REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DA GRAVIDEZ NA ADOLESCÊNCIA NO CONTEXTO DA ATENÇÃO PRIMÁRIA EM SAÚDE

SOCIAL REPRESENTATIONS OF ADOLESCENT PREGNANCY IN THE CONTEXT OF PRIMARY HEALTH CARE

REPRESENTACIONES SOCIALES DEL EMBARAZO ADOLESCENTE EN EL CONTEXTO DE LA ATENCIÓN PRIMARIA DE SALUD

Gabriella Bayer Baldo; Acadêmica de Enfermagem Centro Universitário do Espírito Santo - UNESC; https://orcid.org/0009-0006-3359-5460

Laura Sperandio Nascimento; Acadêmica de Medicina Centro Universitário do Espírito Santo - UNESC; https://orcid.org/0000-0002-6288-4396

Suelen Mayara Hartwig; Acadêmica de Medicina Centro Universitário do Espírito Santo - UNESC; https://orcid.org/0009-0001-8371-4716

Larissa Martelete Tiussi; Acadêmica de medicina Centro Universitário do Espírito Santo - UNESC; https://orcid.org/0000-0002-2808-3800

Julia Lima Marino; Acadêmica de Medicina Centro Universitário do Espírito Santo - UNESC; https://orcid.org/0000-0002-2710-5182

Fabiana de Souza Mattos; Enfermeira; https://orcid.org/0009-0008-8863-3975

Érica dos Santos Silva; Enfermeira obstétrica; https://orcid.org/0009-0008-5571-7072

Adriene de Freitas Moreno Rodrigues; Mestre em Gestão Integrada do Território; Enfermeira; Professora Universitária do Centro Universitário do Espírito Santo - UNESC https://orcid.org/0000-0001-5028-3262


RESUMO

O estudo tem como objetivo avaliar as representações sociais da gravidez na adolescência na atenção primária à saúde, de um município do Espírito Santo, tendo como público-alvo adolescentes que vivenciavam a gestação. Tratou-se de um estudo observacional, descritivo, transversal, de abordagem qualitativa, tendo como base a Teoria geral das Representações Sociais. Os resultados principais concentraram-se nas evocações amor e responsabilidade, provavelmente relacionados ao contexto cultural e religioso. Portanto, para a compreensão desse evento é necessário se aprofundar na trajetória particular de cada jovem, sendo indispensável, evidenciar a necessidade de estratégias públicas que promovam a educação sexual.

DESCRITORES: Gravidez na adolescência; Educação sexual; Atenção primária à saúde; Planejamento familiar; Saúde do adolescente.

ABSTRACT

The study aims to evaluate the social representations of teenage pregnancy in primary health care in a municipality of Espírito Santo, focusing on adolescents who were experiencing pregnancy. This was an observational, descriptive, cross-sectional study with a qualitative approach, based on the General Theory of Social Representations. The main results centered on the evocations of love and responsibility, likely linked to cultural and religious contexts. Therefore, understanding this phenomenon requires a deeper look into each young woman’s individual experience, highlighting the need for public strategies that promote sexual education.

RESUMEN

El estudio tiene como objetivo evaluar las representaciones sociales del embarazo en la adolescencia en la atención primaria de salud, en un municipio del estado de Espírito Santo, teniendo como público objetivo a adolescentes que estaban viviendo la gestación. Se trató de un estudio observacional, descriptivo, transversal, con un enfoque cualitativo, basado en la Teoría General de las Representaciones Sociales. Los principales resultados se centraron en las evocaciones de amor y responsabilidad, probablemente relacionadas con el contexto cultural y religioso. Por lo tanto, para comprender este fenómeno es necesario profundizar en la trayectoria particular de cada joven, siendo indispensable evidenciar la necesidad de estrategias públicas que promuevan la educación sexual.

INTRODUÇÃO

A adolescência compreende o período de 10 a 19 anos de idade(1) marcada por mudanças corporais e hormonais que envolvem diversos desdobramentos, dentre elas a gravidez(2). Esse fenômeno, considerado multifatorial, assume diferentes significados e repercussões a depender do contexto em que a adolescente está inserida(3).

No Brasil, a gravidez na adolescência é uma preocupação de saúde pública. Dados do Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (SINASC) apontam que, em 2019, foram registrados mais de 434.000 nascimentos de mães adolescentes, representando uma taxa de cerca de 44,2 nascimentos para cada 1.000 adolescentes de 15 a 19 anos(4).

Esse fenômeno complexo é fortemente influenciado por determinantes socioeconômicos, como pobreza, baixa escolaridade e falta de oportunidades econômicas. Tais fatores, associados ao acesso limitado a serviços de saúde, à vulnerabilidade social ampliada, à escassez de educação sexual e reprodutiva e à insuficiente compreensão sobre as implicações da gravidez precoce, elevam significativamente o risco de uma adolescente engravidar(6,7). Ademais, a ausência de uma rede de apoio familiar estruturada, bem como normas sociais que naturalizam ou incentivam a sexualidade precoce e a maternidade juvenil, também contribuem para a maior vulnerabilidade das adolescentes à gravidez precoce(5,6,7).    

                Nesse período, a adolescente é impactada por transformações físicas e emocionais, as quais estão relacionadas a expectativa em ser mãe, ao medo acerca de responsabilidades futuras e possíveis reações familiares(8). No entanto, apesar das consequências que são consideradas negativas, a maternidade jovem também pode ser um evento desejado, visto como um processo gratificante e um projeto de vida a ser seguido, evidenciando sentimentos ambíguos em relação à gestação(9).

Destarte, o estudo tem como objetivo avaliar as representações sociais da gravidez na adolescência, além de possuir a finalidade de listar o perfil sociodemográfico das participantes da pesquisa, bem como identificar suas percepções sobre a gestação em todos os seus estágios. Diante disso, entende-se que a relevância da pesquisa se debruça nas múltiplas áreas de trabalho de educação em saúde sexual e reprodutiva para adolescentes e, consequentemente, abarca dados para estabelecimento de estratégias de saúde coletiva para o referido público.

MATERIAIS E MÉTODOS

Tratou-se de um estudo observacional, descritivo, transversal, de abordagem qualitativa, realizado no período de julho a novembro de 2022 e maio a julho de 2023, no município de Colatina, Espírito Santo, Brasil. A amostra foi constituída por 56 adolescentes assistidas na atenção primária à saúde e em uma maternidade de referência na região noroeste do Espírito Santo.

Como critérios de inclusão para estudo, foram abordadas adolescentes de 12 a 19 anos, pelo menos no segundo trimestre de gestação ou no puerpério. Foram excluídas do estudo adolescentes portadoras de transtornos psiquiátricos, as não acompanhadas por responsável legal, as que não quiseram participar da pesquisa, as que não receberam autorização para a participação no estudo pelos responsáveis, as que sofreram aborto ou óbito fetal e as que estavam no puerpério imediato e mediato de cesariana.

Cada adolescente do estudo foi nomeada de ‘A’ seguido de uma numeração arábica sequencial. Os dados foram obtidos por meio de entrevista com um formulário semiestruturado e com auxílio de um gravador digital, foram coletadas as evocações para coleta integral da fala seguindo a estruturação e construção da Teoria Geral das Representações Sociais. As informações foram coletadas mediante a assinatura do Termo de Assentimento Livre e Esclarecido (TALE) pelas participantes e do Termo de Consentimento Livre Esclarecido (TCLE) por seus pais e/ou responsáveis legais, ambos impressos com uma cópia para cada um dos envolvidos.

Esta pesquisa foi submetida ao Comitê de Ética em Pesquisa do Centro Universitário do Espírito Santo (UNESC), obtendo o certificado de apresentação para apreciação ética (CAAE) número 58561822.5.0000.5062, e parecer aprovado sob o número 5.487.586, atendendo aos critérios concebidos pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP) pelas Resoluções do CNS nº 466/2012 e 510/2016.

Os dados qualitativos foram tratados após a aplicação das entrevistas gravadas, sendo estas digitalizadas e transcritas para análises semânticas das informações e extração das evocações. Posteriormente, os dados foram elucidados pelo software openEVOC 0.92, que permitiu a realização de cálculos estatísticos, estabelecendo matrizes de co-ocorrências que serviram de base para a construção do quadro de quatro casas, processando o núcleo central e sistema periférico da representação social da gravidez na adolescência(10).

Considerando essa metodologia, a teoria das representações sociais (TRS) é uma construção que o sujeito faz para entender o mundo e para se comunicar. O estudo das representações sociais possibilita compreender como os conhecimentos e valores sobre o outro inferem nas práticas cotidianas(11). Dessa maneira, a teoria do núcleo central (TNC) é uma forma de abordagem da teoria das representações sociais que é organizada em torno de um núcleo central, relacionado à memória coletiva, e um sistema periférico. O núcleo central dá consistência e permanência à representação, sendo ela estável e resistente a mudanças.

RESULTADOS

Inicialmente, caracterizou-se o perfil social e obstétrico das 56 gestantes adolescentes participantes. O perfil sociodemográfico das participantes é apresentado na tabela 1.

Tabela 1: Perfil sociodemográfico de adolescentes gestantes em Colatina, Espírito Santo, Brasil, 2023.

Categorias

N

%

Faixa etária

12 a 14 anos

10

18

15 a 17 anos

40

72

18 a 19 anos

6

10

Escolaridade

Ens. Fund. Incompl.

23

41

Ens. Fund. Compl.

4

7

Ens. Médio Incompl.

27

48

Ens. Médio Compl.

2

4

Estado Civil

Solteiras

23

41

Casadas

3

7

União Estável

29

52

Cor Declarada

Amarelo

3

5

Preto

6

11

Branco

6

11

Pardo

41

73

Fonte: Dados da Pesquisa, 2023.

As faixas etárias mais frequentes se concentraram entre 16 e 17 anos (58%). Acerca do nível de escolaridade, muitas interromperam seus estudos, apenas 7% possuíam ensino fundamental completo e 4% ensino médio completo. Quanto à etnia, 73% se declaram pardas, 11% brancas, 11% pretas e 5% amarelas. Além disso, em relação ao estado civil, 52% das adolescentes se declararam em união estável, em contrapartida, 41% estavam solteiras. Por fim, no tocante à religião, 39% declararam-se católicas, 34% protestantes, 2% espíritas e 25% não possuem religião.

No que tange ao planejamento da gravidez, 71% das gestações atuais não foram planejadas e 62,5% não faziam uso de anticoncepcional. Ademais, 43% das entrevistadas afirmam não ter recebido educação sexual ou participado de planejamento familiar. Dessa forma, ao avaliar a idade gestacional das participantes tem-se: 41% tinham menos que 37 semanas; 16% entre 37 e 40 semanas e 4% mais que 41 semanas. No entanto, 39% desconheciam sua idade gestacional. A respeito do pré-natal, 98% estavam em acompanhamento regular.

As intercorrências gestacionais ocorreram em 55% das participantes entrevistadas, sendo as mais frequentes: picos pressóricos (8), diabetes mellitus gestacional (6), feto pequeno para idade gestacional (5) e infecção do trato urinário (4).

O resultado da associação livre em relação aos primeiros pensamentos acerca da gestação foi uma lista com 226 palavras. Observou-se que a palavra “amor” apareceu com o maior número de evocações (23), seguido de responsabilidade (18) e felicidade (16). 

Quadro 01: Quadro de casas formado pelos elementos que compõem o núcleo central e a periferia de uma representação social da gravidez na adolescência em Colatina, Espírito Santo, Brasil, 2023.

++

Frequência >= 3 / Ordem de evocação < 2,5

10.18%

Amor

1.83

7.95%

Responsabilidade

1.44

+-

Frequência >= 3 / Ordem de evocação >= 2,5

7.08%

Felicidade

2.5

4.42%

Medo

3.1

4.42%

Carinho

3.6

3.54%

Alegria

2.88

-+

Frequência < 3 / Ordem de evocação < 2,5

1.77%

Cuidado

2

1.77%

Tristeza

2.25

1.33%

Ansiedade

2.35

--

Frequência < 3 / Ordem de evocação >= 2,5

2.21%

Dificuldades

3.2

2.21%

Afeto

3.4

1.77%

Educação

2.5

1.77%

Família

2.75

1.77%

Desespero

3

1.33%

Preocupação

3

1.33%

Dor

3

Fonte: Corpus de análise processado pelo software openEVOC 0.92.

DISCUSSÃO

A adolescência representa um período de profundas transformações biológicas, psicológicas e sociais, demandando adaptações da família, como também da escola que se torna um ambiente oportuno para práticas de educação em saúde(12). Nesse estudo, foi possível perceber uma evasão escolar por parte das adolescentes em decorrência à gravidez precoce. Esse fato pode estar associado à imposição cultural que envolve o gênero feminino e sua dedicação exclusiva à maternidade(13), bem como aos desafios enfrentados pela jovem mãe, que incluem dificuldades de locomoção, sentimento de vergonha em relação à gravidez e ausência de suporte por parte do sistema educacional(14).

Diante disso, é importante ressaltar o papel da educação sexual(13). Em sua maioria as participantes não faziam uso de anticoncepcional e não tiveram acesso ao planejamento familiar, o que demonstra a falta de políticas públicas voltadas para a prevenção da gravidez na adolescência. Vale ressaltar que por vezes as jovens conhecem os métodos contraceptivos, porém não possuem instrução para utilizarem de forma correta(13). Dessa forma, tais fatores colaboram para a gravidez não planejada, presente em 71% das entrevistadas, ocasionando futuros prejuízos nos projetos de vida das adolescentes(15) e possíveis complicações gestacionais, relatadas por 55% das participantes.    

Na ordem das evocações, a palavra ‘amor’ é o primeiro elemento do núcleo central, possivelmente, devido à herança cultural religiosa estabelecida no Brasil, a qual mostrou-se presente nas crenças professadas pelas adolescentes que eram, majoritariamente, cristãs. Esta palavra também tem forte relação com o amparo concedido pelo casamento ou união estável, em razão do julgamento de encontrar a “pessoa certa” que apresente afeto amoroso mútuo, boa interação e com retornos afetivos desejados(9). Desse modo, a relação com o parceiro exerce grande influência na motivação para a gestação, sendo que vínculos afetivos mais sólidos tendem a favorecer o desejo de constituir uma família(9). Nas falas pode-se perceber como o fator religioso e familiar está fortemente associado ao vínculo amoroso:   

“[...] É um presente de Deus pro meu casamento. Que é uma coisa preciosa, um filho é tudo de bom né. Ia ser uma alegria pra minha família, só.” (A33)

“[...] Mas eu ia tomar o remédio né, mas como eu gosto muito da minha religião, eu sei que é pecado né, a vida de uma criança então, vou cuidar, e é isso.” (A23)

Sucedendo a palavra amor está a ‘responsabilidade’, segundo elemento do núcleo central. A responsabilidade está relacionada ao reconhecimento de que, a partir do nascimento da criança, a jovem assume o cuidado e precisa de meios para fazê-lo. Resultado semelhante foi encontrado no estudo(5) em que adolescentes primíparas apresentam um contexto complexo junto à responsabilidade, como profundas alterações físicas, preocupações com a imagem e distanciamento dos amigos, o que contribui para desfechos maternos e neonatais negativos.

Na primeira periferia, no quadrante superior direito a palavra ‘felicidade’ é o primeiro componente representado, seguido de ‘alegria’ e ‘carinho’. Essas palavras se relacionam com o elemento principal do núcleo central, a palavra ‘amor’, visto que fatores como o apoio dentro de seu casamento e âmbito familiar, religiosidade e vontade prévia de gestar forneceram condições necessárias para que esses sentimentos positivos prevaleçam. As falas a seguir se associam com as das adolescentes descritas acima, marcadas pelo contexto religioso e vínculo familiar:

“Ah eu fiquei feliz, eu fiquei feliz fiquei pensando né como que iria ser... mas aí eu fiquei feliz, que Deus me deu ele”. (A34)

Ainda dentro da primeira periferia encontra-se a palavra ‘medo’, que compõe uma perspectiva negativa sobre gestar e são referidos pelas adolescentes como sentimentos presentes, principalmente, no início da gestação. Esses sentimentos surgem do julgamento proferido por familiares e pessoas do convívio das gestantes, relacionados principalmente à idade delas, bem como do receio da própria adolescente em não conseguir lidar com a maternidade. Ademais, o medo está associado às responsabilidades envolvidas no cuidado com o bebê, que exigem maior atenção, sensibilidade e preparo por parte da adolescente(8).

Através das falas das participantes identifica-se o medo associado à saúde do feto e às mudanças no corpo materno:

“Bom, quando eu descobri que eu estava grávida, eu entrei em pânico, em transe, eu gritava... é, tive medo, tive muitas inseguranças, chorei muito... mas com o tempo fui aceitando que é um ser né... e eu fui aceitando aos poucos que eu ia gerar uma criança”. (A08).

No quadrante inferior direito, que representa a segunda periferia, estão localizadas as seguintes palavras: ‘dificuldades’, ‘afeto’, ‘educação’ e ‘família’ respectivamente. As gestantes ressaltam a importância do afeto da família para com elas, como uma fonte de perseverança, conforto e resiliência durante a gestação e depois dela:

“Esse é meu segundo filho, é difícil um pouco, mas minha sogra me ajuda”. (A18)

Assim, a palavra “dificuldade” se relaciona com as complicações físicas e emocionais que parte significativa das adolescentes vivenciou durante a gestação, como intercorrências obstétricas, questões financeiras e barreiras relacionadas ao estudo e ao trabalho.  Da mesma forma, os autores(8) evidenciam em seu estudo as adversidades enfrentadas pelas jovens mães, as quais relatam as mudanças hormonais, a crise existencial decorrente da transição do papel de filha para o de mãe e o período pós-parto, como uma fase desafiadora, que com frequência, desestabiliza a autoconfiança materna. Em suas falas foi possível detectar as angústias referentes à nova rotina, que mudou de forma repentina:

“Tive que abrir mão de muita coisa... parei meus estudos, meu esposo teve que trabalhar serviço dobrado de segunda a segunda...” (A04).

“Eu tive que pedir demissão do meu emprego por que eu passava muito mal, ai agora é esperar ele nascer pra voltar a trabalhar”. (A44).

Além disso, a palavra “educação” apresenta correlação com o entendimento das entrevistadas quanto à temática da educação sexual e, consequentemente, planejamento familiar. No estudo verificou-se que uma parcela das adolescentes não teve acesso a tais temáticas, fatores que contribuem para a gravidez na adolescência. Outrossim, é comum os adolescentes serem afastados desse tipo de conteúdo pelo preconceito e não reconhecimento dos profissionais acerca das necessidades de saúde sexual dos adolescentes, o que acarreta um desconforto por parte dos jovens quando é levantado tópicos de puberdade e sexualidade(7,16).

Por fim, entende-se que a palavra ‘família’ apresenta forte relação com ‘responsabilidade’, constituinte do núcleo central. Isso se dá em virtude, principalmente, da tentativa de proporcionar maior bem-estar à criança durante a gravidez e após o parto, o que envolve questões financeiras, afetivas e educacionais. Nessa perspectiva, embora a gravidez na adolescência seja, em muitos casos, considerada um evento não planejado, algumas adolescentes manifestam o desejo de serem mães e, ao encontrarem um parceiro com os mesmos anseios, optam conscientemente pela gestação, fato esse que proporciona uma base familiar imediata(9). A partir disso, a jovem passa a desenvolver uma maior percepção de responsabilidade e maturidade diante dessa nova etapa da vida. Esse conceito é evidenciado nas falas das participantes:

“[...] Tem coisas na vida que eu não sabia reagir e hoje em dia eu sei, por que tudo que vem na minha cabeça é minha filha, é ela em primeiro lugar”. (A35)

“Quero terminar meus estudos porque parei né.... poder dar um futuro melhor pra ela, poder comprar as coisinhas dela”. (A42)

Portanto, a gravidez na adolescência é compreendida de acordo com o meio social, experiências e aspectos culturais. Desse modo, a maior limitação deste estudo é o número reduzido de participantes, devido à presença de adolescentes não acompanhadas pelos responsáveis legais nos serviços de saúde onde os dados foram coletados, o que gera um ponto de alerta acerca da dinâmica familiar dessas gestantes e da participação ativa das suas famílias no período gestacional. Outro ponto relevante é que, por se tratar de um momento delicado e carregado de estigmas, algumas adolescentes sentiram-se desconfortáveis em contribuir com a pesquisa e negaram a entrevista.

CONCLUSÃO

Portanto, resta admitir que a riqueza e complexidade dessas representações, delineadas pelas experiências subjetivas dessas jovens, retratam um período de vida marcado por desafios e conflitos emocionais. Tal fato, ressalta a necessidade de abordagens sensíveis e abrangentes

Nesse contexto, a compreensão da incidência da gravidez na adolescência vai além de uma análise estatística, demandando uma exploração profunda das vivências dessas jovens e de seus familiares. A complexidade dessas experiências ressalta a grande importância de políticas públicas direcionadas para a educação sexual e o planejamento familiar. Investir nessas áreas não apenas contribuirá para a prevenção de gestações não planejadas, mas também promoverá um ambiente propício ao desenvolvimento saudável desses jovens, oferecendo recursos e suporte necessário para enfrentar os desafios inerentes a essa fase da vida. As ideias acima ratificam o valor de ações efetivas que transcendam a compreensão superficial, enfatizando a importância de intervenções holísticas e contextualizadas para promover o bem-estar e o empoderamento das gestantes adolescentes e suas comunidades.

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AGRADECIMENTOS, APOIO FINANCEIRO OU TÉCNICO, DECLARAÇÃO DE CONFLITO DE INTERESSE FINANCEIRO E/OU DE AFILIAÇÕES:

Os autores agradecem aos professores e a instituição do Centro Universitário do Espírito Santo - UNESC pelo apoio e fomento ao desenvolvimento da pesquisa. O presente estudo não recebeu nenhum suporte financeiro para o seu desenvolvimento. Os autores declaram não possuir conflitos de interesse financeiros ou pessoais que possam ter influenciado direta ou indiretamente os resultados ou interpretações apresentadas neste artigo, e nenhuma afiliação institucional interferiu na condução da pesquisa.

Gabriella Bayer Baldo; Acadêmica de Enfermagem Centro Universitário do Espírito Santo - UNESC;

https://orcid.org/0009-0006-3359-5460

Laura Sperandio Nascimento; Acadêmica de Medicina Centro Universitário do Espírito Santo - UNESC;

https://orcid.org/0000-0002-6288-4396

Suelen Mayara Hartwig; Acadêmica de Medicina Centro Universitário do Espírito Santo - UNESC;

https://orcid.org/0009-0001-8371-4716

Larissa Martelete Tiussi; Acadêmica de medicina Centro Universitário do Espírito Santo - UNESC;

https://orcid.org/0000-0002-2808-3800

Julia Lima Marino; Acadêmica de Medicina Centro Universitário do Espírito Santo - UNESC; https://orcid.org/0000-0002-2710-5182

Fabiana de Souza Mattos; Enfermeira; https://orcid.org/0009-0008-8863-3975 

Érica dos Santos Silva; Enfermeira obstétrica; https://orcid.org/0009-0008-5571-7072

Adriene de Freitas Moreno Rodrigues; Mestre em Gestão Integrada do Território; Enfermeira; Professora Universitária do Centro Universitário do Espírito Santo - UNESC https://orcid.org/0000-0001-5028-3262