INTOXICAÇÕES POR PLANTAS REGISTRADAS NO BRASIL DE 2014 A 2023: UM ESTUDO TRANSVERSAL

PLANT POISONING CASES REGISTERED IN BRAZIL FROM 2014 TO 2023: A CROSS-SECTIONAL STUDY

INTOXICACIONES POR PLANTAS REGISTRADAS EN BRASIL ENTRE 2014 Y 2023: UN ESTUDIO TRANSVERSAL

Tipo de artigo: Artigo original

Autores

Guilherme Martins Gomes Fontoura

Mestre em Saúde e Tecnologia pela Universidade Federal do Maranhão. Afya Faculdade de Ciências Médicas de Bragança.

Orcid: https://orcid.org/0000-0001-5430-0728 

Arthur Alvino Aragão

Discente do Curso de Medicina da Afya Faculdade de Ciências Médicas de Bragança. Afya Faculdade de Ciências Médicas de Bragança.

Orcid:  https://orcid.org/0000-0002-9980-6965 

José Guilherme de Pinho Medeiros

Discente do Curso de Medicina da Afya Faculdade de Ciências Médicas de Bragança. Afya Faculdade de Ciências Médicas de Bragança.

Orcid: https://orcid.org/0009-0002-9999-3796 

Clívia Vitória dos Santos da Silva

Discente do curso de Farmácia da Universidade da Amazônica. Universidade da Amazônia.

Orcid: https://orcid.org/0009-0005-7224-4818

Jonas Valentin Guilhon

Graduado em Farmácia pela Universidade Federal do Pará. Universidade Federal do Pará.

Orcid: https://orcid.org/0009-0004-7578-7909 

Wherveson de Araújo Ramos

Mestre em Saúde e Tecnologia pela Universidade Federal do Maranhão. Afya Faculdade de Ciências Médicas de Marabá.

Orcid: https://orcid.org/0000-0002-8741-2686 

José Cleyton Nascimento Glins

Mestre em Química Medicinal e Modelagem Molecular pela Universidade Federal do Pará. Universidade Federal do Pará.

Orcid: https://orcid.org/0000-0001-8938-727X 

Diandra Araújo da Luz

Doutora em Neurociências e Biologia Celular pela Universidade Federal do Pará. Afya Faculdade de Ciências Médicas de Bragança.

Orcid: https://orcid.org/0000-0002-9703-2062 

RESUMO

Objetivo: Analisar os casos de intoxicação por plantas registrados no Brasil entre 2014 e 2023, descrevendo o perfil sociodemográfico, clínico e epidemiológico dos pacientes. Método: Estudo epidemiológico retrospectivo e quantitativo, baseado em 8.715 notificações do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN). Foram incluídos apenas casos confirmados de intoxicação por plantas, analisando variáveis demográficas, clínicas e geográficas com apoio de softwares Excel®, Jamovi® e QGIS®. Resultados: Predominaram indivíduos do sexo masculino e crianças de 1 a 4 anos, com maior ocorrência em residências (65,3%) e natureza acidental. A maioria evoluiu para recuperação sem sequelas. As plantas mais envolvidas foram Dieffenbachia ssp., Nicotiana tabacum e Euphorbia tirucalli. As regiões Sul e Sudeste apresentaram maior número de casos. Conclusão: As intoxicações por plantas no Brasil configuram um importante problema de saúde pública, com predominância de casos acidentais em crianças e ocorrências no ambiente domiciliar. Esses achados reforçam a necessidade de ações educativas, manejo seguro das espécies tóxicas e fortalecimento das notificações para aprimorar a vigilância e a prevenção das intoxicações por plantas no país.

DESCRITORES: Intoxicação por plantas. Vigilância em Saúde Pública. Epidemiologia.

ABSTRACT

Objective: To analyze cases of plant poisoning registered in Brazil between 2014 and 2023, describing the sociodemographic, clinical, and epidemiological profile of the patients. Method: Retrospective and quantitative epidemiological study, based on 8,715 notifications from the Notifiable Diseases Information System (SINAN). Only confirmed cases of plant poisoning were included, analyzing demographic, clinical, and geographic variables using Excel®, Jamovi®, and QGIS® software. Results: Males and children aged 1 to 4 years predominated, with the highest occurrence in homes (65.3%) and accidental nature. Most recovered without sequelae. The most frequently involved plants were Dieffenbachia spp., Nicotiana tabacum, and Euphorbia tirucalli. The South and Southeast regions presented the highest number of cases. Conclusion: Plant poisonings in Brazil constitute a significant public health problem, with a predominance of accidental cases in children and occurrences in the home environment. These findings reinforce the need for educational actions, safe handling of toxic species, and strengthened reporting mechanisms to improve surveillance and prevention of plant poisonings in the country.

DESCRIPTORS: Plant poisoning. Public Health Surveillance. Epidemiology.

RESUMEN

Objetivo: Analizar los casos de intoxicación por plantas registrados en Brasil entre 2014 y 2023, describiendo el perfil sociodemográfico, clínico y epidemiológico de los pacientes. Método: Estudio epidemiológico retrospectivo y cuantitativo, basado en 8715 notificaciones del Sistema de Información de Enfermedades de Notificación Obligatoria (SINAN). Solo se incluyeron casos confirmados de intoxicación por plantas, analizando variables demográficas, clínicas y geográficas mediante los programas Excel®, Jamovi® y QGIS®. Resultados: Predominaron los varones y los niños de 1 a 4 años, con la mayor incidencia en el hogar (65,3 %) y de carácter accidental. La mayoría se recuperó sin secuelas. Las plantas más frecuentemente involucradas fueron Dieffenbachia spp., Nicotiana tabacum y Euphorbia tirucalli. Las regiones Sur y Sudeste presentaron el mayor número de casos. Conclusión: Las intoxicaciones por plantas en Brasil constituyen un importante problema de salud pública, con predominio de casos accidentales en niños y ocurrencias en el entorno doméstico. Estos hallazgos refuerzan la necesidad de acciones educativas, un manejo seguro de las especies tóxicas y mecanismos de notificación reforzados para mejorar la vigilancia y la prevención de intoxicaciones por plantas en el país.

DESCRIPTORES: Intoxicación por plantas. Vigilancia en Salud Pública. Epidemiología.

INTRODUÇÃO

As plantas medicinais são amplamente utilizadas tanto na medicina tradicional quanto na moderna devido às suas propriedades terapêuticas, que incluem ações profiláticas, paliativas e curativas. A prática do uso dessas plantas remonta a tempos antigos e reflete a interdependência entre os seres humanos e o meio ambiente natural1,2. Os primeiros registros dessa prática vêm das civilizações da antiga Mesopotâmia. Documentos históricos, como o Papiro de Ebers do Egito, datado de aproximadamente 1500 a.C.; a medicina ayurvédica na Índia, com origens por volta de 5000 a.C.; os escritos de Hipócrates; e o Shennong Bencao Jing na medicina tradicional chinesa, são evidências da influência das plantas medicinais em várias culturas antigas3,4. Esse conhecimento, transmitido ao longo de gerações, continua a impactar as práticas médicas modernas. Apesar dos avanços da medicina contemporânea, o uso de plantas medicinais permanece prevalente em muitos países em desenvolvimento. No Brasil, o uso de ervas medicinais está profundamente enraizado na cultura popular e é preservado por comunidades indígenas, quilombolas, ribeirinhas e outras comunidades tradicionais5. Devido à sua vasta biodiversidade, o Brasil abriga aproximadamente 357 milhões de hectares de florestas tropicais, representando 30% das florestas tropicais do mundo. Das 55.000 espécies vegetais catalogadas no país, apenas 1.100 foram avaliadas quanto às suas propriedades medicinais, sendo que a maioria das plantas utilizadas pela população ainda é desconhecida em termos de seus perfis toxicológicos e farmacodinâmicos2,6.

Por outro lado, o aumento do uso de plantas, especialmente na medicina popular, tem levado a práticas inadequadas, como o manuseio incorreto, o preparo inadequado, a identificação farmacobotânica errônea e, consequentemente, a reações adversas e interações medicamentosas, resultando em casos de intoxicação. Fatores como via de administração, dose, tempo de exposição, interações com outras substâncias e propriedades físico-químicas dos compostos influenciam a resposta biológica1,2,7. As intoxicações são causadas por compostos tóxicos do metabolismo secundário das plantas, produzidos em resposta a pressões ambientais, atuando como mecanismos de defesa contra predadores como insetos, herbívoros e microrganismos patogênicos. Esses compostos são ativados por estímulos específicos e podem levar a eventos clínicos resultantes da interação entre uma ou mais substâncias químicas e um sistema biológico7,8. Além disso, a contaminação das plantas por toxinas fúngicas, pesticidas e metais pesados também contribui para sua toxicidade9.

Substâncias bioativas encontradas em espécies tóxicas podem causar alterações metabólicas nocivas por inalação, ingestão ou contato2,6,9. Entre os metabólitos secundários mais comuns estão os alcaloides, compostos que contêm nitrogênio e podem afetar os sistemas nervosos central e autônomo, como a atropina da Atropa belladonna e a morfina do Papaver somniferum6,10. Outros compostos notáveis incluem os glicosídeos cardiotônicos e cianogênicos, que interferem na função cardíaca e na respiração celular, como a digoxina e a digitoxina da dedaleira (Digitalis purpurea), e a amigdalina, encontrada em sementes de amêndoas amargas, damascos e pêssegos. Os taninos, compostos fenólicos que causam irritação gástrica em altas doses, estão presentes em plantas como Camellia sinensis e Punica granatum6,7,10-12.

As saponinas, presentes na quinoa (Chenopodium quinoa), na soja (Glycine max) e no ginseng (Panax ginseng), podem causar hemólise e irritação gastrointestinal em altas doses6,13,15. O oxalato de cálcio, embora não seja diretamente tóxico, pode causar irritação física e lesão tecidual devido à formação de cristais; ele é encontrado em plantas como o inhame (Dioscorea spp.) e o espinafre (Spinacia oleracea)6,14. Por fim, as toxalbuminas, como a ricina da mamona (Ricinus communis), inibem a síntese proteica celular, levando à morte celular6,16. Em alguns casos, cerca de meia hora após a administração, podem surgir sinais clássicos de colapso circulatório, como taquicardia, hipotensão, sudorese, cianose e fraqueza6,17.

Os efeitos adversos associados ao uso de plantas medicinais podem ser classificados como intrínsecos ou extrínsecos. As reações intrínsecas estão relacionadas à ação farmacológica das plantas e podem ser do tipo A ou tipo B. As reações do tipo A envolvem toxicidade previsível, superdosagem ou interações com outros medicamentos, enquanto as do tipo B são caracterizadas por respostas idiossincráticas. Estas últimas ocorrem quando o paciente reage de forma excessiva ou inadequada a uma substância, geralmente devido a fatores genéticos6,15. Já as reações extrínsecas resultam de falhas no processo de produção, como ausência de padronização, contaminação, adulteração, preparo ou armazenamento inadequados e rotulagem incorreta. As intoxicações podem se manifestar de forma aguda ou crônica. A intoxicação aguda geralmente resulta de uma única exposição e pode ser acidental, especialmente em crianças, ou intencional, como em tentativas de aborto ou suicídio; esses casos são frequentemente registrados em estatísticas6,9.

Em contraste, a intoxicação crônica resulta da exposição contínua à substância. Exemplos incluem a ingestão repetida de certas espécies de Crotalaria na medicina tradicional ou a exposição prolongada em atividades industriais e agrícolas, como o cultivo do tabaco. Em ambas as formas de intoxicação, o diagnóstico é complexo, e estabelecer a relação entre os sintomas observados e o consumo ou contato com plantas pode ser desafiador6,9,18. Fatores que dificultam esse processo incluem a falta de relato do paciente sobre o uso ou contato com plantas, a escassez de informações sobre o potencial tóxico das espécies e a ausência de profissionais qualificados para a identificação precisa das plantas nos serviços de saúde6,9.

Para controlar e documentar casos de intoxicação por plantas, foi criado, em 1998, o Programa Nacional de Informação sobre Plantas Tóxicas, integrado ao Sistema Nacional de Informações Toxicológicas e Farmacológicas (SINITOX). No Brasil, a notificação de eventos toxicológicos não é obrigatória, o que favorece a subnotificação e dificulta o estabelecimento de um panorama abrangente1,6,9. Portanto, este trabalho tem como objetivo analisar a situação atual do Brasil em relação aos casos de intoxicação por plantas e seus desfechos clínicos nos últimos 10 anos. Além disso, espera-se que iniciativas como esta incentivem a notificação dos casos, permitindo um melhor monitoramento das intoxicações, bem como a exposição do perfil sociodemográfico e clínico-epidemiológico e das espécies envolvidas à comunidade científica, a fim de orientar políticas para prevenir esses eventos.

MÉTODOS

Foi realizado um estudo epidemiológico retrospectivo, com abordagem quantitativa, utilizando dados secundários extraídos do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), base de dados do Ministério da Saúde do Brasil. A amostra obtida consistiu em 8.715 casos de intoxicação por plantas registrados no SINAN entre janeiro de 2014 e dezembro de 2023. Foram incluídos apenas os casos de intoxicação por plantas. Registros que apresentaram dados essenciais incompletos, como sexo e idade, foram excluídos da análise. Além disso, também foram excluídas as fichas de notificação preenchidas incorretamente ou contendo casos de intoxicação por produtos sintéticos ou outros produtos naturais que não fossem de origem vegetal.

Foram coletadas informações sociodemográficas (como sexo, faixa etária, nível de escolaridade etc.) e dados clínico-epidemiológicos, incluindo local de ocorrência, circunstâncias da intoxicação, situação gestacional, tipo de intoxicação, tipo de atendimento, hospitalização, critério diagnóstico, classificação final e desfecho clínico.

Os dados obtidos foram organizados utilizando o software Microsoft Office Excel 365®, as análises de frequências absolutas e relativas foram realizadas com o software Jamovi (versão 2.3.28). Para a análise da distribuição espacial das intoxicações por plantas, a base cartográfica das Unidades Federativas (UF) foi obtida do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os mapas seguiram o formato Shape file, composto por três arquivos com extensões shp, shx e dbf, utilizando a projeção Universal Transversa de Mercator (UTM) com o sistema geodésico regional para a América do Sul, o South American Datum (SAD 69). O gerenciamento de todas as informações e a elaboração dos mapas temáticos foram realizados no software QGIS (versão 3.34.10).

Entre as limitações deste estudo, destacam-se a possível subnotificação e as variações na qualidade dos dados, que dependem do grau de precisão e da disponibilidade de informações completas nos registros. Além disso, respostas ausentes ou em branco em algumas variáveis limitaram a análise dos casos em determinados aspectos.

Como este estudo foi baseado em dados secundários de domínio público, garantindo-se a confidencialidade das informações dos indivíduos notificados, não houve necessidade de submissão a um Comitê de Ética em Pesquisa.

RESULTADOS

Total de casos e dados sociodemográficos

Conforme mencionado anteriormente, foram analisados os dados sociodemográficos e clínico-epidemiológicos de 8.715 casos de intoxicação por plantas notificados ao SINAN no Brasil, no período de 2014 a 2023. As informações referentes à frequência e ao número de casos estão apresentadas na Figura 1, que evidencia que os anos de 2023, 2019, 2018 e 2017 apresentaram o maior número de registros.

Figura 1 – Frequência e distribuição dos casos de intoxicação por plantas notificados ao SINAN de 2014 a 2023, Brasil.

Fonte: Ministério da Saúde - Sistema de Informação de Agravos de Notificação - Sinan Net

Em relação ao sexo, a amostra foi predominantemente composta por indivíduos do sexo masculino, representando 56,8% (n=4.949) dos casos, enquanto o sexo feminino correspondeu a 43,2% (n=3.766) (Tabela 1).

Tabela 1 – Dados sociodemográficos dos casos de intoxicação por plantas notificados ao SINAN de 2014 a 2023, Brasil.

Variável

N

%

Sexo

Masculino

4.949

56,8

Feminino

3.766

43,2

Faixa etária

< 1 ano

362

4,2

1–4 anos

2.826

32,4

5–9 anos

1.181

13,6

10–14 anos

432

5,0

15–19 anos

579

6,6

20–39 anos

1.693

19,4

40–59 anos

1.131

13,0

60–79 anos

461

5,3

≥ 80 anos

50

0,6

Escolaridade

Analfabeto

61

0,7

Ensino fundamental incompleto

1.518

17,4

Ensino fundamental completo

246

2,8

Ensino médio incompleto

320

3,7

Ensino médio completo

621

7,1

Ensino superior

152

1,7

Não se aplica

3.813

43,8

Em branco/Ignorado

1.984

22,8

Raça/Cor

Branca

3.396

39,0

Preta

303

3,5

Parda

3.362

38,6

Amarela

56

0,6

Indígena

77

0,9

Em branco/Ignorado

1.521

17,5

Total

8.715

100,0

Fonte: Ministério da Saúde - Sistema de Informação de Agravos de Notificação - Sinan Net

        

Quanto à faixa etária, a maioria dos casos ocorreu em crianças de 1 a 4 anos, representando 32,4% (n=2.826) do total de notificações, seguidas pelas faixas etárias de 20 a 39 anos (19,4%; n=1.693) e de 5 a 9 anos (13,6%; n=1.181). Outras faixas etárias incluíram crianças com menos de 1 ano (4,2%; n=362); de 10 a 14 anos (5,0%; n=432); de 15 a 19 anos (6,6%; n=579); de 40 a 59 anos (13,0%; n=1.131); de 60 a 79 anos (5,3%; n=461); e indivíduos com 80 anos ou mais, representando 0,6% (n=50) dos casos.

Dados clínico-epidemiológicos dos casos notificados

Quanto ao local de ocorrência, a maioria dos casos ocorreu em domicílio, correspondendo a 65,3% (n=5.690) das notificações. Outros locais incluíram o ambiente de trabalho, com 12,8% (n=1.115), e o ambiente externo, com 5,7% (n=493). Casos em escolas/creches totalizaram 1,2% (n=108); em serviços de saúde, 0,1% (n=6); e no trajeto para o trabalho, também 0,1% (n=10). Os casos classificados como “outros” corresponderam a 3,3% (n=287), enquanto 11,5% (n=1.006) tiveram o local de ocorrência ignorado (Tabela 2).

Tabela 2 – Dados clínico-epidemiológicos dos casos de intoxicação por plantas notificados ao SINAN de 2014 a 2023, Brasil.

Variável

N

%

Local de ocorrência

Residência

5.690

65,3

Local de trabalho

1.115

12,8

Ambiente externo

493

5,7

Escola/Creche

108

1,2

Serviço de saúde

6

0,1

Deslocamento para o trabalho

10

0,1

Outro

287

3,3

Em branco/Ignorado

1.006

11,5

Circunstância

Acidental

5.670

65,1

Uso habitual

414

4,8

Ambiental

585

6,7

Tentativa de suicídio

333

3,8

Prescrição médica

2

0,0

Abuso

88

1,0

Ingestão de alimento/bebida

307

3,5

Tentativa de aborto

109

1,3

Automedicação

77

0,9

Uso terapêutico

100

1,1

Erro de administração

24

0,3

Violência/Homicídio

58

0,7

Outro

594

6,8

Em branco/Ignorado

354

4,1

Gestante

Sim

104

1,2

Não

1.154

13,2

Não se aplica

7.219

82,8

Em branco/Ignorado

238

2,7

Tipo de intoxicação

Aguda (única)

7.039

80,8

Aguda (repetida)

660

7,6

Aguda sobre crônica

11

0,1

Crônica

19

0,2

Em branco/Ignorado

986

11,3

Tipo de atendimento

Hospitalar

5.644

64,8

Ambulatorial

2.746

31,5

Domiciliar

145

1,7

Nenhum

11

0,1

Em branco/Ignorado

169

1,9

Internação

Sim

1.585

18,2

Não

6.795

78,0

Em branco/Ignorado

335

3,8

Critério diagnóstico

Clínico-epidemiológico

2.218

25,5

Clínico

5.713

65,6

Clínico-laboratorial

171

2,0

Em branco/Ignorado

613

7,0

Classificação final

Exposição

2.772

31,8

Intoxicação confirmada

4.769

54,7

Reação adversa

348

4,0

Diagnóstico diferencial

146

1,7

Síndrome de abstinência

97

1,1

Em branco/Ignorado

583

6,7

Evolução clínica

Cura sem sequela

7.513

86,2

Cura com sequela

84

1,0

Perda de seguimento

95

1,1

Óbito por intoxicação exógena

22

0,3

Óbito por outras causas

7

0,1

Em branco/Ignorado

994

11,4

Total

8.715

100,0

Fonte: Ministério da Saúde – Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN Net).

As circunstâncias da intoxicação foram majoritariamente acidentais, representando 65,1% (n=5.670) dos casos. Outras situações incluíram uso ambiental (6,7%; n=585), ingestão de alimentos ou bebidas (3,5%; n=307) e tentativa de suicídio (3,8%; n=333). Circunstâncias menos frequentes foram uso habitual (4,8%; n=414), automedicação (0,9%; n=77), tentativa de aborto (1,3%; n=109), abuso (1,0%; n=88), uso terapêutico (1,1%; n=100), erro de administração (0,3%; n=24) e violência/homicídio (0,7%; n=58). Casos classificados como “outros” corresponderam a 6,8% (n=594) e os registros em branco ou ignorados totalizaram 4,1% (n=354).

Entre as mulheres, 1,2% (n=104) dos casos ocorreram em gestantes, enquanto 13,2% (n=1.154) ocorreram em não gestantes. Para a maioria dos casos (82,8%; n=7.219), a variável “não se aplica”, provavelmente indicando que a população predominante era composta por homens, crianças ou mulheres fora da idade reprodutiva. Casos com dados em branco ou ignorados somaram 2,7% (n=238).

Quanto ao tipo de intoxicação, os eventos classificados como exposição aguda única corresponderam a 80,8% (n=7.039) dos casos, seguidos por intoxicação aguda repetida (7,6%; n=660). Casos de intoxicação crônica foram raros, representando apenas 0,2% (n=19). Em 11,3% (n=986) dos casos, o tipo de intoxicação foi registrado como em branco ou desconhecido, o que limita o entendimento real do perfil da amostra neste aspecto, embora os casos sejam predominantemente agudos e únicos.

A maioria dos casos recebeu atendimento hospitalar, correspondendo a 64,8% (n=5.644) dos registros. Outros 31,5% (n=2.746) dos casos foram atendidos em ambulatórios. O atendimento domiciliar foi menos comum (1,7%; n=145), e apenas 0,1% (n=11) dos casos não receberam atendimento. Em 1,9% (n=169), essa variável foi registrada como em branco ou ignorada.

Os critérios diagnósticos foram predominantemente clínicos, abrangendo 65,6% (n=5.713) dos casos, seguidos pelo diagnóstico clínico-epidemiológico, com 25,5% (n=2.218) — métodos mais frequentemente utilizados nessas situações. O diagnóstico clínico-laboratorial foi aplicado em 2,0% (n=171) dos casos, e em 7,0% (n=613) essa informação foi ignorada ou deixada em branco.

A classificação final dos casos mostrou que 54,7% (n=4.769) foram confirmados como intoxicação, enquanto 31,8% (n=2.772) foram classificados como exposição, indicando que a intoxicação ainda é predominante e reforçando a necessidade de medidas preventivas e campanhas informativas sobre o risco toxicológico das espécies vegetais. Reações adversas representaram 4,0% (n=348); diagnósticos diferenciais, 1,7% (n=146); e síndrome de abstinência, 1,1% (n=97). Casos com dados em branco ou desconhecidos totalizaram 6,7% (n=583).

Por fim, quanto ao desfecho clínico, a maioria dos pacientes evoluiu para cura sem sequelas, representando 86,2% (n=7.513) dos casos. A cura com sequelas ocorreu em 1,0% (n=84) dos casos, enquanto 1,1% (n=95) dos pacientes foram perdidos no acompanhamento. Ocorreram óbitos por intoxicação exógena em 0,3% (n=22) dos casos e óbitos por outras causas em 0,1% (n=7). Casos com essa variável em branco ou ignorada totalizaram 11,4% (n=994). A baixa incidência de óbitos também denota a eficiência do atendimento prestado aos pacientes, bem como a predominância de recuperação sem sequelas.

Distribuição espacial dos casos de intoxicação por plantas

Na Região Norte (5,2%), as taxas de intoxicação são relativamente baixas, destacando-se Roraima (0,7%) e Tocantins (2,7%). Os estados do Amazonas (0,3%), Rondônia (0,5%), Pará (0,8%), Acre (0,2%) e Amapá (0,1%) apresentaram as menores frequências de intoxicação na região. A Região Nordeste (23,5%) apresentou maior variação nas taxas, com Pernambuco (6,9%) e Bahia (5,1%) exibindo os maiores números. Alagoas (3,6%) e Paraíba (1,9%) também registraram taxas expressivas, enquanto estados como Sergipe (0,6%), Piauí (1,7%), Maranhão (0,7%), Ceará (1,6%) e Rio Grande do Norte (1,4%) apresentaram índices menores, embora relevantes regionalmente (Figura 2).

Figura 2 – Distribuição espacial dos casos de intoxicação por plantas notificados ao SINAN de 2014 a 2023, Brasil.

Gráfico, Mapa

Descrição gerada automaticamente

Fonte: Ministério da Saúde - Sistema de Informação de Agravos de Notificação - Sinan Net

Na Região Centro-Oeste (9,8%), Goiás se destaca com taxa relativamente alta (5,3%), seguido pelo Distrito Federal (2,2%), Mato Grosso do Sul (1,5%) e Mato Grosso (0,7%). A Região Sudeste (30,4%) é uma das áreas com maior número de casos, especialmente em Minas Gerais (13,6%) e São Paulo (9,9%). Esses estados, sendo altamente povoados, podem apresentar maior exposição a plantas tóxicas. Espírito Santo (4,6%) e Rio de Janeiro (2,3%) também registraram taxas significativas, contribuindo para o alto índice regional.

Por fim, a Região Sul (31,2%) apresentou a maior concentração de casos, com destaque para o estado do Paraná, que liderou com uma taxa alarmante de 19,0%. Rio Grande do Sul (6,5%) e Santa Catarina (5,6%) também apresentaram índices elevados, sugerindo exposição significativa da população a plantas potencialmente tóxicas.

Plantas envolvidas nos casos de intoxicação

O registro de casos de intoxicação por plantas não é uma tarefa simples, pois a identificação correta da espécie envolvida exige conhecimento e habilidades específicas, e a vítima, acompanhantes ou profissionais que atendem os casos nem sempre possuem o preparo necessário para fazê-lo de forma precisa. Durante a análise dos dados, foram encontrados erros frequentes de escrita e preenchimentos confusos, o que levou à exclusão de alguns registros a fim de minimizar possíveis vieses durante as análises.

Devido ao grande número de espécies com baixo número de notificações, foram selecionadas para exibição na Tabela 3 apenas as plantas com mais de 15 ocorrências registradas de intoxicação. As plantas estão descritas pelos nomes populares utilizados no Brasil, conforme registrados na base de dados do SINAN, acompanhadas da provável espécie ou gênero envolvido e do número total de notificações para cada uma.

Tabela 3 - Principais plantas envolvidas em casos de intoxicação no Brasil de 2014 a 2023.

Nome tradicional

Gênero ou espécie

Total

Comigo ninguém pode; aningapara

Dieffenbachia ssp.

17,8% (n= 1.552)

Fumo; tabaco

Nicotiana tabacum L.

3,9% (n= 340)

Desconhecida/não soube informar

-

2,7% (n= 237)

Aveloz; dedo de anjo; cachorro pelado; dedo do diabo; graveto do cão; palito de fogo; pecado pelado

Euphorbia tirucalli L.

1,54% (n= 134)

Urtiga

Urtiga dióica

1,46% (n= 127)

Buchinha; buchinha do norte; buchinha paulista

Luffa operculata (L.)

1,4% (n= 122)

Pinhão branco; pinhão manso; pinhão paraguaio; pinhão purga; pinhão roxo; pião roxo.

Jatropha

1,25% (n= 98)

Aroeira brava; Aroeirinha

Lithraea molleoides

1,25% (n= 98)

Pinhão

Araucaria angustifolia

0,91% (n= 79)

Mamona; ricino

Ricinus communis L.

0,85% (n= 74)

Cacto

Cactus L.

0,82% (n= 71)

Seiva; leite; látex

-

0,61% (n= 53)

Lírio

Lilium L.

0,56% (n= 51)

Cannabis; maconha; haxixe

Cannabis sativa

0,52% (n= 45)

Copo de leite

Zantedeschia aethiopica

0,4% (n= 35)

Mandioca; mandioca brava; maniva

Manihot esculenta

0,31% (n= 27)

Antúrio

Anthurium andraeanum

0,29% (n= 25)

Coroa de cristo; Coroa de espinho

Euphorbia milii

0,29% (n= 25)

Nogueira do Iguapé; noz da Índia

Aleurites moluccanus

0,28% (n= 24)

Pinhão bravo; Pinhão do mato

Jatropha mollissima

0,26% (n= 23)

Espada de São Jorge

Dracaena trifasciata

0,24% (n= 21)

Alocasia

Alocasia

0,23% (n= 20)

Ayahuasca

Banisteriopsis caapi; Psycotria viridis

0,23% (n= 20

Gota milagrosa; gota santa; janauba; leiteira; leiteira da Amazônia

Synadenium umbellatum

0,22% (n= 19)

Rosa do deserto; flor do deserto

Adenium obesum

0,22% (n= 19)

Inhame; inhame bravo; inhame de mato; inhame selvagem; inhame preto; inhame rosa; inhame roxo

Dioscorea

0,2% (n= 17)

Aloe vera; babosa

Aloe vera L.

0,18% (n= 16)

Belladonna

Atropa belladonna L.

0,17% (n= 15)

Fonte: Ministério da Saúde - Sistema de Informação de Agravos de Notificação - Sinan Net

A planta mais frequentemente envolvida em eventos adversos foi “comigo-ninguém-pode”/“aningapara” (17,8%; n=1.552), pertencente ao gênero Dieffenbachia spp., seguida por “fumo”/“tabaco”, cuja espécie é Nicotiana tabacum L. (3,9%; n=340). As notificações em que a planta era desconhecida ou não informada corresponderam a 2,7% (n=237) dos registros, reforçando a dificuldade em se obter informações precisas sobre a planta envolvida, especialmente em situações que envolvem o público mais acometido pelas intoxicações — crianças de 0 a 9 anos.

DISCUSSÃO

A análise dos casos de intoxicação por plantas no Brasil, ao longo de uma década, permite compreender não apenas a magnitude desse agravo à saúde pública, mas também os fatores socioculturais e ambientais que o influenciam. A partir dos dados obtidos, foi possível identificar padrões epidemiológicos, populações mais vulneráveis e espécies vegetais mais frequentemente envolvidas, fornecendo subsídios importantes para estratégias de prevenção, vigilância e educação em saúde. A seguir, discutem-se os principais achados à luz da literatura científica, destacando aspectos clínico-epidemiológicos e toxicológicos relevantes.

O fato de crianças menores de 1 a 9 anos representarem a maior proporção dos casos de intoxicação está de acordo com o estágio de desenvolvimento infantil, no qual a curiosidade e a baixa capacidade de avaliação de risco, inerentes à idade, tornam-nas mais vulneráveis a incidentes desse tipo9,19. Além disso, considerando que as plantas estão presentes na maioria dos lares brasileiros — seja para fins ornamentais ou alimentares —, torna-se ainda mais fácil o contato das crianças com possíveis agentes tóxicos2,6,9,19. Assim, a escolha criteriosa das espécies cultivadas em casa e o uso de estratégias que limitem o acesso infantil a elas configuram medidas cruciais para mitigar o risco de intoxicação.

Ademais, é importante ressaltar que o preenchimento adequado das informações sociodemográficas, como escolaridade, gênero e faixa etária, é essencial tanto para compreender os problemas de saúde pública quanto para direcionar o planejamento de ações em saúde conforme as características das populações-alvo2,20.

Nesse sentido, baixa escolaridade associa-se a uma maior predisposição a problemas de saúde, principalmente devido ao menor conhecimento sobre medidas básicas de prevenção e recuperação da saúde21,22. Quando se trata de intoxicações por insumos tão presentes no cotidiano, torna-se imprescindível que ações educativas em saúde sejam desenvolvidas para orientar a população, com foco especial em grupos vulneráveis.

Outro ponto que merece destaque é a alta incidência de intoxicações em ambiente domiciliar, possivelmente resultante de fatores associados e diretamente relacionada aos dados demográficos dos subgrupos afetados. Como já mencionado, crianças apresentam características comportamentais que favorecem a exposição, e isso tende a ocorrer dentro de casa, em razão da presença de plantas ornamentais, por exemplo2,6,9,19. No entanto, é importante salientar que não apenas crianças podem sofrer intoxicações acidentais; há casos em que essas ocorrências são intencionais, como em tentativas de suicídio.

Em contrapartida, o ambiente de trabalho, segundo local mais citado nas notificações, demanda atenção especial dos gestores quanto à implementação de medidas preventivas para evitar a exposição a plantas com potencial tóxico nesses espaços.

Da mesma forma, os casos que envolvem uso terapêutico, automedicação e uso habitual podem estar relacionados à crença de que as plantas medicinais são isentas de toxicidade, ignorando-se diversos fatores que afetam a segurança de seu uso6,9,21. Sabe-se que variáveis como quantidade utilizada, via de administração, comorbidades, uso prévio de outros medicamentos e faixa etária, entre outras, podem alterar significativamente a segurança do uso de plantas medicinais, aumentando o risco de efeitos adversos em detrimento dos benefícios terapêuticos1,2,7.

No caso de gestantes, há restrições inerentes ao uso de medicamentos em geral, sendo o uso de plantas indicado apenas quando estritamente necessário e sob supervisão profissional23,24. Diferentemente dos fármacos isolados, as plantas e seus derivados — como chás e extratos — possuem composição imprecisa e nem sempre completamente conhecida, o que dificulta a avaliação real dos riscos e benefícios para esse grupo específico9,25.

De forma coerente com os achados, os eventos de intoxicação acidental, que foram os mais prevalentes neste estudo, tendem a ocorrer na forma aguda e única, conforme descrito na literatura6,9,26. Esses episódios geralmente exigem atendimento hospitalar para alívio dos sintomas e recuperação clínica, especialmente entre crianças, que se destacaram como o principal grupo acometido no período analisado6,26.

No que diz respeito à distribuição regional, os dados deste estudo indicam que as regiões Sul e Sudeste concentraram o maior número de notificações, o que chama atenção para as diferenças socioculturais em relação ao restante do país. Nas regiões Norte e Nordeste, há presença marcante de grupos tradicionais (especialmente comunidades indígenas), nos quais o uso de plantas medicinais é culturalmente enraizado5,27,28. Em estados como Pará e Amazonas, por exemplo, é comum a existência de mercados de ervas e derivados, amplamente conhecidos e até visitados por turistas27,28. Assim, é plausível supor que as plantas estejam ainda mais presentes no cotidiano dessas populações, o que poderia aumentar o risco de intoxicação. No entanto, o fato de essas regiões apresentarem menor número de notificações levanta a hipótese de que esse perfil se deva à subnotificação dos casos ou, alternativamente, à utilização segura das plantas, sustentada pelo conhecimento tradicional acumulado ao longo de gerações.

Além disso, em situações em que a intoxicação ocorre sem a presença de pais ou responsáveis, nem sempre é possível identificar o agente causal, sobretudo em crianças que ainda não se comunicam plenamente19,29. Soma-se a isso o fato de que, como a notificação desses eventos não é obrigatória, é provável que outras espécies vegetais também representem riscos subestimados pela falta de dados disponíveis.

Outro ponto relevante observado é que, em alguns registros não incluídos nesta análise, foi identificada a ingestão concomitante de plantas medicinais e medicamentos psicotrópicos, especialmente benzodiazepínicos e zolpidem — substâncias que, isoladamente, já apresentam alto potencial de efeitos adversos graves e até fatais30.

É igualmente importante destacar que as plantas mais frequentemente encontradas nos casos de intoxicação estão amplamente presentes nos lares brasileiros, seja como ornamental (“comigo-ninguém-pode”, “lírio”, “espada-de-São-Jorge”, entre outras) ou como medicinais (Aloe vera, Atropa belladonna, etc.). Isso sugere que a população, em muitos casos, desconhece o potencial toxicológico dessas espécies ou subestima seus riscos, o que favorece a ocorrência de eventos indesejáveis29,31.

Além dessas, destacam-se ainda os casos de intoxicação por maconha (Cannabis sativa) e ayahuasca, substâncias frequentemente debatidas quanto aos riscos de seu uso. No caso da Cannabis, em especial, há uma percepção difundida de inocuidade ou baixa toxicidade entre usuários32,33. No entanto, ainda que os dados sobre esses eventos sejam modestos, eles reforçam que, como qualquer substância biológica, as plantas não estão isentas de toxicidade, por mais inofensivas que possam parecer29,30.

Dessa forma, a próxima subseção traz uma breve descrição dos mecanismos toxicológicos das principais espécies ou gêneros vegetais relacionados aos casos apresentados anteriormente.

Mecanismos toxicológicos das principais espécies vegetais envolvidas nas intoxicações

Dieffenbachia spp.

As plantas do gênero Dieffenbachia, pertencentes à família Araceae, desenvolvem-se naturalmente em regiões tropicais34-36. Essas espécies são amplamente utilizadas como plantas ornamentais, devido à facilidade de cultivo, permitindo que muitos exemplares cresçam com pouca dedicação ao plantio, já que prosperam em ambientes sombreados37.

Entre as espécies do gênero, destaca-se a Dieffenbachia picta, conhecida popularmente como “comigo-ninguém-pode” ou “flor-da-sorte”, responsável por episódios específicos de intoxicação, pois suas folhas coloridas costumam atrair a atenção de crianças38. A intoxicação por essa espécie manifesta sintomas característicos em crianças e animais, podendo evoluir clinicamente para obstrução das vias aéreas e insuficiência respiratória38. Os sintomas mais leves incluem inchaço, ardência e dor na língua e nos lábios, decorrentes da mastigação das folhas.

A literatura descreve o caso de uma criança de 3 anos levada à unidade de emergência com sintomas após ingestão de D. picta (confirmada por anamnese e pela presença da planta no domicílio), apresentando edema oral, dificuldade respiratória e hipersalivação. O exame radiológico descartou aspiração de corpo estranho, e o tratamento com anti-histamínicos e corticoides resultou em alta após 4 horas de observação35.

De modo semelhante, Akça et al.39 relataram o caso de uma criança de 23 meses, sem histórico de doenças respiratórias, admitida com vermelhidão e edema labial duas horas após mastigar a folha da planta, obtendo alta 24 horas depois. Outro caso, descrito por Porsuk et al.36, envolveu um bebê de 25 meses com choro intenso e um ramo da planta quebrado; a família procurou atendimento e o quadro foi resolvido com corticoides e analgésicos.

Outra espécie importante do grupo é a Dieffenbachia seguine, popularmente conhecida como “cana-dumb” ou “cana-muda”, também amplamente utilizada como planta ornamental de interior, cuja ingestão ou contato com folhas, caule ou raiz pode ser venenoso40,41.

Essas plantas contêm oxalato de cálcio, que forma ráfides (estruturas microscópicas em forma de agulhas), capazes de causar lesão mecânica, irritação tecidual e inflamação. Outros compostos tóxicos identificados incluem ácido oxálico, asparagina, sapotoxinas e glicosídeos cianogênicos42,43. Os sintomas de intoxicação por D. seguine incluem irritação cutânea (vermelhidão, coceira e bolhas), sensação de queimação, disfagia dolorosa, salivação excessiva, edema e perda temporária da fala. Quando há contato ocular, pode ocorrer vermelhidão, dor intensa e ardência, além de sintomas gastrointestinais como náusea, diarreia, fraqueza, delírio, convulsões e febre44.

Nicotiana tabacum

A Nicotiana tabacum, popularmente conhecida como tabaco, pertence à família Solanaceae, que inclui várias espécies de importância econômica e farmacológica, como a batata (Solanum tuberosum) e o tomate (Solanum lycopersicum). Essa família caracteriza-se pela presença de alcaloides bioativos, responsáveis por propriedades tanto terapêuticas quanto tóxicas45.

O tabaco é uma planta herbácea perene, geralmente cultivada como anual, podendo atingir até 2 metros de altura. Suas folhas grandes, ovaladas e pegajosas apresentam tricomas glandulares que secretam substâncias resinosas, e suas flores tubulares variam de branco a rosa. A planta produz grandes quantidades de nicotina, um alcaloide potente concentrado principalmente nas folhas — parte mais valiosa para a indústria do tabaco46. O uso de seus derivados, especialmente no fumo, está associado a consequências de longo prazo para a saúde pública. Assim, é empregada na fabricação de cigarros, charutos, tabaco de mascar e produtos de reposição de nicotina.

Os alcaloides nicotínicos presentes em diversas espécies vegetais são tóxicos para humanos47. A intoxicação acidental pode ocorrer pela ingestão da planta, principalmente por crianças pequenas, ou em exposições ocupacionais durante a colheita de folhas úmidas, que aumentam a absorção cutânea48.

A intoxicação por N. tabacum pode ocorrer por ingestão, inalação ou absorção pela pele, mesmo íntegra49. A nicotina atua como agonista dos receptores nicotínicos de acetilcolina, provocando estímulo inicial seguido de depressão do sistema nervoso central e periférico50. Os sintomas clínicos incluem náusea, vômitos, salivação excessiva, dor abdominal, taquicardia, hipertensão, tontura e confusão mental. Nos casos graves, podem ocorrer bradicardia, hipotensão, convulsões e paralisia respiratória, potencialmente fatais se não tratadas adequadamente51.

A absorção dérmica é uma via relevante de intoxicação, especialmente em trabalhadores agrícolas sem proteção adequada. Em animais, a ingestão de partes da planta também pode ser fatal, provocando tremores, fraqueza muscular e insuficiência respiratória49.

Euphorbia tirucalli L.

A Euphorbia tirucalli L., conhecida popularmente como avelós ou cacto-lápis, pertence à família Euphorbiaceae, uma das maiores e mais diversas entre as angiospermas, com mais de 300 gêneros e cerca de 7.500 espécies amplamente distribuídas em regiões tropicais e subtropicais52.

Trata-se de uma planta suculenta, perene e arbustiva, que pode alcançar até 6 metros de altura. Suas folhas são reduzidas e caducas, conferindo-lhe aspecto de ramos cilíndricos e articulados, responsáveis pela fotossíntese. Uma característica marcante é a produção de látex leitoso, substância viscosa e esbranquiçada liberada quando a planta é cortada ou lesionada52.

Esse látex contém compostos químicos como flavonoides, diterpenos, esteroides e alcaloides, que podem ser altamente irritantes e tóxicos53. O contato direto com a pele pode causar dermatite de contato, com vermelhidão, prurido e formação de bolhas. Quando o látex entra em contato com os olhos, pode provocar dor intensa, lacrimejamento e até perda temporária da visão54.

Em três casos de lesões oculares relatados na literatura, pacientes apresentaram dor, ardência e visão turva, com erosões puntiformes e pregas na membrana de Descemet, recuperando-se completamente após tratamento de suporte55. Outro relato descreve um homem de 40 anos com dor ocular bilateral severa e perda de acuidade visual, tratado com irrigação abundante, antibióticos e corticoides tópicos, com recuperação satisfatória56.

Devido ao seu potencial risco à saúde, recomenda-se evitar o contato direto com o látex e utilizar equipamentos de proteção (luvas e óculos) durante o manuseio. Embora tenha uso tradicional na medicina popular, seu emprego é controverso e deve ser cauteloso, dada sua reconhecida toxicidade55.

Luffa operculata (L.)

Conhecida popularmente como “buchinha-do-norte”, “buchinha-paulista” ou “cabacinha”, a Luffa operculata é uma planta medicinal trepadeira originária do nordeste do Brasil, amplamente utilizada para fins terapêuticos. Possui caule ramificado de até 10 metros, frutos ovóides ou fusiformes, de superfície áspera e conteúdo esponjoso, medindo cerca de 5 cm e pesando aproximadamente 1 g57.

É utilizada popularmente no tratamento de laringite, febre, herpes, ascite, doenças oculares e como vermífugo, mucolítico, sudorífero e expectorante. No Brasil, a infusão do fruto seco é aplicada por inalação ou instilação nasal, podendo causar irritação, epistaxe e anosmia58. Há relatos de intoxicação por ingestão de chás produzidos com o fruto, resultando em náuseas, vômitos, diarreia, cólicas e cefaleia, sendo estimado que 1 g do extrato é letal para um adulto de 70 kg59,60. Outros relatos descrevem sangramentos vaginais, epistaxe, coma e até morte61. Estudos experimentais também demonstram atividade embriotóxica e abortiva em animais tratados com espécies do mesmo gênero62.

Lithraea molleoides

A Lithraea molleoides, conhecida como aroeira ou molle, pertence à família Anacardiaceae, que inclui espécies com reconhecido potencial para causar reações alérgicas devido à presença de compostos urushiol-like. É nativa da América do Sul — especialmente Argentina, Brasil, Uruguai e Paraguai — e cresce em florestas subtropicais e temperadas63.

A exposição à seiva ou folhas da planta pode causar dermatite de contato, com vermelhidão, coceira, edema e formação de bolhas, exigindo, em alguns casos, intervenção médica64. Apesar disso, a espécie é utilizada na medicina popular no tratamento de afecções respiratórias, inflamatórias e gastrointestinais, devido à presença de flavonoides, taninos e triterpenos65. Contudo, seu perfil toxicológico demanda cautela, já que os mesmos compostos com efeito terapêutico podem provocar reações adversas severas em indivíduos sensíveis.

Jatropha L.

As plantas do gênero Jatropha L., pertencentes à família Euphorbiaceae, são conhecidas como pinhão-de-purga e contêm compostos de alta toxicidade66. Crianças, pela curiosidade e pelo sabor adocicado das sementes, podem ingeri-las acidentalmente, confundindo-as com amendoins67.

Entre 2012 e 2013, 19 casos de ingestão acidental de sementes foram relatados na Índia, com sintomas de náuseas, vômitos, dor abdominal, desidratação, hipoglicemia e disfunção renal66. Em todos os casos, o tratamento foi sintomático e a recuperação satisfatória. Contudo, estudos experimentais relatam lesões hepáticas e renais graves em animais expostos aos compostos tóxicos, incluindo ricina68,69.

Relatos adicionais descrevem casos de intoxicação aguda que exigiram terapia intravenosa e hospitalização, além de sintomas oculares como miose intensa70,71.

Urtica dioica

Pertencente à família Urticaceae, a Urtica dioica (urtiga) é uma pequena planta herbácea de caule ereto e folhas ovais. Seu nome deriva do latim urere (“queimar”), em referência aos tricomas urticantes presentes nos caules e pecíolos72.

Esses pelos, ocas e frágeis, contêm um líquido irritante composto por histamina, acetilcolina e outras substâncias vasoativas, que, ao entrar em contato com a pele, causam ardência intensa e eritema, caracterizando a “resposta tríplice de Lewis”. Em casos severos, pode ocorrer formação de bolhas extensas que demandam semanas para cicatrização completa72. Há relatos de casos graves com hospitalização imediata após o contato direto com a planta72.

CONCLUSÃO

O presente estudo demonstrou que as intoxicações por plantas no Brasil, entre 2014 e 2023, representam um importante problema de saúde pública, com predominância de casos acidentais, especialmente em crianças de 1 a 4 anos e ocorridos em ambiente domiciliar. Observou-se também maior frequência de notificações nas regiões Sul e Sudeste, o que possivelmente reflete diferenças regionais nos sistemas de vigilância e registro de casos.

A maioria dos episódios apresentou desfecho favorável, com recuperação sem sequelas, o que sugere efetividade no atendimento prestado aos pacientes. Entre as espécies mais frequentemente envolvidas, destacaram-se Dieffenbachia spp., Nicotiana tabacum e Euphorbia tirucalli, amplamente utilizadas como plantas ornamentais e medicinais.

Esses resultados reforçam a importância das ações de educação em saúde, do manejo adequado das espécies tóxicas e do fortalecimento das notificações no SINAN (Sistema de Informação de Agravos de Notificação), a fim de subsidiar políticas públicas voltadas à prevenção e ao monitoramento das intoxicações por plantas no país.

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