A RELAÇÃO COM A COMIDA DE MULHERES COM CÂNCER DE MAMA: UM ESTUDO PILOTO QUALITATIVO

THE RELATIONSHIP WITH FOOD IN WOMEN WITH BREAST CANCER: A QUALITATIVE PILOT STUDY

LA RELACIÓN CON LA COMIDA EN MUJERES CON CÁNCER DE MAMA: UN ESTUDIO PILOTO CUALITATIVO

Tipo de artigo: Qualitativo

Autores

Brenda Ramos Silva

Pós-Graduanda no curso de (Mestrado acadêmico) no Programa de Pós Graduação em Ciências da Saúde

Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia - MG, Brasil.

ID ORCID:https://orcid.org/0000-0003-1590-7118

Estefânia Lara Francelino de Oliveira Romão

Nutricionista. Uberlândia, MG, Brasil.

ID ORCID: https://orcid.org/0009-0009-5825-8032

Erlandia Silva Pereira 

Docente.Centro Universitário do Planalto de Araxá. Araxá, MG, Brasil

ID ORCID: https://orcid.org/0000-0002-5152-3405

Marina Rodrigues Barbosa

Docente. Universidade Federal de Uberlândia, Faculdade de Medicina, Curso de Nutrição.

ID ORCID: https://orcid.org/0000-0001-7502-243X

RESUMO

Objetivo: O artigo avaliou a percepção sobre o comportamento alimentar em mulheres com câncer de mama em quimioterapia durante encontros on-line com práticas grupais de Mindfulness e Comer Consciente. Trata-se de uma pesquisa experimental com análise qualitativa dos dados obtidos de um estudo piloto. Método: A análise das falas das participantes, gravadas e transcritas, usou o método de Bardin e Análise de Similitude via IRAMUTEQ, abordando três eixos temáticos. Resultados: As participantes relataram desconfortos alimentares decorrentes dos efeitos da quimioterapia, destacando, ao mesmo tempo, escolhas de alimentos palatáveis para acolhimento, prazer e autocuidado. Emergiram relatos relacionados à maior consciência e intenção nas escolhas alimentares, bem como à desconexão com os sentidos e o comer automático. Conclusão: Observou-se a ressignificação da relação com a comida, apesar de desafios como a manifestações de disgeusia, perda do apetite e diminuição do prazer ao comer.

DESCRITORES: Câncer de mama; Quimioterapia; Comportamento Alimentar; Atenção plena; Comer com Atenção Plena.  

ABSTRACT:

Objective: The article evaluated perceptions about eating behavior in women with breast cancer undergoing chemotherapy during online meetings with Mindfulness and Conscious Eating. This is an experimental research with qualitative analysis of data obtained from a pilot study. Method: The analysis of the participants' speeches, recorded and transcribed, used the Bardin method and Similarity Analysis via IRAMUTEQ, addressing three thematic axes. Results: Participants reported eating discomfort resulting from the effects of chemotherapy, highlighting, at the same time, palatable food choices for comfort, pleasure and self-care. Reports emerged related to greater awareness and intention in food choices, as well as disconnection with the senses and automatic eating. Conclusion: A new meaning was observed in the relationship with food, despite challenges such as manifestations of dysgeusia, loss of appetite and decreased pleasure when eating.

RESUMEN

Objetivo: Este artículo evaluó las percepciones de la conducta alimentaria en mujeres con cáncer de mama que reciben quimioterapia durante sesiones en línea centradas en la Atención Plena y la Alimentación Consciente. Este estudio experimental implicó el análisis cualitativo de datos obtenidos de un estudio piloto. Método: El análisis de las declaraciones grabadas y transcritas de las participantes utilizó el método Bardin y el Análisis de Similitud mediante IRAMUTEQ, abordando tres áreas temáticas. Resultados: Las participantes reportaron molestias alimentarias derivadas de los efectos de la quimioterapia, a la vez que destacaron la elección de alimentos apetecibles para su comodidad, placer y autocuidado. Se observaron reportes relacionados con una mayor conciencia e intención en la elección de alimentos, así como con la desconexión de los sentidos y la alimentación automática. Conclusión: Se observó una redefinición de la relación con la comida, a pesar de desafíos como la disgeusia, la pérdida de apetito y la disminución del placer al comer.

INTRODUÇÃO

O câncer de mama, condição complexa causada por diversos fatores, como idade avançada, influências endócrinas, ambientais e genéticas, é considerado um dos problemas de saúde pública mais frequente entre as mulheres em todo o mundo. Nesse cenário desafiador, a quimioterapia se destaca como uma abordagem terapêutica oferecendo perspectivas de recuperação¹.

Existe, entretanto, interferência na qualidade de vida das mulheres submetidas à quimioterapia que podem influenciar no comportamento alimentar². Sabe-se que as escolhas alimentares são permeadas por significados e simbolismos, e que envolvem parâmetros sociais, culturais e psicológicos, para além do aspecto biológico, fazendo-se necessário buscar por alternativas que auxiliem no enfrentamento da doença e do tratamento, compreendendo a jornada do paciente com câncer em todas as suas dimensões³. As intervenções baseadas em Mindfulness e “Comer Consciente” podem contribuir neste processo.

De forma geral, Mindfulness e Comer Consciente visam desenvolver habilidades para direcionar a atenção para o momento presente de forma intencional e sem julgamentos4, como também, estimula a concentração dos pensamentos, emoções e sensações corporais relacionadas às práticas e aos comportamentos alimentares5, respectivamente. Sob a luz da literatura atual, observa-se evidências sobre o uso de intervenções baseada em Mindfulness em pacientes oncológicos, sobretudo na melhora de sintomas como fadiga e dor associada ao câncer, além de benefícios psicológicos6.

Portanto, o presente estudo teve como objetivo avaliar as percepções sobre o comportamento alimentar em mulheres com câncer de mama em tratamento quimioterápico durante encontros on-line com intervenção baseada em Mindfulness, Comer Consciente e Rodas de Conversa Dialógicas.

METODOLOGIA

Trata-se de uma pesquisa experimental com análise qualitativa dos dados obtidos de um estudo piloto realizado com intervenção online em Mindfulness e Comer Consciente e Rodas de Conversa Dialógicas. Participaram mulheres com 18 anos ou mais, diagnosticadas com câncer de mama em tratamento quimioterápico no Setor de Oncologia do  Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia. Após o aceite do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), as participantes responderam ao Questionário Sociodemográfico e de Condições de Saúde. Foram excluídas as pacientes que estavam em tratamento e/ou acompanhamento nutricional nos últimos seis meses e que não apresentavam comunicação verbal e/ou cognitiva.

Foram recrutadas 47 mulheres para o estudo, no entanto, 28 (59,6%) foram excluídas devido à falta de resposta aos questionários, desistência antes da intervenção, falta de disponibilidade e questões de saúde. Portanto, os dados de baseline foram obtidos de 19 participantes (40,4%). Destas, 10 iniciaram a intervenção, e 9 concluíram todas as etapas do estudo.

A intervenção de Mindfulness e Comer Consciente baseou-se no protocolo “Eat For Life” 7, executado de forma on-line ao longo de 9 semanas, com encontros semanais de 2 horas. Todos os encontros foram conduzidos por uma instrutora formada pelo Centro Brasileiro de Mindful Eating. Os encontros foram gravados e, posteriormente, os cinco encontros (Tabela 1) de interesse foram transcritos na íntegra para agregar o corpus analítico do estudo. O recrutamento e a coleta de dados ocorreram entre julho e dezembro de 2022.

Tabela 1. Descrição dos temas e práticas de Mindfulness e Comer Consciente abordadas no presente estudo.

Temas dos encontros

Práticas principais

1. "Contextualização do Mindfulness e Mindful Eating”

Relacionamento com a gravidade

2.”Oferecer a oportunidade de conceitualizar o Mindfulness e Mindful Eating por meio da experiência direta do contraponto a automação e desatenção”

Prática da Uva Passa

3.”Aprendendo o acrônimo BASICS como uma prática de Mindful Eating em que os participantes usarão ao longo dos encontros”

Prática do Escaneamento Corporal

4.”Conversa com o corpo: O que o seu corpo está lhe dizendo e o que você está dizendo ao seu corpo quando o assunto é comida?”

Prática de Movimento

5."Do que você realmente tem fome?”

Prática de Toque auto-compassivo

Fonte: Autoria própria

A análise de conteúdo ocorreu de acordo com o método de Bardin8 incluindo fases de pré-análise, exploração do material e tratamento dos resultados, inferência e interpretação. Para reduzir prováveis vieses  pertencentes à pesquisa qualitativa, aumentar a robustez e reduzir a subjetividade da análise do corpus textual, foi aplicada a Análise de Similitude via IRAMUTEQ (Interface de R pour les analyses Multidimensionnelles de Textes et de Questionnaires) Versão 0.7 alpha 2.

A Análise de Similitude baseou-se nas falas das participantes durante os cinco encontros transcritos. As falas foram consolidadas e limpas de vícios de linguagem para construir a árvore de coocorrência (Figura 2). O software IRAMUTEQ proporcionou suporte técnico para a precisão dos resultados e da discussão. O estudo foi realizado após a aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) envolvendo Seres Humanos da UFU, sob Certificado de Apresentação para Apreciação Ética (CAAE) nº 56624322.0.0000.5152.

RESULTADOS

Em relação à faixa etária das participantes, metade das mulheres da pesquisa apresentou entre 30 e 40 anos e a outra metade ≥ 50 anos. Foram atribuídos nomes fictícios a cada uma das mulheres para preservar a identidade das mesmas, como mostra a Tabela 2.  

Tabela 2. Características das participantes da pesquisa em relação à faixa etária, tempo de diagnóstico e informações sobre o tratamento*. 

Participante

Faixa etária

(anos)

Tempo de diagnóstico

(ano, meses)

Tratamento - tempo (fase ou período)

Bertha

50

4 a 5 meses

Quimioterapia - iniciou há 2 semanas (fase inicial)

Débora

30 - 40

6 meses

Quimioterapia - iniciou há 4 meses

Elisa

50

10 meses

Quimioterapia - iniciou há 4 meses

Jaqueline

30 - 40

6 meses

Quimioterapia - iniciou há 4 meses

(7ª sessão de 16)

Luiza

30 - 40

8 meses

Quimioterapia - iniciou a 1 mês

Márcia

50

11 meses

Quimioterapia - iniciou há 8 meses

(fase final)

Simone

50

7 meses

Quimioterapia - (fase inicial, 1ª sessão)

Thelma

30 - 40

1 ano e 1 mês

Quimioterapia - fase final (9º ciclo)

Sônia

50

1 ano

Quimioterapia - iniciou há 4 meses

(5º ciclo)

Margareth

30 - 40

1 ano e 10 meses

Quimioterapia - iniciou há 1 ano e 6 meses (manutenção)

*Informações relatadas pelas participantes.

Fonte: Autoria própria

A análise de similitude favoreceu a identificação do núcleo central, representado pelo verbo “comer”. A partir desse ponto central, emergiram cinco ramificações principais, das quais desdobram outros ramos relevantes em coocorrência com o núcleo. Essa rede de conexões indica possíveis abordagens relacionadas às percepções das mulheres em relação ao ato de “comer”. Em “comida”, foram observadas palavras interligadas, como “prazer”, “namorar”, “sorvete” e “acolher”, indicando possíveis reflexões relacionadas à experiência alimentar durante o processo vivenciado pelas participantes (Figura 2).

Figura 2. Análise de Similitude via IRAMUTEQ

Fonte: Autoria própria

DISCUSSÃO 

A exploração das análises possibilitou a extração final de três eixos temáticos: “Transformações fisiológicas e nutricionais durante a quimioterapia”; “Contornando a alimentação: conforto e prazer por meio da comida” e “(Re)construção da relação com a alimentação”.

Transformações fisiológicas e nutricionais durante a quimioterapia

O presente eixo temático explora as sensações de desconforto relacionadas à alimentação durante a quimioterapia. Foram identificadas alterações no paladar e no apetite, trazendo notório impacto na vida das pacientes ao perceberem a redução do prazer no ato de se alimentar nos períodos de angústia.

Comer às vezes é uma tortura, né, mas temos que comer. (Bertha - 2º Encontro)

Eu perdi muita vontade de comer, perdi o paladar, até hoje eu como coisas que parece que não tem gosto de nada. (Débora - 3º Encontro)

Em pacientes com câncer de mama, alterações na percepção do olfato e do paladar podem afetar negativamente o comportamento alimentar e, portanto, a qualidade de vida². Entretanto, embora as participantes do presente estudo tenham relatado modificações no paladar e no sabor dos alimentos, não houve menções sobre mudanças nas sensações olfativas.

Nesse contexto, pacientes oncológicos frequentemente apresentam redução temporária na função gustativa, resultando em oscilações na sensibilidade dos alimentos e possíveis repulsas alimentares. Além disso, alimentos como a carne vermelha, dentre outros, tornaram-se aversivos durante a terapia, da mesma forma que se evidencia a repulsa alimentar no relato subsequente:

Toda comida pra mim estava ruim, sabe. A carne agora que eu estou voltando a comer carne, mas era tudo, até o doce tava muito doce, o amargo muito amargo, o azedo muito azedo. (Bertha - 5º Encontro)

Contudo, observa-se um aumento na percepção da intensidade dos sabores doce, amargo e azedo, do qual a literatura ainda não apresenta consenso sobre quais sabores são alterados pelo tratamento oncológico. Um estudo piloto em pacientes com câncer de mama submetidos a quimioterapia e/ou radioterapia indicou um aumento da sensibilidade ao sabor doce, sem impactos significativos nos sabores salgado, azedo e amargo9. Por outro lado, uma pesquisa prospectiva anterior envolvendo 87 pacientes com câncer de mama e/ou de ovário, destacou que a quimioterapia estava associada com alterações mais acentuadas para o sabor salgado em relação aos sabores doce, azedo e amargo10.

Vale destacar que a alimentação, além de manter a sobrevivência, representa um meio crucial para alcançar a satisfação e bem-estar11. No entanto, a percepção da comida pelo indivíduo é caracterizada por uma dualidade, sendo fonte de prazer ou de angústia. Isso torna-se evidente a partir das narrativas envolvidas neste estudo ao longo dos encontros de Mindfulness e Comer Consciente, nas quais as falas das mulheres são repletas de incômodos diante da alimentação, como visto abaixo, em que destacam a diminuição no prazer ao comer durante a quimioterapia.  

A comida tem uma simbologia muito forte e aí a gente perde isso quando a gente passa a comer pra imunidade não abaixar, a gente passa a comer porque a gente tem que tá forte e a gente não sente gosto, então isso chega a ser desesperador, porque a gente quer comer, a gente quer sentir gosto, a gente quer sentir prazer em se alimentar e não tem. (Débora - 4º encontro)

Marinho12 apresentou em seu estudo qualitativo, em mulheres com câncer de mama, mostrou que os efeitos colaterais da quimioterapia podem causar redução da satisfação com a comida, fortalecendo a ideia de uma diminuição no prazer alimentar devido aos quimioterápicos. Isso mostra a importância do suporte relacionado à alimentação com olhar ampliado para essa população, além de gerenciar os efeitos colaterais, promover melhores estratégias nutricionais e apoio às percepções das pacientes.

Contornando a alimentação: conforto e prazer por meio da comida

O segundo eixo temático aborda a relação das participantes com a comida enquanto fonte de acolhimento, prazer e autocuidado, transcendendo os efeitos colaterais da quimioterapia e o ato de comer visto como puramente biológico. O desgaste emocional recorrente em mulheres com diagnóstico de neoplasia de mama pode possibilitar padrões da alimentação guiados pelas emoções13. A forte presença desse comer emocional pode associar-se a escolhas precipitadas e menos reguladas, muitas vezes desencadeadas por sentimentos negativos ou situações de estresse14.  

Eu tenho me alimentado tão mal, mas assim, tão mal, e a única coisa que eu consigo comer que me dá prazer é doce, é industrializado, é coisa que nossa, algumas pessoas iam me condenar. (Débora - 1º encontro)

Palazzo15 relataram maior desejo por alimentos vistos como “proibidos” como consequência do estado emocional de pacientes com câncer de mama. No entanto, os autores destacam a importância de aprofundar o tema para uma melhor compreensão, visto que a alimentação além de questões fisiológicas, durante o tratamento quimioterápico deste câncer ainda é pouco explorada pela literatura.

Embora outros estudos sobre as preferências alimentares desses pacientes sejam escassos, as falas de algumas participantes deste trabalho destacaram maior consumo de alimentos palatáveis ao longo do tratamento quimioterápico. É importante ressaltar que tais relatos foram acompanhados de sentimento de culpa decorrentes das escolhas alimentares realizadas.

Então, eu senti que eu queria muita comida de prazer rápido né, coisa rápida, instantânea, então é um refrigerante, é um lanche, é açaí, essas coisas assim, que quer prazer imediato e que dá satisfação rápida. Então, eu percebi que minha alimentação ao contrário, ela piorou bastante, bastante mesmo, apesar de eu comer de tudo, ela piorou muito. (Débora - 3º encontro)

Sendo assim, o Comer Consciente propõe a total atenção durante as refeições, ao apreciar com plenitude o momento e a comida. A ênfase encontra-se na valorização das experiências alimentares, sem a imposição de restrições, promovendo escolhas alimentares mais conscientes. As práticas contribuem para uma maior compreensão dos sinais de fome e saciedade, cultivando o acolhimento e a bondade consigo no contexto alimentar e no controle das emoções em todas as etapas da alimentação16.

Dessa forma, auxiliam nas sensações emocionais associadas aos desejos alimentares, possibilitando o consumo moderado dos alimentos sem gerar sentimento de culpa17. Durante o encontro dedicado à prática de “Toque Auto-compassivo”, relatos associaram a alimentação ao resgate de memórias afetivas, satisfação e conforto como uma maneira de encontrar resiliência diante as dificuldades.

Quando eu estou com fome eu providencio comida e na hora do da da necessidade maior que é agora é que a gente tá carente de várias formas em vários aspectos a comida ela é uma forma de conforto e de acolhimento então a gente está acolhendo uma necessidade que talvez não era no comer, mas é uma forma de acolher a nossa carência, de acolher a nossa fragilidade. (Débora -  5º encontro)

Zhou & Tse18 mostraram que os indivíduos associam os sabores dos alimentos às emoções desde a infância, como a relação do sabor doce e a felicidade. Por isso, a comida pode servir como uma forma de lidar com o estresse e as preocupações emocionais, motivando a alimentação emocional e a escolha por alimentos mais saborosos. Assim, torna-se fundamental adotar estratégias para a regulação e o enfrentamento das emoções, junto a escolhas alimentares mais conscientes e saudáveis19.

A (Re)construção da relação com a alimentação

Este eixo reverbera os relatos sobre experiências alimentares, como a falta de conexão nos sentidos envolvidos ao ato de comer, elucidados por uma abordagem mais consciente em relação aos hábitos alimentares.

Pacientes diagnosticadas com câncer de mama enfrentam processos traumáticos, tanto físicos quanto psicológicos, que afetam a qualidade de vida20. As intervenções baseadas em Mindfulness têm demonstrado benefícios nesses processos21, especificamente nas práticas de Comer Consciente, que buscam evidenciar a integralidade da experiência alimentar em todo o processo do ato alimentar17.

Durante os encontros, foram realizadas práticas que instigaram o “Comer Consciente”, como a “Prática da Uva Passa”, na qual duas unidades de alimentos foram usadas. A primeira foi consumida de maneira habitual, enquanto a segunda foi direcionada para estimular os cinco sentidos. A ingestão alimentar, do início ao término, incorpora esses cinco sentidos fundamentais11. Dessa forma, explorar outros sentidos por meio de práticas com intervenção do Comer Consciente podem contribuir para possíveis melhorias em aspectos relacionados à alimentação.

É é pra gente olhar mesmo pra comida, pra gente namorar a comida né, ter esse prazer de namorar né, ter esse prazer de olhar pro prato bem colorido e cuidar mais dessa, dessa alimentação, ter mais tempo pra essa alimentação né, ter mais tempo de degustar, de sentir os gostos né, porque às vezes a gente mistura tudo de uma vez né. (Elisa - 3º encontro)

Frequentemente, o comportamento alimentar pode ocorrer de forma "automática" em vez de ser regulado, onde decisões relacionadas à alimentação são realizadas diariamente de forma inconsciente. Fürtjes22 evidenciaram que indivíduos que recorrem a reações automáticas associam o ato de comer a emoções negativas, resultando em falta de controle sobre o comportamento alimentar. Esse padrão disfuncional também foi associado ao aumento do consumo de alimentos ricos em gordura e açúcar. Entretanto, o Mindfulness confronta diretamente o comportamento automático e atitudes sem consciência21. A partir disso, durante o encontro subsequente, os relatos das participantes revelaram certezas e incertezas sobre sua habilidade em conectar-se aos sinais corporais e intensificar a

Vai passando no automático mesmo isso de comer, é comer com tranquilidade, mastigar, isso nem nunca foi ensinado, isso é uma cultura assim, totalmente quase que de alienígena, nunca nos ensinaram a mastigar, a comer com tranquilidade. (Débora - 3º encontro)

As atitudes advindas do Mindfulness podem atenuar a impulsividade em diversas formas, incluindo a maior compreensão das experiências internas, facilitando o monitoramento para a redução de comportamentos impulsivos. A consciência elevada em relação aos sentimentos, pensamentos e sensações físicas associadas à comida, busca reconectar os indivíduos com a sabedoria inata do corpo, como os sinais de fome e saciedade23-24.

A prática do Comer Consciente compreende todas as experiências relacionadas à alimentação e pode contribuir para as modificações de comportamentos alimentares disfuncionais, atuando como uma possível abordagem nos serviços de saúde, considerando os efeitos adversos associados à quimioterapia e o momento de vida.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este estudo investigou as percepções relacionadas ao comportamento alimentar em mulheres com câncer de mama em tratamento quimioterápico, durante intervenções baseadas em Mindfulness e Comer Consciente. Os principais resultados destacam uma ressignificações na relação com a alimentação, evidenciando maior consciência e intenção nas escolhas alimentares. No entanto, essas melhorias emergiram junto a manifestações de disgeusia, perda do apetite e diminuição do prazer ao comer.

A abordagem qualitativa permitiu uma investigação mais aprofundada dos “comos” dos comportamentos e práticas alimentares, contribuindo para pesquisas posteriores. Entretanto, o estudo piloto possui limitações. Pesquisas a longo prazo são necessárias para avaliar melhor os efeitos da intervenção de Mindfulness e Comer Consciente em mulheres com câncer de mama em quimioterapia, especialmente no comportamento alimentar. Encorajar as pacientes a adotar uma abordagem flexível na escolha dos alimentos emerge como uma estratégia de autocuidado acessível e eficiente para lidar com as mudanças vivenciadas.

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DECLARAÇÃO DE CONFLITO DE INTERESSE FINANCEIRO

Os autores declaram que não há conflito de interesse.