COMPORTAMENTO PREVENTIVO E FATORES ASSOCIADOS À COVID-19 EM ADULTOS TOTALMENTE VACINADOS: ESTUDO TRANSVERSAL
PREVENTIVE BEHAVIOR AND FACTORS ASSOCIATED WITH COVID-19 IN FULLY VACCINATED ADULTS: CROSS-SECTIONAL STUDY
COMPORTAMIENTO PREVENTIVO Y FACTORES ASOCIADOS A COVID-19 EN ADULTOS TOTALMENTE VACUNADOS: ESTUDIO TRANSVERSAL
Tipo de artigo: Artigo de estudo primário
Autores
Lourrany Borges Costa
Doutorando em Saúde Pública pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Docente da Faculdade de Medicina da Universidade de Fortaleza (Unifor).
Orcid: https://orcid.org/0000-0002-6334-8624
Antônia Luciana Souza Bekman
Especialista em Saúde Pública, Secretaria Municipal de Saúde de Guaramiranga, Ceará.
Orcid: https://orcid.org/0009-0009-6861-183X
Silvana Soares de Souza
Administradora, Secretaria Municipal de Saúde de Guaramiranga, Ceará.
Orcid: https://orcid.org/0009-0003-9603-9187
Francisca Kalline de Almeida Barreto
Doutora em Saúde Pública pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Docente da Faculdade de Medicina do Centro Universitário Christus (Unichristus).
Orcid: https://orcid.org/0000-0001-9767-7154
Ana Carolina Barjud Marques Máximo
Mestre em Gestão em Saúde pela Universidade Estadual do Ceará (UECE). Pesquisadora do Laboratório Central de Saúde Pública do Ceará.
Orcid: https://orcid.org/0000-0001-9927-4631
Fernanda Kézia Sousa Silva
Especialista em Hematologia Clínica e Banco de Sangue pelo Centro Universitário Christus (Unichristus).
Orcid: https://orcid.org/0000-0002-3485-1079
Magda Moura de Almeida
Doutora em Saúde Pública pela Universidade Federal do Ceará. Docente da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará.
Orcid: https://orcid.org/0000-0002-4806-2345
Luciano Pamplona de Góes Cavalcanti
Doutor em Ciências Médicas pela Universidade Federal do Ceará. Docente da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Faculdade de Medicina do Centro Universitário Christus (Unichristus).
Orcid: https://orcid.org/0000-0002-3440-1182
Correspondência: Lourrany Borges Costa. E-mail: lourranybc@unifor.br. Telefone: 85999308846
RESUMO
Objetivo: Avaliar fatores associados à adoção de comportamentos preventivos em uma população vacinada contra a covid-19. Método: Estudo transversal realizado em Guaramiranga, Ceará, primeira cidade do estado a vacinar integralmente sua população adulta. Foram entrevistados 2.830 residentes vacinados entre setembro de 2021 e dezembro de 2022. Analisaram-se variáveis sociodemográficas, clínicas e conhecimento sobre prevenção. Resultados: A maioria referiu lavar as mãos (65,3%) e usar máscara fora de casa (63,8%), mesmo após a vacinação (59,7%). Maior adesão ocorreu entre mulheres, adultos jovens e indivíduos com doenças crônicas ou maior conhecimento preventivo (p < 0,05). Baixa escolaridade associou-se a maior isolamento e distanciamento (p < 0,05). Conclusão: Mesmo com alta cobertura vacinal, comportamentos preventivos persistiram. O estudo destaca a importância da percepção de risco, do conhecimento em saúde e dos determinantes sociais na adesão contínua a medidas de proteção em contextos de alta imunização.
DESCRITORES: Covid-19; Comportamento preventivo; Percepção de risco; Educação em saúde; Imunização.
ABSTRACT
Objective: Understanding the factors influencing preventive behavior in vaccinated populations is essential for pandemic preparedness. This study assessed protective behaviors among adults vaccinated against COVID-19 in Guaramiranga, a small municipality in Ceará, Brazil, with approximately 5,073 inhabitants. Guaramiranga became the first municipality in the state to fully vaccinate its registered population, beginning on January 20, 2021. Method: A cross-sectional analytical study using structured digital questionnaires was conducted from September 2021 to December 2022. Outcome variables included self-reported adherence to hand hygiene, mask use, distancing, and isolation, analyzed in relation to sociodemographic characteristics, health conditions, and knowledge about SARS-CoV-2. Result: Among 2,830 participants (53.9% female; median age 39), the most frequent behaviors were handwashing (65.3%), mask use when leaving home (63.8%), and continued use post-vaccination (59.7%). Women and younger adults reported higher adherence (p < 0.05). Lower education was associated with greater isolation and distancing (p < 0.05), underscoring social determinants in health behavior. Individuals with chronic conditions and better knowledge about prevention were significantly more adherent. Conclusion: Despite full vaccination, most participants maintained preventive measures, which may have contributed to low local hospitalization and mortality rates. These findings reinforce the importance of tailored public health messaging and local preparedness efforts, particularly in socially diverse communities.
DESCRIPTORS: COVID-19; Preventive behavior; Risk perception; Health education; Immunization.
RESUMEN
Objetivo: Evaluar los factores asociados a la adopción de comportamientos preventivos en una población vacunada contra la COVID-19. Método: Estudio transversal realizado en Guaramiranga, Ceará, el primer municipio del estado en vacunar completamente a su población adulta. Se encuestaron 2.830 residentes vacunados entre septiembre de 2021 y diciembre de 2022. Se analizaron variables sociodemográficas, clínicas y de conocimiento preventivo. Resultado: La mayoría refirió lavado frecuente de manos (65,3%) y uso de mascarilla fuera del hogar (63,8%), incluso tras la vacunación (59,7%). La adherencia fue mayor entre mujeres, adultos jóvenes y personas con enfermedades crónicas o mayor conocimiento (p < 0,05). Menor escolaridad se asoció a más aislamiento y distanciamiento (p < 0,05). Conclusión: Apesar de la cobertura vacunal completa, se mantuvieron conductas preventivas. El estudio resalta la importancia de la percepción del riesgo, el conocimiento en salud y los determinantes sociales en la continuidad de medidas de protección en comunidades con alta inmunización.
DESCRIPTORES: COVID-19; Conducta preventiva; Percepción de riesgo; Educación en salud; Inmunización.
INTRODUÇÃO
A pandemia de covid-19, provocada pelo SARS-CoV-2, constituiu uma grave emergência sanitária global, revelando fragilidades dos sistemas de saúde e demandando respostas coordenadas. Medidas não farmacológicas, como distanciamento, isolamento, higiene das mãos e uso de máscaras, foram essenciais, sobretudo antes da vacinação em massa(1). No entanto, sua efetividade dependeu da adesão da população, influenciada por fatores sociais, econômicos e comportamentais.
No Brasil, a pandemia evidenciou profundas desigualdades regionais. No Ceará, os primeiros casos ocorreram em março de 2020, e em poucas semanas a rede hospitalar já enfrentava colapso, com elevada ocupação de leitos. Ao final do período pandêmico, o estado somava mais de 1,5 milhão de casos e cerca de 28 mil óbitos(2,3).
Com o avanço da vacinação em 2021, surgiram preocupações quanto à redução na adesão às medidas protetivas. No entanto, a manutenção desses comportamentos continuou sendo crucial frente às incertezas quanto à duração da imunidade e ao surgimento de variantes(4,5).
Guaramiranga, município turístico de pequeno porte no Ceará, foi o primeiro a atingir cobertura completa da primeira dose vacinal em adultos, configurando um cenário oportuno para estudar o comportamento preventivo em uma população vacinada. Embora a literatura tenha explorado a hesitação vacinal e a adesão inicial às medidas protetivas, há escassez de estudos sobre sua persistência após a imunização, especialmente em contextos rurais e turísticos.
Investigar os determinantes sociais e comportamentais que sustentam tais práticas é essencial para orientar estratégias de comunicação em saúde e fortalecer a preparação frente a futuras emergências. Este estudo teve como objetivo descrever os comportamentos preventivos adotados por adultos vacinados em Guaramiranga e analisar sua associação com características sociodemográficas, condições de saúde e conhecimento sobre a covid-19.
MÉTODOS
Trata-se de um estudo transversal, de base populacional, com abordagem analítica, realizado no município de Guaramiranga, localizado na região serrana do estado do Ceará, Brasil, entre setembro de 2021 e dezembro de 2022. O município tem perfil turístico e apresentava população estimada de 5.193 habitantes no período do estudo, sendo 4.002 adultos com 18 anos ou mais(6). No início de 2021, Guaramiranga foi priorizada na distribuição de vacinas contra a covid-19, recebendo 5.187 doses de primeira aplicação: 3.328 da CoronaVac (Sinovac/Instituto Butantan), 1.685 da AstraZeneca/Oxford/Fiocruz e 174 da Pfizer–BioNTech (Comirnaty). Entre março de 2020 e fevereiro de 2022, o município notificou 4.663 casos suspeitos, com 1.565 casos confirmados e seis óbitos(2).
Foram elegíveis os residentes com 18 anos ou mais que haviam recebido ao menos uma dose da vacina contra a covid-19 (n = 4.002). O recrutamento ocorreu presencialmente após a vacinação, mediante convite por entrevistadores treinados, com explicação dos objetivos e obtenção do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. A participação foi voluntária e dúvidas foram esclarecidas antes da coleta.
Os dados foram coletados presencialmente entre setembro de 2021 e dezembro de 2022, por meio de questionário estruturado com 66 itens sobre perfil sociodemográfico, condições de saúde (como tabagismo, uso de álcool, atividade física, hipertensão e diabetes) e comportamentos preventivos (higiene das mãos, uso de máscara, isolamento e distanciamento social).
As entrevistas foram realizadas por profissionais de saúde, treinados previamente, em Unidades Básicas, centros comunitários ou domicílios. As respostas foram registradas em tablets, por meio de formulários eletrônicos com verificação automática de consistência, o que reduziu erros e possibilitou validação em tempo real.
As variáveis explicativas foram: sexo, faixa etária, escolaridade, estado civil, trabalho, condições de moradia, tabagismo, consumo de bebidas alcoólicas, prática de atividade física e presença de morbidades clínicas.
As variáveis de desfecho corresponderam à adoção de comportamentos de proteção para minimizar a propagação da covid-19. Considerou-se como comportamento ideal não sair de casa durante os momentos de isolamento, manter distanciamento, usar máscara e lavar as mãos frequentemente. Para tal, foram avaliados: saída do domicílio, incluindo frequência e motivos (resposta para a pergunta “Como foi sua rotina durante o isolamento social?”); distanciamento social (resposta para a pergunta “Você conseguiu fazer distanciamento social?”); utilização de máscaras (respostas para as perguntas “Quando sai de casa utiliza máscara?” e “Depois que tomou vacina continua usando máscara ao sair de casa?”); e higienização das mãos (resposta para a pergunta “Com que frequência lava as mãos com água e sabão durante o dia?”).
Para verificar a associação entre a adoção de comportamentos de proteção contra a covid-19 (não sair de casa, manter distanciamento, lavar as mãos frequentemente e usar máscara, mesmo após ser vacinado) e aspectos sociodemográficos, condições de saúde e conhecimentos sobre fatores de risco para a infecção pelo SARS-CoV-2, as respostas para as seguintes perguntas foram dicotomizadas: “Como foi sua rotina durante o isolamento social?” (“Saiu de casa” e “Não saiu de casa”); “Você conseguiu fazer distanciamento social?” (“Bastante” e “Mais ou menos/pouco”); “Com que frequência lava as mãos com água e sabão durante o dia?” (“Frequentemente/às vezes” e “Nunca”); “Quando sai de casa utiliza máscara?” (“Frequentemente/às vezes” e “Nunca”); e “Depois que tomou vacina continua usando máscara ao sair de casa?” (“Frequentemente/às vezes” e “Nunca”).
As variáveis categóricas foram descritas por frequências absolutas e relativas, e suas associações testadas pelo qui-quadrado de Pearson ou teste exato de Fisher. A normalidade das variáveis contínuas foi avaliada pelo teste de Shapiro–Wilk e inspeção gráfica. Variáveis com distribuição normal foram expressas como média e desvio padrão; as não normais, por mediana e intervalo interquartil. Diferenças entre grupos com distribuição assimétrica foram analisadas pelo teste de Mann–Whitney. Modelos multivariados de regressão de Poisson com variância robusta estimaram razões de prevalência (RP) e IC95%. Variáveis com p < 0,05 nas análises bivariadas foram incluídas, com seleção retroativa (backward) até permanência de p < 0,10. Utilizou-se o software Stata SE 15.0 (Stata Corp LP, College Station, TX, USA). Dados oficiais de casos e óbitos por covid-19 (março de 2020 a dezembro de 2022) foram consultados para contextualização.
O estudo adotou o Modelo de Crenças em Saúde (Health Belief Model)(7) e a teoria da percepção de risco como referenciais teóricos, considerando percepção de suscetibilidade, gravidade, benefícios, barreiras e estímulos à ação.
A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética do Centro Universitário Christus (parecer nº 4.997.175). Todos os participantes assinaram termo de consentimento.
RESULTADOS
Características dos participantes
Participaram do estudo 2.830 indivíduos vacinados. A maioria era do sexo feminino (53,9%), autodeclarada parda (94,1%), com ensino médio completo (42,1%), solteira (56,2%) e sem plano de saúde privado (98%). A mediana de idade foi de 39 anos (intervalo interquartil – IIQ: 24), com 51,3% entre 18 e 39 anos, 33,5% entre 40 e 59 anos e 15,2% com 60 anos ou mais (Tabela 1).
Tabela 1. Características sociodemográficas e impacto da pandemia na renda e no trabalho dos participantes do estudo. Guaramiranga, Ceará, 2021-2022. | ||||
Variáveis | N | % | ||
Sexo | ||||
Feminino | 1.502 | 53,9 | ||
Masculino | 1.286 | 46,1 | ||
Cor | ||||
Branca | 96 | 3,4 | ||
Parda | 2.646 | 94,1 | ||
Preta | 49 | 1,7 | ||
Outros | 21 | 0,7 | ||
Escolaridade (anos de estudo) | ||||
≤8 | 1.323 | 46,8 | ||
9-11 | 1.190 | 42,1 | ||
≥12 | 314 | 11,1 | ||
Estado civil | ||||
Casado/ União estável | 1.066 | 37,8 | ||
Divorciado | 67 | 2,4 | ||
Solteiro | 1.585 | 56,2 | ||
Viúvo | 103 | 3,7 | ||
Possui plano saúde | ||||
Não | 2.723 | 98,0 | ||
Sim | 55 | 2,0 | ||
Principal situação de trabalho antes do início da pandemia | ||||
Dono de empresa | 9 | 0,3 | ||
Empregado com carteira de trabalho | 527 | 18,8 | ||
Empregado sem carteira de trabalho | 611 | 21,8 | ||
Não trabalhava por ser aposentado/ dona de casa/ estudante | 885 | 31,6 | ||
Procurou, mas não encontrou trabalho | 45 | 1,6 | ||
Servidor público | 304 | 10,8 | ||
Trabalhava por conta própria/ Trabalhava sem remuneração | 427 | 15,2 | ||
Como a pandemia afetou a renda da família | ||||
Aumentou | 375 | 13.3 | ||
Diminuiu muito | 134 | 4.7 | ||
Diminuiu um pouco | 264 | 9.3 | ||
Ficou sem rendimento | 23 | 0.8 | ||
Foi mantida igual | 2.030 | 71.8 | ||
Como a pandemia afetou o trabalho | ||||
Continuou trabalhando | 1.158 | 41,6 | ||
Continuou trabalhando, mas em casa (home office) | 131 | 4,7 | ||
Não trabalhava antes e continuou sem trabalhar | 1.091 | 39,1 | ||
Ficou sem trabalhar | 305 | 10,9 | ||
Perdeu o emprego | 33 | 1,2 | ||
Teve férias remuneradas | 3 | 0,1 | ||
Começou a trabalhar após a pandemia | 66 | 2,4 | ||
Alguém do domicílio recebeu algum benefício financeiro do governo relacionado à pandemia | ||||
Não | 1.442 | 51,3 | ||
Sim (Governo estadual) | 16 | 0,6 | ||
Sim (Governo federal) | 1.351 | 48,1 | ||
Foi afastado de atividades presenciais durante a pandemia | ||||
Não | 1.687 | 62,0 | ||
Sim | 1.036 | 38,0 | ||
Condições de trabalho e renda
A renda familiar permaneceu inalterada para 71,8% dos participantes. Quase metade (48,7%) relatou que alguém no domicílio recebia benefício financeiro governamental. A maior parte dos entrevistados (62%) manteve o trabalho presencial, e 85,4% não referiram alteração trabalhista durante a pandemia (Tabela 1).
Condições de moradia e saúde
A mediana de moradores por domicílio foi 3 pessoas (IIQ: 1), variando entre 1 e 14 indivíduos. A maioria residia em casas (98,4%), com coleta regular de lixo (96,5%), fornecimento de água encanada (93,5%), acesso à internet (89,3%) e esgotamento sanitário (67,9%). A mediana de cômodos por residência foi 5 (IIQ: 2), variando entre 1 e 18 (Tabela 2). O consumo de bebidas alcoólicas foi referido por 21,5%, 18,8% declararam fazer alguma atividade física regular e 7,2% eram fumantes. As principais condições crônicas relatadas foram hipertensão (25,8%), diabetes (14,1%), cardiopatia (4,5%), câncer (3,8%), asma ou bronquite (3,6%), depressão (3,5%) e doença renal crônica (2,6%).
Tabela 2. Comportamentos preventivos adotados durante a pandemia de COVID-19 e percepções relacionadas à saúde entre os participantes do estudo. Guaramiranga, Ceará, 2021-2022. | |||
Variáveis | N | % | |
Frequência que lavava as mãos com água e sabão durante o dia (n = 2.799) | |||
Às vezes | 888 | 31,7 | |
Frequentemente | 1.846 | 66,0 | |
Nunca | 65 | 2,3 | |
Usa máscara ao sair de casa (n = 2.794) | |||
Às vezes | 904 | 32,3 | |
Frequentemente | 1.803 | 64,5 | |
Nunca | 87 | 3,1 | |
Continuou usando máscara ao sair de casa depois de vacinado (n = 2.795) | |||
Às vezes | 1.005 | 36 | |
Frequentemente | 1.690 | 60,5 | |
Nunca | 100 | 3,6 | |
Acha que a pandemia provocou mudança no estado de saúde (n = 2.695) | |||
Ficou igual | 2.368 | 87,9 | |
Melhorou | 79 | 2,9 | |
Piorou muito | 32 | 1,2 | |
Piorou um pouco | 216 | 8,0 | |
Como foi a rotina durante o isolamento social (n = 2.704) | |||
Ficou em casa o tempo todo | 743 | 27,5 | |
Não respondeu | 3 | 0,1 | |
Não sabe | 4 | 0,1 | |
Saiu apenas para coisas essenciais como comprar comida e farmácia | 1.392 | 51,5 | |
Saiu de vez em quando para comprar comida e esticar as pernas | 115 | 4,3 | |
Saiu todos os dias o dia todo para trabalhar ou outra atividade regular | 405 | 15,0 | |
Saiu todos os dias para alguma atividade | 42 | 1,6 | |
Quem tem entrado na casa (n = 2.685) | |||
Alguns parentes próximos | 925 | 34,5 | |
Amigos parentes distantes ou outros | 53 | 2,0 | |
Não respondeu | 7 | 0,3 | |
Não sabe | 31 | 1,2 | |
Só quem mora na casa e mais ninguém | 1.669 | 62,2 | |
Quantas vezes por semana essas pessoas têm entrado na casa (n = 2.024) | |||
Não respondeu | 158 | 7,8 | |
Não sabe | 109 | 5,4 | |
Visitam 1 a 2 vezes por semana | 1.546 | 76,4 | |
Visitam quase todos os dias | 211 | 10,4 | |
Fez distanciamento social (n = 2.706) | |||
Bastante | 1.340 | 49,5 | |
Mais ou menos | 1.106 | 40,9 | |
Muito pouco | 156 | 5,8 | |
Não sabe | 2 | 0,1 | |
Pouco | 69 | 2,5 | |
Praticamente isolado do mundo | 33 | 1,2 | |
Frequência que se sentiu isolado dos seus familiares ou amigos (n = 2.707) | |||
Muitas vezes | 290 | 10,7 | |
Nunca | 1.345 | 49,7 | |
Poucas vezes | 1.018 | 37,6 | |
Sempre | 54 | 2,0 | |
Frequência que se sentiu triste ou deprimido (n = 2.722) | |||
Muitas vezes | 236 | 8,7 | |
Nunca | 1.368 | 50,3 | |
Poucas vezes | 1.084 | 39,8 | |
Sempre | 34 | 1,2 | |
Frequência que se sentiu ansioso ou nervoso (n = 2.717) | |||
Muitas vezes | 263 | 9,7 | |
Nunca | 1.282 | 47,2 | |
Poucas vezes | 1.128 | 41,5 | |
Sempre | 44 | 1,6 | |
Comportamentos durante a pandemia e conhecimentos sobre medidas preventivas
A lavagem frequente das mãos com água e sabão foi relatada por 65,3% dos participantes. Entre os que saíam de casa, 63,8% afirmaram utilizar máscaras, e 59,7% mantiveram esse hábito mesmo após a vacinação. Durante os períodos de isolamento social, 27,5% relataram permanecer em casa, 51,5% saíam apenas para atividades essenciais e 15,0% continuaram com a rotina habitual (Tabela 2).
As medidas preventivas mais frequentemente citadas foram: lavar as mãos (86,0%), uso de máscara ao sair de casa (67,8%), evitar tocar olhos, nariz e boca (63,3%) e uso de álcool em gel (62,4%).
Quanto às medidas consideradas ineficazes, 99,6% dos participantes rejeitaram o uso de hidroxicloroquina; 64,8% não consideraram o distanciamento social eficaz; e 60,9% não reconheceram o isolamento como essencial.
Análise dos fatores associados
Sexo, faixa etária, escolaridade e estado civil apresentaram associação estatisticamente significativa com os comportamentos preventivos. As mulheres mostraram maior adesão ao isolamento (65,1%), ao distanciamento (63,1%) e ao uso de máscaras (54,2%). Indivíduos de 18 a 39 anos referiram maior adesão a todas as práticas, incluindo permanecer em casa (43,9%) e manter o distanciamento (45,6%).
A escolaridade influenciou comportamentos específicos: indivíduos com até 8 anos de estudo aderiram mais ao isolamento (43,9%) e ao distanciamento (40,6%), enquanto aqueles com 9 a 11 anos relataram maior frequência de lavagem das mãos (41,5%) e uso de máscara (41,4%).
Pessoas solteiras demonstraram maior adesão ao isolamento (54,3%) e ao distanciamento social (52,3%) (p < 0,001). Participantes com hipertensão e diabetes apresentaram maior adesão aos comportamentos preventivos (p < 0,005) (Tabela 3).
Condições como câncer, depressão e pior autopercepção de saúde também se associaram a maiores taxas de isolamento e distanciamento (p < 0,01) (Tabela 4). Não foram observadas associações significativas entre condições crônicas e o uso contínuo de máscara após a vacinação.
O conhecimento sobre transmissão e prevenção da covid-19, incluindo lavagem das mãos, uso de álcool em gel, evitar tocar o rosto, uso de máscara, distanciamento e isolamento, esteve positivamente associado à adoção de comportamentos protetivos (Tabela 5)
Nos modelos multivariados de regressão de Poisson com variância robusta, observaram-se padrões distintos de associação entre variáveis sociodemográficas, clínicas e os desfechos relacionados aos comportamentos preventivos. Contudo, os padrões não foram inteiramente consistentes entre os diferentes comportamentos, e nenhum modelo explicativo único prevaleceu. Isso reflete a complexidade da adesão comportamental em contextos reais, onde múltiplos fatores inter-relacionados influenciam as decisões individuais.
Tabela 3. Associação entre fatores sociodemográficos e adesão a medidas preventivas contra a covid-19. Guaramiranga, Ceará, 2021-2022. | |||||||||||||||||
Rotina durante o isolamento social (N=2.697) | Fez distanciamento social (N=2.704) | Frequência que lavava as mãos (N=2.799) | Usou máscara ao sair de casa (N=2.794) | Uma vez vacinado, usou máscara ao sair de casa (N=2.795) | |||||||||||||
| Não saiu de casa (n=743) | Saiu de casa (n=1.954) | p | Bastante (n=1.373) | Mais ou menos/pouco (n=1.331) | p | Frequentemente/ às vezes (n=2.734) | Nunca (n=65) | p | Frequentemente/às vezes (n=2.707) | Nunca (n=87) | p | Frequentemente/às vezes (n=2.695) | Nunca (n=100) | p | ||
Sexo | * | * | 0,262 | 0,010 | 0,116 | ||||||||||||
Feminino | 473 (65,1) | 952 (49,4) | 847 (63,1) | 583 (44,1) | 1.454 (54) | 29 (46,8) | 1.446 (54,2) | 34 (40) | 1.433 (54) | 45 (45,9) | |||||||
Masculino | 254 (34,9) | 977 (50,6) | 495 (36,9) | 739 (55,9) | 1.241 (46) | 33 (53,2) | 1.221 (45,8) | 51 (60) | 1.222 (46) | 53 (54,1) | |||||||
Faixa etária (anos) | * | * | * | 0,007 | 0,001 | ||||||||||||
18-39 | 326 (43,9) | 1043 (53,4) | 626 (45,6) | 745 (56) | 1.382 (50,5) | 47 (72,3) | 1.372 (50,7) | 56 (64,4) | 1.358 (50,4) | 68 (68) | |||||||
40-59 | 210 (28,3) | 697 (35,7) | 464 (33,8) | 447 (33,6) | 925 (33,8) | 18 (27,7) | 914 (33,8) | 27 (31) | 916 (34) | 27 (27) | |||||||
≥60 | 207 (27,9) | 214 (11) | 283 (20,6) | 139 (10,4) | 427 (15,6) | 0 (0) | 421 (15,6) | 4 (4,6) | 421 (15,6) | 5 (5) | |||||||
Etnia | 0,112 | 0,001 | 0,575 | 0,259 | 0,219 | ||||||||||||
Branca | 27 (3,7) | 60 (3,1) | 63 (4,6) | 25 (1,9) | 91 (3,3) | 3 (4,6) | 91 (3,4) | 0 (0) | 92 (3,4) | 0 (0) | |||||||
Parda | 696 (94,4) | 1.828 (94,1) | 1.262 (92,5) | 1267 (95,8) | 2.556 (94,1) | 62 (95,4) | 2.529 (94) | 86 (98,9) | 2.519 (94,1) | 98 (98) | |||||||
Preta | 13 (1,8) | 35 (1,8) | 27 (2) | 22 (1,7) | 49 (1,8) | 0 (0) | 48 (1,8) | 1 (1,1) | 46 (1,7) | 2 (2) | |||||||
Outros | 1 (0,1) | 20 (1) | 13 (1) | 8 (0,6) | 21 (0,8) | 0 (0) | 21 (0,8) | 0 (0) | 21 (0,8) | 0 (0) | |||||||
Escolaridade (anos de estudo) | * | * | 0,033 | 0,014 | 0,021 | ||||||||||||
≤8 | 413 (55,8) | 862 (44,2) | 682 (49,8) | 595 (44,8) | 1.290 (47,2) | 23 (35,4) | 1.281 (47,3) | 29 (33,3) | 1.274 (47,3) | 39 (39) | |||||||
9-11 | 265 (35,8) | 847 (43,4) | 523 (38,1) | 594 (44,7) | 1.132 (41,5) | 39 (60) | 1.118 (41,3) | 52 (59,8) | 1.114 (41,4) | 56 (56) | |||||||
≥12 | 63 (8,5) | 244 (12,5) | 166 (12,1) | 141 (10,6) | 309 (11,3) | 3 (4,6) | 305 (11,3) | 6 (6,9) | 304 (11,3) | 5 (5) | |||||||
Estado civil | * | * | 0,14 | 0,741 | 0,656 | ||||||||||||
Casado/União estável | 258 (35) | 751 (38,5) | 537 (39,3) | 476 (35,9) | 0 (0) | 0 (0) | 1.019 (37,8) | 28 (32,2) | 1.012 (37,7) | 35 (35,4) | |||||||
Divorciado | 22 (3) | 41 (2,1) | 37 (2,7) | 26 (2,0) | 66 (3,9) | 0 (0) | 64 (2,4) | 2 (2,3) | 66 (2,5) | 1 (1,0) | |||||||
Viúvo | 57 (7,7) | 45 (2,3) | 79 (5,8) | 23 (1,7) | 102 (6) | 0 (0) | 99 (3,7) | 3 (3,4) | 98 (3,6) | 3 (3,0) | |||||||
Solteiro | 401 (54,3) | 1.113 (57,1) | 715 (52,3) | 802 (60,4) | 1.536 (90,1) | 36 (100) | 1.516 (56,2) | 54 (62,1) | 1.511 (56,2) | 60 (60,6) | |||||||
Impacto da pandemia no trabalho | |||||||||||||||||
A | 368 (41,6) | 477 (53,9) | * | 566 (64) | 281 (31,8) | * | 864 (97,6) | 10 (1,1) | * | 858 (96,9) | 16 (1,8) | * | 848 (95,8) | 25 (2,8) | 0,007 | ||
B | 24 (3,4) | 102 (5,2) | 0,045 | 70 (5,2) | 56 (4,2) | 0,23 | 129 (4,8) | 0 (0) | 0,073 | 129 (4,8) | 2 (2,4) | 0,436 | 129 (4,9) | 0 (0) | 0,014 | ||
C | 69 (9,7) | 223 (11,5) | 0,198 | 185 (13,8) | 106 (8) | * | 301 (11,2) | 2 (3,1) | 0,042 | 295 (11,1) | 8 (9,4) | 0,632 | 295 (11,1) | 9 (9,2) | 0,549 | ||
D | 438 (61,6) | 599 (30,8) | * | 654 (48,8) | 386 (29,2) | * | 1.060 (39,4) | 19 (29,7) | 0,117 | 1.052 (39,5) | 24 (28,2) | 0,037 | 1.046 (39,4) | 31 (31,6) | 0,121 | ||
Legenda: *p-valor <0,001; A. Não trabalhava por ser aposentado/ dona de casa/ estudante; B. Continuou trabalhando em casa; C. Ficou sem trabalhar; D. Não trabalhava antes e continuou sem trabalhar.
Tabela 4. Associação entre condições clínicas e adoção de comportamentos preventivos contra a covid-19. Guaramiranga, Ceará, 2021-2022. | |||||||||||||||
| Como foi sua rotina durante o isolamento social (N=2.697) | Fez distanciamento social (N=2.704) | Com que frequência lava as mãos (N=2.799) | Usa máscara ao sair de casa (N=2.794) | |||||||||||
| Não saiu (n=743) | Saiu (n=1954) | p | Bastante isolado (n=1373) | Mais ou menos/pouco isolado (n=1331) | p | As vezes/frequentemente (n=2734) | Nunca (n=65) | p | Frequentemente/às vezes (n=2707) | Nunca (n=87) | p | |||
Uso de álcool | 89 (12,5) | 481 (24,8) | * | 221 (16,5) | 350 (26,6) | * | 572 (21,8) | 5 (8,2) | 0,01 | 563 (21,7) | 15 (17,6) | 0,368 | |||
Já fumou | 105 (14,7) | 281 (14,6) | 0,947 | 203 (15,3) | 186 (14,1) | 0,407 | 399 (15) | 1 (1,6) | 0,003 | 388 (14,7) | 10 (11,5) | 0,398 | |||
Pratica atividade física | 121 (16,9) | 376 (19,4) | 0,136 | 279 (20,8) | 220 (16,7) | 0,007 | 505 (19,1) | 3 (4,7) | 0,003 | 501 (19,2) | 10 (11,6) | 0,079 | |||
Diabetes | 0,003 | * | 0,184 | * | |||||||||||
Não | 597 (80,6) | 1657 (85,4) | 1109 (81,2) | 1153 (87,2) | 2213 (83,9) | 58 (92,1) | 2191 (83,9) | 78 (89,7) | |||||||
Sim | 132 (17,8) | 247 (12,7) | 233 (17,1) | 144 (10,9) | 374 (14,2) | 5 (7,9) | 371 (14,2) | 8 (9,2) | |||||||
Não sabe | 12 (1,6) | 36 (1,9) | 23 (1,7) | 26 (2) | 50 (1,9) | 0 (0) | 48 (1,8) | 1 (1,1) | |||||||
Hipertensão | * | * | 0,016 | 0,019 | |||||||||||
Não | 474 (64) | 1496 (76,6) | 918 (67) | 1056 (79,5) | 1928 (72,8) | 56 (88,9) | 1909 (72,8) | 75 (86,2) | |||||||
Sim | 259 (35) | 437 (22,4) | 440 (32,1) | 259 (19,5) | 694 (26,2) | 7 (11,1) | 687 (26,2) | 12 (13,8) | |||||||
Não sabe | 8 (1,1) | 19 (1) | 13 (0,9) | 14 (1,1) | 27 (1) | 0 (0) | 26 (1) | 0 (0) | |||||||
Câncer | 0,005 | 0,016 | 0,634 | 0,163 | |||||||||||
Não | 690 (92,9) | 1863 (95,6) | 1284 (93,7) | 1276 (96,1) | 2507 (94,9) | 61 (96,8) | 2478 (94,7) | 86 (98,9) | |||||||
Sim | 43 (5,8) | 60 (3,1) | 66 (4,8) | 37 (2,8) | 102 (3,9) | 2 (3,2) | 104 (4) | 0 (0) | |||||||
Não sabe | 10 (1,3) | 25 (1,3) | 20 (1,5) | 15 (1,1) | 34 (1,3) | 0 (0) | 34 (1,3) | 1 (1,1) | |||||||
Depressão | 0,001 | * | 0,181 | 0,416 | |||||||||||
Não | 694 (93,5) | 1862 (95,5) | 1277 (93,1) | 1286 (97) | 2507 (94,9) | 63 (100) | 2482 (94,9) | 83 (95,4) | |||||||
Sim | 26 (3,5) | 68 (3,5) | 65 (4,7) | 29 (2,2) | 94 (3,6) | 0 (0) | 90 (3,4) | 4 (4,6) | |||||||
Não sabe | 22 (3) | 19 (1) | 30 (2,2) | 11 (0,8) | 42 (1,6) | 0 (0) | 43 (1,6) | 0 (0) | |||||||
Como você avalia sua saúde | * | * | 0,111 | 0,813 | |||||||||||
Péssima | 5 (0,7) | 5 (0,3) | 7 (0,5) | 3 (0,2) | 10 (0,4) | 0 (0) | 9 (0,3) | 0 (0) | |||||||
Ruim | 15 (2) | 11 (0,6) | 21 (1,5) | 5 (0,4) | 26 (1) | 0 (0) | 25 (1) | 1 (1,2) | |||||||
Moderada | 141 (19) | 251 (12,9) | 267 (19,5) | 126 (9,5) | 391 (14,8) | 2 (3,3) | 385 (14,7) | 9 (10,5) | |||||||
Boa | 537 (72,5) | 1516 (77,8) | 949 (69,3) | 1109 (83,5) | 2005 (75,9) | 53 (86,9) | 1985 (76) | 69 (80,2) | |||||||
Excelente | 43 (5,8) | 166 (8,5) | 125 (9,1) | 85 (6,4) | 208 (7,9) | 6 (9,8) | 208 (8) | 7 (8,1) | |||||||
Acha que a pandemia provocou mudança no estado de saúde | 0,006 | * | 0,036 | 0,16 | |||||||||||
Piorou muito | 10 (1,4) | 19 (1) | 24 (1,8) | 6 (0,5) | 32 (1,2) | 0 (0) | 31 (1,2) | 0 (0) | |||||||
Piorou pouco | 79 (10,7) | 136 (7) | 151 (11,1) | 63 (4,8) | 216 (8,2) | 0 (0) | 214 (8,3) | 2 (2,3) | |||||||
Ficou igual | 632 (85,8) | 1719 (88,7) | 1139 (83,8) | 1219 (92,2) | 2295 (87,5) | 60 (100) | 2273 (87,7) | 81 (94,2) | |||||||
Melhorou | 16 (2,2) | 63 (3,3) |
| 45 (3,3) | 34 (2,6) |
| 79 (3) | 0 (0) |
| 75 (2,9) | 3 (3,5) |
| |||
Legenda: *p-valor <0,001. | |||||||||||||||
Tabela 5. Associação de conhecimentos sobre covid-19 e comportamentos de prevenção contra a covid-19 entre participantes do estudo. Guaramiranga, Ceará, 2021-2022. | ||||||||||||||||||||||||
| Como foi sua rotina durante o isolamento social (N=2.697) | Fez distanciamento social (N=2.704) | Com que frequência lava as mãos (N=2.799) | Usa máscara ao sair de casa (N=2.794) | Uma vez vacinado, usa máscara ao sair de casa (N=2.795) | |||||||||||||||||||
| Não saiu (n=743) | Saiu (n=1954) | p | Bastante (n=1373) | Mais ou menos/ pouco (n=1331) | p | Frequentemente/ às vezes (n=2734) | Nunca (n=65) | p | Frequentemente/ às vezes (n=2707) | Nunca (n=87) | p | Frequentemente/ às vezes (n=2695) | Nunca (n=100) | p | |||||||||
O que você acha que pode proteger contra a covid-19? | ||||||||||||||||||||||||
A | 644 (86,7) | 1781 (91,1) | 0,001 | 1195 (87) | 1234 (92,7) | * | 2368 (86,6) | 53 (81,5) | 0,237 | 2338 (86,4) | 80 (92) | 0,133 | 2331 (86,5) | 93 (93) | 0,06 | |||||||||
B | 453 (61) | 1339 (68,5) | * | 866 (63,1) | 930 (69,9) | * | 1787 (65,4) | 8 (12,3) | * | 1766 (65,2) | 23 (26,4) | * | 1761 (65,3) | 33 (33) | * | |||||||||
C | 549 (73,9) | 1362 (69,7) | 0,033 | 1107 (80,6) | 807 (60,6) | * | 1854 (67,8) | 52 (80) | 0,037 | 1832 (67,7) | 77 (88,5) | * | 1826 (67,8) | 83 (83) | 0,001 | |||||||||
D | 331 (44,5) | 770 (39,4) | 0,015 | 712 (51,9) | 390 (29,3) | * | 1098 (40,2) | 3 (4,6) | * | 1078 (39,8) | 22 (25,3) | 0,006 | 1073 (39,8) | 29 (29) | 0,03 | |||||||||
E | 2 (0,3) | 10 (0,5) | 0,53 | 6 (0,4) | 7 (0,5) | 0,738 | 13 (0,5) | 0 (0) | 1 | 10 (0,4) | 3 (3,4) | 0,007 | 11 (0,4) | 2 (2) | 0,076 | |||||||||
F | 517 (69,6) | 1241 (63,5) | 0,003 | 1069 (77,9) | 693 (52,1) | * | 1707 (62,4) | 48 (73,8) | 0,06 | 1681 (62,1) | 73 (83,9) | * | 1675 (62,2) | 83 (83) | * | |||||||||
G | 300 (40,4) | 692 (35,4) | 0,017 | 676 (49,2) | 318 (23,9) | * | 990 (36,2) | 2 (3,1) | * | 970 (35,8) | 19 (21,8) | 0,007 | 968 (35,9) | 24 (24) | 0,014 | |||||||||
H | 2 (0,3) | 9 (0,5) | 0,738 | 3 (0,2) | 8 (0,6) | 0,118 | 11 (0,4) | 0 (0) | 1 | 10 (0,4) | 1 (1,1) | 0,294 | 10 (0,4) | 1 (1) | 0,331 | |||||||||
Legenda: * p-valor <0,001. A. Lavar as mãos; B. Não colocar as mãos na boca nariz ou olhos; C. Usar máscara sempre que sair de casa; D. Ficar em casa e evitar contato com outras pessoas; E. Ser jovem; F. Limpar as mãos com álcool gel; G. Quando tiver fora de casa não ficar perto de outras pessoas; H. Tomar cloroquina.
DISCUSSÃO
Este estudo analisou a manutenção de comportamentos preventivos relacionados à covid-19 entre adultos totalmente vacinados no município de Guaramiranga, localizado na região serrana do estado do Ceará. Esse foi o primeiro município totalmente vacinado a partir de uma decisão local de tê-lo como piloto no Ceará. Os dados transversais fornecem evidências relevantes sobre a persistência de práticas protetivas, como higienização das mãos, uso de máscaras e distanciamento social, mesmo após a ampla cobertura vacinal. A adoção dessas práticas esteve associada a características sociodemográficas, condições de saúde e conhecimento sobre transmissão da doença, reforçando a influência da percepção de risco e da alfabetização em saúde sobre o comportamento individual.
Mulheres e adultos mais jovens demonstraram maior engajamento com os comportamentos preventivos, o que está em consonância com achados de alguns estudos nacionais e internacionais(4,5,7). A menor adesão entre os homens reforça a literatura sobre diferenças de percepção de risco e comportamento de saúde com base em gênero. Embora os idosos apresentem maior risco de evolução grave da covid-19, dinâmicas sociais e familiares podem dificultar seu isolamento completo, como observado neste estudo, em que domicílios com pessoas idosas frequentemente recebiam visitas.
A escolaridade apresentou padrão duplo de associação: indivíduos com menor nível educacional relataram mais isolamento e distanciamento, possivelmente devido a restrições ocupacionais, enquanto aqueles com maior escolaridade demonstraram maior adesão ao uso de máscaras e à higiene das mãos, um padrão também observado em outras populações(8–10).
Condições de moradia e situação ocupacional não se mostraram determinantes relevantes no presente estudo, possivelmente devido às particularidades de Guaramiranga, município de pequeno porte, com relativa estabilidade socioeconômica e beneficiado por auxílios financeiros governamentais durante a pandemia. Esse resultado difere do observado em grandes centros urbanos, onde a precariedade habitacional, o trabalho informal e a insegurança financeira foram associados à menor adesão às medidas de proteção(8,11). Por outro lado, estudo conduzido com idosos em Belo Horizonte revelou maior adesão a comportamentos preventivos entre indivíduos com menor renda, sugerindo que, em determinados contextos, a percepção de vulnerabilidade pode impulsionar práticas de autoproteção, mesmo diante de limitações socioeconômicas(12).
No presente estudo, condições como hipertensão arterial, diabetes mellitus e multimorbidade foram associadas a maior adesão às práticas preventivas, em consonância com achados no Brasil(13,14) e em outros países(10,15,16). Apesar dos amplos relatos de sofrimento psíquico durante a pandemia(17,18), poucos participantes referiram problemas de saúde mental, possivelmente devido a fatores protetores como coesão social e aspectos do modo de vida rural, uma hipótese que merece investigação futura.
A prática de atividade física não se associou aos comportamentos preventivos, o que pode refletir uma percepção reduzida de vulnerabilidade entre indivíduos fisicamente ativos(19). Embora Syukkur e Sipollo (2022) não tenham avaliado diretamente a atividade física, seus achados corroboram que a percepção de risco e o estado de saúde são mais preditivos dos comportamentos protetivos do que variáveis sociodemográficas(16).
O conhecimento sobre a covid-19 e a percepção de risco foram centrais para a manutenção dos comportamentos preventivos. Indivíduos com maior compreensão sobre medidas eficazes relataram mais adesão. No entanto, a subvalorização do distanciamento e do isolamento por parte de alguns participantes levanta preocupações sobre possíveis lacunas na comunicação pública e disseminação de informações equivocadas, o que também foi relatado em outras regiões do Brasil(20).
O Modelo de Crenças em Saúde oferece um referencial teórico adequado para interpretar esses achados7). Participantes que se percebiam como suscetíveis, seja por idade, sexo ou comorbidades, demonstraram maior adesão. A percepção de benefícios pessoais e coletivos também favoreceu comportamentos protetivos, enquanto barreiras como desinformação e redução da percepção de risco após a vacinação funcionaram como obstáculos.
Comparações internacionais reforçam essas interpretações. Na Tailândia, Piboon et al.(21) observaram que adultos mais velhos mantiveram medidas preventivas devido à percepção de risco e à comunicação eficaz. Curiosamente, no presente estudo, participantes com baixa escolaridade relataram mais isolamento e distanciamento, o que pode estar mais relacionado a contextos ocupacionais ou restrições sociais do que à maior percepção de risco, diferindo dos achados de Papageorge et al.(9), que atribuíram menor adesão a limitações estruturais. Isso indica que estratégias educativas adaptadas ao contexto local podem mitigar desvantagens estruturais e promover maior equidade em saúde.
A adesão ao uso de máscaras em Guaramiranga (63,8%) foi inferior à observada em outros contextos brasileiros, onde estudos identificaram alta frequência de uso (95,5 a 97,1%), sobretudo entre mulheres e pessoas mais velhas. Esses achados reforçam o papel das características sociodemográficas e da percepção de risco na adoção de comportamentos preventivos, mesmo em fases anteriores à vacinação em massa(22,23). Resultados semelhantes foram encontrados em áreas rurais fora do Brasil, como em Uganda, onde 70,8% dos residentes relataram uso contínuo de máscaras durante a pandemia(24). Tais evidências sugerem que fatores como o tamanho populacional reduzido, a coesão comunitária e o acesso local à informação em saúde contribuem para a sustentabilidade das medidas de proteção.
A confiança social também parece exercer papel relevante. Estudo nos EUA identificou a percepção de risco pessoal como principal preditor de comportamentos preventivos(25). Em Guaramiranga, vínculos comunitários e fontes locais confiáveis de informação podem ter mitigado a fadiga comportamental e sustentado as práticas protetivas.
Embora estudos semelhantes tenham sido realizados em países de alta renda no início da pandemia, este trabalho traz contribuições originais ao evidenciar a persistência de comportamentos preventivos após a vacinação em um município pequeno, rural e turístico. Essa evidência contextualizada é valiosa para estratégias de saúde pública em países de baixa e média renda, onde fatores estruturais e culturais influenciam a resiliência comportamental. Os achados sustentam que práticas preventivas podem se manter em comunidades coesas e bem informadas, mesmo sem imposição, destacando o papel da confiança e do capital social nas políticas de longo prazo.
Entre as limitações, destaca-se o delineamento transversal, que impede inferências causais, e o uso de dados autorreferidos, sujeitos a viés de memória e desejabilidade social. A generalização também pode ser restrita pelas particularidades locais, como alta cobertura vacinal e mobilização comunitária. Por outro lado, o estudo apresenta pontos fortes: ampla amostra representativa, coleta durante a pandemia e interpretação baseada em modelo teórico estruturado. Apesar das limitações, fornece subsídios relevantes sobre a adesão sustentada a comportamentos protetivos após a vacinação, sugerindo que informação qualificada, coesão social e confiança institucional são determinantes para sua continuidade. Pesquisas futuras devem investigar a evolução longitudinal desses comportamentos e o impacto de estratégias comunicacionais em contextos semelhantes.
CONCLUSÃO
Este estudo investigou a adesão a comportamentos preventivos frente à covid-19 entre adultos vacinados em Guaramiranga, Brasil, e identificou associações relevantes com idade, sexo, escolaridade, comorbidades e percepção de risco. Apesar da alta cobertura vacinal, a maioria dos participantes continuou adotando a higienização das mãos e o uso de máscaras, enquanto o distanciamento e o isolamento foram praticados de forma menos consistente.
Esses achados ressaltam o papel do letramento em saúde e do contexto sociocultural local na sustentação de comportamentos protetivos, mesmo após a vacinação. Os resultados podem subsidiar futuras estratégias de saúde pública voltadas à melhoria da adesão às medidas preventivas, especialmente em municípios de pequeno porte com vocação turística. Adicionalmente, este estudo enfatiza o valor da vigilância comportamental nas fases pós-vacinação e a importância de dados localizados para orientar intervenções direcionadas e fortalecer a resiliência comunitária diante de futuras emergências sanitárias.
REFERÊNCIAS
AGRADECIMENTOS
Gostaríamos de agradecer às profissionais Debora Bezerra Silva e Roberto Wagner Júnior Freire de Freitas pelo apoio durante a investigação dos casos e validação dos dados, e a Sharmênia de Araújo Soares Nuto pela colaboração na elaboração dos questionários e revisão dos dados.
APOIO FINANCEIRO
A presente pesquisa foi financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), concedida a Luciano Pamplona de Góes Cavalcanti (Processo 310579/2022-8 e Processo 405119/2023-2). Os financiadores não influenciaram na publicação do manuscrito.
DECLARAÇÃO DE CONFLITO DE INTERESSE FINANCEIRO E/OU DE AFILIAÇÕES
Os autores declararam não possuir conflitos de interesse.
Lourrany Borges Costa
Doutorando em Saúde Pública pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Docente da Faculdade de Medicina da Universidade de Fortaleza (Unifor).
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Antônia Luciana Souza Bekman
Especialista em Saúde Pública. Atua na Secretaria Municipal de Saúde de Guaramiranga, Ceará.
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Silvana Soares de Souza
Administradora. Atua na Secretaria Municipal de Saúde de Guaramiranga, Ceará.
Endereço: Rua Joaquim Alves Nogueira, 409 – Centro, Guaramiranga-CE – CEP: 62766-000
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ORCID: https://orcid.org/0009-0003-9603-9187
Francisca Kalline de Almeida Barreto
Doutora em Saúde Pública pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Docente da Faculdade de Medicina do Centro Universitário Christus (Unichristus).
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ORCID: https://orcid.org/0000-0001-9767-7154
Ana Carolina Barjud Marques Máximo
Mestre em Gestão em Saúde pela Universidade Estadual do Ceará (UECE). Pesquisadora do Laboratório Central de Saúde Pública do Ceará (LACEN).
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ORCID: https://orcid.org/0000-0001-9927-4631
Fernanda Kézia Sousa Silva
Especialista em Hematologia Clínica e Banco de Sangue pelo Centro Universitário Christus (Unichristus).
Endereço: Rua João Adolfo Gurgel, 133 – Cocó, Fortaleza-CE – CEP: 60192-330
E-mail: fernanda.kezia15@gmail.com
Telefone: +55 85 99955‑2245
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-3485-1079
Magda Moura de Almeida
Doutora em Saúde Pública pela Universidade Federal do Ceará. Docente da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará.
Endereço: Rua Prof. Costa Mendes, 1608 – Rodolfo Teófilo, Fortaleza-CE – CEP: 60430-140
E-mail: magda.almeida@ufc.br
Telefone: +55 85 98193-3254
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-4806-2345
Luciano Pamplona de Góes Cavalcanti
Doutor em Ciências Médicas pela Universidade Federal do Ceará. Docente da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Faculdade de Medicina do Centro Universitário Christus (Unichristus).
Endereço: Rua Prof. Costa Mendes, 1608 – Rodolfo Teófilo, Fortaleza-CE – CEP: 60430-140
E-mail: luciano.pamplona@esp.ce.gov.br
Telefone: +55 85 99987-8969
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-3440-1182