses de antirretrovirais para que haja uma supressão viral sustentada2 .  

No intuito de controlar a epidemia do HIV a “Declaração de Paris” de 2021, lançou o Projeto 95-95-95 com o objetivo de acabar com a epidemia até 2030., tendo como metas: diagnosticar 95% da população que vive com HIV, tratar 95% da população diagnosticada e carga viral indetectável de 95% dos pacientes que fazem tratamento contra o antirretroviral (TARV)3,4.

Para atingir essas metas é necessário que haja adesão ao tratamento. A adesão à TARV é um processo dinâmico, multideterminado e de responsabilidade do paciente, apresentando características típicas de acordo com cada faixa etária, quanto da equipe de saúde5 . O Brasil por sua vez, tendo na sua Legislação o Sistema Único de Saúde (SUS) dispôs a melhoria no acesso para a população brasileira em relação à saúde pública, disponibilizando tratamento gratuito para pessoas vivendo com HIV através da Coordenação Nacional de HIV/AIDS e Hepatites6.        

E com os avanços no tratamento, uma vez que o paciente consiga obter a carga viral indetectável com o uso da Terapia Antirretroviral (TARV), além de manter-se estável, sem qualquer sintoma ou doença relacionada ao vírus, deixa de transmiti-lo pelas relações sexuais. É o conceito de I=I, onde indetectável é igual a intransmissível. Ou seja, o HIV torna-se uma doença crônica controlável e o paciente não transmite mais via sexual desde que em uso da TARV e com carga viral indetectável6. A percepção da infecção pelo HIV como condição crônica e o consequente aumento de pessoas vivendo com a aids implicou a reorganização do modelo de atenção à saúde2.

Os avanços tecnológicos para fármacos antirretrovirais de maior facilidade posológica, maior potência e com menores efeitos adversos, sua dispensação gratuita no Brasil e o estabelecimento de uma linha de cuidado integral desses usuários resultaram na diminuição de internações por doenças oportunistas e na consequente queda da mortalidade2.

Há ainda muitos desafios a serem superados, como o diagnóstico da infecção pelo HIV, que já foi facilitado pela introdução do teste rápido, mas que ainda se mostra um grande obstáculo. Assim como o estigma e o preconceito que o HIV carrega consigo.

Com isso, este estudo objetivou avaliar o perfil pacientes soropositivos no município de Jaraguá do Sul para verificar a adesão ao tratamento do HIV em correspondência aos componentes da meta 95-95-95.

MÉTODO

Realizou-se um estudo transversal descritivo, com abordagem quantitativa no  município de Jaraguá do Sul (SC). Os dados foram obtidos através dos prontuários médicos físicos e digitais abrangendo toda a população soropositiva.

Foram identificadas 892 pessoas vivendo com HIV, acompanhadas no serviço público de referência no Município de Jaraguá do Sul. Observaram-se pacientes vivendo com HIV de ambos os sexos, confirmados via teste rápido ou exames laboratoriais, moradores de Jaraguá do Sul com a faixa etária entre 18 e 85 anos. Não participou do estudo crianças e indivíduos que estejam sob investigação para HIV sem confirmação por meio de exames.

Coletou-se dos prontuários dados sob as características sociodemográficas. Para coleta dos dados, buscou-se as variáveis:

a) Idade: indivíduos igual ou maior que18 anos, sem limite superior de idade.

b) Sexo (masculino; feminino): houve tanto indivíduos do sexo masculino quanto feminino, apresentando uma relação de homens e mulheres vivendo com HIV.

c) Cor da pele: pacientes classificados em branco, preto, pardo, amarelo ou indígena

d) Escolaridade: grau de instrução escolar, desde analfabetos até ensino superior completo

e) Procedência: procedentes de Jaraguá do Sul ou de outras localidades, mas que atualmente residiam em Jaraguá do Sul

f) Carga viral: se eram indetectáveis ou detectáveis e quantas copias apresentavam aqueles indivíduos que possuíam carga viral detectável

g) Tempo diagnostico: análise de tempo em anos que esses indivíduos possuíam o diagnóstico da doença.

h) Abandono de tratamento: observou-se que dentre os indivíduos com resultado positivo para HIV, quantos deles permaneciam em tratamento e quanto abandonaram.

i) Dentre as variáveis não houve classificação quanto a ocupação laboral, classificação econômica ou religião.

Sendo todos os dados tabulados através de tabelas Microsoft Excel for Windows, sendo realizadas  correções e eliminou-se inconsistências. A análise descritiva identificou as características gerais da população estudada, bem como estimou a prevalência do desfecho, que é a obtenção da meta 95-95-95%. Para análise estatística, aplicou-se os testes Quiquadrado e Exato de Fisher, utilizando o software SPSS Statistics IBM.

A análise dos dados ocorreu entre abril e agosto de 2024 no ambulatório SAE no município de Jaraguá do Sul. Foi submetido à plataforma Brasil, com aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da instituição participante correspondendo ao número de parecer nº 6.981.024 e CAAE: 79172224.4.0000.5357, que autorizou a coleta de dados. As identidades dos usuários e o sigilo dos dados individuais obtidos foram preservados.

RESULTADOS

Foram avaliados 892 pacientes vivendo com HIV, correspondendo a 2,2% da população total de Jaraguá do Sul. Porém, foi visto que dessas 892 pessoas portadoras do vírus, 25 abandonaram o tratamento.

De acordo com a tabela 1, trata-se do perfil sociodemográfico do município de Jaraguá do Sul, em que o sexo masculino com 64,2% predomina, a raça branca com 76,9% se destaca nos pacientes analisados e quanto a escolaridade prevalece as pessoas com ensino médio completo 37%. É notório que a maioria dos pacientes não são procedentes de Jaraguá do Sul, resultando em 81,8%. Cerca de 167 pacientes se apresentaram como detectáveis, os que se encaixavam neste grupo equivalem a pacientes com carga viral até 22 cópias. Seguindo com a análise da Tabela 1, houve uma pequena parcela de abandono no tratamento, correspondendo a 2,8%, por conseguinte, nota-se que o ano de 2024 foi o que mais apresentou número de abandono ao tratamento.

Tabela 1: Descrição das pessoas vivendo com HIV/aids que fazem acompanhamento pelo Sistema Único de Saúde. Jaraguá do Sul, Santa Catarina, Brasil, 2024 (n = 892).

 Dados Descritivos

 

N

%

Sexo

Masculino

573

64,2

Feminino

319

35,8

Raça

Branco

686

76,9

Pardo

155

17,4

Preto

Indígena

50

1

5,6

0,11

Escolaridade

Médio completo

330

37,0

Fundamental incompleto

208

23,3

Superior completo

118

13,2

Fundamental completo

96

10,8

Superior incompleto

80

9,0

Médio incompleto

54

6,1

Não alfabetizado

6

0,7

Procedência

Outros

730

81,8

Jaraguá do Sul

162

18,2

Carga viral

Indetectável

725

81,3

Detectável

167

18,7

Abandonou tratamento

Não

867

97,2

Sim

25

2,8

Ano Abandono do Tratamento

 

2020

5

20

2021

1

4

2022

6

24

2023

6

24

2024

7

28

Total

25

Fonte: Autores, 2024

O número de pacientes estimados para o Município de Jaraguá do Sul infectados com o vírus do HIV, segue o modelo nacional, que seria estimado em 0,54% da população. De acordo com o censo de 2022, a população total de Jaraguá do Sul seria de 182.660 realizando o cálculo baseado no 0,54% e multiplicando por 95% que seria a meta almejada, chega-se a um número de 937 pessoas (número esperado de pessoas infectadas pelo vírus HIV). Diante disso, nota-se que Jaraguá não alcançou a meta, demonstrando neste trabalho 892 habitantes vivendo com HIV.  

Quantidade de carga viral em pacientes consideráveis intransmissíveis na amostra de 892 é de cerca de 85%. Analisando a carga viral acima de 200 até 1000 cópias é equivalente a 2%, já aqueles entre 200 e 50 cópias se dá a 6% e pacientes com carga menor ou igual a 50 corresponde a 7%. Para a meta 95-95-95%, pacientes em uso de TARV regularmente que apresentam menos que 1000 cópias em exame laboratorial, se enquadram como indetectáveis. Sendo assim, cerca de 96,4% são considerados indetectáveis, Jaraguá do Sul se destaca positivamente4. Analisando o subgrupo dos indetectáveis os pacientes que apresentaram em exames Carga viral entre 200 e 50 cópias e menos que 50 cópias, houve diferença com pouca significância.

O número de pacientes que abandonaram o tratamento é de 25. Desta maneira, considerando a amostra de 892 pacientes, permanece em tratamento 867 indivíduos vivendo com HIV, resultando em 97,1% de pessoas que permanecem em tratamento, alcançando a meta de pelo menos 95% de pessoas em tratamento. De acordo com a análise feita entre os anos de 1992 a 2024, a maior taxa de abandono de tratamento foi no ano de 2019.

A maioria dos pacientes com carga viral detectável se enquadram dentro da faixa etária de 35-49 anos, correspondendo a 8,4% da população analisada. Demonstrando que a idade não está associada com a detecção da Carga Viral, e que a epidemia do HIV é uma doença do adulto jovem, em idade altamente produtiva. 

Observou-se que os anos de maior prevalência de diagnóstico de HIV foram entre 2015-2016, correspondendo a 112 paciente e 2017-2018, com 111 pessoas. A pandemia COVID-19 afetou negativamente o rastreio da doença no município, considerando os anos anteriores e posteriores da pandemia, em que havia maior número de diagnósticos, sendo assim os anos de 2019-2020, apresentou uma queda de 83 pacientes, e após se encaminhando para o fim da pandemia, 2021-2022, retornou um novo aumento de casos. Vale ressaltar, que no ano de 2024, foram analisados prontuários até o mês de julho, não totalizando os 12 meses.

De acordo com a meta estipulada 95-95-95, 95% dos pacientes diagnosticados, 95% em tratamento e alcançar 95% de carga viral indetectável, o município de Jaraguá do Sul alcançou a meta estipulada em dois aspectos, sendo ela 97,1% dos pacientes em tratamento e 96,4% dos pacientes com carga viral indetectável. Porém, em relação aos pacientes diagnosticados, houve um decréscimo, calculado em 90,4% (Figura 1).  

Figura 1 – resultados sob a meta 95-95-95%

Gráfico, Gráfico de barras

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Fonte: Autores, 2024

DISCUSSÃO

A infecção pelo HIV tem como alvo as células de defesa do organismo, sendo o principal alvo o linfócito T CD4 +7. O HIV é um vírus com potencial de causar a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS), gerando dano ao sistema imunológico, com incapacidade na resposta contra agentes oportunistas e permitindo que o ser humano fique suscetível a adoecer mais facilmente7.

Em um estágio avançado da infecção pelo HIV, a pessoa pode apresentar diversos sinais e sintomas, além de infecções oportunistas (pneumonias atípicas, infecções fúngicas e parasitárias) e alguns tipos de câncer. A TARV(terapia antiretroviral) utilizada para tratar o paciente com AIDS é a mesma utilizada para tratar o paciente com HIV, visto que com o avanço do conhecimento o tratamento antirretroviral deve ser iniciado o mais precocemente possível8.

A AIDS já foi considerada a 5ª causa de morte entre adultos, mas ao longo dos anos vem reduzindo significativamente devido às campanhas de saúde pública sobre prevenção e medicações, melhorando o conhecimento acerca da doença. Diante disso, é notório que se não prevenida ou tratada ela passa a ser uma doença grave9. O HIV está vinculado à Lista Nacional de Notificação Compulsória de doenças, assim na descoberta da patologia deve ser referida às competentes autoridades de saúde11. Concebido desde a Constituição Federal de 1988, o Sistema Único de Saúde (SUS) dispôs a melhoria no acesso para a população brasileira em relação à saúde pública. Além disso, apresentou pilares representando seus princípios e diretrizes, assegurando o direito à saúde, trazendo o princípio da integralidade, equidade e universalidade, disponibilizando tratamento gratuito para pessoas vivendo com HIV, não levando em conta a carga viral10. Atingir as metas da “Declaração de Paris” deve ser um objetivo a ser alcançado.

O déficit para atingir a meta estipulada é observado devido a diversas complicações, entre elas, principalmente a má adesão ao tratamento e o abandono recorrente ao serviço de atenção à saúde especializada disponibilizada para pacientes vivendo com HIV. Baseado nisso, uma das estratégias adotadas é a abordagem do paciente logo no início da descoberta sobre a doença (vincular o paciente ao Programa). Sem isso, essas pessoas que abandonam o tratamento estão suscetíveis ao aumento da carga viral, morbidade e mortalidade, e podem criar resistência ao medicamento, dificultando assim o alcance da meta11.

Em um estudo nacional identificou-se no ano de 2020 o número total de pacientes vivendo com HIV em todo território brasileiro é cerca de 1.124.063 indivíduos, sendo a maior prevalência do sexo masculinos (66,1%), e em relação a raça,  branca 23,6% e pardos 19,5%. Em relação a escolaridade, a maioria das pessoas vivendo com HIV possuem ensino fundamental incompleto (26,7%),  médio incompleto (8,1%)9.  Em relação a Jaraguá do Sul, encontrou-se o mesmo perfil, 64,2% sexo masculino;  a prevalência de brancos com 76,9%, em seguida a raça parda com 17,4%, tendo como escolaridade escolar ensino médio completo (37%), seguido pelo ensino superior completo (13,2%), o que teoricamente são indivíduos com maior acesso à informação, aos meios de prevenção e aos riscos da doença.

A grande maioria dos soropositivos analisados no estudo não são naturais de Jaraguá do Sul e possuem procedência de outros locais. Desta forma, os dados representam a evolução da cidade na questão de acesso a saúde sem discriminação, atentando a prevenção e preservando os princípios do SUS, abrangendo todos os moradores. Também caracteriza a grande migração que ocorre no país, país esse de dimensões continentais, alertando para o fato da necessidade de ações nacionais uniformes para atingir os objetivos almejados10.

Após análise dos dados epidemiológicos, nota-se que ainda há um número significativo de pacientes vivendo com HIV e, diante disso, na tentativa de promover a prevenção em saúde e minimizar os casos da doença bem como incentivar o tratamento correto, foi desenvolvida a meta 90/90/90% e com o passar dos anos, foi aprimorada para a meta 95/95/95%.

Uma das questões abordadas dentro da meta é quanto o tratamento se torna essencial e contribui com uma parcela dos 95% da proposta. Esse tratamento é feito pela TARV que reduziu significativamente a carga viral ou a tornou indetectável trazendo melhorias para a saúde de pessoas que vivem com HIV. Ademais, o indivíduo com uso de TARV correto tende a alcançar níveis indetectáveis da doença e assim, contribuindo para diminuir as chances de transmissão do vírus. Então, utilizar a TARV mantém as pessoas saudáveis, mesmo infectadas pelo HIV e impede a transmissão via sexual9. No ano de 2021, houve um aumento global de 28,2 milhões de pessoas utilizando a TARV para o tratamento do HIV. No entanto, a desigualdade em relação ao acesso a essas medicações é vista em diversos países pelo mundo12.

Da mesma forma, a pandemia COVID-19 gerou obstáculos para alcançar a meta da UNAIDS devido às limitações de acesso aos testes e a busca pela medicação, resultando em atrasos no início do tratamento e má adesão àqueles que já estavam fazendo uso dos fármacos. No ano de 2020, 73% tinham disponibilidade à TARV e 66% considerados indetectáveis12. Como demostrada nos resultados, observou redução no número de diagnóstico entre os anos de 2020-2021, considerado auge da pandemia, já no ano anterior, 2019, os números de diagnosticados eram mais expressivos, bem como em 2022.

O presente trabalho busca conhecer os dados de Jaraguá do Sul e analisá-la, contribuindo para a saúde pública. Um dos objetivos é comparar os dados obtidos com os dados de anos anteriores, visto que houve a pandemia do COVID-19 nos últimos anos e seu impacto no tratamento do HIV/AIDS.

Em princípio, a meta estipulada era de 90/90/90% até o ano 2020, progredindo atualmente para 95/95/95%, que passou a ser válida em 2021. Em um estudo analisado no estado do Rio Grande do Sul (RS), nenhuma unidade participante do trabalho atingiu a meta 90/90/90% nem tampouco 95/95/95%. Este mesmo estudo apontou influência da pandemia sobre os dados coletados, que necessitaria de um novo acompanhamento para um resultado mais fidedigno13.

Já em outro estudo realizado em Santa Cruz do Sul (RS), não foi cumprida a meta estabelecida, principalmente quanto ao tratamento, que totalizou 92,9% não atingindo os 95% almejado14.

O estudo reproduzido em Florianópolis, Santa Catarina (SC) citou um outro trabalho multicêntrico com representatividade nacional, que avaliou 7 estados brasileiros, relatou que 75% dos pacientes vivendo com HIV fizeram uso de 95% das doses da TARV. Diante disso, neste estudo de Florianópolis menciona que, o consumo de medicamentos antirretrovirais deve alcançar mais que 95% para ocorrer uma supressão viral adequada2.

Em âmbito internacional, na Suécia, um estudo demostrou que conseguiu atingir a meta da UNAIDS, com porcentagens de 96/99/98%15.

Grande parte dos estudos analisados não conseguiu atingir a meta 95/95/95%, fato este que distingui o município de Jaraguá do Sul, do qual alcançou até mais que 95% mostrando efetividade em tratamento, diagnóstico e acompanhamento do doente, frisando promoção e prevenção de saúde.  

CONCLUSÃO

        Diante do estudo, foram analisados dados epidemiológicos e concluiu que o município de Jaraguá do Sul ainda necessita realizar mais busca ativa dos pacientes, alcançando mais diagnósticos e investindo na prevenção e promoção de saúde. Considerando a meta 95-95-95%, a cidade de Jaraguá do Sul não atingiu o esperado quanto à quantidade de diagnósticos na população.

Outro ponto que foi observado na pesquisa, foi a com procedência de outras localidades (81,8%), questão do efeito migratório junto ao município. Notou-se que Jaraguá do Sul está  próximo de diagnosticar 95% das pessoas infectadas pelo HIV. O município alcançou a meta em dois aspectos, 97,1% dos indivíduos em tratamento e 96,4% com carga viral indetectável, em relação ao  diagnóstico houve uma redução (90,4%), diante do exposto Jaraguá do Sul não alcançou a meta em todos os aspectos (diagnóstico).

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