A ERA DO VAZIO: REFLEXÕES SOBRE A SUBJETIVIDADE E O MAL-ESTAR CONTEMPORÂNEO
THE ERA OF EMPTINESS: REFLECTIONS ON SUBJECTIVITY AND THE CONTEMPORARY MALAISE
LA ERA DEL VACÍO: REFLEXIONES SOBRE LA SUBJETIVIDAD Y EL MALESTAR CONTEMPORÁNEO
Tipo de artigo: Estudo Qualitativo
Maristela Colombo
Psicóloga Clínica, Psicanalista, Psicodramatista, Mestre em Ciências Sociais, Coordenadora do Serviço Psicossocial Clínico do TJSP - Unidade de Marília de 1999 a 2024.
Orcid: https://orcid.org/0000-0002-7590-9679
RESUMO
Esse estudo objetiva analisar o mal-estar na cultura contemporânea na era do vazio e suas novas formas de subjetivação. Os livros utilizados são O Mal-Estar na Civilização de Freud (1929/1930) que aborda questões relacionadas à natureza da civilização humana e a imposição de restrições à satisfação dos instintos gerando um mal-estar psíquico; e o livro A Era do Vazio de Lipovetsky (1983) que explora a sociedade contemporânea e analisa como ela é caracterizada pela busca incessante pelo prazer, pelo individualismo e pela ênfase no consumo e no hedonismo. Também serão utilizados autores contemporâneos que abordam aspectos da condição humana na sociedade moderna.
Descritores: Psicanálise; Interpretação Psicanalítica; Cultura; Civilização; Saúde Mental
ABSTRACT
This study objectively analyzes the malaise in contemporary culture in the era of emptiness and its new forms of subjectivation. The books used are Freud's Civilization Discontents (1929/1930) which addresses issues related to the human nature of civilization and the imposition of restrictions on the satisfaction of instincts that generate psychic discomfort and the book The Era of Emptiness by Lipovetsky (1983) who explores contemporary society and analyzes how it is characterized by the incessant search for pleasure, individualism and the emphasis on consumption and hedonism. Both books address aspects of the human condition in modern society.
Descriptors: Psychoanalysis; Psychoanalytic Interpretation; Culture; Civilization; Mental Health
RESUMEN
Este estudio tiene como objetivo analizar el malestar en la cultura contemporánea en la era del vacío y sus nuevas formas de subjetivación. Los libros utilizados son El malestar en la cultura (1929/1930) de Freud, que aborda cuestiones relacionadas con la naturaleza de la civilización humana y la imposición de restricciones a la satisfacción de los instintos que generan malestar psíquico, y La era del vacío (1983) de Lipovetsky, que explora la sociedad contemporánea y analiza cómo se caracteriza por la búsqueda incesante del placer, el individualismo y el énfasis en el consumo y el hedonismo. Ambos libros abordan aspectos de la condición humana en la sociedad moderna.
Descriptores: Psicoanálisis; Interpretación psicoanalítica; Cultura; Civilización; Salud mental
INTRODUÇÃO
O Mal-Estar na Civilização é um ensaio de Sigmund Freud (1929/1930) que discute o fato de a cultura produzir um mal-estar nos seres humanos perante uma dicotomia entre os impulsos pulsionais e a civilização. Portanto, para o bem da civilização, o indivíduo é oprimido em suas pulsões e vive em constante mal-estar.
Por civilização o autor definiu tudo o que diferencia o homem do animal englobando o controle do homem sobre a natureza dentro de um conjunto de regulamentos que regem os relacionamentos.
Freud explora a natureza da civilização e seus efeitos sobre o indivíduo, investigando as tensões inerentes à convivência social. Ele parte da premissa de que a civilização é necessária para controlar os impulsos naturais e instintivos do ser humano, promovendo a ordem e a segurança.
Uma das ideias centrais do ensaio é a noção de que o preço da civilização é a renúncia às satisfações imediatas dos desejos pulsionais. A sociedade impõe regras e restrições para regular o comportamento, o que, por sua vez, gera conflitos internos no indivíduo. Aborda a questão da agressividade inerente ao ser humano, explorando a ideia de que, apesar dos esforços da civilização para restringir e controlar a agressividade, ela continua a existir de maneiras diversas, muitas vezes se manifestando de forma indireta.
Em resumo, "Mal-Estar na Civilização" é um ensaio no qual Freud examina as complexas interações entre a psique individual e a sociedade, destacando os desafios e conflitos inerentes à busca por um equilíbrio entre os impulsos individuais e as demandas civilizatórias.
"A Era do Vazio" é um livro/conceito escrito por Gilles Lipovetsky (1983), que aborda diversas questões relacionadas à sociedade contemporânea e às mudanças culturais que ocorreram no final do século XX.
Lipovetsky destaca o surgimento de uma sociedade marcada pelo individualismo
e pelo consumismo onde as pessoas buscam a satisfação de seus desejos pessoais, valorizando a liberdade individual e a busca pelo prazer. Ele acredita que houve um esvaziamento dos valores tradicionais, como a moralidade e a religião, dando lugar a uma cultura mais hedonista e orientada para o presente. A busca por significado e valores mais profundos é substituída por uma cultura do imediatismo.
Enfatiza a importância da aparência, do estilo e da imagem na sociedade contemporânea e a busca constante por novidades e experiências efêmeras. Discute a natureza transitória das tendências culturais e a busca incessante por novas formas de entretenimento e consumo.
O autor aborda também o impacto da globalização na homogeneização cultural, argumentando que as influências culturais se tornam mais padronizadas em escala global.
Em síntese o livro oferece uma análise crítica da sociedade contemporânea, destacando o individualismo, o consumismo, a superficialidade e a busca incessante por prazeres imediatos como características marcantes desse período.
“O Mal-Estar na Era do Vazio” vai tratar do desconforto presente na vida contemporânea, onde o modo de vida do indivíduo é incessantemente impactado por mudanças que moldam a formação de identidades, relações sociais e laços afetivos.
Este estudo explora como as transformações constantes afetam o bem-estar do sujeito na contemporaneidade e sua subjetivação, destacando a complexidade e fluidez das experiências nas sociedades em constante evolução.
TENDÊNIAS GLOBALIZANTES
A globalização da modernidade vem alterando as relações entre o eu e o outro, o local e o global, impactando suas conexões. Para Giddens (1991), trata-se de um processo de transformação da subjetividade e da organização social que afeta também as relações de intimidade pessoal.
Essas transformações, marcadas pelo excesso de desejos e de consumo, influenciam a qualidade de vida, o modo como o sujeito se vê e vê o mundo, comprometendo comportamentos, competências e habilidades sociais necessárias à convivência em sociedade.
Uma dessas transformações bastante impactante ocorreu no final de 2019, com a pandemia da COVID-19, que exigiu novas habilidades tecnológicas e modos de interação, cujos efeitos ainda se refletem nas formas de socialização atuais.
O uso das mídias e redes sociais, intensificou-se de maneira expressiva, acompanhado por uma crescente participação em comunidades virtuais utilizadas como espaços de compartilhamento de angústias, solidão e medo. Neles, muitos buscaram apoio emocional e distração como forma de amenizar o sofrimento psíquico. Contudo, o uso excessivo da internet mostrou-se ambivalente: se, por um lado, amplia possibilidades de conexão, por outro, gera impactos sobre a saúde física e mental.
A lógica das redes sociais e da indústria cultural acentuou o envolvimento com o próprio eu, estimulada pela lógica das redes sociais e pela indústria cultural, que transformam ideais de beleza, juventude, felicidade, segurança e sucesso pessoal em mercadorias simbólicas. Esses valores, amplamente promovidos pelo consumo, reforçam os traços de uma cultura narcísica na qual a imagem de si torna-se um capital a ser produzido e exibido.
O investimento no corpo reflete essa sociedade narcísica e de consumo, marcada por transformações e pela desconstrução de valores antes consolidados. — “a era em que certezas supostamente inabaláveis estão sendo derrubadas” (Colombo, 2012).
Diversos autores contemporâneos, descrevem o mundo atual como a era da cultura do narcisismo (Lasch), do era do efêmero e do vazio ou o individualismo contemporâneo, a sociedade da sedução (Gilles Lipovetsky), a era da sociedade do espetáculo (Debord), e da era do consumo (Baumam). Assim, o mundo contemporâneo parece definido pela tríade: globalização, internet e individualismo.
CULTURA NARCÍSICA E INDIVIDUALISMO
Segundo Lasch (1983), a cultura narcísica nasce como resposta defensiva a um mundo cada vez mais hostil e incompreensível.
Trata-se de uma cultura fechada em si mesma, que cultua a própria imagem e se manifesta na dinâmica das redes sociais, onde cada publicação busca reconhecimento e validação. Essa imagem, muitas vezes construída por filtros, representa o eu idealizado que se deseja mostrar ao público.
Para o autor, a cultura do narcisismo caracteriza-se pela busca incessante de satisfação pessoal e pela valorização excessiva do indivíduo, levando a fragmentação das relações sociais e comunitárias. O eu é exaltado e as relações tornam-se cada vez mais superficiais e utilitárias. “Há um desinvestimento do mundo e um retorno ao próprio eu, onde a beleza, a juventude, a felicidade, a segurança e o sucesso pessoal são reivindicados pela indústria cultural como bens de consumo” (Lasch, 1983, p. 43).
As relações interpessoais também se modificam, tornando-se em sua maioria virtuais, surgindo uma nova forma de comunicação, fortalecendo a linguagem corporal. Essa linguagem traz o exibicionismo daquilo que o sujeito quer mostrar nas mídias sociais, se adequando a certos padrões para ser aceito na sociedade de consumo.
Dessa forma, a cultura do narcisismo, do individualismo e do excesso, que cultiva o eu e a felicidade é uma grande produtora de ansiedade e depressão. O imperativo do seja feliz, rico, bonito, produtivo, oprimi e deprime o sujeito contemporâneo, que ainda assim se se percebe um sujeito faltante.
Retoma-se a lógica do mercado — do prazer, da novidade e do efêmero — em que o sujeito é apenas o instrumento do consumo ficando descentrado do seu desejo para desejar aquilo que o mercado lhe oferece.
As pessoas deixam de ser protagonistas de seus próprios desejos quando agem conforme as expectativas sociais, aceitando os ideais vendidos pelas mídias para evitar a exclusão do grupo consumista. Assim, constroem identidades moldadas por desejos impostos sentindo-se compelidas a adquirir o que é novo. Quando a realização desse desejo falha, surgem sentimentos de ansiedade, frustração e depressão — sintomas característicos do nosso tempo.
Para Lipovetsky (2022), o mundo do consumo está ligado ao kitsch — o excesso estético, o vulgar e o banal que dominam o cotidiano, estimulando a obsessão do desejo, o NoStop. Ele descreve uma nova forma de subjetivação marcada pela busca incessante da felicidade através da ostentação nas redes sociais e pela realização de desejos associados ao sucesso a qualquer custo. Essa lógica cria expectativas de adequação aos ideais contemporâneos e produz uma individualidade voltada para fora, porém, atravessada por um vazio existencial.
Gilles Lipovetsky vai falar sobre as novas formas de socialização pela escolha, pela imagem e pelo sentido, através da comunicação publicitária, da sedução do consumo e pela lógica econômica no império do efêmero. (LIPOVETSKY, 2006, p.160).
Em A Era do Vazio (1983), Lipovetsky discute que o individualismo pós-moderno surge com o enfraquecimento das instituições tradicionais e a valorização da liberdade de escolha. Isso resulta em uma variedade de opções para preencher o sentido da existência de cada pessoa, permitindo uma emancipação individual e personalização da identidade. (LIPOVETSKY, 1983). Cada indivíduo busca preencher o sentido da vida a partir de suas próprias preferências, personalizando sua identidade e experiência. No entanto, esse processo pode levar à indiferença, ao isolamento e à perda das conexões sociais significativas.
No império do efêmero (2006), Lipovetsky destaca que a socialização passa a ocorrer pela escolha, pela imagem e pela sedução do consumo, dentro de uma lógica econômica que transforma a vida em espetáculo. O individualismo pós-moderno, ao transformar escolhas de consumo e estilo de vida em expressões de identidade, permite a personalização, mas também acentua a solidão e a desmobilização do espaço público.
PÓS-MODERNIDADE E SOCIEDADE DE CONSUMO
Bauman (1998) vai dizer que a pós-modernidade é uma espécie de modernidade líquida, fluida, desapegada de promessas ideológicas, compromissos sociais e políticos e com um consumismo exacerbado. Ele define a pós-modernidade como um período de desregulamentação que visa integrar a ordem estabelecida com o anseio pelo prazer, dando prioridade à liberdade individual como o principal atributo na contínua autocriação de um universo humano. Bauman destaca que os homens e mulheres pós-modernos optaram por sacrificar parte de sua segurança em troca de uma busca intensificada pela felicidade. Os desconfortos da pós-modernidade derivam, assim, da liberdade na busca do prazer, mesmo que isso implique em uma reduzida segurança individual.
Ele considera que "a sociedade de consumo não é nada além de uma sociedade do excesso e da fartura – e, portanto, da redundância e do lixo farto" (BAUMAN, 2007, p. 111). A abundância de opções pode criar ansiedade e indecisão, pois as pessoas se veem sobrecarregadas pela variedade de escolhas disponíveis, sem que nenhuma delas pareça ser suficientemente satisfatória.
A sociedade de consumo acaba alimentando um ciclo insaciável de desejos e necessidades, sem permitir que as pessoas atinjam um estado de contentamento duradouro. Esse padrão contínuo de busca por mais contribui para o constante vazio existencial, criando um ciclo de insatisfação que caracteriza a experiência contemporânea na sociedade de consumo.
O que importa é consumir, sem pensar nas consequências das compulsões estimuladas pelo mundo moderno. Essas compulsões levam cada vez mais à individualidade e ao isolamento afetivo como formas de proteção.
Jorge Forbes (2006) no debate sobre “A Invenção do Futuro: um debate sobre a pós-modernidade e a hipermodernidade” enfatiza a necessidade de a psicanálise se adaptar às novas realidades, incluindo as transformações tecnológicas e culturais. Ele discute a psicanálise no contexto da pós-modernidade, onde os valores e as certezas tradicionais estão em declínio e sugere que os psicanalistas precisam lidar com um mundo mais fragmentado e incerto, onde as identidades são fluidas e mutáveis.
PROPAGANDA E CONSUMO
O consumo está conectado ao uso maciço da propaganda “pro-pagando” desejos “irrealizáveis”. Segundo Edward Bernays, em seu livro Propaganda de 1928, a propaganda, ao longo da história, tem sido uma ferramenta poderosa para influenciar a opinião pública e direcionar a sociedade. Os fundamentos criados por Bernays mostram as raízes e a evolução da propaganda na história, bem como seu papel importante na construção da sociedade moderna.
Cabe aqui lembrar que o discurso do consumo e sua propaganda levam a acreditar que a realização do desejo é sempre possível, bastando saber se o sujeito possui ou não posses para realizá-lo.
Quanto a isso, a propaganda ajuda a “pro-pagar” um arremedo de gozo, que estaria no intervalo entre o desejo de comprar e a compra, que seria uma tentativa de realização do desejo. No entanto, essa fantasia de completude “propagada” desaparece assim que o sujeito compra o produto.
A propaganda, a publicidade e o marketing estão em todos os lugares criando desejos inconscientes. Estão nas ruas, nos ônibus, metros, outdoors, nas revistas, na internet, que possibilita a conexão com o consumo por meio de computadores, smartphones, tabletes, celulares, etc.
Para Teles (2008), O que se vê na propaganda é a manipulação do consumo, a venda da ideia de que tudo se compra e que dessa forma a felicidade virá. O objeto de desejo que, por definição, é inalcançável é apresentado por meio da propaganda como algo acessível, ao alcance de todos.
Segundo Lipovetsky o capitalismo de consumo legitima todas as formas de prazer, incluindo o prazer fácil. É uma máquina de desejos criando incessantemente desejos de prazer e de novidades. A cada minuto é lançado um novo desejo ou um novo produto. A novidade é um dos grandes ingredientes do consumo. Assim o capitalismo triunfa em todos os lugares e por isso estamos na hipermodernidade e não na pós-modernidade. O capitalismo não sobrevive se não inovar em permanência e se ele não lançar em permanência novos produtos que criam desejos. Ele não existe sem inovar. Para ele uma “firma que não cria regularmente novos modelos perde em força de penetração no mercado e enfraquece sua marca de qualidade numa sociedade em que a opinião espontânea dos consumidores é a de que, por natureza, o novo é superior ao antigo" (LIPOVETSKY, 2006, p.160).
A liberdade de escolhas não depende mais dos sujeitos, ela se inscreve no âmbito do consumo. Escolhemos como consumidores.
Em seu livro de 2020, “A sociedade da sedução: democracia e narcisismo na hipermodernidade liberal”, Lipovetsky considera que há uma supremacia da expansão de estratégias de sedução do capitalismo de consumo. Sedução sob o signo da tentação ininterrupta e onipresente, do sempre novo, do bem-estar material, do lazer e do divertimento. (LIPOVETSKY, 2020, p.169).
Considera que o capitalismo de consumo consegue aliciar os compradores com ofertas permanentes de prazeres e que “a atração do consumo reside na magia da festa do supérfluo e do prazer prometido em todas as esquinas da rua”. O que ele chama de sociedade da sedução. (LIPOVETSKY, 2020, p. 170).
A ERA DOS EXCESOS E DO VAZIO
Segundo Colombo, no pós-modernismo vive-se a era dos excessos, das celebridades instantâneas e momentâneas, de alguns "quinze minutos de fama" e de uma urgência implacável, causadora de grandes sofrimentos psíquicos. Somos constantemente bombardeados por estímulos externos que nos levam a um estado de constante insatisfação. Tudo ocorre com muito imediatismo, à vida caminha a galopes fazendo com que o novo pareça ter uma eternidade; se comparado ao novíssimo. (COLOMBO, 2012).
Freud em “O Mal-Estar na Civilização”, afirma que o homem anseia pela felicidade e que esta advém da satisfação de prazeres. Nesse texto (Das Unbehagen in der Keultur), escrito em 1929 e publicado em 1930, ele discute o conflito entre as regras sociais e as pulsões primitivas do homem. Segundo ele, essa é a principal causa dos distúrbios psicológicos e da infelicidade de nosso tempo. Na verdade, o texto discute como a civilização priva o homem de parte da sua satisfação, uma vez que não pode realizar qualquer ato conforme sua vontade.
Segundo Freud o desenvolvimento do ser humano e o da sociedade, entendida como o meio no qual vive, somente é possível a partir do controle das pressões que são impostas. O ser humano é regido pela pulsão de vida e pela pulsão de morte, que está equiparada à dor moral. Quando o homem não encontra a liberdade para utilizar e satisfazer o instinto de vida no meio onde vive, não encontra possibilidades de concretizar a felicidade, no sentido de liberação de energias de vida instintivas, o princípio da realidade - instinto de morte - toma o controle, através da repressão e alienação. Porém, a plenitude da felicidade não existe; são momentos de satisfação temporários, consequência dos impulsos, principalmente os sexuais, ou seja, como os desejos sexuais e amorosos interagem com as demandas da realidade externa, e como essa interação pode levar a conflitos internos e à experiência de dor moral quando os desejos não são satisfeitos.
Por um lado, o ser humano tem dificuldade de lidar com a castração e ser privado do objeto de seu desejo e, por outro, tem a sensação desagradável de não ver concretizado esse desejo dentro de uma relação interpessoal.
O sofrimento surgiria, então, dos conflitos psíquicos inconscientes e dos processos mentais complexos, especialmente aqueles relacionados aos impulsos instintivos e às demandas da sociedade.
Nesse conflito infinito de falta e desejos irrealizáveis, o sujeito contemporâneo acaba por negligenciar os laços sociais em prol de relações que podem gerar um sentimento de individualismo, narcisismo, distanciamento, resultando numa desconexão com a comunidade, causando sofrimento e adoecimento.
O CORPO, A IMAGEM E A SUBJETIVAÇÃO
Na interdependência entre o individual e o social, o desejo de aceitação pelo outro confere ao corpo um papel central na construção da identidade. As modificações corporais e a valorização estética refletem, simbolicamente, os conflitos entre a busca por pertencimento e a afirmação de si (SILVA JR., 2017).
Seguir os padrões de beleza torna-se requisito para a inserção social: pele clara, corpo magro e definido, consumo de produtos químicos, medicações e suplementos, musculação excessiva bem como de produtos estéticos, cirurgias e tecnologias associadas à aparência. tendo como complemento os celulares de última geração, marcas descoladas de roupas caras, carros luxuosos, perfumes de marca, compondo a criação da identidade, como se acessórios fossem análogos ao corpo. O corpo passa, assim, a funcionar como extensão do consumo e meio de subjetivação. A identidade é construída não apenas pelo que se é, mas pelo que se exibe. Pode-se dizer que o sujeito contemporâneo enxerga sua identidade por meio do seu corpo ou se subjetiva pelo corpo que carrega.
Contudo, a aparente autonomia para constituir-se é uma ilusão sustentada pelo discurso moderno de possibilidades infinitas (SILVA JR., 2017). A busca pelo corpo ideal coloca em risco a saúde física e mental, ao excluir corpos dissidentes — negros, gordos, com deficiência — e reforçar a lógica excludente da beleza hegemônica.
Nessa dinâmica, o corpo torna-se espelho da subjetividade: o sujeito se reconhece e se valoriza a partir do olhar do outro. Como aponta Lacan, a “imagem do corpo” é uma construção simbólica e imaginária mediada pela linguagem, na qual a percepção de si é moldada pela forma como se é visto e nomeado (STERNICK, 2002).
Em síntese, o corpo contemporâneo é um território de disputa entre liberdade e alienação — onde a promessa de autonomia das possibilidades infinitas, revela, na verdade, a captura do sujeito pelos ideais de perfeição e consumo.
A CULTURA DO ESPETÁCULO E OSTENTAÇÃO
Seguindo a temática do corpo, vemos um egocentrismo, que se manifesta como busca constante por performances e exaltação do eu, característico de uma sociedade individualista denominada de "cultura do espetáculo" por Guy Debord (1997), em que a exibição passa a ser o lema essencial da existência, levando a uma obsessão pela aparência, pela imagem e pela busca constante de entretenimento.
A mídia desempenha um papel fundamental na propagação da cultura da imagem, que promove a estetização do eu. Nesse contexto, o valor do sujeito é determinado não pelo que ele é, mas sim pelo que aparenta ser. A aparência torna-se mais importante do que a essência.
A mídia, em suas diversas formas, desempenha um papel crucial na construção e disseminação de narrativas, seja por meio de notícias, entretenimento, redes sociais ou publicidade. Ela exerce uma influência significativa na formação de percepções individuais e coletivas. Esse poder comunicativo pode ser direcionado estrategicamente para promover certas ideias, valores ou políticas que atendam aos interesses de grupos específicos.
Atualmente, observa-se uma necessidade maior de se mostrar na internet para ser reconhecido. A obsessão por likes, reality shows e presença online transforma relações em performances, reforçando a alienação e o narcisismo. O que nos possibilita a experiência da certeza de existir está na condição do ser visto e a presença corporal concreta frente ao outro. Ou seja, “eu vejo e sou visto, logo existo” (Birmam,2021, p.455/454).
A soberania da imagem permanece ligada a padrões de beleza e comportamentos que vão de encontro “a uma identidade forjada para o homem atual, que o obrigaria a renunciar a si mesmo, sua singularidade e, até mesmo, seus próprios desejos” (Rossito e Ferrazza, 2013, p.108).
Os sujeitos contemporâneos encontram-se vazios de si mesmos, por estarem amalgamados às condutas ditadas pela sociedade de consumo e do narcisismo. É um ciclo interminável de falta e excessos gerando adoecimento e banalização de psicodiagnósticos e medicalização que levam a saúde mental, nos dias atuais, a um patamar jamais pensado no que se refere à ansiedade e depressão. É uma eterna compulsão para aplacar o vazio e se sentir feliz.
DESEJO, COMPULSÃO E “NÃO-COISAS”
O termo "desejo" abrange uma variedade de conceitos em filosofia, psicanálise e psicologia. Ele representa a propensão, ansiedade, necessidade, cobiça ou apetite, referindo-se a qualquer forma de movimento em direção a um objeto. Este objeto exerce atração tanto espiritual quanto sexual sobre a alma e o corpo.
O desejo, segundo Freud, é expressão de impulsos inconscientes e insaciáveis (Dicionário de Psicanálise, 1998). Lacan acrescenta que o desejo surge do “Outro” e é estruturado pelo objeto a impossível de ser plenamente satisfeito (Lacan, 1985).
Lacan postulou que o desejo é moldado por fatores psicológicos, sociais e culturais e tem por característica ser inesgotável, isso por si só mostra o quanto ele é igualmente insaciável. Assim, não há objeto que possa satisfazê-lo, embora o sujeito insista em imaginariamente achar que se satisfará com o consumo de pequenos objetos oferecidos pelo mercado.
Sendo assim, Byung-Chul Han (2022) filósofo e ensaísta contemporâneo sul-coreano, considera que o mundo da atualidade é o mundo da aquisição do não necessário, da não-coisa, que continua a ser desejada, comprada e vendida e consequentemente influenciando comportamentos. No entanto, são desejos de não-coisas que não irão satisfazer o indivíduo.
A tendência ao excesso torou-se um diagnóstico aceito e atualmente desvela um outro comportamento como haiters e cancelamento nas redes. O fenômeno dos haters expressa um sofrimento psíquico típico da era digital, no qual o ódio funciona como forma de reafirmar a própria identidade por meio da rejeição do outro. O anonimato e a falta de responsabilidade nas redes intensificam a agressividade e a intolerância. Assim, o sujeito contemporâneo oscila entre o desejo de reconhecimento e o medo da exclusão, configurando um mal-estar que, conforme já indicava Freud (1930), resulta do conflito entre os impulsos individuais e as demandas sociais, agora amplificado pelas tecnologias e pelo narcisismo digital.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O mal-estar contemporâneo é um fenômeno multifacetado que emerge da tensão entre os desejos individuais e as pressões sociais, culturais e tecnológicas que moldam a subjetividade na era hipermoderna. Diferentemente do mal-estar descrito por Freud, resultado da repressão das pulsões pelo aparato civilizatório, a contemporaneidade acrescenta novas camadas de complexidade: o excesso de informação, a cultura da visibilidade e do espetáculo, o consumismo incessante e as redes digitais intensificam a experiência de falta e insatisfação, transformando o vazio existencial em um componente estrutural da vida cotidiana.
O sujeito atual está submetido a uma lógica em que a construção da identidade e o reconhecimento social se dão cada vez mais pelo olhar alheio, seja nas redes sociais, seja na adesão a padrões estéticos e de consumo.
Nesse contexto, o corpo, os objetos de consumo e a própria presença online tornam-se extensões do eu, mediando relações e experiências de pertencimento.
A exposição contínua e a pressão por aprovação social produzem ansiedade, frustração e sentimentos de inadequação, reforçando a ideia de que a felicidade é algo sempre fora do alcance, dependente de fatores externos e momentâneos.
A análise do consumo e da propaganda evidencia que os desejos contemporâneos são muitas vezes fabricados ou direcionados, perpetuando a ilusão de satisfação e reforçando a compulsão por novas experiências e aquisições.
A sociedade da sedução e a cultura do espetáculo, como destacam Lipovetsky e Debord, criam um ciclo de produção e frustração de desejos, no qual a visibilidade e a aparência se sobrepõem à essência, e o sujeito se sente simultaneamente central e vazio.
Diante disso, o mal-estar contemporâneo não pode ser compreendido apenas como resultado de escolhas individuais, mas sim como produto de uma inter-relação complexa entre estruturas sociais, culturais e tecnológicas.
Compreender essas relações oferece subsídios para a criação de estratégias que favoreçam o equilíbrio entre as exigências externas e os recursos internos do sujeito, promovendo formas de vida mais autênticas, relações sociais mais significativas e modos de subjetivação que integrem identidade, desejo e pertencimento de maneira saudável.
Portanto, o enfrentamento do mal-estar contemporâneo passa pela reflexão crítica sobre os impactos da sociedade do consumo, da hipermodernidade e das tecnologias digitais, bem como pela promoção de espaços de convivência, autenticidade e cuidado que permitam ao sujeito reconhecer sua incompletude sem ser definido exclusivamente pelo olhar alheio ou pelo imperativo do prazer e do sucesso. Reconhecer os limites impostos pelo contexto social e, ao mesmo tempo, buscar formas de afirmar a singularidade individual é, possivelmente, o caminho para reduzir o sofrimento psíquico e construir modos de vida mais equilibrados, resilientes e humanos.
À guisa de conclusão, é possível afirmar que o sujeito contemporâneo vive imerso em uma cultura marcada pelo excesso, pela aceleração e pela exposição constante, o que intensifica o mal-estar e o sentimento de vazio. Contudo, conforme propõe Byung-Chul Han em O Espírito da Esperança (2024), mesmo diante de um cenário permeado pelo medo e pela desintegração dos laços, a esperança pode surgir como força ética e existencial capaz de restaurar o sentido e o vínculo com o outro. Longe de ser um otimismo ingênuo, a esperança é entendida como atitude ativa, abertura ao novo e disposição para reconstruir o comum. Nesse horizonte, pensar o mal-estar contemporâneo implica também reconhecer a possibilidade de criação e transformação: a esperança torna-se, assim, uma resposta simbólica e política à lógica da exaustão, permitindo ao sujeito resgatar a dimensão do humano em meio à cultura do desempenho e da visibilidade.
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