PERFIL CLÍNICO-EPIDEMIOLÓGICO DE PACIENTES ATENDIDOS EM UMA UNIDADE DE PRONTO ATENDIMENTO DA ATENÇÃO SECUNDÁRIA EM VÁRZEA GRANDE, MATO GROSSO

 

CLINICAL AND EPIDEMIOLOGICAL PROFILE OF PATIENTS TREATED AT A SECONDARY CARE EMERGENCY UNIT IN VÁRZEA GRANDE, MATO GROSSO

Leonardo de Souza Fernandes1; Emily Carolina Donato de Moura1; Luciano Teixeira Gomes3

  1. Médico Residente do Programa de Residência Médica em Infectologia do Hospital Universitário Júlio Müller (HUJM/EBSERH) da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e Mestre em Ciências Aplicadas à Atenção Hospitalar pelo HUJM/EBSERH
  2. Discente do Curso de Medicina da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT)
  3. Docente do Curso de Medicina da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e do Programa de Pós Graduação em Ciências Aplicadas à Atenção Hospitalar do Hospital Universitário Júlio Müller (HUJM/EBSERH).

RESUMO

Introdução: As Unidades de Pronto Atendimento (UPA) têm cada dia mais importância como integrantes da rede de atenção secundária do Sistema Único de Saúde. Devido ao insuficiente quantitativo de Unidades Básicas de Saúde elas têm sido o principal meio de assistência à saúde para a maioria da população. Saber o perfil clínico e epidemiológico dos pacientes atendidos nessas unidades é de suma importância para conhecer as necessidades dos pacientes e elaborar medidas para otimizar os atendimentos tanto em qualidade quanto em agilidade. Métodos: Trata-se de um estudo do tipo corte transversal prospectivo (observacional) para avaliação do perfil clínico e epidemiológico dos atendimentos em uma unidade secundária. A pesquisa foi realizada em uma UPA de grande porte do município de Várzea Grande (MT) de abril a junho de 2024. Foram incluídos na pesquisa todos os pacientes adultos e maiores de 18 anos classificados como azul, verde ou amarelo pela classificação de risco (triagem), ou seja, pacientes que foram atendidos no consultório médico pela equipe de pesquisa. Resultados: Foram incluídos neste estudo 161 pacientes da demanda espontânea, desses 63,4% eram mulheres, 34,2% trabalhavam no comércio, 78,3% tinham entre 18 e 49 anos, 84,5% não praticavam exercício físico e 60,9% tinham uma renda familiar de até dois salários-mínimos. Cefaleia foi vista em 30,4% dos pacientes e mialgia em 25,5%. Foi visto que 72 (44,7%) pacientes procuraram a UPA com 1 dia de sintoma e tiveram como desfecho da consulta alta após medicação (47,2%). HAS (18,6%) e obesidade (10,6%) foram as comorbidades mais frequentes. A principal hipótese diagnóstica aventada foi IVAS, com 16,8% dos casos. Analgésico foi administrado em 54% dos pacientes na UPA e 33 (20,5%) realizaram radiografia como exame complementar, sendo o mais frequente. Discussão: A maior prevalência de mulheres atendidas se assemelha a outros trabalhos e indica possível resistência do público masculino em procurar cuidado em saúde. Em relação ao diagnóstico de doença estabelecido, assim como em outros estudos, IVAS, dor musculoesquelética, GECA e arboviroses foram os mais frequentes, assim como em outros estudos. Conclusão: A maioria dos pacientes atendidos nesta UPA são mulheres, na faixa etária de 18 a 49 anos, que trabalham com comércio ou com atividades domésticas, solteiras e com ensino médio completo. Possuem na maior parte das vezes uma renda familiar de até dois salários-mínimos, moram em casas com rede de água e esgoto, sendo que a grande maioria não pratica atividades físicas. Os principais sintomas relatados foram cefaleia, mialgia, febre, náuseas e vômitos. A maioria dos pacientes procurou a UPA com 1 dia de sintomas e tiveram alta médica após serem medicados dentro da unidade. As principais hipóteses diagnósticas foram: infecção de vias aéreas superiores, dor musculoesquelética, gastroenterocolite aguda e arboviroses. Dentre as comorbidades, as mais prevalentes foram HAS, obesidade e DM. As classes de medicações mais prescritas foram analgésicos, anti-inflamatórios e antieméticos. Assim como os exames complementares mais solicitados foram: radiografias, laboratoriais e ultrassonografia, nesta ordem.

Palavras-chave: Sistema Único de Saúde. Unidade de Pronto Atendimento. Várzea Grande.

ABSTRACT

Introduction: Emergency Care Units are increasingly important as members of the secondary care network of our Unified Health System. Due to the insufficient number of Basic Health Units, they have been the main means of health care for the majority of the population. Knowing the clinical and epidemiological profile of patients treated in these units is of utmost importance to understand the needs of patients and develop measures to optimize care both in quality and agility. Method: This is a prospective cross-sectional (observational) study. The research was carried out in a large UPA in the municipality of Várzea Grande from April to June 2024. All adult patients over 18 years of age classified as blue, green or yellow by the risk classification (triage) were included in the research, that is, patients who were seen in the doctor's office by the research team. Results: This study included 161 patients who spontaneously sought care at a UPA in the municipality of Várzea Grande. Of these, 63.4% were women, 34.2% worked in commerce, 78.3% were between 18 and 49 years old, 84.5% did not exercise, and 60.9% had a family income of up to two minimum wages. Headache was seen in 30.4% of patients and myalgia in 25.5%. It was observed that 72 (44.7%) patients sought the UPA with 1 day of symptoms and were discharged after medication (47.2%). Hypertension (18.6%) and obesity (10.6%) were the most frequent comorbidities. The main diagnostic hypothesis raised was URTI, with 16.8% of cases. Analgesics were administered to 54% of patients at the UPA and 33 (20.5%) underwent radiography as a complementary exam, which was the most frequent. Discussion: The higher prevalence of women seen is similar to other studies and shows the resistance of the male population to seek health care. Regarding the diagnosis of disease established, as in other studies, URTI, musculoskeletal pain, GECA and arboviruses were the most frequent, as in other studies. Conclusion: Most patients seen at this UPA are women, aged 18 to 49 years, who work in commerce or with domestic activities, are single and have completed high school. In most cases, they have a family income of up to two minimum wages, live in houses with water and sewage systems, and the vast majority do not practice physical activities. The main symptoms reported were headache, myalgia, fever, nausea and vomiting. Most patients sought the UPA with 1 day of symptoms and were discharged after being medicated within the unit. The main diagnostic hypotheses were: upper respiratory tract infection, musculoskeletal pain, acute gastroenterocolitis and arboviruses. Among the comorbidities, the most prevalent were hypertension, obesity and DM. The most prescribed classes of medications were analgesics, anti-inflammatories and antiemetics. The most requested complementary exams were: radiographs, laboratory tests and ultrasound, in that order.

Keywords: Unified Health System; Emergency Care Unit; Várzea Grande

 

1 INTRODUÇÃO

O Sistema Único de Saúde (SUS) foi criado no Brasil pela Constituição Federal de 1988 e regulamentado nas conhecidas leis 8.080/90 (Lei Orgânica da Saúde) e 8.142/90, tendo como objetivo garantir o acesso à saúde a todo cidadão presente no nosso país. As leis citadas acima dispõem sobre as condições para a promoção, proteção e recuperação da saúde, fazendo com que seja de caráter obrigatório o atendimento de saúde público para toda e qualquer pessoa que se encontra em território brasileiro1.

No Brasil, tornou-se necessário que o SUS fosse dividido e organizado por meio de níveis de atenção, para que os atendimentos tivessem um fluxo organizado de acordo com suas complexidades. É uma estrutura operacional que faz a articulação da atenção à saúde e deve se fundamentar na comunicação horizontal entre todos os serviços de saúde. Existem 3 níveis: atenção pimária, secundária e terciária2.

Geralmente são direcionados para a atenção secundária os pacientes que precisam da realização de exames ou para atendimentos de urgência e emergência. Estes, posteriormente, são encaminhados para o setor terciário, em casos de maior complexidade e/ou internação3.

No âmbito da atenção secundária, no que diz respeito aos atendimentos de urgência e emergência, o Governo Federal criou a Unidade de Pronto Atendimento (UPA), que funciona 24 horas por dia, 7 dias por semana e objetiva atender os pacientes com complexidade intermediária, sendo uma rede organizada e interligada com a atenção primária, atenção domiciliar, atenção hospitalar e o SAMU 1924.

As UPAs desempenham um papel crucial no SUS e oferecem atendimento de urgência e emergência de média complexidade. Implementadas como parte da Política Nacional de Atenção às Urgências (PNAU), às UPAs visam ampliar o acesso aos serviços de saúde e reduzir as desigualdades no atendimento emergencial5. Adicionalmente, uma investigação conduzida em uma UPA no norte do Brasil identificou que muitos usuários procuram esses serviços devido à agilidade no atendimento e à percepção de qualidade, mesmo para casos não urgentes, o que pode refletir falhas na atenção primária6.

Um estudo feito em Unidades de Pronto Atendimento do Rio de Janeiro por Costa et al. (2020) entre 2013 e 2015 pesquisaram o perfil de pacientes idosos que procuraram o serviço, e mostrou por exemplo que traumas, doenças cardiovasculares e doenças respiratórias foram as principais causas de procura no pronto atendimento. Dessas causas, queda, hipertensão arterial sistêmica (HAS) e tosse foram os mais registrados, respectivamente.

A implementação das UPAs trouxe mudanças significativas na organização do sistema de saúde brasileiro. Estudo realizado no estado do Paraná, identificou que essas unidades são classificadas de acordo com a capacidade física instalada, número de leitos disponíveis, gestão de pessoal e capacidade diária de atendimentos médicos. No entanto, foram observadas desigualdades organizacionais e de gestão entre os serviços em diferentes regiões, indicando desafios na integração das UPAs às redes de atenção à saúde7.

A superlotação é um problema recorrente nas UPAs, comprometendo a segurança dos pacientes devido ao elevado tempo de espera. Uma pesquisa na UPA de Itapeva revelou que quase 80% dos atendimentos eram de casos não urgentes, sugerindo uma procura inadequada por parte dos usuários e possíveis falhas na atenção primária8. Além disso, a falta de capacitação dos profissionais para a classificação de risco foi apontada como uma limitação no atendimento.

Outra pesquisa realizada por Souza et al. (2022) em uma UPA da região centro-oeste do Estado de São Paulo traçou o perfil epidemiológico dos pacientes atendidos entre 2018 e 2019 por meio da análise de prontuários. Foram 383 prontuários analisados, sendo que mais da metade destes teve classificação não urgente (verde). Neste mesmo estudo doenças do sistema musculoesquelético, lesões de causas externas (traumas) e lesões do sistema nervoso foram as principais causas da procura à unidade. O sexo feminino foi predominante e a faixa etária de 31 a 59 anos a mais encontrada dentre os pacientes atendidos.

Por fim, um estudo realizado no Maranhão9 caracterizou o perfil clínico-epidemiológico de pacientes de uma UPA 24h da cidade de Imperatriz (MA). O sexo feminino foi predominante, assim como a faixa etária de 16-30 anos, sendo a classificação verde correspondendo a 70% dos pacientes incluídos no estudo. E por fim quanto as queixas principais, a cefaleia foi a mais presente, seguido de faringite, epigastralgia e dor abdominal.

 

2 MÉTODOS

Trata-se de um estudo epidemiológico, observacional, descritivo e prospectivo do tipo corte transversal. A pesquisa foi realizada em uma UPA de grande porte do município de Várzea Grande e do estado de MT, possuindo um elevado número de atendimentos com uma grande variedade de pacientes e diagnósticos. Foram incluídos na pesquisa todos os pacientes adultos e maiores de 18 anos classificados como azul, verde ou amarelo pela classificação de risco (triagem), ou seja, pacientes que foram atendidos no consultório médico. Não foram incluídos na pesquisa pacientes menores de 18 anos ou pacientes do box de emergência e observação (internados).

Para uniformizar a coleta de dados, somente uma equipe procedeu a seleção e a coleta de dados dos pacientes incluídos. Os pacientes foram atendidos em ordem de prioridade de acordo com a classificação de risco definida pela equipe de enfermagem durante a triagem. Essa coleta de dados foi feita duas vezes por semana pela equipe de médicos devidamente treinados para aplicação do questionário e TCLE, durante os plantões realizados na unidade de pronto atendimento selecionada para o estudo no período de abril a junho de 2024. A coleta de dados se deu por meio da aplicação de um questionário pré-estabelecido (apêndice A) durante ou após a consulta médica com o paciente elegível. Informações clínicas e epidemiológicas foram pesquisadas de acordo com esse questionário. Os dados coletados foram registradas em um formulário padrão previamente elaborado pela equipe de pesquisa no software Epidata 3.1 (Epidata Association, Denmark, 2014).

A análise de algumas variáveis do estudo exigiram o entendimento de conceitos pré-existentes listados abaixo:

Os critérios necessários para que o paciente fizesse parte do estudo estão elencados abaixo. De forma geral o estudo teve como foco os pacientes adultos, não internados, cooperativos com o estudo e que não estivesse com alguma gravidade de ameaça a vida no momento da aplicação do questionário. Seguem os critérios de inclusão: ter pelo menos 18 anos de idade ou mais, ser classificado na triagem da unidade como azul, verde ou amarelo, concordar em participar do estudo e assinar o TCLE.

Não houve riscos significativos para os participantes incluídos, uma vez que eles não sofreram nenhuma intervenção clínica, medicamentosa ou de procedimento invasivo. Porém o único desconforto foi um pequeno tempo adicional para responder às perguntas inerentes à pesquisa e aplicação do TCLE. A confidencialidade dos dados foi assegurada segundo a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD - Lei N° 13.709) criada em 14 de agosto de 2018.

Indiretamente, o paciente enquanto usuário do serviço de saúde público (SUS), irá se beneficiar dos resultados da pesquisa, uma vez que os conhecimentos produzidos poderão aperfeiçoar o atendimento das unidades e a melhor aplicação de recursos em insumos e serviços.

Todos os pacientes incluídos na pesquisa assinaram o TCLE e tiveram a identificação preservada segundo os princípios da confidencialidade contidos na LGPD. Os nomes dos pacientes não foram expostos permitindo assim que os mesmos não sejam identificados, mantendo preservado o anonimato. Também não foi exigido nada mais do participante além das informações de interesse do estudo. Esta pesquisa seguiu todos os princípios éticos e foi aprovado pelo CEP HUJM/EBSERH sob o número CAAE 75687023.0.0000.5541.

As variáveis contínuas foram descritas como média ou mediana e desvio padrão (DP) ou intervalo interquartílico e as categóricas como frequência percentual. O teste de Shapiro-Wilk foi realizado para verificar a normalidade da distribuição dos parâmetros e de suas razões. Para testar a hipótese de igualdade das variáveis contínuas estudadas, testes paramétricos e não paramétricos foram utilizados. Para todas as análises, um valor de p < 0,05 foi considerada uma diferença estatisticamente significativa. As análises estatísticas foram realizadas usando o software Stata versão 12.0 (Stata Corporation, College Station, TX, EUA).

3 RESULTADOS

Foram incluídos neste estudo entre abril e junho de 2024, 161 pacientes da demanda espontânea de atendimento de uma UPA no munícipio de Várzea Grande, Mato Grosso. Os dados demográficos dos pacientes incluídos no estudo são apresentados na tabela 1.

Tabela 1 - Características demográficas de 161 pacientes atendidos em uma UPA de Várzea Grande (MT) de abril a junho de 2024.

Característica

n

%

IC 95%

Sexo

Masculino

59

36,6

29,49 – 44,4

Feminino

102

63,4

55,56 – 70,5

Ocupação

Comércio

55

34,2

27,2 – 41,9

Doméstico

39

24,2

18,2 – 31,5

Construção

14

8,7

5,2 – 14,2

Aposentado

11

6,8

3,8 – 12,0

Não trabalha

10

6,2

3,4 – 11,2

Estudantes

8

5,0

2,5 – 9,7

Vigilantes

6

3,7

1,7 – 8,1

Educação

5

3,1

1,3 – 7,3

Outros

13

8,1

4,7 – 13,5

Cidade de residência

Várzea Grande

150

95,6

91,1 – 97,9

Cuiabá

4

1,9

0,5 – 5,6

Outras

7

2,5

0,9 – 6,5

Estado Civil

Solteiro

87

54,0

46,2 – 61,7

Casado/União Estável

58

36,0

28,9 – 43,8

Divorciado/Separado

11

6,9

3,8 – 12,0

Viúvo

5

3,1

1,3 – 7,3

Nível de escolaridade completo ou incompleto

Nenhum

4

2,5

0,9 – 6,5

Fundamental

33

20,5

14,9 – 27,5

Médio

89

55,3

47,4 – 62,8

Superior

35

21,7

15,9 – 28,8

Renda Familiar

(em salários mínimos)

Até 2 salários

98

60,9

53,0 – 68,1

3 a 4 salários

48

29,8

23,1 – 37,4

5 ou mais

15

9,3

5,7 – 14,9

Rede de Água

Sim

130

80,7

73,8 – 86,2

Não

31

19,3

13,8 – 26,2

Rede de Esgoto

Sim

99

61,5

53,7 – 68,7

Não

62

38,5

31,2 – 46,3

Atividade Física

Sim`

25

15,5

10,7 – 22,0

Não

136

84,5

78,0 – 89,3

Idade (anos)

Média = 38,4 anos

DP = 14,4 anos

18 – 49

126

78,3

71,1 – 84,0

50 – 59

20

12,4

8,1 – 18,5

60 – 79

14

8,7

5,1 – 14,2

≥ 80

1

0,6

0,08 – 4,3

IC 95%: Intervalo de confiança de 95%; DP: Desvio padrão

Dos 161 pacientes atendidos na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) pesquisada, 102 (63,4%) eram do sexo feminino, enquanto apenas 59 (36,6%) eram do sexo masculino.

Sobre a ocupação dos participantes, 34,2% (55) disseram trabalhar em áreas relacionadas ao comércio, 24,2% (39) com atividades domésticas e 8,7% (14) em construção civil. As outras ocupações menos frequentes, mas registradas, foram: vigilantes e trabalhadores da educação. Cerca de 6,8% (11) eram aposentados, 6,2% (10) não estavam trabalhando no momento e 5% (8) eram estudantes.

Na análise da cidade de moradia desses pacientes, encontrou-se que 95,6% (150) residiam na própria cidade de Várzea Grande, ou seja, na mesma cidade onde se localiza a Unidade de Pronto Atendimento em questão. Apenas 2,48% (4) pacientes moravam em Cuiabá e 4,34% (7) em outras localidades.

Em relação ao estado civil 54% (87) eram solteiros, 36% (58) casados/união estável, 6,9% (11) divorciados/separados e 3,1% (5) viúvos. Sobre o nível de escolaridade 55,3% (89) tinham o ensino médio completo ou incompleto, 21,7% (35) tinham ensino superior completo ou incompleto e 20,5% (33) o ensino fundamental completo ou incompleto.

Quando se fala em renda familiar, 60,9% (98) disseram ser de até 2 salários mínimos (Classe E - IBGE), 29,8% (48) de 3 a 4 salários (Classe D - IBGE) e 9,3% (15) 5 ou mais salários mínimos (Classes C, B ou A - IBGE). No período deste estudo o salário mínino vigente foi de R$1.412,00.

Sobre alguns dos serviços públicos essenciais oferecidos para a população, 80,7% (130) disseram ter acesso à rede de água em seus domicílios e 61,5% (99) disseram ter rede de esgoto.

A prática de atividade física também foi avaliada e apenas 15,5% (25) dos 161 entrevistados disseram praticar algum tipo de atividade física (independente de regularidade), enquanto 84,5% (136) disseram não fazer nenhum tipo de exercício físico.

Por fim sobre a idade dos pacientes, 78,3% (126) tinham entre 18 e 49 anos, 12,4% (20) entre 50 e 59 anos e apenas 9,32% (15) 60 anos ou mais. Lembrando que o estudo foi feito apenas com pacientes maiores de 18 anos de idade. A média de idade foi 38,4 anos mostrando o predomínio de jovens nas consultas médicas.

Durante o questionário também foi perguntado com que frequência frequentavam a Unidade Básica de Saúde (UBS) visto que grande parte das queixas relatadas na UPA poderiam ser resolvidas na atenção primária. 70,8% (114) dos pacientes disseram não ter ido em alguma UBS em 2024 e 50,3% (81) disseram não terem ido em 2023. 45 pacientes (28%) foram em alguma UBS uma ou duas vezes em 2023 e 31 (19,3%) alguma vez em 2024. Do total, 35 (20,7%) foram três vezes ou mais no ano de 2023 e 16 (9,9%) já estiveram também três vezes ou mais no ano de 2024. No entanto, quase metade dos pacientes estudados, isto é 75 (46,6%), não sabem a diferença entre uma UPA e uma Unidade Básica de Saúde.

Foram avaliados diversos parâmetros clínicos nos 161 pacientes incluídos no estudo, dentre eles os sinais vitais, sintomas presentes durante a consulta, dias de sintomas até a procura da UPA e também desfechos clínicos ao final dos atendimentos (Tabela 2).

Tabela 2 - Sinais vitais e sintomas de 161 pacientes atendidos em uma UPA de Várzea Grande (MT) de abril a junho de 2024.

Sinais Vitais

Média

DP

Frequência cardíaca

90,8 bpm

1,23

Frequência respiratória

17,1 irpm

0,23

Temperatura axilar

36,6 graus celsius

0,06

Pressão arterial sistólica

145,0 mmHg

1,72

Pressão arterial diastólica

86,0 mmHg

1,14

Sinais e Sintomas

n (%)

IC 95%

Cefaleia

Sim

49 (30,4)

23,8 – 38,0

Não

112 (69,6)

61,9 – 76,2

Mialgia

Sim

41 (25,5)

19,2 – 32,8

Não

120 (74,5)

67,2 – 80,7

Artralgia

Sim

19 (11,8)

7,6 – 17,8

Não

142 (88,2)

82,1 – 92,3

Febre

Sim

40 (24,8)

18,7 – 32,2

Não

121 (75,2)

67,8 – 81,3

Dor abdominal

Sim

25 (15,5)

10,7 – 22,1

Não

136 (84,5)

77,9 – 89,3

Dor torácica

Sim

7 (4,4)

2,1 – 8,9

Não

154 (95,6)

91,1 – 97,9

Vômitos

Sim

36 (22,4)

16,5 – 29,5

Não

125 (77,6)

70,5 – 83,5

Diarreia

Sim

22 (13,7)

9,1 – 20,0

Não

139 (86,3)

80,0 – 90,8

Tosse

Sim

26 (16,1)

11,2 – 22,7

Não

135 (83,9)

77,2 – 88,8

Dias de sintomas

1

72 (44,7)

37,1 – 52,5

2

28 (17,4)

12,2 – 24,1

3

25 (15,5)

10,7 – 22,0

4

8 (5,0)

2,4 – 9,7

5

28 (17,4)

12,2 – 24,1

Desfecho

Alta

31 (19,3)

13,8 – 26,2

Medicação e alta

76 (47,2)

39,5 – 55,0

Exames e alta

16 (9,9)

6,1 – 15,7

Exames, medicação e alta

36 (22,4)

16,5 – 29,5

Internação

2 (1,2)

0,2 – 4,3

IC 95%: Intervalo de confiança de 95%; DP: Desvio padrão; bpm: batimento por minuto; irpm: incursões respiratórias por minuto. 

Em relação aos sinais vitais aferidos na triagem e em consultório, as médias foram: frequência cardíaca (91 bpm), frequência respiratória (17 irpm), temperatura axilar (36,6), pressão arterial sistólica (145 mmHg) e pressão arterial diastólica (86 mmHg).

Sobre os sinais e sintomas relatados pelos pacientes, o mais frequentes foram: cefaleia (30,4%), mialgia (25,5%), febre (24,8%), náuseas e vômitos (22,4%), tosse (16,1%) e dor abdominal (15,5%). Sintomas esses que podem ser encontrados em diversas infecções virais ou bacterianas corriqueiras em pronto atendimentos como por exemplo síndrome gripal, resfriado comum, arboviroses, gastroenterocolite aguda e demais síndromes febris agudas.

Outro dado interessante foi encontrado que diz respeito a quantos dias decorrido do início dos sintomas esses pacientes procuraram o pronto atendimento. A maioria dos 161 pacientes procuraram a UPA com 1 dia de sintomas (44,7%). Em seguida 33% procuraram a UPA com 2 a 3 dias de sintomas e 22,4% com 4 ou mais dias de sintomas.

Sobre os desfechos após consulta médica, 70% dos pacientes tomaram algum tipo de medicação intramuscular ou endovenosa na unidade de saúde antes da alta médica, 32% realizaram algum tipo de exame antes da alta e apenas 1,2% destes pacientes foram internados. Ou seja, 98,8% dos pacientes não precisaram de internação para o tratamento ou investigação de sua condição clínica.

Quando perguntado sobre as doenças que tinham, 18,6% (30) disseram ter hipertensão arterial sistêmica (HAS), 10,6% (17) tinham obesidade e 7,45% (12) tinham diabetes mellitus. Outras doenças mais frequentes foram: asma, dislipidemia, gastrite e depressão.

Tabela 3 - Comorbidades de 161 pacientes atendidos em uma UPA de Várzea Grande (MT) de abril a junho de 2024.

Comorbidade

n (%)

IC 95%

Hipertensão arterial sistêmica

Sim

30 (18,6)

13,2 – 25,5

Não

131 (81,4)

74,5 – 86,7

Diabetes Mellitus

Sim

12 (7,45)

4,2 – 12,7

Não

149 (92,55)

87,2 – 95,7

Asma

Sim

3 (1,9)

0,6 – 5,6

Não

158 (98,1)

94,3 – 99,4

Dislipidemia

Sim

3 (1,9)

0,6 – 5,6

Não

158 (98,1)

94,3 – 99,4

Gastrite

Sim

5 (3,1)

1,2 – 7,3

Não

156 (96,9)

92,7 – 98,7

Depressão

Sim

2 (1,2)

0,3 – 4,8

Não

159 (92,8)

95,1 – 99,6

Obesidade

Sim

17 (10,6)

6,6 – 16,4

Não

144 (89,4)

83,6 – 93,4

Tabagismo

Sim

35 (21,7)

16,0 – 28,9

Não

126 (78,3)

71,1 – 84,0

Etilismo

Sim

57 (35,4)

28,3 – 43,2

Não

104 (64,6)

56,8 – 71,7

                       IC 95%: Intervalo de confiança de 95%;

O tabagismo e etilismo também foram questionados e o resultado foi que 78,3% (126) não eram tabagistas, isto é, não tinham o hábito frequente de consumir produtos à base de nicotina e 21,7% (35) diziam fazer uso frequente de algum tipo de cigarro à base de nicotina. Sobre o etilismo 64,6% (104) relataram não fazerem o consumo de bebida alcoólica e 35,4% (57) bebiam algum tipo de bebida contendo álcool com certa frequência.

Em relação à classificação de risco dos pacientes no momento de entrada na unidade, 39 (24,2%) pacientes tiveram classificação de risco amarelo, 114 (70,8%) tiveram classificação de risco verde e 8 (5,0%) classificação de risco azul.

Após a consulta médica, anamnese e exame físico dos pacientes foi elaborado uma hipótese diagnóstica para cada caso. De todas as hipóteses as mais prevalentes foram: IVAS (16,77%), dor musculoesquelética (9,94%), gastroenterocolite aguda (9,32%), arboviroses (8,70%) e traumas (8,07%). As demais hipóteses estão descritas na tabela.

Tabela 4 - Principais hipóteses diagnósticas de 161 pacientes atendidos em uma UPA de Várzea Grande (MT) de abril a junho de 2024.

Hipótese Diagnóstica

N

 (%)

IVAS

27

16,77

Dor musculoesquelética

16

9,94

Gastroenterocolite aguda

15

9,32

Arboviroses

14

8,70

Trauma

13

8,07

Dor abdominal

11

6,83

Cefaleia

9

5,59

Síndrome Febril Aguda

9

5,59

Urgência Hipertensiva

7

4,34

Furunculose

4

2,48

Alergia

3

1,86

Ansiedade

3

1,86

Outros

30

18,65

                            IVAS: Infecção de vias aéreas superiores

Foram prescritas medicações para serem realizadas dentro da unidade de saúde e também prescrições domiciliares. Das medicações realizadas dentro da UPA, 54% dos pacientes fizeram uso de analgésico, 44,1% de anti-inflamatórios não esteroidais (AINE), 22,4% de antieméticos, 2,5% de antibióticos e 2,5% de anti-histamínicos. Das prescrições domiciliares, os analgésicos foram prescritos em 85,7% dos pacientes, AINE em 48,5%, antieméticos em 22,4% das vezes, anti-histamínicos em 26,1% e antibióticos em 12,4%.

Tabela 5 - Medicamentos prescritos aos 161 pacientes atendidos em uma UPA de Várzea Grande (MT) de abril a junho de 2024.

Medicamento na UPA

n (%)

IC 95%

Analgésico

Sim

87 (54,0)

46,2 – 61,7

Não

74 (46,0)

38,3 – 53,8

Anti-inflamatório

Sim

71 (44,1)

36,5 – 51,9

Não

90 (55,9)

48,1 – 63,5

Antiemético

Sim

36 (22,4)

16,5 – 29,5

Não

125 (77,6)

70,5 – 83,5

Antibiótico

Sim

4 (2,5)

0,9 – 6,5

Não

157 (97,5)

93,5 – 99,1

Anti-histamínico

Sim

4 (2,5)

0,9 – 6,5

Não

157 (97,5)

93,5 – 99,1

Medicamento prescrito

n (%)

IC 95%

Analgésico

Sim

138 (85,7)

79,3 – 90,3

Não

23 (14,3)

9,6 – 20,6

Anti-inflamatório

Sim

78 (48,5)

40,7 – 56,2

Não

83 (51,5)

43,8 – 59,3

Antiemético

Sim

36 (22,4)

16,5 – 29,5

Não

125 (77,6)

70,5 – 83,5

Antibiótico

Sim

20 (12,4)

8,1 – 18,5

Não

141 (87,6)

81,5 – 91,9

Anti-histamínico

Sim

42 (26,1)

19,8 – 33,5

Não

119 (73,9)

66,5 – 80,2

IC 95%: Intervalo de confiança de 95%;

Em relação à realização dos exames complementares, do total de 161 pacientes, 33 (20,5%) realizaram exame de radiografia, 25 (15,5%) realizaram exames laboratoriais, 9 (5,6%) realizaram eletrocardiograma (ECG), 8 (5,0%) tiveram solicitação de ultrassonografia (USG) e 2 (1,24%) realizaram tomografia computadorizada (TC). Os exames de USG e TC são feitos em hospital terciário do município. O paciente vai até o local de ambulância e retorna após realização do exame. Já os exames de radiografia, laboratoriais e ECG são feitos na própria unidade.

Observou-se que 84 pacientes (52%) não precisaram realizar nenhum tipo de exame complementar para investigação diagnóstica, em que apenas com o exame clínico já foi possível ter uma provável hipótese diagnóstica e condutas subsequentes.

Sobre os exames de radiografia, a maioria foi do tórax, principalmente para pacientes com dispneia, alguma alteração na ausculta pulmonar ou tosse persistente. Geralmente os exames laboratoriais são solicitados, principalmente, para ver o hemograma como auxílio nos diversos tipos de infecções. O ECG foi solicitado devido queixas de palpitação ou dor torácica e o USG e/ou TC para os casos de abdome agudo, suspeita de ureterolitíase, dentre outras queixas abdominais.

4 DISCUSSÃO

Sobre a predominância do sexo feminino encontrada nesta pesquisa (63,35%), pode-se indicar que ainda há uma resistência do público masculino em procurar cuidado em saúde, visto que em muitas das vezes em que o homem se consultou tinha consigo uma acompanhante mulher estimulando sua ida até o pronto atendimento. Este resultado se assemelha a outros estudos1-5 onde o sexo feminino também representou a maioria dos pacientes atendidos em diversos pronto-atendimentos do Brasil.

Quando se analisa as ocupações ou profissões mais prevalentes neste estudo (vendedores, trabalhadores domésticos e de construção civil) nota-se que a maioria delas não exigem curso superior. Na maioria desses trabalhos encontra-se algum tipo de esforço físico muscular repetitivo, o que com frequência pode levar o trabalhador a procurar ajuda nas UPAs principalmente devido dor musculoesquelética. Em um estudo feito com 139 pacientes atendidos em hospital de saúde de Santa Cruz do Sul (RS) encontrou-se um resultado diferente onde 37% dos pacientes eram aposentados, 7% agricultores, 7% estudantes e 47% tinhas outras profissões10.

Os resultados das cidades de moradia dos pacientes (95,6% moravam em Várzea Grande) permite desmistificar a ideia de que muitos pacientes de Cuiabá procuram as Unidades de Saúde de Várzea Grande, o que não se mostrou verídico neste presente estudo, pois quase a totalidade dos pacientes morava na mesma cidade da UPA onde foram atendidos.

A renda familiar de até 2 salários-mínimos (até R$2.824) foi a mais prevalente com quase 61% dos entrevistados e isso define que o público que frequente a unidade em sua maioria é da classe econômica E, segundo o IBGE. Essa classe por conceito têm ganhos de R$0 até R$2.82411. Na época do estudo o salário-mínimo brasileiro era de R$1.412.

Sobre o saneamento básico e abastecimento de água do município, a falta de rede de esgoto e de água pode ser fator de risco para diversas doenças que utilizam esses meios para se propagar, como por exemplo parasitoses causadas por helmintos e protozoários, além de diversas outras. Segundo Teixeira JC (2014) de 2001 a 2009 no Brasil as doenças ocasionadas devido saneamento básico inadequado foram responsáveis por 13.449 óbitos, correspondendo a 1,31% do total de óbitos no mesmo período.

Outro dado encontrado foi que 84,5% (136) dos pacientes não praticam atividades físicas. Isso impacta diretamente no risco cardiovascular dos pacientes e na qualidade do estilo de vida, contribuindo muitas vezes para um alto índice de sobrepeso e obesidade. Os benefícios da atividade física vão muito além da estética e contribuem significativamente para o controle e prevenção das principais doenças crônicas não transmissíveis como hipertensão arterial sistêmica e diabete mellitus por exemplo. De acordo com a prática de atividade física pode prevenir o surgimento precoce de doenças metabólicas12 e atuar no tratamento e prevenção das mesmas, interferindo positivamente na capacidade funcional de adultos e idosos. Pela o sedentarismo é definido pela falta de regularidade na prática de atividades físicas. Por essa lógica, quem não dedica, semanalmente, 150 minutos ao próprio corpo, ou 30 minutos diários em cinco dias na semana, é sedentário. Dessa forma, nossos pacientes são, em maioria, sedentários13.

Brasil et al. (2019) e Garcia et al. (2014) encontraram a faixa etária de 20-29 anos como a mais comum em sua população da UPA de Iguatu no Ceará. O resultado deste estudo também teve a maior prevalência na faixa etária mais jovem, no caso de 18 a 49 anos (78,3%).

O fato de quase metade dos participantes não saber a diferença entre UPA e UBS pode contribuir para justificar o alto número de atendimentos não urgentes nas unidades de pronto atendimento. Aliado a isso o fato de que não tem UBS para muitas pessoas de diversos bairros a UPA acaba sendo a única alternativa de atendimento médico e odontológico.

Dentre todas as médias de sinais vitais registradas na pesquisa, a da PAS foi considerada um pouco mais elevada (acima de 140 mmHg) podendo refletir a importância de diagnóstico de tratamento de HAS nessa população. Em estudo de Oliveira et al. (2011) com os pacientes de uma unidade de emergência constatou-se resultados semelhantes a este trabalho onde a média da PAS foi de 140mmhg e da PAD foi de 80 mmHg. Os sinais vitais constituem-se em um importante preditor de condição clínica do paciente visto que podemos identificar indícios de doenças graves apenas observando essas aferições, podendo assim direcionar o paciente para o box de emergência ou consultórios no corredor a depender da alteração observada. As outras médias foram consideradas normais.

Em relação aos sinais e sintomas referidos pelos pacientes, Garcia et al. (2014) encontraram como sintomas mais frequentes dor aguda, doenças respiratórias, trauma e mal-estar. Souza (2022) encontrou em estudo no pronto atendimento a lombalgia como queixa de 54,4% das pessoas, seguido de dispneia ou alterações respiratórias logo em seguida com 20,1% dos casos. Em 2011, Oliveira et.al encontraram a cefaleia como principal causa de busca ao pronto atendimento com 9,22% dos casos, seguido de lombalgia (6,57%), dor abdominal (5%) e dor torácica (4,7%).

Em pesquisa de Oliveira (2011) 74,1% dos pacientes receberam alta médica, 24,4% foram encaminhados para unidades terciárias e apenas 0,2% foram internados. Outro autor14 que traçou o perfil epidemiológico em um hospital de ensino viu que 81% dos pacientes tiveram alta logo após a consulta.

Sobre as comorbidades mais prevalentes neste estudo, 18,6% dos pacientes disseram ter HAS, 10,6% obesidade e 7,45% DM. Em um outro estudo de Oliveira GN (2011) feito em um hospital de ensino do interior de São Paulo, viu-se resultado semelhante ondem quase 21% eram hipertensos, 7,3% diabéticos e 5,1% tinham demais cardiopatias. Outra pesquisa realizada em 2016 em uma UPA de Cruz das Almas na Bahia mostrou que HAS e DM foram também as duas principais comorbidades relatadas pelos pacientes15.

No que se refere ao tabagismo, entende-se que este hábito está diretamente ligado a várias doenças pulmonares e cardiovasculares como DPOC, IAM, AVE e neoplasias. Saber que quase 80% dos pacientes deste estudo não estão fazendo uso dessa substância é um sinal que a população está deixando aos poucos este hábito em busca de uma vida mais saudável. Segundo Oliveira AF (2008) o uso do tabaco representa um fator de risco para seis das oito principais causas de óbito no mundo, incluindo enfermidades cardíacas isquêmicas, derrames, infecções respiratórias inferiores, Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC), tuberculose e neoplasias malignas que afetam os pulmões, a traqueia e os brônquios.

Sobre o etilismo detectado (35,4%) foi, na maioria das vezes, o que chamamos de “etilismo social”, que é aquela pessoa que ingere bebida alcoólica apenas em festas, eventos ou aos finais de semana. O consumo de álcool também está diretamente ligado a acidentes de moto e/ou carro, motivos frequentes de atendimento em pronto atendimentos. De acordo com um levantamento nacional sobre o padrão de consumo de álcool na população brasileira16. O uso de álcool tem se tornado uma séria questão de saúde pública, pois além de contribuir para o desenvolvimento de doenças crônicas não transmissíveis, também está associado a diversas dificuldades, como problemas no ambiente de trabalho e nos relacionamentos familiares, participação em acidentes e episódios de violência, além de possíveis consequências legais.

Outra questão abordada relacionada à triagem dos pacientes, é sabido que a maioria dos pacientes recebem classificação verde pois possuem queixas não graves ou urgentes. Pacientes com classificação azul geralmente são pacientes com queixas crônicas ou que buscaram a unidade para mostrar resultado de exames. Os pacientes amarelos são os que merecem mais atenção e geralmente possuem alterações de sinais vitais, principalmente pressão arterial, sendo um dos motivos mais frequentes para o paciente ser triado de amarelo. Taquicardias e alterações de glicemia também são frequentes em pacientes triados de amarelo. Neste estudo quase 71% dos pacientes foram triados de verde, 24,2% de amarelos e 5% de azul. Resultado um pouco diferente foi encontrado em estudo feito em Iguatu (CE) onde 47,7% dos pacientes foram triados de verde, 37,6% de azul e 11,5% de amarelo (13-15). Já em estudo feito em uma UPA no Maranhão os resultados foram muito semelhantes a este estudo, com 70% dos pacientes triados de verde, 23,2% de amarelo e 6,5% de azul 16,17.

Neste estudo as hipóteses diagnósticas mais prevalentes foram: IVAS (16,77%), dor musculoesquelética (9,94%), gastroenterocolite aguda (9,32%), arboviroses (8,70%) e traumas (8,07%). Em pesquisa feita em um hospital de São Paulo com 384 pacientes no ano de 2008, teve-se como principais hipóteses diagnósticas: lombalgia (4%), infecção do trato urinário (3%), IVAS (2,70%), cefaleia (2,50%), gastroenterocolite aguda (2,4 %) dentre outras18. Outro estudo de Belém (PA) analisou 470 prontuários de um hospital e viu-se que 33,6% dos diagnósticos foram devido a infecções, 21,7% dor musculoesquelética e 7% queda e doenças do aparelho digestivo19.

Em uma UPA do Estado do Ceará pesquisadores analisaram 516 prontuários e tiveram como principais diagnósticos: lombalgia (16,6%), cefaleia (13,1%), IVAS (12,4%) e GECA (10%) 13-15. Em todos estes estudos pode-se notar certa semelhança com os resultados obtidos nesta pesquisa, no caso a hipótese de lombalgia e dor musculoesquelética acabam sendo a mesma hipótese e estiveram como uma das principais hipóteses, assim como cefaleia, IVAS e GECA, que também tiveram alta prevalência.

Sobre as medicações, as realizadas em ambiente intra-hospitalar ainda constituiem-se na melhor maneira de aliviar os sintomas agudos dos pacientes, sendo que também a prescrição domiciliar é de fundamental importância para que o paciente possa continuar medicado em sua casa, assim como também evita o retorno do mesmo na UPA por recorrência do sintoma. A grande maioria das medicações na UPA são administradas por via intramuscular, seguido da via endovenosa e subcutânea. Outro fator importante é que se o médico passa os medicamentos disponíveis na farmácia da unidade a chance de adesão do paciente ao tratamento proposto torna-se muito maior.

Levando essa informação para outros cenários dentro da UPA percebe-se a importância de se prescrever medicações disponíveis na farmácia da referida unidade, pois isso impacta diretamente na adesão ao tratamento, já que medicações adquiridas em drogarias comerciais possuem muitas vezes um custo elevado, podendo comprometer o orçamento familiar dos pacientes. Porém mesmo para famílias com uma renda familiar maior a UPA tem sido também a principal unidade de saúde procurada, visto a boa qualidade de atendimento e grande quantidade de exames que a mesma oferece para investigações de diversas doenças.

Em relação aos exames complementares documentados neste estudo, 20,5% dos pacientes realizaram exame de radiografia, 15,5% exames laboratoriais, 5,6% eletrocardiograma, 5,0% tiveram solicitação de ultrassonografia e 1,24% realizaram tomografia computadorizada (TC). Resultado diferente foi encontrado em um estudo de Hehn e Bueno (2020) em um pronto atendimento privado no Sul do Brasil onde os exames laboratoriais foram 56,7% do total de exames solicitados, seguido da radiografia (31,7%) e TC (4,3%). Já em pesquisa realizada em unidade de saúde do oeste paulista apenas 5,7% dos pacientes fizeram exames laboratoriais e 8% fizeram alguma radiografia 19, 20. Importante salientar que a solicitação desnecessária de exames torna o ambiente de trabalho superlotado com pacientes aguardando retorno e resultados de exames que não terão alteração de conduta.

5 CONCLUSÃO

Conclui-se que a maioria dos pacientes atendidos nesta UPA são mulheres, na faixa etária de 18 a 49 anos, que trabalham com comércio ou com atividades domésticas, solteiras e com ensino médio em curso ou completo. Possuem na maior parte das vezes uma renda familiar de até dois salários-mínimos, moram em casas com rede de água e esgoto, sendo que a grande maioria não pratica atividades físicas.

Os principais sintomas relatados foram cefaleia, mialgia, febre e vômitos. A maioria dos pacientes procurou a unidade de pronto atendimento com 1 dia de sintoma e tiveram alta médica após serem medicados dentro da UPA. As principais hipóteses diagnósticas foram: infecção de vias aéreas superiores (IVAS), dor musculoesquelética, gastroenterocolite aguda (GECA) e arboviroses. Dentre as comorbidades, as mais prevalentes foram HAS, obesidade e DM.

As classes de medicações mais prescritas na unidade de saúde ou para uso domiciliar foram analgésicos, depois anti-inflamatórios e antieméticos. Assim como os exames complementares mais solicitados foram: radiografias, laboratoriais e ultrassonografia, nesta ordem.

Os dados obtidos do perfil clínico-epidemiológico desta população contribuirá para um maior conhecimento acerca das necessidades e demandas exigidas por esses usuários do SUS a fim de que se tenha um atendimento médico mais direcionado, preciso e resolutivo para melhor atender a todos os pacientes.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS