ACESSIBILIDADE AOS SERVIÇOS DE SAÚDE PARA CASOS DE SÍFILIS GESTACIONAL EM UMA CAPITAL DA REGIÃO NORTE DO BRASIL

ACCESSIBILITY TO HEALTH SERVICES FOR CASES OF GESTATIONAL SYPHILIS IN A CAPITAL CITY IN THE NORTH REGION OF BRAZIL

 ACCESIBILIDAD A LOS SERVICIOS DE SALUD PARA CASOS DE SÍFILIS GESTACIONAL EN UNA CAPITAL DE LA REGIÓN NORTE DE BRASIL

Tipo de artigo: Relato de Experiência

Autores

Ádria Costa Mota

Graduanda em Medicina, Universidade Federal do Amazonas (UFAM).  

Orcid: https://orcid.org/0009-0009-9276-6727

Diego Henrique de Oliveira Lima Bernardo

Graduando em Medicina, Universidade Federal do Amazonas (UFAM).

Orcid: https://orcid.org/0009-0000-9371-9214

Emyly Victória Viana Nascimento

Graduanda em Medicina, Universidade Federal do Amazonas (UFAM).

Orcid: https://orcid.org/0009-0007-8909-0557

Jacqueline da Silva Crispim

Graduanda em Medicina, Universidade Federal do Amazonas (UFAM).

Orcid: https://orcid.org/0009-0002-3422-2800

Jennifer Beatriz Costa de Souza

Graduanda em Medicina, Universidade Federal do Amazonas (UFAM).

Orcid: https://orcid.org/0009-0008-4970-4478

Orlando Douglas de Souza Melo

Graduando em Medicina, Universidade Federal do Amazonas (UFAM).

Orcid: https://orcid.org/0009-0004-8489-5506

Lucas Cortez de Barros Santos

Graduando em Medicina, Universidade Federal do Amazonas (UFAM).

Orcid: https://orcid.org/0009-0001-8093-0915

Julia Evan Mendes Perez  

Graduanda em Medicina, Universidade Federal do Amazonas  

Orcid: 0009-0008-7064-1272 

Luiz Henrique Gonçalves Maciel

Mestre em Doenças Tropicais e Infecciosas, Universidade do Estado do Amazonas.

Professor do Departamento de Saúde Coletiva, Universidade Federal do Amazonas.

Orcid: https://orcid.org/0000-0002-1625-8255 

Fabiana Mânica Martins

Doutora em Ciências do Ambiente e Sustentabilidade na Amazônia, Universidade Federal do Amazonas.

Professora do Departamento de Saúde Coletiva, Universidade Federal do Amazonas.

Orcid: 0000-0002-4440-2680

Jucyette da Silva Gomes Evaristo

Mestra em Ciências da Saúde, Universidade Federal do Amazonas.

Professora do Departamento de Saúde Coletiva, Universidade Federal do Amazonas.

Orcid: https://orcid.org/0009-0003-6935-9652 

Celsa da Silva Moura Souza

Doutora em Saúde Baseada em Evidência, Universidade Federal de São Paulo.

Professora do Departamento de Saúde Coletiva, Universidade Federal do Amazonas.

Orcid: https://orcid.org/0000-0002-1669-1462 

RESUMO 

Objetivo: Descrever a acessibilidade aos serviços de saúde para sífilis na gestação em uma capital da Amazônia. Método: Estudo descritivo, do tipo relato de experiência, desenvolvido a partir de visitas técnicas a unidades da rede de atenção à saúde, incluindo a atenção primária, vigilância epidemiológica e atenção terciária, para contextualizar o fluxo de cuidado. Resultados: O diagnóstico da sífilis gestacional ocorre na atenção primária, via testes rápidos, com boa adesão ao tratamento pelas gestantes, mas baixa adesão dos parceiros sexuais. A vigilância epidemiológica centraliza a notificação compulsória e promove capacitações, porém não realiza o acompanhamento direto dos casos, o que contribui para a subnotificação. A atenção terciária atende casos de sífilis majoritariamente em coinfecção com HIV, encaminhando gestantes para maternidades. Conclusão: A acessibilidade é dificultada pela fragmentação do cuidado, pela baixa adesão dos parceiros e pela subnotificação, que se configuram como os principais desafios para o controle da sífilis gestacional.  

DESCRITORES: Acesso aos serviços de saúde; Sífilis congênita; Sífilis na gestação; Cuidado pré-natal; Saúde materno-infantil.

ABSTRACT 

Objective: To describe access to health services for syphilis in pregnancy in a capital city in the Amazon region. Method: Descriptive study, in the form of an experience report, developed based on technical visits to health unit’s care, including primary care, epidemiological surveillance, and tertiary care, to contextualize the care flow. Results: The diagnosis of gestational syphilis occurs in primary care through rapid tests, with good treatment adherence by pregnant women, but low adherence by sexual partners. Epidemiological surveillance centralizes mandatory notification and provides training, but does not directly monitor cases, contributing to underreporting. Tertiary care manages syphilis cases mainly in HIV co-infected patients, referring pregnant women to maternity hospitals. Conclusion: Accessibility is hindered by fragmented care, low partner adherence, and underreporting, which constitute the main challenges for the control of gestational syphilis.

DESCRIPTORS: Health services accessibility; Syphilis, congenital; Syphilis; Prenatal care; Maternal-child health.

RESUMEN 

Objetivo: Describir la accesibilidad a los servicios de salud para sífilis gestacional en una capital amazónica. Método: Relato de experiencia basado en visitas técnicas a la atención primaria, vigilancia epidemiológica y atención terciaria. Resultados: El diagnóstico se realiza en atención primaria con buena adhesión de las gestantes, pero baja de las parejas. La vigilancia centraliza la notificación pero no realiza seguimiento directo, generando subnotificación. La atención terciaria maneja casos complejos, derivando a las gestantes a maternidades. Conclusión: La fragmentación del cuidado, la baja adherencia de las parejas y la subnotificación son los principales desafíos para el control de la sífilis gestacional.

DESCRIPTORES: Accesibilidad a los servicios de salud; Sífilis congénita; Sífilis; Atención prenatal; Salud materno-infantil.

INTRODUÇÃO

A sífilis é uma infecção sexualmente transmissível (IST) causada pela bactéria Treponema pallidum, com transmissão por contato sexual, sanguíneo ou vertical (de mãe para feto)¹. Em gestantes, a infecção não tratada pode levar a desfechos graves como prematuridade, baixo peso ao nascer e óbito neonatal². A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que 0,8% das gestantes no mundo são afetadas, com prevalência que pode atingir 3,3% em países de baixa renda³.

 No Brasil, a doença persiste como um sério problema de saúde pública. Em 2023, foram notificados 86.111 casos de sífilis em gestantes, com as maiores taxas de detecção nas regiões Sudeste e Sul⁴. No estado do Amazonas, observa-se um crescimento expressivo de casos, atingindo um pico de 2.162 em 2022, com a região metropolitana de Manaus concentrando quase 80% do total⁵. Em 2024, o município de Manaus registrou um total de 5.589 casos de sífilis, sendo 1.741 em gestantes e 417 de sífilis congênita, evidenciando um cenário preocupante⁶.

Este cenário de vulnerabilidade motivou o presente estudo. O objetivo deste trabalho é descrever a acessibilidade aos serviços de saúde para os casos de sífilis na gestação na cidade de Manaus, através de um relato de experiência de acadêmicos de medicina de uma universidade pública do estado do Amazonas.

MÉTODO

Trata-se de um estudo descritivo do tipo relato de experiência, desenvolvido por acadêmicos de Medicina da Universidade Federal do Amazonas durante a disciplina de Saúde Coletiva 2. Para compreender o fluxo de cuidado, foram realizadas visitas técnicas a unidades de saúde de Manaus que compõem a linha de cuidado de ISTs, com foco na assistência à sífilis na gestação.

As visitas ocorreram em diferentes níveis de atenção à saúde (atenção primária, vigilância epidemiológica e atenção terciária especializada) e foram autorizadas pela Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas e Secretaria Municipal de Saúde. Para a coleta de informações, foram elaborados roteiros de perguntas semiestruturadas, direcionadas aos profissionais de saúde de cada local visitado, conforme detalhado no Quadro 1. Os dados foram obtidos por meio de entrevistas informais e observação direta.

Quadro 1. Roteiro de perguntas para os campos práticos visitados. (Fonte: Elaborado pelos autores, 2025.)

Nível de Atenção

Perguntas Chave

Atenção primária - UBS Ajuricaba

1. Como os pacientes chegam para testagem de ISTs? 2. Como é feito o diagnóstico e qual a reação do paciente? 3. Quais testes são usados e como os casos são identificados? 4. Qual a conduta clínica e o nível de adesão ao tratamento? 5. Como é feito o acompanhamento dos casos e dos parceiros sexuais? 6. Quais ações de prevenção são desenvolvidas?

Atenção especializada - Diretoria de IST da SEMSA, Hospital Tropical

1. Quais os critérios para internação de gestantes com sífilis? 2. Quais as complicações mais comuns na gestação, parto e neonatais? 3. Como são manejados os recém-nascidos com sífilis congênita? 4. Quais os prognósticos para mãe e bebê? 5. Qual a orientação na alta hospitalar?

DVAE - (Diretoria de Vigilância Epidemiológica, Ambiental, Zoonoses, e da Saúde do Trabalhador)

1. Quais as estratégias de rastreamento e controle da sífilis em gestantes? 2. Como a DVAE atua na notificação e investigação dos casos? 3. Quais ações são desenvolvidas para assegurar o tratamento da gestante e do parceiro? 4. Como a DVAE contribui para a capacitação dos profissionais de saúde? 5. Quais os principais desafios no enfrentamento da sífilis gestacional?

RESULTADOS

Os resultados foram organizados de acordo com o nível de atenção à saúde visitado, descrevendo o fluxo de cuidado, os serviços ofertados e os desafios identificados.

Mapa Mental da Rede de Atenção às ISTs Para visualizar a estrutura de cuidado, foi elaborado um mapa mental. Um mapa mental é uma representação gráfica que facilita a assimilação de conteúdos complexos por meio da associação de palavras-chave e hierarquias conceituais⁷.

Figura 1 – Mapa Mental da Rede de Atenção à Sífilis Gestacional em Manaus. (Fonte: Elaborado pelos autores, 2025.)

Atenção Primária – UBS Ajuricaba O diagnóstico da sífilis na Unidade Básica de Saúde (UBS) é realizado por meio de testes rápidos (TR), geralmente na primeira consulta de pré-natal. A reação das gestantes ao diagnóstico positivo costuma envolver medo e ansiedade, mas a preocupação com a saúde do bebê resulta em alta adesão ao tratamento com penicilina benzatina. Em contrapartida, os parceiros sexuais, frequentemente assintomáticos, demonstram maior resistência, dificultando o controle da infecção. O acompanhamento inclui a repetição dos testes e o registro no Prontuário Eletrônico do Cidadão (PEC). Desafios como a subnotificação de casos e limitações estruturais persistem.

Vigilância Epidemiológica – DVAE A Diretoria de Vigilância Epidemiológica (DVAE) incentiva a busca ativa e a notificação compulsória dos casos de sífilis. O sistema de vigilância é unificado para as redes pública e privada. No entanto, a atribuição da DVAE se restringe à vigilância e monitoramento epidemiológico, sem realizar o acompanhamento direto da gestante e de seus parceiros. A DVAE promove capacitações periódicas para os profissionais da linha de frente, especialmente durante a campanha "Outubro Verde". O principal desafio relatado é a subnotificação, que compromete a fidedignidade dos dados e a eficácia das ações de controle.

Atenção Terciária – Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD) A FMT-HVD é um centro de referência para doenças infecciosas. O atendimento à sífilis na unidade ocorre, em geral, apenas em casos de coinfecção com HIV. Gestantes com diagnóstico de sífilis raramente são atendidas, pois o protocolo preconiza o encaminhamento direto para maternidades de referência, que possuem estrutura para o cuidado simultâneo do binômio mãe-bebê. Essa dinâmica reflete o foco da instituição no manejo de casos mais complexos e a existência de uma linha de cuidado específica para a sífilis gestacional fora dos hospitais de infectologia geral.

DISCUSSÃO

Os resultados evidenciam que a oferta de testes rápidos na UBS está alinhada às diretrizes nacionais que preconizam o diagnóstico precoce⁸. No entanto, a dificuldade na adesão dos parceiros sexuais ao tratamento, observada na UBS visitada, é um obstáculo documentado em diversas regiões do Brasil, comprometendo o controle da transmissão vertical⁹. Ações de promoção à saúde, embora existentes, enfrentam desafios de implementação efetiva, como a necessidade de maior capacitação profissional e recursos adequados, uma realidade compartilhada por outras unidades de saúde no país¹⁰.

A experiência na DVAE revela a tensão entre a política de vigilância e a prática assistencial. A notificação compulsória e a busca ativa são pilares fundamentais, mas a subnotificação persiste como um entrave significativo, fenômeno exacerbado por limitações logísticas e estruturais em territórios extensos como o amazônico¹¹. A falta de um sistema que integre a vigilância epidemiológica ao acompanhamento clínico direto da gestante e do parceiro reflete uma fragmentação institucional. Essa separação dificulta o monitoramento em tempo real dos casos e a redução do abandono do tratamento, um desafio para o qual outros estados desenvolveram estratégias de integração, como comitês municipais¹².

A dinâmica da FMT-HVD ilustra como a rede de saúde se organiza para lidar com casos complexos. O encaminhamento de gestantes com sífilis para maternidades está em conformidade com os protocolos do Ministério da Saúde, que visam garantir um cuidado especializado e integral ao binômio mãe-bebê¹³. Contudo, a centralização do atendimento de sífilis/HIV na FMT-HVD também pode refletir um estigma institucional que sobrecarrega os serviços de referência¹⁴. A estrutura de cuidado para a sífilis gestacional, portanto, depende de uma rede articulada, onde a atenção primária realiza o diagnóstico, a vigilância monitora os dados, e as maternidades oferecem o cuidado especializado. As falhas em qualquer um desses pontos impactam toda a cadeia.

CONCLUSÃO

A análise da acessibilidade aos serviços de saúde para sífilis gestacional em Manaus revela uma estrutura com potencialidades e desafios críticos. Embora o fluxo de diagnóstico na atenção primária esteja estabelecido, a eficácia do controle é severamente comprometida pela baixa adesão dos parceiros sexuais ao tratamento, pela fragmentação entre os serviços de vigilância e de assistência direta, e pela persistente subnotificação de casos.

A superação desses obstáculos exige o fortalecimento da atenção primária, com estratégias eficazes para a abordagem dos parceiros, e a implementação de mecanismos que integrem a vigilância epidemiológica ao acompanhamento clínico, garantindo que cada diagnóstico se converta em tratamento completo e interrupção da cadeia de transmissão.

REFERÊNCIAS

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AGRADECIMENTOS

Agradecemos à Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e a todas as unidades de saúde que nos acolheram, bem como aos profissionais que compartilharam seus conhecimentos e experiências.

APOIO FINANCEIRO

Não houve apoio financeiro para o desenvolvimento deste trabalho.

CONFLITO DE INTERESSES

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

CONTRIBUIÇÃO DOS AUTORES

Todos os autores contribuíram igualmente para a concepção do estudo, construção do mapa mental, participação nas visitas técnicas e elaboração do manuscrito.