TENDÊNCIA TEMPORAL DA MORTALIDADE POR CÂNCER DE BOCA E FARINGE NO BRASIL, 2004 A 2023

TEMPORAL TREND OF MORTALITY FROM ORAL AND PAHRYNGEAL CANCER IN BRAZIL, 2004 A 2023

TENDENCIA TEMPORAL DE LA MORTALIDAD POR CÁNCER DE BOCA Y FARINGE EM BRASIL, 2004 A 2023

RESUMO

Objetivo: A analisar a tendência temporal de mortalidade por câncer de boca e de faringe no Brasil, de 2004 a 2023. Método: Estudo ecológico, de série temporal, a partir de dados do Sistema de Informação sobre Mortalidade; as taxas de mortalidade foram calculadas segundo região, estado, sítios anatômicos, sexo e faixa etária e a tendência, avaliada por regressão de Prais-Winsten. Resultados: Foram registrados 74.820 óbitos por câncer de boca e 69.786 por câncer de faringe. Ambas as neoplasias apresentaram tendência temporal crescente na maioria das regiões, especialmente no Norte (VPA = 5,6%; IC95%: 0,78–0,97) e Nordeste (VPA = 5,51%; IC95%: 1,50–1,76), com predomínio de óbitos em homens e maior mortalidade em pessoas acima de 60 anos. Conclusão: Houve tendência temporal crescente e heterogênea da mortalidade por câncer de boca e faringe no Brasil, marcada por disparidades regionais profundas e um perfil demográfico em evolução.

DESCRITORES: Neoplasias Bucais; Neoplasias Faríngeas; Mortalidade.

ABSTRACT

Objective: To analyze the temporal trend of mortality from oral and pharyngeal cancer in Brazil, from 2004 to 2023. Method: Ecological, time-series study, based on data from the Mortality Information System; mortality rates were calculated according to region, state, anatomical sites, sex, and age group, and the trend was assessed by Prais-Winsten regression. Results: A total of 74,820 deaths from oral cancer and 69,786 from pharyngeal cancer were recorded. Both neoplasms showed an increasing temporal trend in most regions, especially in the North (APC = 5.6%; 95% CI: 0.78–0.97) and Northeast (APC = 5.51%; 95% CI: 1.50–1.76), with a predominance of deaths in men and higher mortality in people over 60 years of age. Conclusion: There was an increasing and heterogeneous temporal trend in mortality from oral and pharyngeal cancer in Brazil, marked by profound regional disparities and an evolving demographic profile.

KEYWORDS: Oral Neoplasms; Pharyngeal Neoplasms; Mortality.

RESUMEN

Objetivo: Analizar la tendencia temporal de la mortalidad por cáncer oral y faríngeo en Brasil, de 2004 a 2023. Método: Estudio ecológico, de series de tiempo, basado en datos del Sistema de Información de Mortalidad; las tasas de mortalidad se calcularon según región, estado, sitios anatómicos, sexo y grupo de edad, y la tendencia se evaluó mediante regresión de Prais-Winsten. Resultados: Se registraron 74.820 muertes por cáncer oral y 69.786 por cáncer faríngeo. Ambas neoplasias mostraron una tendencia temporal creciente en la mayoría de las regiones, especialmente en el Norte (APC = 5,6%; IC del 95%: 0,78-0,97) y el Nordeste (APC = 5,51%; IC del 95%: 1,50-1,76), con predominio de muertes en hombres y mayor mortalidad en personas mayores de 60 años. Conclusión: Se observó una tendencia temporal creciente y heterogénea en la mortalidad por cáncer oral y faríngeo en Brasil, marcada por profundas disparidades regionales y un perfil demográfico en evolución.

PALABRAS CLAVE: Neoplasias Orales; Neoplasias Faríngeas; Mortalidad.

Leonardo Segateli

Mestre em Ensino em Saúde pela Faculdade de Medicina de Marília – FAMEMA

ORCID: 0009-0000-0106-4135

Marcos Abelbeck de Oliveira

Mestre em Ensino em Saúde pela Faculdade de Medicina de Marília – FAMEMA

ORCID: 0000-0003-4365-0858

Matheus Luis Leite Coca

Mestre em Ensino em Saúde pela Faculdade de Medicina de Marília – FAMEMA

ORCID: 0009-0006-3858-6141

Camila de Moraes Delchiaro

Mestre em Ensino em Saúde pela Faculdade de Medicina de Marília – FAMEMA

ORCID: 0009-0007-1824-1848

Eduardo Ribeiro Ferracini

Mestrando em Ensino em Saúde pela Faculdade de Medicina de Marília – FAMEMA

ORCID: 0009-0002-1215-5133

Giovana Ferracini Fornasier

Mestre em Ensino em Saúde pela Faculdade de Medicina de Marília – FAMEMA

ORCID: 0009-0006-7063-5783

Julie Munhoz Teles

Mestre em Ensino em Saúde pela Faculdade de Medicina de Marília – FAMEMA

ORCID: 0009-0000-2965-6319

INTRODUÇÃO

O aumento global da carga das Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNTs), com o câncer situando-se entre as principais causas de morbimortalidade, constitui um dos maiores desafios contemporâneos para a saúde pública1. No contexto brasileiro e latino-americano, os cânceres de boca e de faringe constituem um relevante problema de saúde pública, estando associados a elevada morbidade, desfiguração e óbito. Estimativas mais recentes do Instituto Nacional do Câncer (INCA) para o triênio 2023-2025 posicionam os tumores da cavidade oral como o 5º mais frequente entre os homens brasileiros, com aproximadamente 11.200 novos casos anuais. Quando considerada a região de cabeça e pescoço como um todo, esses valores superam 21.000 casos/ano, incluindo também os cânceres de laringe (6.190 casos), o que evidencia o peso dessas neoplasias no perfil oncológico nacional2.

As tendências de mortalidade por câncer de boca e faringe no Brasil, ao longo das últimas décadas, têm revelado um comportamento temporal diverso, marcado por diferenças regionais e demográficas significativas. Enquanto algumas unidades federativas, especialmente nas regiões Sul e Sudeste, apresentam taxas historicamente elevadas, porém com tendência de crescimento mais modesto ou mesmo estabilização, outras, particularmente nas regiões Norte e Nordeste, vivenciam um incremento percentual anual acentuado. Este padrão sugere uma transição epidemiológica em curso, com a interiorização e expansão geográfica da carga dessas doenças3.

As taxas de mortalidade por estes cânceres são fortemente influenciadas por um conjunto multifatorial. Para além dos determinantes clássicos, como o tabagismo e o etilismo, cuja associação é bem estabelecida, a infecção pelo HPV, especialmente para os tumores de orofaringe, tem emergido como um fator de risco de importância crescente. Ademais, a letalidade dessas neoplasias está intrinsecamente ligada ao diagnóstico em estágios avançados, o que, por sua vez, reflete barreiras de acesso a serviços de saúde, incluindo limitações na atenção primária para reconhecimento precoce de lesões e encaminhamento oportuno para centros especializados4,5.

Dados publicados pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA) reiteram a magnitude do problema. As estimativas apontam para um volume expressivo de novos casos anuais de câncer da cavidade oral no país, posicionando-o entre os mais frequentes em homens. A sobrevida média em cinco anos, quando o diagnóstico é realizado tardiamente, permanece desfavorável, geralmente abaixo de 50%, destacando o impacto prognóstico do estadiamento ao diagnóstico. Essas estatísticas sublinham a necessidade contínua de vigilância epidemiológica e de estratégias direcionadas para o controle da doença6,7.

Diante deste cenário, o presente estudo tem como objetivo analisar a tendência temporal da mortalidade por câncer de boca e de faringe no Brasil ao longo de um período de duas décadas (2004-2023).

MÉTODOS

Estudo ecológico, com análise de série temporal da mortalidade por câncer de boca e faringe no Brasil, no período de 2004 a 2023.

Os dados de óbitos foram extraídos do Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM/ DATASUS), e os dados populacionais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Foram incluídos no estudo todos os óbitos por câncer de boca (C00-C09) e de faringe (C09-C14), conforme a 10ª Classificação Internacional de Doenças (CID-10), segundo região de residência (Norte, Nordeste, Sudeste, Sul e Centro-Oeste), estado, sexo e sítio anatômico.  

As variáveis de interesse do estudo foram: sexo (masculino; feminino); faixa etária (0 a 19 anos; 20 a 39 anos; 40 a 59 anos; 60 a 79 anos; 80 anos ou mais); ano de ocorrência (2004 a 2023); local de residência (Brasil; regiões brasileiras; UF); sítio anatômico (C00-C14).

Foram analisadas as taxas de mortalidade por 100.000 habitantes para o Brasil, regiões e UF, utilizando dados absolutos de óbitos anuais no período de 2004 a 2023. As taxas foram obtidas pela razão entre o número de óbitos e a população em cada ano, multiplicando-se o resultado por 100.000.

A taxa média de mortalidade do período foi calculada pela média aritmética das taxas anuais de cada região, UF e sítio anatômico. Para a avaliação da tendência temporal, utilizou-se a regressão de Prains-Winsten, que permite a correção da autocorrelação serial de primeiro grau nas séries temporais. O modelo estima o coeficiente de regressão, intervalos de confiança de 95% e o percentual de variação anual (VPA) das taxas, classificados em três padrões: crescente (VPA > a 0,5), estacionário (VPA entre -0,5 e 0,5) e decrescente (VPA < -0,5). O intervalo de confiança foi de 95% para a taxa média de mortalidade.

Todos as análises foram realizadas no Software R. O presente estudo foi realizado com dados de domínio público, que não possibilitam a identificação individual, portanto, dispensam a aprovação de um comitê de ética e pesquisa.

RESULTADOS

Entre 2004 e 2023, foram registrados no Brasil 74.820 óbitos por câncer de boca e 69.786 óbitos por câncer de faringe, representando, respectivamente, coeficientes médios de 1,87 e 1,75 por 100 mil habitantes. A análise da tendência temporal demonstrou que ambos os tipos de câncer apresentaram comportamento predominantemente crescente, embora com diferenças regionais marcantes. No caso do câncer de boca, todas as regiões brasileiras evidenciaram elevação das taxas, com maior destaque para o Nordeste (VPA = 5,51%; IC95%: 1,50–1,76) e Norte (VPA = 5,6%; IC95%: 0,78–0,97), regiões que historicamente apresentam indicadores socioeconômicos mais desfavoráveis. Já para o câncer de faringe, a tendência crescente esteve presente em quase todas as regiões, exceto no Sul (VPA=0,28%; IC95%: 2,17-2,27), onde se manteve estacionária, sugerindo estabilização dos padrões de mortalidade nesse território (Tabela 1).

Tabela 1 - Número e porcentagem de óbitos, coeficiente médio por 100.000 habitantes e tendência das taxas de mortalidade por câncer de boca e faringe segundo regiões. Brasil, 2004-2023.

Região

Óbitos

Coeficiente

 médio

VPA*

IC95%*

Interpretação

n

%

Boca

Norte

2983

4,0

0,88

5,6

0,78-0,97

Crescente

Nordeste

17852

23,9

1,63

5,51

1,50-1,76

Crescente

Sudeste

36649

49,0

2,17

2,19

2,06-2,28

Crescente

Sul

12805

17,1

2,22

1,28

2,11-2,32

Crescente

Centro-oeste

4531

6,0

1,49

2,81

1,38-1,60

Crescente

Brasil

74820

100

1,87

2,77

1,76-1,98

Crescente

Faringe

Norte

2462

3,5

0,72

4,1

0,65-0,79

Crescente

Nordeste

14989

21,5

1,37

5,13

1,27-1,47

Crescente

Sudeste

34503

49,5

2,05

0,53

2,00-2,09

Crescente

Sul

12792

18,3

2,22

0,28

2,17-2,27

Estacionária

Centro-oeste

5040

7,2

1,66

1,61

1,57-1,75

Crescente

Brasil

69786

100

1,75

1,32

1,69-1,80

Crescente

VPA: Variação percentual anual; IC95%:Intervalo de confiança do coeficiente médio.

No período analisado, a mortalidade por câncer de boca apresentou predominância masculina em todas as regiões, com os homens respondendo por cerca de 81% dos óbitos, o que corresponde a uma razão homem/mulher de aproximadamente 4:1. As maiores taxas médias foram registradas no Sul (2,22/100 mil habitantes) e Sudeste (2,17/100 mil habitantes), ambas em tendência crescente, embora com variações percentuais anuais mais discretas (VPA = 1,28% e 2,19%, respectivamente). Em contrapartida, as regiões Norte e Nordeste, apesar de apresentarem coeficientes médios mais baixos (0,88 e 1,63/100 mil habitantes, respectivamente), exibiram os maiores incrementos relativos, com VPA de 5,6% e 5,51%. Entre as mulheres, as taxas foram consistentemente inferiores em todas as regiões, mas também em tendência crescente, o que reforça a expansão da carga da doença sobre esse grupo historicamente menos afetado (Figura 1A).

Para o câncer de faringe, a diferença entre os sexos mostrou-se ainda mais acentuada: os homens representaram 85% dos óbitos, resultando em uma razão homem/mulher de aproximadamente 6:1. O Sudeste destacou-se pelo maior número absoluto de óbitos e por uma taxa média elevada (2,05/100 mil habitantes), embora com crescimento mais modesto (VPA = 0,53%). O Sul apresentou a maior taxa média nacional (2,22/100 mil habitantes), porém em comportamento estacionário (VPA = 0,28%). Já as regiões Nordeste e Norte se sobressaíram pelo ritmo de crescimento, com VPA de 5,13% e 4,1%, respectivamente, mesmo mantendo coeficientes médios menores (1,37 e 0,72/100 mil habitantes). Nas mulheres, embora a mortalidade tenha se mantido em patamares muito inferiores, verificou-se tendência crescente em todas as regiões, particularmente no Nordeste e Norte, que apresentaram maior incremento relativo ao longo da série histórica (Figura 1B).

  1. Câncer de Boca

  1. Câncer de Faringe

Figura 1 - Taxa de mortalidade por câncer de boca (A) e faringe (B), segundo sexo por regiões. Brasil, 2004-2023.

No recorte por sítio anatômico, destacou-se a orofaringe (0,89/100.000) como principal local de ocorrência, responsável por 24,6% dos óbitos registrados, seguida por outras partes da língua (0,55/100.000) com 15,4%, e outras partes da boca (0,54/100.000), com 14,9%. Esses três sítios somados representaram quase metade de todos os óbitos analisados. A tendência de crescimento foi consistente para a maioria das localizações anatômicas, incluindo base da língua, assoalho da boca e glândulas salivares maiores. Algumas regiões anatômicas apresentaram redução ou estabilização das taxas, como o seio piriforme (VPA = -0,7%) e outras localizações mal definidas (VPA= -1,46) que apresentaram tendência decrescente. A categoria hipofaringe (VPA= -0,27), se manteve estacionária (Tabela 2).

A estratificação por faixa etária evidenciou crescimento progressivo da mortalidade a partir da quinta década de vida, com aumento substancial nas idades mais avançadas. Esse comportamento foi observado tanto para câncer de boca quanto para câncer de faringe, sendo mais expressivo após os 60 anos, o que reforça a forte associação dessas neoplasias com o processo de envelhecimento populacional e com a exposição a fatores de risco, como tabagismo e etilismo, ao longo da vida (Figura 2).

Tabela 2. Número e porcentagem de óbitos, coeficiente médio por 100.000 habitantes e tendência das taxas de mortalidade por câncer de boca e faringe segundo sítio anatômico. Brasil, 2004-2023.

CID-10

Óbitos

Coeficiente médio

VPA*

IC95%*

Interpretação

n

%

Sítio anatômico

C00 - Lábio

1210

0,8

0,03

2,75

0,03-0,03

Crescente

C01 - Base da língua

9286

6,4

0,23

4,63

0,21-0,26

Crescente

C02 - Outras partes da língua

22204

15,4

0,55

3,59

0,50-0,60

Crescente

C03 - Gengiva

883

0,6

0,02

2,56

0,02-0,02

Crescente

C04 - Assoalho da boca

4394

3,0

0,11

5,06

0,10-0,12

Crescente

C05 - Palato

5324

3,7

0,13

2,56

0,12-0,14

Crescente

C06 - Outras partes da boca

21537

14,9

0,54

0,82

0,53-0,55

Crescente

C07 - Glândula parótida

5172

3,6

0,13

3,84

0,12-0,14

Crescente

C08 - Outras glândulas

1751

1,2

0,04

7,44

0,04-0,05

Crescente

C09 - Amídalas

3059

2,1

0,08

0,7

0,07-0,08

Crescente

C10 - Orofaringe

35518

24,6

0,89

3,48

0,83-0,95

Crescente

C11 - Nasofaringe

6243

4,3

0,16

2,78

0,15-0,16

Crescente

C12 - Seio piriforme

1345

0,9

0,03

-0,7

0,03-0,04

Decrescente

C13 - Hipofaringe

8411

5,8

0,21

-0,27

0,20-0,22

Estacionária

C14 - Outras localizações

18269

12,7

0,46

-1,46

0,44-0,48

Decrescente

Notas: Variação percentual anual; Intervalo de confiança do coeficiente médio.

Figura 2 - Taxa de mortalidade por câncer de boca (A) e faringe (B), segundo faixa etária. Brasil, 2004-2023.

A Figura 3, apresenta a distribuição das taxas médias de mortalidade por câncer de boca e faringe, segundo as Unidades Federativas (UF) no período de 2004 a 2023. Estados das regiões Sudeste e Sul concentraram os maiores coeficientes médios de mortalidade, consolidando o padrão historicamente mais elevado nesses territórios. Com relação ao câncer de boca, o estado do Rio de Janeiro apresentou a maior taxa de mortalidade (2,28/100.000) e com relação ao câncer de faringe o Paraná ficou com a maior taxa de mortalidade (2,39/100.000).

        

Figura 3 - Taxa de mortalidade média de câncer de boca e faringe (por 100 mil habitantes) segundo UF. Brasil, 2004-2023.

DISCUSSÃO

Os resultados deste estudo revelam um cenário preocupante da mortalidade por câncer de boca e faringe no Brasil ao longo de duas décadas. A tendência crescente observada para a maioria das regiões e sítios anatômicos corrobora a crescente carga global das neoplasias de cabeça e pescoço, impulsionada por fatores de risco consolidados e emergentes8. O padrão ascendente nacional, com uma Variação Percentual Anual (VPA) de 2,77% para o câncer de boca e 1,32% para o de faringe, vai ao encontro de tendências internacionais, que apontam para um aumento significativo na incidência e mortalidade por esses cânceres em países de renda média e baixa, em contraste com a estabilização ou declínio observado em muitos países desenvolvidos9. Esse fenômeno reflete, em grande parte, as dificuldades no acesso a serviços de saúde, programas de prevenção e diagnóstico precoce10.

A heterogeneidade regional observada é um dos achados mais significativos deste trabalho. Enquanto as regiões Sul e Sudeste apresentam as maiores taxas médias de mortalidade, as regiões Norte e Nordeste destacam-se pelos mais expressivos incrementos anuais (VPA >5% para câncer de boca). Estudo semelhante conduzido por Parea et al. (2020) já apontava para a "epidemia atrasada" nas regiões menos desenvolvidas do Brasil, onde os fatores de risco clássicos, como tabagismo e etilismo, permanecem altamente prevalentes, e a incorporação de políticas públicas efetivas é mais lenta11.

A predominância masculina dos óbitos, é consistente com a literatura mundial e está intimamente ligada a uma maior exposição histórica e cultural aos principais fatores de risco12,13. No entanto, a tendência crescente identificada no sexo feminino, ainda que partindo de patamares inferiores, é preocupante. Este fenômeno pode ser atribuído à maior prevalência de tabagismo e consumo de álcool entre mulheres nas últimas décadas, além do potencial papel da infecção pelo HPV, que tem uma distribuição menos assimétrica entre os gêneros. Dados do INCA e de estudos de coorte nacionais já sinalizavam essa mudança no perfil epidemiológico, exigindo estratégias de saúde pública que considerem essa nova realidade14.

A análise por sítio anatômico evidenciou a orofaringe como o local de maior mortalidade, um achado que ressoa com a transição etiológica em curso para os cânceres de cabeça e pescoço. A significativa participação da infecção pelo Papilomavírus Humano (HPV), particularmente para os tumores de amígdala e base da língua, tem alterado a história natural da doença. Enquanto os cânceres associados ao tabaco e álcool tendem a declinar lentamente em algumas áreas, os tumores HPV-relacionados, que frequentemente afetam indivíduos mais jovens e com menos comorbidades, estão em ascensão15,16. Esta tendência é bem documentada na América do Norte e Europa, e os dados sugerem que o Brasil segue um caminho similar, embora com o cofator tradicional do tabagismo ainda exercendo forte influência17.

A estabilização da mortalidade por câncer de faringe na Região Sul, contrastando com o crescimento nas demais, merece reflexão. Esta região possui um dos mais altos Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) do país e uma infraestrutura de saúde relativamente mais consolidada. É plausível que intervenções bem-sucedidas de controle do tabaco, campanhas de conscientização e um acesso mais oportuno ao diagnóstico e tratamento possam estar influenciando essa estabilização. Esta situação espelha o que é observado em países de alta renda, onde políticas públicas conseguiram frear a mortalidade por esses cânceres18.

O gradiente etário da mortalidade, com elevação a partir dos 60 anos, reforça a forte associação dessas neoplasias com o envelhecimento e o efeito cumulativo da exposição a carcinógenos ao longo da vida.

As disparidades interestaduais na mortalidade, com destaque para Rio de Janeiro e Paraná, consolidam o padrão de que a carga dessas doenças não é uniforme mesmo dentro de uma mesma macrorregião. Essas diferenças podem ser explicadas por uma complexa interação entre distribuição de fatores de risco, disponibilidade de serviços especializados (como cirurgia de cabeça e pescoço e radioterapia) e eficácia da rede de atenção oncológica. A aceleração das taxas em estados do Norte e Nordeste, como Pará e Maranhão, evidencia a urgência de políticas de saúde regionalizadas que contemplem as especificidades locais.

Do ponto de vista da prevenção, os resultados reforçam a necessidade de fortalecer as políticas de controle do tabaco e do álcool, que permanecem como pilares centrais19. Paralelamente, a vacinação contra o HPV, disponível no Programa Nacional de Imunizações (PNI) para meninas e meninos, surge como uma ferramenta promissora para modificar a tendência de longo prazo dos cânceres de orofaringe20. A baixa cobertura vacinal em algumas regiões, no entanto, representa uma ameaça ao seu potencial impacto21.

Por fim, a letalidade dessas neoplasias, refletida nas taxas de mortalidade, está intrinsecamente ligada ao diagnóstico em estágios avançados4,8. A despeito dos avanços do SUS, barreiras no acesso à atenção primária, à investigação de lesões suspeitas e à referência para centros especializados persistem22. Estratégias para capacitar profissionais da Atenção Primária à Saúde (APS) no reconhecimento de lesões precursoras, associadas a campanhas de conscientização populacional, são fundamentais para reverter este quadro23.

CONCLUSÃO

Em conclusão, a análise de duas décadas evidencia uma tendência temporal crescente e heterogênea da mortalidade por câncer de boca e faringe no Brasil, marcada por disparidades regionais profundas e um perfil demográfico em evolução. Enquanto as regiões Sul e Sudeste concentram as maiores taxas, o crescimento mais acelerado nas regiões Norte e Nordeste sinaliza uma expansão geográfica da carga da doença, intimamente ligada a iniquidades socioeconômicas e no acesso à saúde. A predominância masculina persiste, mas a tendência de aumento entre as mulheres e a centralidade da orofaringe destacam a influência de fatores de risco emergentes, como o HPV, coexistindo com os tradicionais, como tabaco e álcool.

Este cenário exige, portanto, uma resposta de saúde pública urgente e multifacetada, que integre o fortalecimento de políticas de controle do tabagismo e etilismo, a ampliação da cobertura vacinal contra o HPV, a capacitação da atenção primária para o diagnóstico precoce e a garantia de acesso oportuno a tratamentos especializados, de forma a reverter essa trajetória ascendente e reduzir as injustiças em saúde.

REFERÊNCIAS

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