EXPERIÊNCIAS DE MULHERES NEGRAS NO PROCESSO DE PARTO EM HOSPITAIS NO EXTREMO SUL DO BRASIL

EXPERIENCES OF BLACK WOMEN IN OF THE BIRTH PROCESS IN HOSPITALS IN THE EXTREME OF BRAZIL

EXPERIENCIAS DE MUJERES NEGRAS EN EL PROCESO DE PARTO EN HOSPITALES EN EL EXTREMO SUR DE BRASIL

Tipo de artigo: Artigos de pesquisa originais

Autores

Wendel Farias Rodrigues 

Enfermeiro; Universidade Federal de Pelotas

Orcid: https://orcid.org/0000-0002-7739-0305

Marina Soares Mota 

Doutora Enfermeira; Universidade Federal de Pelotas

Orcid: https://orcid.org/0000-0002-5717-9406 

Michele Mandagará de Oliveira 

Doutora Enfermeira; Universidade Federal de Pelotas

Orcid:https://orcid.org/0000-0002-7914-9339 

Adrize Rutz Porto 

Doutora Enfermeira; Universidade Federal de Pelotas

Orcid: https://orcid.org/0000-0002-5616-1626

Íria Ramos Oliveira

Mestra Enfermeira; Universidade Federal de Pelotas

Orcid: https://orcid.org/0000-0002-4289-1644

 

Kiara Teixeira Pinheiro

Graduanda em Enfermagem; Universidade Federal de Pelotas

Orcid: https://orcid.org/0009-0003-0424-6366

RESUMO

Objetivo: Compreender a experiência de mulheres negras sobre o processo de parto em hospitais públicos e filantrópicos em uma cidade do extremo sul do Brasil. Método: Trata-se de um estudo qualitativo exploratório e descritivo realizado com 20 mulheres negras. Para o tratamento dos dados foi utilizado o software IRAMUTEQ e após realizada a análise de conteúdo de Bardin. Resultados: O software desenvolveu um dendograma contendo 4 classes, mantendo as classes 2 e 3, e 4 e 1 aproximadas. Foi possível observar que o racismo e o sexismo estão inseridos nas instituições de saúde e o quanto essas violências podem influenciar a vivência no parto e no ciclo gravídico-puerperal das mulheres negras. Conclusão: As experiências das mulheres negras no parto são prejudicadas pelos preconceitos dos profissionais de saúde, resultando em desassistência e violência nesses ambientes.

DESCRITORES: Saúde da mulher; Saúde das minorias étnicas; Parto.

ABSTRACT

Objective: To understand the experiences of Black women regarding the birth process in public and philanthropic hospitals in a city in the extreme south of Brazil. Method: This is an exploratory and descriptive qualitative study conducted with 20 Black women. The IRAMUTEQ software was used for data treatment, followed by content analysis according to Bardin. Results: The software developed a dendrogram containing 4 classes, keeping classes 2 and 3, and 4 and 1 close together. It was possible to observe that racism and sexism are present in healthcare institutions and how these forms of violence can influence the experience of childbirth and the pregnancy-puerperal cycle of Black women. Conclusion: The experiences of Black women during childbirth are negatively impacted by the prejudices of healthcare professionals, resulting in a lack of care and violence in these environments.

RESUMEN

Objetivo: Comprender la experiencia de mujeres negras sobre el proceso de parto en hospitales públicos y filantrópicos en una ciudad del extremo sur de Brasil. Metodología: Se trata de un estudio cualitativo exploratorio y descriptivo realizado con 20 mujeres negras. Se utilizó el software IRAMUTEQ para el tratamiento de los datos y, posteriormente, se realizó el análisis de contenido de Bardin. Resultados y Discusión: El software desarrolló un dendrograma que contiene 4 clases, manteniendo las clases 2 y 3, y 4 y 1 aproximadas. Fue posible observar que el racismo y el sexismo están presentes en las instituciones de salud y cómo estas violencias pueden influir en la vivencia del parto y en el ciclo gravídico-puerperal de las mujeres negras.Conclusión: Las experiencias de las mujeres negras en el parto se ven perjudicadas por los prejuicios de los profesionales de la salud, resultando en desasistencia y violencia en estos entornos.

INTRODUÇÃO

        As mulheres negras enfrentam múltiplas vulnerabilidades no contexto brasileiro - racismo, sexismo, classe social e a luta por espaço numa sociedade eurocêntrica e patriarcal. Essas desigualdades relacionam-se diretamente as barreiras e insuficiência de políticas públicas específicas que garantam acesso à saúde e enfrentamento das opressões (1-2).

A violência obstétrica compreende atos de violência institucional, abuso médico e violações em qualquer fase da gestação (3). Na realidade brasileira, a população negra recebe atenção pré-natal inadequada, apresenta menor vínculo com a maternidade, maior tempo de espera para atendimento, redução de privacidade e de acompanhante, além de menor oferta de anestesia para episiotomia (4).

Conforme Dána-Ain Davis, quando a violência obstétrica intersecciona com o racismo, configura-se como racismo obstétrico. Manifesta-se por negligência, descaso, causação intencional de dor, coerção para procedimentos sem consentimento, expondo mulheres negras e seus filhos a riscos de morte e danos físicos e psicológicos (3,4).

A interseccionalidade revela como estruturas opressoras colidem e atuam simultaneamente sobre diferentes marcadores identitários. No Brasil, a reformulação da Rede Cegonha para Rede Alyne marca a compreensão da intersecção do racismo institucional e estrutural com a violência obstétrica que as mulheres negras vivenciam cotidianamente nos serviços de saúde e que podem levar essas a morte (5).

Este estudo objetiva compreender a experiência de parto de mulheres negras em hospitais públicos e filantrópicos de uma cidade do extremo sul do Brasil. Busca-se contribuir para a discussão sobre como racismo e sexismo atuam no parto institucionalizado e indicar estratégias para o enfrentamento dessas desigualdades.

MÉTODO

Realizou-se um estudo qualitativo, exploratório e descritivo em município do extremo sul do Brasil, entre setembro e novembro de 2023. Participaram 20 mulheres maiores de 18 anos, autorreferidas negras, que vivenciaram parto em hospitais públicos ou filantrópicos locais. Foram excluídas gestantes e mulheres com perda gestacional recente.

A seleção das participantes foi realizada pela técnica de bola de neve, partindo de uma mãe e estudante de enfermagem negra como participante semente. Após a entrevista a mesma indicou três possíveis participantes que foram contactadas por telefone e convidada a participar da pesquisa. Eram feitas três tentativas e houve quarto recusas em participar. Os dados foram coletados por um estudante de enfermagem previamente treinado pela pesquisadora responsável, mediante instrumento semiestruturado com perguntas sobre a experiência do parto, previamente aprovado em teste-piloto com perfil similar ao da participante inicial. A coleta dos dados ocorreu em ambiente protegido que poderia ser escolhido pela participante como a própria casa ou sala no Campus da Universidade.

O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa, sob registro 71732423.6.0000.5317, mediante submissão na Plataforma Brasil. A coleta iniciou-se após aprovação, com gravação de áudio que variou de 30 a 60min, e assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. O anonimato foi preservado com o uso de pseudônimos identificados por "P" seguido de numeral (ex.: P1, P2).

As entrevistas transcritas constituíram o corpus analisado pelo software IRAMUTEQ, que possibilita gerenciamento e análise estatística de textos (6). O software realiza a Classificação Hierárquica Descendente em três etapas: preparação e codificação textual, processamento dos dados e interpretação das classes. A análise qualitativa fundamentou-se nas classes obtidas a partir de palavras estatisticamente significativas, mediante Análise de Conteúdo de Bardin (7-8).

O corpus atingiu aproveitamento de 79,23%, superando o mínimo de 75% exigido para análise. A análise de conteúdo foi desenvolvida com base nas falas associadas ao dendrograma gerado pelo software.

RESULTADOS

Participaram do estudo 20 mulheres negras que vivenciaram o parto em hospitais públicos e filantrópicos do município. O perfil das participantes é detalhado na tabela 1 a seguir.

     Tabela 1. (Perfil das participantes do estudo)

Total de participantes

20 mulheres negras

Idade

24 a 64 anos

Escolaridade

Ensino fundamental incompleto = 1

Ensino fundamental completo =  1

Ensino médio = 5

Ensino superior incompleto = 4

Ensino superior completo = 9

Ocupação

Artesã = 1

Auxiliar de cadastro = 1

Auxiliar de serviços gerais = 1

Confeiteira = 1

Do lar = 2

Estagiária = 1

Estudante = 5

Fiscal de Caixa = 1

Gerente = 1

Meteorologista = 1

Pediatra = 1

Religiosa = 1

Servidora pública = 2

Técnica em Enfermagem = 1

Estado civil

Casada = 7

Divorciada = 1

Solteira = 12

Quantidade de filhos

1 a 5 filhos

Idade dos filhos

2 a 32 anos

Nº de partos

1 a 4 partos

Tipo de parto

Parto Cesárea = 13

Parto Vaginal = 11

Perda gestacional

3 mulheres com 1 perda cada

Nascimentos

23 a termo

04 prematuros

Consultas de Pré Natal

Nenhuma = 1

1 a 13 consultas = 19

(Elaborado pelo autor principal)

A CHD gerou um dendrograma (Figura 1) com 4 classes, que devem ser lidas da esquerda para a direita. As palavras apresentadas no dendrograma permitem compreender as aproximações entre as classes, destacando-se a proximidade entre as classes 3 e 2 e entre as classes 4 e 1.

Figura 1. (Classificação Hierárquica Descendente, 2023)

Figura 1: Fonte: Iramuteq

As classes 3 e 2 abordam a experiência das mulheres durante o período do pré-parto, parto e puerpério, destacando suas vivências em relação à assistência dos profissionais de saúde e ao processo de amamentação. Já as classes 4 e 1 referem-se à ausência de profissionais negros na assistência ao pré-parto e ao parto dessas mulheres negras, à influência do racismo no processo de parto e à importância da rede de apoio nesse momento crucial de suas vidas.

Classe 3 - entre o apoio humanizado dos profissionais da saúde e a manutenção das violências

Na classe 3, observa-se nas falas das participantes a atuação dos profissionais de saúde, com destaque para o médico, durante a fase ativa do trabalho de parto. A assistência desses profissionais pode ser uma fonte de apoio quando orientam e abordam a parturiente de forma humanizada. No entanto, também pode ser percebida como uma fonte de violência, ao identificar condutas e práticas que geram desconforto ou colocam em risco a vida das mulheres negras e de seus bebês.

[...] No momento do parto eu tive o acompanhamento da minha médica que foi ela que realizou meu parto, uma excelente médica…onde ela me orientou sobre tudo, para mim ficar tranquila e tudo mais [...]. (P4)

[...] A médica, a enfermeira e a residente que estava ali na hora, elas me disseram direitinho o que ia acontecer [...]. (P9)

[...] ia ser parto normal o meu parto, só que a minha bolsa não tinha rompido. E a enfermeira pegou e estourou minha bolsa [...]. (P8)

[...] aquela função de apertar a barriga para nascer, o médico tava meio sem paciência, estava bastante tempo ali e minha filha não nascia e estava sem paciência [...]. (P1)

[...] Olha, havia bastante pessoas na sala de parto. Era mais de 10 eu acho [...]. (P10)

Segundo as falas das participantes, o parto ainda é visto como um ato médico, com o profissional de saúde ocupando o centro decisório e autocrático do processo. Outro ponto importante analisado refere-se ao fornecimento de fármacos analgésicos para as mulheres negras durante o parto. Verificou-se que as entrevistadas não receberam analgesia, mesmo quando solicitada. Além disso, observou-se o descaso com o relato de dor, expondo novamente as mulheres negras ao racismo obstétrico.

[...] questionei se não tinha nenhum remédio que pudesse usar, mas a médica me disse que não, que tinha que ser natural [...]. (P18)

[...] E depois eu tava com muita dor a moça [profissional da saúde] disse que tem muita gente com mais dor do que eu e não quis não queria me dar um remédio para dor [...]. (P3)

[...] pra dor não me deram nada, nenhuma prática integrativa alguma coisa para alívio da dor, nada [...]. (P1)

Classe 2 - O ato de amamentar

A classe 2 apresenta a amamentação como um dos destaques do puerpério, tanto em aspectos positivos, pois este momento fomenta o vínculo mãe e bebê, quanto em aspectos negativos, sendo relacionado a dificuldade de se conseguir amamentar, por inúmeras vezes estar associado à dor. Nos casos de supressão da lactação precoce, as mulheres acabam ofertando o leite artificial.

[...] Eu tinha leite, mas o leite empedrou, então eu não conseguia tirar leite, saía sangue, eu fazia massagem, eu botei ele no peito, tentei, mas não teve jeito. Ele foi alimentado com leite artificial [...]. (P17)

[...] Não amamentei muito por causa do meu bico [...], saía em pedaços. Foi a pior parte [...] a amamentação, que eu não tive coragem de continuar. Me arrependo, mas a dor é tamanha, que parece que eu tô sugando todas as energias assim, do bico ali [...]. (P10)

Classe 4 -  Intersecção entre raça e parto 

A classe 4 apresenta diferentes percepções sobre o parto das participantes do estudo. Elas apontam que os profissionais negros no momento do parto ainda são minoria.

[...] Não tinham profissionais negros me assistindo no momento do parto [...] não tinha em nenhum dos meus partos. [...] na higienização, na copa quando iam me levar as refeições, os profissionais eram praticamente tudo negro, e ali na equipe eu não lembro de nenhum [...]. (P18)

[...] Eu vejo que ainda mudou muita coisa, mas ainda existe um preconceito de ter profissionais negros na área da saúde, eu acho. Existe ainda isso, pelo menos aqui [...] a gente tem bastante enfermeiros, médicos são poucos [...]. (P17)

[...] E eu acho que quando tem um profissionais negros a gente se sente mais tranquilo, mais acolhido naquele momento [...]. (P6)

Os profissionais de saúde negros ainda são escassos, principalmente quando se trata na assistência a saúde das mulheres no período gravídico-puerperal e no quanto o racismo está interligado com essa escassez.

Classe 1 - Família e a rede de apoio

A classe 1 apresenta em sua estrutura a palavra família, trazendo a significância dos acompanhantes na prestação de apoio no momento do parto. No parto, as acompanhantes comumente citadas são as mães das mulheres, visto que, elas prestam o apoio necessário para suas filhas desde o início da gestação principalmente por já terem passado por essa experiência. Os profissionais da saúde também foram identificados como rede de apoio por essas mulheres negras, estando seus cuidados entrelaçados ao dos familiares.

[...] Rede de apoio eu tinha de todo mundo, eu tinha a minha mãe, marido, minha irmã, tinha auxilio de todo mundo [...]. (P9)

[...] A minha mãe me ajudou no início em alguns dias, eu lembro que ela ficou um pouquinho comigo, mas mais a minha sogra no primeiro parto [...]. (P1)

[...] Minha rede de apoio que tive durante esses 7 dias foi minha família, minha mãe, meu pai e o pai da minha filha também [...]. (P2)

[...] a única pessoa que estava ali para dizer que aquilo tudo ia passar, me apoiar e ajudar no manejo da dor era uma técnica de enfermagem [...], ela fazia massagem nas minhas costas, ela me levou para o banho, ela me colocou na bola, ela me botou no cavalinho, mesmo eu não querendo fazer tudo aquilo ajudou a evoluir a dilatação e eu me senti muito mais tranquila com ela [...]. (P1)

A rede de apoio pode ser constituída por amigos, família, vizinhos e também por profissionais de saúde. Neste meio engloba-se a família nuclear, sendo ela constituída pelo marido/companheiro e filhos, e a família extensa que são os outros familiares, sendo eles um suporte disponível a se recorrer, quem traz significado e quem realmente está presente.

DISCUSSÃO

É preciso romper com o modelo biomédico, que medicaliza o parto e estabelece uma relação de poder autoritária, para compreendê-lo como um evento fisiológico, antropológico, psicológico e social, no qual a mulher é a protagonista. Essa mudança é fundamental para substituir práticas inseguras e desumanizadoras por uma assistência baseada em evidências e centrada na mulher (9).

A enfermagem exerce um papel crucial na prevenção da violência obstétrica (10) e na humanização do parto, atuando diretamente na modulação de fatores ambientais para evitar uma experiência traumática. Essa atuação inclui garantir um ambiente tranquilo, com redução de ruídos, de intervenções desnecessárias e do número excessivo de pessoas na cena do parto.

A assistência ao parto requer a eliminação de práticas desnecessárias e potencialmente violentas. Destaca-se a necessidade de restringir os toques vaginais, evitando sua realização por múltiplos profissionais em uma mesma parturiente. Ademais, a amniotomia de rotina carece de evidências de benefícios, sendo seus danos potenciais superiores aos eventuais ganhos (11). Ainda, a manobra de Kristeller, uma violência obstétrica com clara disparidade racial, foi relatada por 45% das mulheres negras em um estudo com 353 parturientes, contra apenas 10% das mulheres brancas (12).

A recusa de analgesia para mulheres negras mostra negligência e violência obstétrica. Essa privação se estende a métodos não farmacológicos, conforme estudo que mostrou acesso a técnicas de alívio da dor em apenas 39% das negras, contra 58% das brancas (12). Como opção, as Práticas Integrativas e Complementares (PICs) no trabalho de parto reduzem dor e ansiedade, promovendo autonomia, autoestima e protagonismo da mulher, que se conscientiza da capacidade do próprio corpo (13).

A autoeficácia na amamentação relaciona-se com tipo de parto, ausência de intercorrências pós-parto, auxílio no cuidado neonatal, orientação adequada no início do aleitamento e ter uma religião, fatores que favorecem sua manutenção prolongada (14-15). Entretanto, o panorama obstétrico ainda é desafiador no Brasil, visto que a Pesquisa Nascer no Brasil nos alerta a inadequação do pré-natal das mulheres negras com menos número de consultas e informações insuficientes (16), fato que impacta o preparo para a vivência do parto e da amamentação. Para que as orientações adequadas cheguem ainda durante o pré-natal, é necessário profissionais com formação para o enfrentamento das desigualdades sociais e o racismo institucional e estrutural dos serviços de saúde (17).

Profissionais de saúde negros promovem melhor atendimento por meio da representatividade e acolhimento. Contudo, o racismo institucional gera desigualdades na distribuição de serviços e oportunidades raciais na saúde (18). O racismo estrutural naturaliza iniquidades nas instituições de saúde e formação profissional, tornando-as invisíveis ou sutis (19-20). É essencial lutar pela formação de profissionais não brancos na saúde, garantindo ingresso, permanência, conclusão curricular e acesso ao mercado de trabalho, com ascensão aos cargos de decisão (20), além disso, que a equidade racial seja incluída como um indicador de qualidade dos serviços na busca de justiça social (16).

Outro aspecto versa sobre a rede de apoio que auxilia a mulher nas dificuldades, colaborando com cuidados maternos e infantis (21). Gestantes podem (re)configurar essa rede, identificando pessoas realmente presentes no processo, enquanto a falta de apoio leva ao isolamento e dificuldade de compartilhar angústias gestacionais. A rede de apoio é um fator protetivo do ciclo-gravídico puerperal reduzindo inseguranças, a solidão, fortalecimento de laços, reconhecimento e pertencimento, podendo ser familiares, amigos e profissionais da saúde (22). A enfermagem foi citada como profissional de apoio e essa é uma peça fundamental para o avanço da qualificação do cuidado com escuta ativa, compartilhamento de informações e prevenção de violência obstétrica (23-24).

As experiências dessas mulheres estão intrinsecamente ligadas à sua identidade e à forma como são percebidas nos serviços de saúde. As violências e a assistência inadequada são consequências do racismo enraizado na atenção à saúde desta população. As políticas públicas interseccionais e as práticas não violentas, valorizam os saberes das mulheres bem como formar criticamente (25).

CONCLUSÃO

A análise do conteúdo e da organização das classes evidencia a interseccionalidade entre racismo e sexismo na experiência de parto de mulheres negras. A escassez de literatura sobre o tema, que representou uma limitação a este estudo, reforça a premente necessidade de novas pesquisas. Investigações futuras são fundamentais para desvendar os mecanismos específicos dessas opressões e, assim, subsidiar a formulação de práticas assistenciais verdadeiramente equitativas e respeitosas.

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