AGRAVOS À SAÚDE DOS TRABALHADORES DE INSTITUIÇÕES PÚBLICAS DE ENSINO SUPERIOR: REVISÃO INTEGRATIVA
Raquel Tavares 1, Mestranda Universidade Federal do Paraná
Rafaela Gessner Lourenço 2, Doutora, Universidade Federal do Paraná
Daiana Khoh Khalaf, Doutora 3, Universidade Federal do Paraná
Thamara Giuliana Carvalho 4, Mestranda, Universidade Federal do Paraná.
Malam Agrone Silva Neto 5, Mestranda, Universidade Federal do Paraná.
Manuela Kaled, Doutora 6, Fiotec.
RESUMO
Objetivo: conhecer quais os agravos à saúde que acometem os trabalhadores de instituições públicas de ensino superior. Método: A revisão integrativa foi realizada entre julho e setembro de 2024 e as buscas foram atualizadas em julho de 2025 nas bases CINAHL, EMBASE, WEB OF SCIENCE e nos portais: MEDLINE/PUBMED e Biblioteca Virtual em Saúde. Resultados: Quinze artigos integraram a análise deste estudo. Os profissionais participantes foram docentes, técnicos e profissionais de saúde de hospitais universitários. Os resultados evidenciaram que os trabalhadores apresentaram comprometimentos nas dimensões física e psíquica, incluindo distúrbios musculoesqueléticos e transtornos mentais e comportamentais que contribuem para o aumento do nível de estresse, redução da qualidade de vida e consequentes afastamentos laborais. Conclusão: Os agravos à saúde do trabalhador afetam a saúde e o desempenho do trabalhador. Condições de trabalho desfavoráveis, aumentam o risco de agravos à saúde, e seu conhecimento orienta ações de melhoria para os servidores.
DESCRITORES: Universidades; Saúde Ocupacional; Doenças Profissionais; Empregados do Governo.
ABSTRACT
Objective: To identify the health hazards affecting workers in public higher education institutions.
Method: An integrative review was conducted between July and September 2024, with searches updated in July 2025 in the databases CINAHL, EMBASE, WEB OF SCIENCE, and the portals MEDLINE/PUBMED and the Virtual Health Library (BVS).
Results: Fifteen articles were included in the analysis. Participants were faculty members, technical staff, and health professionals from university hospitals. The findings revealed that workers experienced impairments in both physical and psychological dimensions, including musculoskeletal disorders and mental and behavioral disorders, which contribute to increased stress levels, reduced quality of life, and subsequent work absences.
Conclusion: Worker health hazards affect both the well-being and performance of employees. Unfavorable working conditions increase the risk of health problems, and understanding these hazards guides the implementation of measures to improve working conditions for staff.
KEYWORDS: Universities; Occupational Health; Occupational Diseases; Government Employees.
RESUMEN
Objetivo: Identificar los problemas de salud que afectan a los trabajadores de instituciones públicas de educación superior.
Método: Se realizó una revisión integradora entre julio y septiembre de 2024, y las búsquedas se actualizaron en julio de 2025 en las bases CINAHL, EMBASE, WEB OF SCIENCE y en los portales MEDLINE/PUBMED y Biblioteca Virtual en Salud (BVS).
Resultados: Quince artículos fueron incluidos en el análisis. Los participantes fueron docentes, personal técnico y profesionales de la salud de hospitales universitarios. Los hallazgos evidenciaron que los trabajadores presentaron compromisos en las dimensiones física y psíquica, incluyendo trastornos musculoesqueléticos y trastornos mentales y conductuales, los cuales contribuyen al aumento de los niveles de estrés, reducción de la calidad de vida y consecuentes ausencias laborales.
Conclusión: Los problemas de salud de los trabajadores afectan tanto su bienestar como su desempeño laboral. Las condiciones laborales desfavorables incrementan el riesgo de agravamientos de salud, y el conocimiento de estos problemas orienta la implementación de medidas para mejorar las condiciones de trabajo del personal.
DESCRIPTORES: Universidades; Salud Ocupacional; Enfermedades Profesionales; Empleados del Gobierno.
INTRODUÇÃO
Os agravos à saúde relacionados ao trabalho são um desafio para a saúde pública e influenciam a qualidade de vida dos trabalhadores e a produtividade nas organizações públicas e privadas. Caracterizam-se como danos ou condições que interferem na saúde física e mental do trabalhador e podem ocorrer na forma aguda, como acidentes, ou na forma crônica, com o agravamento de lesões ou o adoecimento 1, 2, 3.
Podem ser relacionados com as condições do ambiente de trabalho, entre elas condições insalubres, exposição a aspectos químicos, físicos, biológicos, mecânicos, culturais e de organização na dinâmica de trabalho. Devido à complexidade dos fatores que contribuem para a geração de agravos à saúde dos trabalhadores, seu enfrentamento exige a adoção de estratégias integradas de promoção da saúde no ambiente laboral 1,2,3.
Dentre as instituições públicas, as universidades exercem um papel fundamental no progresso social, cultural e econômico das regiões em que estão inseridas, por meio do ensino, da pesquisa e da extensão. No entanto, mesmo sendo reconhecidas como agentes impulsionadores do desenvolvimento nacional, questões como a redução do financiamento público para a educação favorecem o avanço da precarização das condições de trabalho, que compromete a saúde física e mental dos trabalhadores que atuam em instituições de ensino superior (IES) públicas 4,5.
Além dos docentes e dos técnicos administrativos em educação (TAE), outros profissionais fazem parte da força de trabalho das IES públicas, como os trabalhadores terceirizados e bolsistas. Um estudo analisou dados de afastamentos por licença médica de 2.109 servidores nas universidades federais de Pelotas e Rio Grande do Sul e apresentou que os principais agravos na saúde desses trabalhadores foram doenças ocupacionais, doenças musculoesqueléticas, transtornos mentais, doenças cardiovasculares e outras condições de saúde que foram associadas aos ambientes de trabalho.
Outros estudos realizados em instituições públicas de ensino superior no Nordeste e no Sul do Brasil identificaram as mesmas consequências do adoecimento e dos afastamentos do trabalho. Isso demonstra que os servidores dessas instituições são afetados pelas condições de trabalho a que estão submetidos 6 ,7.
O ambiente de trabalho nas IES públicas é caracterizado por instabilidades e mudanças frequentes, o que exige atenção redobrada aos fatores que contribuem para o adoecimento dos trabalhadores. Diante desse contexto, torna-se fundamental alinhar as práticas institucionais aos princípios da saúde do trabalhador, como a integralidade do cuidado, a atuação interdisciplinar e a participação ativa dos envolvidos. No entanto, apesar da relevância do tema, são escassas as pesquisas que abordam os impactos do ambiente universitário na saúde dos servidores, o que evidencia a necessidade de maior investimento científico e político nessa área 8, 9 ,10 ,11.
Essas questões justificam a realização do presente estudo que permitirá reunir, analisar e sintetizar o conhecimento disponível, identificando lacunas, tendências e evidências que possam subsidiar práticas mais eficazes de promoção da saúde e de enfrentamento dos agravos relacionados ao trabalho no ambiente universitário.
A relevância deste estudo é apresentar e discutir os agravos à saúde que acometem os trabalhadores da educação pública superior, além de, identificar lacunas e oportunidades para aprimorar as questões de saúde e segurança relacionadas ao trabalho do servidor público, pois é necessário reconhecer os desafios enfrentados por esses profissionais. Justifica-se a opção por investigar os agravos à saúde dos trabalhadores de IES públicas pelas seguintes questões: a lacuna científica identificada sobre esta temática, as características específicas do processo laboral no ambiente universitário que repercutem na saúde e pelo regime de contratação desses servidores, o regime jurídico único (RJU), que exclui esses trabalhadores do escopo de abrangência de medidas, proteções e normativas relacionadas ao vínculo empregatício regido pela CLT (consolidação das leis do trabalho).
O objetivo deste estudo é conhecer quais os agravos à saúde acometem trabalhadores de instituições públicas de ensino superior.
MÉTODOS
Trata-se de uma revisão integrativa sustentada pelo referencial metodológico de Whittemore e Kanfl. Para a realização deste estudo foram seguidas as etapas: 1) Identificação do problema; 2) Pesquisa de literatura; 3) Avaliação dos dados; 4) Análise dos resultados; e 5) Apresentação da revisão 12. Para elaborar a questão de pesquisa sobre o problema utilizou-se o método mnemônico PICo: “(População, Interesse e Contexto)”. A população (P) refere-se a trabalhadoras e trabalhadores; (I) Interesse trata-se dos agravos à saúde e (Co) Contexto: Instituições Públicas de Ensino Superior. Dessa forma, foi elaborada a questão de pesquisa: Quais agravos à saúde acometem os trabalhadores de instituições públicas de ensino superior?
Justifica-se que as plataformas Prospero e OSF foram acessadas em julho de 2024 e julho de 2025 e não foram identificados protocolos de revisão registrados sobre a mesma temática.
Os critérios de inclusão dos artigos primários foram: publicações em formato de artigos disponíveis online, nos idiomas português, espanhol e inglês; não houve recorte temporal. Os critérios de exclusão estabelecidos foram: publicações duplicadas; publicações que não respondiam à pergunta de pesquisa, monografias, dissertações, teses, comentários, editoriais e literatura cinzenta.
A coleta de dados, segunda etapa do método, foi realizada por meio de busca nas bases de dados: Cumulative Index to Nursing and Allied Health Literature (CINAHL), Excerpta Médica dataBASE (EMBASE), Web of Science (WOS) e nos portais: US National Library of Medicine (MEDLINE/PUBMED) e Biblioteca Virtual de Saúde (BVS). Essas fontes foram selecionadas por sua abrangência na área de estudo da saúde do trabalhador, as bases e portais foram acessadas por meio do Portal de Periódicos da CAPES por meio da Comunidade Acadêmica Federada (CAFe) da Universidade Federal do Paraná. Além das bases e portais, foram consultadas as listas de referências dos artigos incluídos, vislumbrando a possibilidade de encontrar artigos relacionados ao tema.
Para a busca, foram utilizados os "Descritores em Saúde" (DeCS), descritores controlados, combinados com os sinônimos por meio de operadores lógicos booleanos “AND” ou “OR". Na estratégia de busca utilizou-se “servidor técnico” OR “servidor público” OR “serviço público” OR “instituição federal” AND “avaliação do impacto na saúde” OR “saúde ocupacional”. Essa estratégia foi desenvolvida com o suporte de bibliotecária com experiência no desenvolvimento de revisões integrativas e foi combinada de diversas formas para ampliar as buscas nas distintas bases de dados, além do uso de variações terminológicas e sinônimos nos idiomas pesquisados.
A etapa de buscas ocorreu nos meses de julho a agosto de 2024 e foi atualizada em julho de 2025. Sequencialmente foi realizada a seleção dos arquivos, a terceira etapa do método, avaliada por dois revisores independentes, as dúvidas que surgiram nesse processo foram esclarecidas por meio de discussão e consenso com as primeiras autoras deste estudo.
Os artigos encontrados foram transportados para o software Rayyan (Qatar Computing Research Institute, Doha, Qatar). Trata-se de um software livre, que permite a colaboração independente entre revisores, facilita a organização dos artigos e possibilita a leitura dos títulos e resumos de forma prática, bem como a inclusão ou exclusão dos artigos selecionados, ou em duplicidade. Inicialmente foram realizados a leitura e resumos com a finalidade de classificar os artigos relacionados a este estudo, após finalizar esta etapa, realizou-se a leitura interpretativa na íntegra de todos os artigos selecionados.
A extração dos dados, a quarta etapa do método, foi realizada por meio de uma ferramenta de extração elaborada pelos autores no programa computacional Microsoft Excel®, composta pelos itens: título da publicação; ano; país, base ou portal de dados; tipo de estudo, população / amostra; local do estudo; objetivo; temática prevalente e desfecho e/ou resultados. A partir da organização das variáveis, foi realizada a síntese dos resultados para análise, a continuação da quarta etapa do método, e a apresentação exploratória da revisão em quadros, a quinta etapa do método proposto.
Utilizaram-se como ferramenta de apoio à inteligência artificial Grammarly e ChatGPT para tradução de textos, auxílio na análise dos dados e síntese das categorias temáticas, síntese de textos, correção gramatical e formatação de referências bibliográficas. Todo o processo de utilização da IA foi supervisionado e validado pelos autores, garantindo rigor metodológico e confiabilidade dos resultados.
Para garantir o ineditismo da revisão proposta, o protocolo do estudo foi registrado na plataforma Open Science Framework (OSF) sob número de registro DOI 10.1X6X5/OSF.IO/X4XVX em fevereiro de 2024, e está disponível pelo link: https://osf.io/947va/.
RESULTADOS
A busca nos portais pesquisados resultou em 247 estudos e um artigo foi encontrado por meio de relação bibliográfica. Foram excluídos 206 artigos, por duplicidade; não atender aos critérios de elegibilidade desta revisão; não estar diretamente relacionados ao tema. Para leitura na íntegra, foram selecionados 26 artigos, e destes, foram incluídos 15, como amostra (Figura 1). Os estudos datam entre os anos de 2011 e 2024. O idioma predominante foi o português com 13 publicações, seguido pelo inglês, com duas publicações.
Figura 1 - Estratégias de busca, bases de dados e resultados
Fluxograma da seleção dos estudos da Estratégia A e B, adaptado do modelo PRISMA.
Quadro 1 - Caracterização dos estudos.
Título, Ano, País | População e Local do estudo | Objetivo do estudo | Tipo de Estudo / Desfecho e resultados |
Aspectos crônicos de servidores públicos com foco nos problemas de varizes e colesterol alto/2017/Brasil 13 (GOMES et al. 2017) | 774 participantes: Técnico-administrativos, docentes, estagiários no Instituto Federal de Tecnologia do Rio Grande do Norte (IFRN). | Descrever aspectos de saúde crônicos degenerativos dos servidores públicos do IFRN e inferir as variáveis sociodemográficas com as variáveis mais expressivas: ter varizes e colesterol alto. | Estudo: Quantitativo. Desfecho: Entre os 744 trabalhadores, 13,2% apresentavam varizes; 11,6% colesterol elevado; 9% hipertensão; 8,8% triglicérides elevados e 1,7% diabetes. Resultados: Estatística inferencial apontou que as mulheres acima de 35 anos, com pós-graduação e que têm companheiro são as que mais possuem varizes e trabalhadores que possuem cargo de direção e função gratificada e que possuem entre 46 e 55 anos são os que apresentam maior nível de colesterol alto. |
Estresse e resiliência no trabalho em servidores públicos federais/2020/ Brasil 14 (MAGNAGO et al., 2020) | 526 trabalhadores de uma IFES. Desses 43,5% eram docentes e 54,6% profissionais da saúde que atuam na instituição de ensino. Rio Grande do Sul, Brasil. Santa Maria – RS | Analisar a relação entre estresse e resiliência no trabalho em servidores públicos federais de uma instituição de ensino do Sul do Brasil. | Estudo: Quantitativo Observacional, transversal, analítico. Desfechos: O menor nível de resiliência no trabalho foi identificado entre trabalhadores com alta exigência e em trabalho ativo. Resultados: Para 61,3% dos trabalhadores, o estresse ocupacional foi classificado como de alta demanda psicológica. Os participantes apresentaram moderado nível de resiliência no trabalho (38,8%), seguido por alto nível (32,3%) e baixo nível (28,8%). |
Personalidade hardiness e fatores associados em docentes de cursos de graduação da saúde/2023/ Brasil 2 (ALVES et al., 2023) | 88 docentes dos cursos de graduação da área de saúde da instituição. Minas Gerais - MG | Identificar os fatores associados à personalidade hardiness entre docentes atuantes no ensino superior de uma instituição federal. | Estudo: Quantitativo Epidemiológico transversal e analítico. Desfecho: A maioria dos servidores apresentou nível moderado a alto de hardiness, o que indica significativa capacidade de enfrentar o estresse ocupacional. Essa característica indica uma resistência psicológica satisfatória, influenciada por fatores pessoais e ocupacionais saudáveis que favorecem o bem-estar. Resultados: 26,4% dos docentes pesquisados apresentaram alto hardiness e 50,6% apresentavam hardiness moderado e 23,0% baixo hardiness |
Excesso de peso e fatores associados em servidores públicos do Sul do Brasil/2016/ Brasil 15 (GONÇALVES et al., 2016) | 339 servidores públicos com idade acima de 18 anos. Maringá - PR | Estimar a prevalência de sobrepeso e investigar sua associação com fatores sociodemográficos, nível de atividade física, hipercolesterolemia e diabetes em servidores públicos de uma universidade do estado do Paraná, Brasil. | Estudo: Quantitativo Epidemiológico Transversal Desfecho: Alta prevalência de excesso de peso entre os servidores públicos avaliados, os achados estão associados a fatores sociodemográficos e comportamentais. Resultados: Prevalência de excesso de peso (IMC ≥ 25 kg/m²) em 50,6% da amostra. |
Qualidade de vida e fatores associados entre servidores aposentados por invalidez de universidades públicas/2023/Brasil 16 (MOREIRA et al., 2023) | 80 servidores aposentados por invalidez (15% docentes, 85%técnicos-administrativos), entre 2007 e 2017, de sete universidades públicas estaduais do Paraná. Londrina -PR | Analisar a qualidade de vida e os fatores associados entre servidores de universidades públicas aposentados por invalidez. | Estudo: Quantitativo Epidemiológico transversal e analítico Desfecho: A qualidade de vida dos servidores aposentados por invalidez apresentou-se prejudicada. Resultados: A qualidade de vida está associada a fatores como uso de medicação contínua, problemas neurológicos, tabagismo, doenças respiratórias/circulatórias e transtornos mentais e aspectos que impactam os domínios físico, psicológico, social, ambiental, discriminatório e de inclusão. |
Fatores psicossociais associados ao Estilo de Vida Saudável em Servidores Públicos Universitários/2022/Brasil 17 (ATZ, REMOR, 2022) | 898 servidores técnico-administrativos e docentes. Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre - RS. | Investigar se estresse relacionado ao trabalho, lócus de controle da saúde e autopercepção de saúde estão associados com estilo de vida saudável em servidores de uma instituição federal de ensino superior | Estudo: Quantitativo Observacional, transversal, analítico Desfecho:Servidores com menor índice de estresse atrelado ao trabalho, apresentam melhor autopercepção de saúde física e mental, maior escolaridade e crença de influência que figuras externas influenciam sobre sua saúde. Resultados 68,2% foram classificados com perfil saudável de estilo de vida e 31,8% com perfil de risco. |
Agravos relacionados ao trabalho em servidores de uma universidade federal do sul do Brasil/2020/Brasil 18 (ANDERSEN, LOBATO,2020) | 166 CAT na unidade SIASS da UFSM, as funções administrativas de nível superior; assistenciais da saúde de nível médio; ou técnicos, funções de manutenção de nível médio ou fundamental e por último, outras funções de nível superior. Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) Santa Maria - RS | Identificar o perfil do servidor público federal acometido por agravos ocupacionais e relacioná-lo com o diagnóstico registrado na Comunicação de Acidente de Trabalho do Servidor Público (CAT/SP) de uma universidade federal do sul do Brasil. | Estudo: Quantitativo Observacional, retrospectivo, descritivo. Desfechos: Os principais agravos relacionados ao trabalho são acidentes de trabalho com lesões traumáticas, especialmente em servidores vinculados ao hospital universitário, e em doenças ocupacionais como lombalgia e infecções. Resultados: A população mais acometida foi feminina, em funções técnicas e de nível médio. O tempo médio de afastamento foi de quase 12 dias. Alta taxa de subnotificação de informação. Dos agravos com identificação de CID-10 82,5% foram classificados como acidentes de trabalho, com destaque para lesões traumáticas, sendo os membros inferiores os mais afetados (31,5%). 17,7% foram doenças relacionadas ao trabalho, como lombalgia e doenças infecciosas, como os principais agravos (ambas com 17,7%). Outros agravos são citados dentre eles: Transtornos musculoesqueléticos; Problemas psíquicos; Lesões por esforços repetitivos (LER/DORT). |
Afastamentos por transtornos mentais: estudo de caso com servidores públicos de uma instituição de ensino no Ceará, Brasil/2018/Brasil 6 (BASTOS et al., 2018) | 119 afastamentos para tratamento de saúde por transtornos mentais. Fortaleza- CE | Descrever os afastamentos por transtornos mentais dos servidores do IFCE, bem como apresentá-los à gestão, visando medidas que contribuíssem para a diminuição do absenteísmo por estes motivos | Estudo: Quantitativo Observacional transversal Desfecho: os transtornos mentais e comportamentais (CID F) foram os agravos que mais motivaram afastamento por motivo de saúde. Resultado: Os transtornos mentais, totalizaram 5.081 dias de perda de trabalho e representaram 23% do total dos afastamentos por tratamento de saúde. Em relação às doenças, 15% dos afastamentos correspondem a doenças musculoesqueléticas e outros 21% foram de outras causas diversas. O maior índice de dias perdidos foi relacionado a transtornos mentais responsáveis por 36% do total de dias de afastamento ao longo do ano — ou seja, foram os que mais geraram tempo afastado do trabalho. |
Fatores de riscos ocupacionais e implicações à saúde do trabalhador em biotérios/2017/Brasil 19 (SOUZA et al., 2017) | 151 profissionais de ambos os sexos, que atuavam há pelo menos 6 meses nas áreas finalísticas dos biotérios de uma instituição federal de ciências e tecnologia. Rio de Janeiro – RJ. | Avaliar as implicações à saúde dos trabalhadores de biotérios, bem como fatores de risco inerentes, em uma Instituição Federal de Ciências e Tecnologia. | Estudo: Quantitativo Observacional, descritivo e transversal. Desfecho: Os trabalhadores de biotérios estão expostos a fatores de risco ocupacional, dentre eles físicos, de acidentes, ergonômicos, biológicos e psicossociais, o que afeta negativamente a saúde e qualidade de vida no trabalho. Resultados: 59,6% homens com idade média de 38 anos, 51% com até 5 anos de atuação 58,3% atuando em biotérios de criação/manutenção; 41,7% em experimentação. A principal repercussão para a saúde relatada foi o estresse, ligado a fatores psicossociais e à organização laboral. Também se observaram distúrbios musculoesqueléticos relacionados à adoção de posturas inadequadas e movimentos repetitivos. Houve menções a doenças de pele e respiratórias, além de fadiga mental e física, atribuídas à sobrecarga de trabalho. |
Condições crônicas de saúde relacionadas à qualidade de vida de servidores federais/2015/Brasil 20 (SARAIVA et al., 2015) | 215 servidores da UFRN portadores de comorbidades atendidos no Departamento de Assistência ao Servidor – da UFRN, no Município de Natal/RN. | Correlacionar os domínios da QV dos servidores com o tipo e a quantidade de condições crônicas de saúde. | Estudo: Quantitativo descritivo transversal Desfecho: A presença e o número de condições crônicas de saúde são associados a uma pior qualidade de vida dos servidores, com impactos na saúde física, mental, social e funcional. Resultados: Os domínios mais afetados foram os aspectos físicos e aspectos emocionais. Os menores escores de qualidade de vida foram observados em pessoas com: Transtorno mental persistente (TMP) |
Prevalência de transtornos mentais e comportamentais nas instituições públicas federais de Rondônia/2014/Brasil 21 (SCHLINDWEIN; MORAIS, 2014) | 296 afastamentos motivados por transtornos mentais e comportamentais de vinte e três instituições públicas federais de RO no ano de 2011. Universidade Federal de Rondônia - RO | Avaliar a prevalência de afastamentos por transtornos mentais e comportamentais enquadrados no grupo F do CID-10 de servidores públicos federais do Estado de Rondônia | Estudo: Quantitativo transversal e retrospectivo Desfecho: Os transtornos mentais e comportamentais representaram motivo para afastamentos do trabalho, com maior impacto entre mulheres. Entre os homens destacaram-se os afastamentos atrelados ao uso de substâncias psicoativas. Resultados: Foram registrados 379 afastamentos por licença para tratamento de saúde,destes, 9,6% relacionados a transtornos mentais e comportamentais (CID-10 F). Maior número entre as mulheres, 70,6%, e nos homens representou 29,4% dos casos, sendo nos homens 10,3% dos afastamentos foram por transtornos relacionados ao uso de substâncias psicoativas; |
Cotidiano e saúde de servidores vinculados ao setor de manutenção em uma universidade pública/2011/ Brasil 22 (COUTINHO; DIOGO; JOAQUIM, 2011) | 12 trabalhadores da área de manutenção da Universidade Federal de SC. Florianópolis - SC | Analisar as implicações da organização e do cotidiano de trabalho na saúde de servidores técnico-administrativos que executam trabalhos de manutenção em uma universidade pública | Estudo: Qualitativo Desfecho: As condições de trabalho e a organização das atividades no setor de manutenção mostraram potencial para causar danos à saúde física e mental dos trabalhadores. Resultados: Trabalhadores relataram doenças ocupacionais, dores musculares e fadiga. O ambiente laboral é marcado por sentimento de invisibilidade, desvalorização e precarização. Observa-se a necessidade de replanejamento organizacional e investimento no setor, tendo em vista a essencialidade do serviço para o funcionamento da universidade, esses dados são reconhecidos pelos trabalhadores. |
Dor musculoesquelética e riscos ergonômicos em docentes de uma Instituição federal/2020/Brasil 23 (KRAEMER; MOREIRA; GUIMARÃES, 2020) | 25 docentes do IFC Campus São Bento do Sul - SC | Avaliar a dor musculoesquelética e os riscos ergonômicos dos postos de trabalho dos docentes do Instituto Federal Catarinense Campus São Bento do Sul. | Estudo: Quantitativo, observacional, transversal Desfecho: 100% dos docentes relataram dor musculoesquelética, especialmente em coluna lombar (60%), pescoço (56%) e ombros (48% as dores estão associadas a diversos riscos ergonômicos em seus postos de trabalho. Resultados: 72% dos participantes eram do sexo masculino, com média de idade de 37,1 .72% relataram baixo conhecimento sobre ergonomia. 68% afirmaram não aplicar ergonomia no cotidiano. Os riscos ergonômicos evidenciados por meio de adoção de posturas inadequadas houve prevalência de dor musculoesquelética (últimos 12 meses). |
Estresse ocupacional e fatores associados em servidores públicos de uma universidade federal do sul do Brasil/2018/Brasil 24 (LOPES; SILVA, 2018) | 371 servidores públicos técnico-administrativos da Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Pelotas - RS | Verificar a prevalência de estresse e os fatores associados em servidores técnico-administrativos de uma universidade federal do sul do Brasil federal do sul do Brasil | Estudo: Quantitativo observacional transversal Desfecho: O estresse ocupacional foi prevalente entre servidores técnica administrativos e estava associado à menor escolaridade, à estrutura de trabalho inadequada e ao baixo apoio social no ambiente de trabalho. Esses fatores aumentam a exposição ao estresse. Resultados: 57,4% dos participantes eram mulheres, 42% consideraram a estrutura de trabalho como inadequada, 22,7% estavam em alta exigência e 28% em trabalho passivo. A menor escolaridade esteve associada ao trabalho passivo. As condições de trabalho, como horas trabalhadas, estrutura adequada e apoio social, foram influenciadoras sobre o estresse; servidores com estrutura adequada e alto apoio social tiveram menor nível de estresse, sendo mais frequente a classificação baixa exigência. |
Psychosocial f actors associated with sickness absence in employees at a federal public university/ 2024/Brasil 25 (ATZ; REMOR, 2024) | 898 funcionários foram recrutados para a amostra do estudo. Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) | Investigar se o estilo de vida, o locus de controle da saúde, o estresse relacionado ao trabalho e a autopercepção da saúde física e mental estão associados ao absenteísmo por doença em um ambiente universitário público | Desfecho: Fatores psicossociais mostraram associação com o afastamento do trabalho por motivo de saúde, destacando-se o estresse ocupacional elevado. Os resultados evidenciam aspectos sociodemográficos, ocupacionais e psicossociais. Resultados: 59,8% eram mulheres, 53,2% técnicos e administrativos e 47% docentes; 49,6% tinham doutorado, dos quais 90,4% eram membros do corpo docente. Os afastamentos por doença tiveram mediana de 1 dia, com 43,2% sem afastamentos e outros 31,7% com afastamentos até 5 dias. |
A publicação mais antiga data de 2011. No período de 2011 a 2016, foram identificados quatro estudos publicados; entre 2017 e 2022, esse número aumentou para oito publicações. Em 2023, registraram-se duas publicações, e em 2024, uma publicação foi identificada.
Observa-se aumento de publicações sobre este tema nos últimos seis anos. Todos os artigos foram realizados no Brasil, sendo oito deles conduzidos na região Sul: Santa Catarina (2), Paraná (2) e Rio Grande do Sul (5); seguidos pela região Nordeste: Rio Grande do Norte (2) e Ceará (1); na região Norte: Rondônia (1); região Sudeste: Rio de Janeiro (1) e Minas Gerais (1).
Os estudos incluíram a participação de 4.958 pessoas, sendo a maioria servidores do setor de ensino superior público, incluindo técnicos-administrativos, técnicos de laboratório, docentes, equipes de manutenção e profissionais da saúde de hospitais universitários.
Da análise dos dados emergiram quatro categorias: Perfil Sociodemográfico e Ocupacional: Gênero, Escolaridade e Cargo como Determinantes da Saúde no Trabalho; Agravos Físicos e Condições Crônicas: Impactos à Saúde Corporal do Trabalhador; Estresse, Adoecimento Psíquico e Resiliência no Ambiente Universitário e Organização do Trabalho, Afastamentos e a Invisibilidade da saúde do trabalhador. Os artigos utilizados para análise em cada uma das categorias foram organizados e estão apresentados no Quadro 2.
Quadro 2 - Apresentação dos artigos incluídos de acordo com a categoria
Categoria Temática | Artigos |
Perfil Sociodemográfico e Ocupacional: Gênero, Escolaridade e Cargo como Determinantes da Saúde no Trabalho | (2; 13; 14; 18; 19; 21; 22; 23; 24)
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Agravos Físicos e Condições Crônicas: Impactos à Saúde Corporal do Trabalhador. | (13; 14; 15; 18; 19; 20; 22; 23)
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Estresse, Adoecimento Psíquico e Resiliência no Ambiente Universitário | (2; 14; 17; 18; 19; 21; 24; 25) |
Organização do Trabalho, Afastamentos e a Invisibilidade da saúde do trabalhador | (22; 23;24;25) |
A categoria Perfil Sociodemográfico e Ocupacional: Gênero, Escolaridade e Cargo como Determinantes da Saúde no Trabalho apresenta as características individuais e profissionais dos servidores e como esses fatores estão relacionados aos agravos físicos, mentais e aos afastamentos por motivo de saúde.
Os artigos que compõem essa categoria apresentam como principais achados: mulheres apresentaram maior prevalência de transtornos mentais, varizes, doenças osteomusculares e foram as mais afetadas por afastamentos 13; homens tiveram maior prevalência de excesso de peso e de afastamentos por uso de substâncias psicoativas 15, 21; trabalhadores com pós-graduação ou doutorado demonstraram maior associação a estilos de vida saudáveis, melhor saúde percebida e menor risco de afastamentos 17, 25.
Os profissionais do cargo técnico-administrativo apresentaram maior vulnerabilidade em relação ao estresse ocupacional, adoecimentos físicos e afastamentos 18. Servidores com funções gratificadas ou cargos de direção apresentaram maior prevalência de colesterol alto, especialmente entre 46 e 55 anos 13. A maioria dos trabalhadores com maior tempo de serviço (20 a 29 anos) teve probabilidade significativamente maior de afastamento por saúde 18.
Essa categoria evidencia que o perfil sociodemográfico e o tipo de função exercida são determinantes importantes para os agravos à saúde, reforçando a necessidade de ações personalizadas de promoção e prevenção, considerando gênero, escolaridade, tempo de serviço e o cargo ocupado.
Agravos Físicos e Condições Crônicas: Impactos à Saúde Corporal do Trabalhador
Essa categoria reúne os agravos relacionados ao estado físico geral, doenças metabólicas e fatores de risco comportamentais. Sendo os principais achados: alta prevalência de varizes, hipertensão, colesterol alto, triglicérides elevados e excesso de peso. Fatores associados: idade, sexo, escolaridade, sedentarismo e função ocupacional. Doenças musculoesqueléticas e lesões traumáticas são recorrentes, especialmente entre docentes e trabalhadores técnico-administrativos, com destaque para lombalgia, dores no pescoço e nos ombros. Necessidade de adaptações ergonômicas e ações preventivas, frente ao alto número de servidores com baixa aplicação de ergonomia no trabalho. Essa categoria evidencia a necessidade de ações voltadas à promoção da saúde física, prevenção de doenças crônicas e reestruturação ergonômica dos ambientes de trabalho.
Estresse, Adoecimento Psíquico e Resiliência no Ambiente Universitário
Esta categoria aborda os agravos psicossociais e os impactos emocionais do trabalho na universidade. Sendo os principais achados: Transtornos mentais e comportamentais foram a principal causa de afastamentos (23% dos casos), com destaque para transtornos do humor e neuróticos em mulheres e uso de substâncias psicoativas em homens. O estresse ocupacional esteve presente em 61,3% dos trabalhadores, com associação à estrutura inadequada de trabalho, baixa escolaridade, e pouco apoio social. Baixos níveis de resiliência foram identificados em trabalhadores submetidos a alta exigência psicológica.
Apesar disso, a maioria dos servidores apresentou nível moderado a alto de “hardiness”, indicando uma base de resistência psicológica positiva. Essa categoria destaca a importância de intervenções voltadas à saúde mental, clima organizacional e desenvolvimento de estratégias institucionais para redução do estresse e fortalecimento da resiliência individual e coletiva.
Organização do Trabalho, Afastamentos e Invisibilidade: Fatores Psicossociais em Evidência
Essa categoria trata da relação entre o ambiente laboral, afastamentos por saúde e aspectos estruturais do trabalho. Sendo os principais achados: acidentes de trabalho, principalmente com lesões traumáticas e doenças ocupacionais em setores como hospital universitário e biotérios. Evidências de subnotificação de agravos (42% das CAT sem CID). Os afastamentos por saúde foram mais frequentes em mulheres técnico-administrativas, com maior tempo de serviço e pior percepção da saúde física e mental. Fatores psicossociais como estresse, percepção de baixa autonomia e invisibilidade no trabalho foram associados ao aumento de afastamentos.
Trabalhadores da manutenção relataram sentimento de precarização, desvalorização e falta de investimentos, com impactos físicos e emocionais. Essa categoria reforça a necessidade de melhorias na gestão do trabalho, políticas de prevenção de acidentes e valorização dos setores invisibilizados para reduzir afastamentos e melhorar o bem-estar geral.
Quando aos registros de dados relativos às condições de saúde dos trabalhadores, observam-se fragilidades dos sistemas públicos de registros de saúde; foram identificadas situações com desajustes e dados incompletos nos sistemas, dificultando o conhecimento sobre os dados epidemiológicos da saúde dos servidores públicos.
DISCUSSÃO
A categoria Perfil Sociodemográfico e Ocupacional: Gênero, Escolaridade e Cargo como Determinantes da Saúde no Trabalho permite compreender a distribuição dos agravos à saúde identificados nos estudos. As variáveis sexo, faixa etária, escolaridade, cargo ocupado, tempo de serviço e estilo de vida revelaram-se fortemente associadas aos riscos e desfechos de saúde física e mental.
Em relação ao sexo, os estudos apontam que as mulheres foram mais acometidas por transtornos mentais, dores musculoesqueléticas e agravos relacionados à sobrecarga laboral. Os dados também indicaram maior índice de afastamentos entre servidoras do sexo feminino, especialmente aquelas que atuam em cargos técnico-administrativos. Por outro lado, homens apresentaram maior prevalência de excesso de peso, hipercolesterolemia e afastamentos relacionados ao uso de substâncias psicoativas, evidenciando diferenças importantes nos padrões de adoecimento entre os sexos 21, 23, 24, 25.
A escolaridade aparece como um fator protetor: trabalhadores com pós-graduação ou doutorado relataram melhor autopercepção de saúde física e mental, maior adoção de hábitos saudáveis e menor frequência de agravos relacionados à saúde mental. Esses trabalhadores também se destacaram com nível elevado de resiliência (hardiness), demonstrando maior capacidade de enfrentamento frente às adversidades laborais 2,16, 21, 25.
O tempo de serviço foi outro elemento associado ao risco de adoecimento. Trabalhadores com 20 a 29 anos de atuação apresentaram até 3,6 vezes mais chance de afastamento do que aqueles com mais de 35 anos na instituição 21. Esse dado sugere uma possível relação entre o acúmulo de funções ao longo da carreira e a exaustão física e emocional, especialmente na ausência de estratégias institucionais voltadas ao cuidado e valorização desses profissionais.
A natureza do cargo ocupado também influenciou significativamente os desfechos em saúde. Trabalhadores com cargos de direção e funções gratificadas, sobretudo na faixa etária entre 46 e 55 anos, apresentaram maior prevalência de colesterol elevado, indicando que a responsabilidade administrativa e as exigências das posições de liderança também geram sobrecarga, mesmo em contextos de maior autonomia e remuneração 13.
Entre os técnicos-administrativos, especialmente os vinculados aos setores de manutenção, laboratórios e hospitais universitários, identificaram-se maiores índices de agravos físicos, como acidentes de trabalho, lombalgias, doenças infecciosas e fadiga física e mental, geralmente relacionadas à precariedade das condições de trabalho, ausência de EPIs e estrutura inadequada 22, 23, 24.
Os dados sugerem que o perfil saudável de estilo de vida com bons hábitos alimentares, prática de atividade física e maior consciência sobre autocuidado esteve mais presente entre servidores com maior escolaridade e melhor autopercepção da saúde, indicando a importância de estratégias de educação em saúde e promoção da qualidade de vida no ambiente institucional.
Em relação à categoria “Agravos Físicos e Condições Crônicas: Impactos à Saúde Corporal do Trabalhador”, demonstra a diversidade de agravos físicos e mentais que afetam os trabalhadores das instituições públicas de ensino superior. Entre os principais agravos relatados, destacam-se as condições crônicas não transmissíveis (DCNT) como sobrepeso, obesidade, diabetes mellitus (DM), hipercolesterolemia, hipertensão arterial sistêmica (HAS), doenças cardiovasculares, respiratórias e doença venosa crônica dos membros inferiores (DVC) e distúrbios musculoesqueléticos (DME) 13,15,16,18,20,22,23.
O ambiente de trabalho apresenta-se como um fator de risco potencial para o desenvolvimento ou agravamento dessas condições, seja pelas características laborais específicas, como atividades que demandam esforço físico, ambientes estressantes e ergonomicamente desfavoráveis, ou pela exposição contínua a fatores psicossociais, como pressão por resultados, sobrecarga e estrutura organizacional precária. No entanto, essas doenças também estão relacionadas a aspectos individuais, como hábitos de vida inadequados e predisposição genética 6,17,18,19,20,22.
Além disso, indivíduos com sobrepeso, sedentarismo, colesterol elevado, hipertensão e diabetes apresentaram menor qualidade de vida e maior risco de complicações severas, como doenças cardiovasculares, além de uma maior tendência ao absenteísmo 13, 15, 16, 18, 20, 22, 23.
Dentre os distúrbios musculoesqueléticos, destaca-se um estudo com docentes de uma instituição de ensino superior do estado de Santa Catarina, em que a totalidade dos entrevistados relataram dor musculoesquelética no último ano, principalmente na coluna lombar (60%), pescoço (56%) e ombros (48%) (31). Esses sintomas foram atribuídos a fatores ergonômicos como postura inadequada, altura incorreta do monitor, tempo prolongado em posições estáticas, e foram agravados por sobrepeso, sedentarismo e obesidade 23. Em trabalhadores técnico-administrativos, de laboratórios e da manutenção, dores musculares e lesões também foram atribuídas ao esforço físico contínuo, uso de ferramentas inadequadas, falta de estrutura física e improvisações constantes no ambiente laboral 19, 22, 23.
Os agravos agudos, especialmente os acidentes de trabalho, foram destacados em dois estudos. Entre os trabalhadores de biotérios, 30% relataram ter sofrido algum tipo de acidente, como quedas, mordeduras, cortes e queimaduras. Esses acidentes contribuíram para o surgimento de lesões osteomusculares, doenças de pele, fadiga e zoonoses 19. Fatores como ausência de EPIs adequados, como luvas, capacetes e cintos de segurança, além de instalações precárias, foram apontados como agravantes da ocorrência desses eventos 22.
A categoria Estresse, Adoecimento Psíquico e Resiliência no Ambiente Universitário trata, sobretudo, de agravos psíquicos, que foram discutidos em nove dos estudos analisados. Condições como ansiedade, estresse, depressão, transtornos do humor e síndrome de burnout foram recorrentes entre os servidores 2, 14, 17, 18, 19, 21, 24.
Essas condições comprometem a qualidade de vida e a produtividade dos trabalhadores, e estão frequentemente associadas a afastamentos laborais. Dois estudos apontaram a capacidade adaptativa dos trabalhadores diante das situações estressoras, considerando elementos como resiliência e hardiness como protetores da saúde mental 2, 14.
Especificamente, o trabalho docente foi destacado por incluir uma jornada invisível com atividades extraclasse e trabalho remoto, o que acarreta irregularidade nas pausas e prolongamento da carga horária real, o que aumenta o desgaste físico e mental 2, 14, 23, 25.
A pressão por metas e a cobrança por produtividade foram apontadas como elementos centrais no adoecimento psíquico, especialmente em contextos de alta demanda e baixa autonomia 14, 19, 22.
O estresse ocupacional se mostrou intensificado por jornadas exaustivas, acúmulo de tarefas, falta de apoio e estrutura organizacional inadequada, dificultando o equilíbrio entre vida pessoal e profissional. Esse cenário agrava sintomas de ansiedade e depressão, reduz a produtividade e compromete o bem-estar 14, 17, 18, 24, 25.
A personalidade do tipo hardiness (ou resistência psicológica) e a resiliência foram identificadas como recursos protetores, atuando como mediadores dos efeitos do estresse. Indivíduos com maior nível dessas características apresentaram maior bem-estar, melhor adaptação às exigências do trabalho e menos tendência ao adoecimento psíquico 2, 14.
A quarta categoria empírica intitulada Organização do Trabalho, Afastamentos e a Invisibilidade da saúde do trabalhador mostrou-se a categoria mais recorrente entre os estudos analisados, refletindo a relevância da estrutura e organização do trabalho no adoecimento dos servidores públicos da educação superior. Os artigos destacaram como fatores agravantes a estrutura física deficiente, excesso de tarefas, pressões institucionais, sobrecarga de responsabilidades, falta de recursos humanos e materiais, jornadas prolongadas, além de ambientes psicologicamente hostis 22, 23, 24, 25.
A escassez de recursos físicos e humanos e a precariedade das condições de trabalho comprometem a execução das atividades, aumentando o esforço individual e gerando sentimento de impotência, frustração e descaso institucional. A necessidade de improvisar soluções devido à falta de equipamentos adequados compromete a qualidade do trabalho e representa risco à saúde física e mental dos trabalhadores 19, 22.
O acúmulo de funções e os trâmites burocráticos complexos do serviço público ampliam a sobrecarga, gerando atrasos, estresse e esgotamento. A invisibilidade institucional foi relatada pelos trabalhadores como fator que compromete a motivação, o engajamento com o trabalho e a saúde emocional 14, 22.
Os docentes, apesar do reconhecimento social mais significativo, também são impactados por sobrecarga com jornadas extensas, múltiplas funções, demandas administrativas e atividades extraclasse. Esses fatores contribuíram para altos índices de estresse, dores musculoesqueléticas e dificuldades de conciliação entre vida pessoal e profissional 14, 23.
Os motivos de afastamento prolongado mais frequentes foram doenças crônicas, distúrbios musculoesqueléticos, transtornos mentais e neoplasias. Um estudo no Ceará destacou que os transtornos mentais representaram 36% dos dias perdidos por afastamento, seguidos por doenças musculoesqueléticas. Transtornos de humor e relacionados ao estresse também foram apontados como causas expressivas de afastamento 6, 23, 25.
Esta revisão permitiu analisar as produções científicas a respeito dos agravos à saúde dos trabalhadores de instituições de ensino superior públicas, preenchendo uma lacuna identificada na literatura. Todavia, o presente estudo apresentou como limites: a não inclusão de literatura cinzenta nas fontes de dados, a inclusão de apenas três idiomas nas buscas, o que pode ter excluído materiais potencialmente importantes para a compreensão da produção científica sobre o tema e, além disso, pode afetar a capacidade de comparação de agravos em diferentes contextos.
CONCLUSÃO
Os resultados sugerem que os servidores públicos da educação superior, docentes, técnicos-administrativos e servidores que atuam em laboratórios e no setor de manutenção enfrentam desafios como escassez de recursos, condições de trabalho desfavoráveis, sobrecarga laboral e jornadas de trabalho intensas, implicando em suas condições de saúde físicas e mental, afetando a qualidade de vida e contribuindo para aumento do absenteísmo. Nota-se a incidência de condições crônicas de saúde, acidentes, transtornos mentais e afastamentos.
Estudos dessa natureza podem contribuir para sustentar ações de melhorias nas condições de trabalho dos servidores de instituições públicas de ensino superior, impulsionando para a construção de ambientes de trabalho saudáveis, seguros e com maior produtividade e qualidade nos serviços e prestados à comunidade acadêmica
A escassez de estudos desta temática aponta para a necessidade de expandir iniciativas dos trabalhadores e responsáveis pela gestão, buscando atender as demandas de saúde e segurança dos servidores que trabalham nas instituições públicas de ensino, de modo a construir estratégias de promoção à saúde e bem-estar dos trabalhadores e intervir em processos que possam contribuir para ocorrência de agravos nos trabalhadores.
Para promoção de saúde e qualidade de vida nas instituições públicas de ensino superior, é fundamental a utilização de abordagem diversificada que inclua conscientização para o autocuidado, como adoção de hábitos saudáveis, melhores condições de trabalho e organização do processo de trabalho com adoção de políticas que propiciem equilíbrio entre vida pessoal e profissional, a fim de contribuir para um ambiente de trabalho seguro, saudável, agradável e produtivo.
REFERÊNCIAS
Agradecimentos:
Agradecemos à Carla Fabiane Rasmussen, do setor de Referência e Comunicação da Biblioteca de Ciências da Saúde Botânico, da Universidade Federal do Paraná, pela colaboração, apoio e dedicação essenciais para o sucesso desta pesquisa.