MULHERES PSICÓLOGAS: DESAFIOS NA CONCILIAÇÃO ENTRE PAPÉIS DE CUIDADORA E PROFISSIONAL

WOMEN PSYCHOLOGISTS: CHALLENGES IN BALANCING THE ROLES OF CAREGIVER AND PROFESSIONAL

MUJERES PSICÓLOGAS: DESAFÍOS EN LA CONCILIACIÓN ENTRE LOS ROLES DE CUIDADORA Y PROFESIONAL

Autores

Anne Emanuelle Cipriano

Doutoranda, Universidade de Brasília - UnB.

Orcid: https://orcid.org/0000-0003-3693-9813

Paula Felix Ferreira

Mestranda, Universidade de Brasília - UnB.

Orcid: https://orcid.org/0009-0000-2688-6602

Camilla Silva Borgneth

Psicóloga, Centro Universitário de Brasília – UniCEUB.

Orcid: https://orcid.org/0009-0009-7685-5877

RESUMO

Este artigo discute a sobrecarga de mulheres psicólogas à luz da teoria das estruturas de poder que delimitam a identidade sexual. Utilizou-se dados estatísticos do último Censo do Conselho Federal de Psicologia em diálogo com estudos sobre a feminização da profissão e o ideal de cuidado associado à prática clínica. A revisão dos dados revela a permanência de um perfil majoritariamente feminino, apesar do aumento da diversidade, e evidencia a precarização do trabalho, baixa remuneração e exposição a riscos ocupacionais. Tais fatores são associados à naturalização do cuidado como atributo feminino, reforçando desigualdades estruturais. O estudo aponta a necessidade de aprofundar a articulação entre gênero, cuidado e trabalho na Psicologia.

DESCRITORES: Mulheres; Psicólogas; Trabalho Feminino.

ABSTRACT

This article discusses the overload of female psychologists in the light of power structures that delimit sexual identity. Statistical data from the latest Census of the Federal Council of Psychology was used alongside studies on the career feminization and the care ideal associated with clinical practice. A review of the data reveals that there is still a majority female profile, despite the increase in diversity, and highlights the precarious nature of work, low pay and exposure to occupational risks. These factors are associated with the naturalization of care as a female attribute, reinforcing structural inequalities. The study points to the need to form links between gender, care and working conditions in psychology.

DESCRIPTORS: 

RESUMEN

Este artículo analiza la sobrecarga de las mujeres psicólogas a la luz de la teoría de las estructuras de poder que delimitan la identidad sexual. Se utilizaron datos estadísticos del último censo del Consejo Federal de Psicología en diálogo con estudios sobre la feminización de la profesión y el ideal de cuidado asociado a la práctica clínica. La revisión de los datos revela la permanencia de un perfil mayoritariamente femenino, a pesar del aumento de la diversidad, y pone de manifiesto la precariedad del trabajo, la baja remuneración y la exposición a riesgos laborales. Estos factores están asociados a la naturalización del cuidado como atributo femenino, lo que refuerza las desigualdades estructurales. El estudio señala la necesidad de profundizar en la articulación entre género, cuidado y trabajo en la psicología.

DESCRIPTORES:

INTRODUÇÃO

A antropóloga Margaret Mead(1) considera que o melhor sinal de civilização é o cuidado. Entretanto, o cuidado é o desígnio humano menos valorado da sociedade ocidental. Essa dissonância se estende até a seara das profissões, especialmente no campo da psicologia. Profissão majoritariamente ocupada por mulheres no Brasil, sua axiogênese passou a ser a da vocação por amor e altruísmo, levando à precarização da atividade e à sobrecarga das profissionais da área.

Presas entre o identitarismo de gênero acerca do dispositivo materno e as necessidades básicas de remuneração e realização no trabalho, as mulheres psicólogas são premidas tanto pelos riscos ocupacionais da profissão, quanto pelo excesso de horas despendidas no cuidado dentro e fora do ambiente de trabalho. O resultado é a precarização da categoria tanto em nível individual quanto coletivo.

Deste modo, o objetivo deste artigo é discutir a sobrecarga de mulheres psicólogas à luz da teoria das estruturas de poder que delimitam a identidade sexual, a partir dos dados estatísticos do último Censo do Conselho Federal de Psicologia (CFP) por meio de revisão documental e da literatura. Além disso, a discussão será complementada com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística(2) e a Pesquisa Nacional por Domicílios Contínua (Pnad - IBGE)(3). Seguindo, recorremos a Marx(4) e Badinter(5) para demonstrar como as mulheres são alienadas do trabalho e subjetivadas ao cuidado, reproduzindo a estrutura de poder que associa o materno ao feminino.  As considerações finais trazem um aviso: enquanto não houver consciência, a tendência é que esta realidade não se modifique.

ENTRE CONSULTÓRIOS E LARES: PERFIL DAS PROFISSIONAIS PSICÓLOGAS

A psicologia no Brasil tem rosto: é mulher. Com 80% do seu contingente de profissionais e maioria da atuação na clínica(6), as mulheres sofrem embaraços tanto no exercício da sua profissão quanto na sobrecarga do cuidado no lar. A inserção das mulheres na psicologia no Brasil reflete não apenas a feminização da profissão, mas também os desafios estruturais que moldam suas trajetórias. De acordo com Cunha & Dimenstein(7), historicamente a prática profissional foi associada ao cuidar, tendo mulheres majoritariamente na atuação profissional prática; enquanto os homens seguiam para a atuação acadêmica e/ou científica.

Embora o censo mais recente de 2022 aponte uma pequena diversidade tanto no perfil quanto na área de atuação, ele não atesta mudanças substanciais. Esse levantamento realizado de tempos em tempos pelo Sistema Conselho(10,9), tem por objetivo realizar um acompanhamento longitudinal e também “o monitoramento das transformações em curso no exercício profissional da Psicologia no Brasil”(6).

Os dados coletados confirmam a feminização da profissão e alertam sobre disparidades. Nesse sentido, o levantamento foi realizado por meio de um questionário enviado por link, com 79 itens, divididos em cinco (5) blocos, exibidos na Figura 1(6).

Figura 1

Divisão temática do instrumento CensoPsi 2022

Fonte: O Censo da Psicologia Brasileira: concepção, estrutura e decisões metodológicas, por Conselho Federal de Psicologia(6). Adaptada.

A divulgação da pesquisa foi feita pelas redes sociais do CFP e dos Conselhos Regionais. Após a coleta e tratamento inicial dos dados, a equipe de pesquisadores chegou a 20.207 respondentes. E com a utilização de softwares como Excel, Statistical Package for social sciences (SPSS) e Iramuteq, realizaram as análises dos dados.

Eles concluíram que no ano da pesquisa, havia entre as (os) profissionais de psicologia respondentes 15.787 (79,9%) mulheres e 3.916 (19,8%) homens. As faixas de idade de 30-39 (32,6%) e 40-49 anos (22,1%) se destacaram como maioria. Ainda, 11.035 (54,6%) eram casadas (os) e 6.860 (33,9%) solteiras(os), 12.845 (63,9%) se autodeclaram brancas (os), 5.252 (26,1%) pardas(os), 1.701 (8,5%) pretas(os), 234 (1,2%) amarela(o)/oriental e 56 (0,3%) indígenas. No que tange a atuação profissional, 17.176 (85,0%) das participantes estavam atuando em alguma área de Psicologia. Assim, o perfil geral da psicóloga brasileira é branca, jovem e de classe média, de predominância na área Clínica, com 12.569 (73,2%) das participantes; seguida pela Social (3.463 ou 20,2%); Saúde (3.262 ou 19,0%); e Docência (3.140 ou 18,3%)(6).

A feminização da profissão se constata ao longo dos mais de 60 anos da psicologia no Brasil(9), e a atuação na área clínica é até os dias de hoje majoritariamente feminina. Uma mudança sutil é apontada nas áreas de atuação, indicada na área de prática na docência, visto que historicamente este espaço foi mais ocupado por homens.

AS DIFICULDADES RELATADAS NA PROFISSÃO

Souza(11) denuncia a precarização da psicologia em sua remuneração e estrutura interna. No campo da psicologia, as mulheres são premidas tanto pela sobrecarga de dispêndio cognitivo e afetivo(12), quanto pela dupla jornada de trabalho(2).

OS ESTRESSORES INTERPESSOAIS

Zanello(13), no esteio da tese do dispositivo materno, discorrido inicialmente a partir do mito do amor materno de Badinter(5), atesta: “às mulheres, é interpelado o estar sempre à serviço dos outros, a agradar os outros, e muito pouco a si mesma… o cuidado pode ser entendido como uma pronta resposta, concreta, às necessidades dos outros” (p.150-152) (13). Souza(11) corrobora esta visão, ao desmistificar o mito da Psicologia como uma profissão por amor, isto é, desconectada de seus benefícios laborais e identitários de qualquer outra profissão.

O uso do mote da Psicologia por amor foi usado para mascarar as dificuldades inerentes e os riscos ocupacionais[1]* da profissão. Para denunciar tais riscos ocupacionais, McCormack e McIntyre(12) levantaram uma meta-análise de 308 artigos que envolviam o tema de estresse entre psicólogos.

Os resultados obtidos neste artigo foram que a dimensão do estresse em psicólogas mais citada foi a exaustão emocional, com 38% de prevalência nos estudos. A exaustão emocional ocorre em profissões do cuidado por serem caracterizadas como profissões que aumentam os estressores emocionais e interpessoais.

 Outros artigos suportam as evidências dessa meta-análise: enquanto Mills and Huebner(14) indicam que 40% dos psicólogos declararam uma elevada carga de exaustão emocional (em uma amostra de 225 psicólogos), Ackerley, Burnell, Holder & Kurdek(15) situam esta mesma variável em 39,9%. Ainda, no Brasil há replicação deste estudo: um questionário COPE de Carlotto e Rodrigues(16) com 518 psicólogos do Rio Grande do Sul também situa o elemento emocional como fonte de esgotamento profissional.

Um exemplo deste esgotamento profissional pode ser ilustrado na teoria comum das pesquisas de burnout. Maslach e Leiter(17) apontam seus principais estressores: excesso de horas de trabalho, baixo salário e insatisfação, isolamento da comunidade, contínuo esforço emocional e cognitivo, além de fadiga crônica. Especificamente no que tange às psicólogas, estressores adicionais relatados são: fadiga por compaixão**(18), traumatização secundária[2]**(19) e traumatização vicária*(20). Outro fator de risco ocupacional para as mulheres também são os afetos como medo e insegurança no trabalho por violência física, sexual, moral, verbal, patrimonial(6), que prejudicam a qualidade de vida.

O componente interpessoal imanente à profissão já traz riscos ocupacionais intrínsecos, que se agravam à medida em que a psicóloga mulher se identifica narcisicamente com o dispositivo materno(5). As horas da jornada de trabalho também são intensas e longas(2).  

O ESTRESSOR DA CARGA HORÁRIA

As psicólogas ainda exercem o cuidado por uma dupla via, tanto pelo cuidado exercido na profissão, como pelo cuidado exercido na rotina familiar de forma não remunerada(9).

No que tange à profissão, a faixa da carga horária semanal com maior índice foi de 21 a 35h, 24,8% (3.876) e de 36 a 50h, 41,5% (6.505), sendo que 78,1% (13.064) das participantes indicaram ser Autônomas(6). Em relação aos trabalhos domésticos, as mulheres psicólogas dedicavam mais tempo aos afazeres domésticos que os psicólogos, sendo 32% das mulheres e 15% dos homens que dedicam 3hs ou mais para esse fim(6). O resultado recente do IBGE(2) confirma os dados: a jornada de trabalho das mulheres é o dobro da dos homens (21,3 horas para as mulheres e 11,7 horas para os homens). Na população brasileira feminina em geral, 30% das mulheres em idade ativa e fora da força de trabalho não procuram emprego devido às responsabilidades com os filhos e afazeres domésticos, em contraponto aos homens, cuja proporção cai para 2%(3). Já entre as mulheres psicólogas, o censo CFP(6) mostra que 5,4% responderam que a não inserção no mercado de trabalho foi a dificuldade de compatibilizar a profissão com o cuidado dos filhos. É um número importante, já que o percentual de psicólogas que possui filhos/as ou enteados/as (59%) é maior que o de psicólogos (41%)(6).

Nesse sentido, é possível perceber que a mulher psicóloga tem grandes desafios a enfrentar não apenas relacionados à prática profissional, mas também no equilíbrio entre sua vida pessoal e profissional, visto que as mulheres acumulam jornada laboral dentro e fora do domicílio. A pergunta a ser feita é, se os dados mostram que a profissão de psicologia é composta majoritariamente por mulheres sobrecarregadas e exaustas, quais os precedentes históricos e sociais que explicam esse fenômeno?

A CONSTRUÇÃO DE UMA IDENTIDADE SEXUAL COMO ESTRUTURA DE PODER

O trabalho do ser humano é mais do que mera apropriação e transformação dos recursos; ao ser coletivizado, o trabalho inscreve e se circunscreve a um tempo histórico e cultural. O trabalho, portanto, é antropogênico: ele cria uma ideia de sociedade e de identidades(4). A identidade do sujeito pós-moderno, portanto, não é fixa nem individualmente determinada: sobretudo, é resultado das relações sociais nos contextos históricos, por meio de referências a signos que não são explícitos, mas traduzem o espírito de época.

Nesta perspectiva, segundo Zanello(13), não existe acesso direto e atemporal a estes signos que a sociedade utiliza, mas este acesso é sempre mediado pela cultura e engendrado a partir do binarismo e da oposição. Dessa forma, Butler(21) destaca que o gênero é construído em conformidade com padrões de inteligibilidade que são reconhecidos a partir do contexto social em que o indivíduo está inserido, o qual passa a ser uma estrutura definidora da condição de pessoa. Assim, o gênero “é relacional e implica, sempre, relações de poder, de privilégios, de maior ou menor prestígio”(p. 44)(13).

Para contextualizar historicamente a subjetivação das mulheres, especialmente na psicologia, em torno do trabalho de cuidado, recorremos ao texto de Federici(22). A autora analisa as transformações sociais entre 1450 e 1650, destacando a reconfiguração do papel das mulheres e da reprodução da força de trabalho como elementos centrais da acumulação primitiva no surgimento do capitalismo.

O conceito de acumulação primitiva é o fenômeno da concentração e centralização de capital nas mãos de poucas pessoas, resultante do mecanismo de reprodução de capital no processo produtivo. À medida em que o capitalista investe e reinveste no sistema de produção, ele se apropria da mais-valia do trabalhador, aumentando a desigualdade social(4). O resultado é uma imensa desigualdade na distribuição de riquezas, obrigando o trabalhador a submeter-se a um trabalho assalariado, o que instaura a separação entre ele e o fruto da sua produção (alienação). Este sistema também forja subjetividades adaptadas à lógica do capital, voltadas à obediência, produtividade e competição: seus principais vetores ideológicos são as instituições escolares, familiares e religiosas. Elas consolidam a divisão sexual do trabalho, naturalizando o papel das mulheres como responsáveis pelo cuidado e pela reprodução da força de trabalho.

           No sistema econômico vigente a identidade sexual foi constituída como um suporte específico das funções de trabalho, sendo assim, a feminilidade é também um construto cultural e social que funciona como produção oculta para a força de trabalho com um véu de destino biológico. Isso culmina tanto no paradigma do dispositivo materno, que preconiza que as mulheres têm um instinto materno natural e devem priorizar sempre as necessidades dos outros em detrimento dos próprios, e no dispositivo amoroso, no qual a mulheres aprendem a amar de forma identitária e no qual serem escolhidas por sua feminilidade pré-determinadas é o que ratifica a sua valorização narcísica(13).

A sexualidade, a maternidade e a procriação foram e são utilizadas como ferramentas de disciplinamento das mulheres, de forma que o corpo feminino se tornou um lugar para implementação de relações de poder(22). Assim, os novos valores sociais “(...) significam a manifestação e institucionalização da dominância masculina sobre as mulheres e crianças na família e a extensão da dominância masculina sobre as mulheres na sociedade em geral (...)” abrindo espaço para uma visão de feminino que é historicamente determinado (22). 

Segundo Louro(23), há um conjunto de disposições e práticas, denominadas por Foucault como biopoder, as quais historicamente são úteis para controlar. Nesse aspecto, as tecnologias de gênero refletem dispositivos biopolíticos de agenciamento do biopoder, que instituem lugares socialmente diferentes para homens e para mulheres. Uma expressão desse fenômeno se manifesta na própria escolha do curso de psicologia, que para os homens é em função do seu prestígio social, e para as mulheres é em função de querer ajudar os outros(6).

É importante destacar como essa diferença quando vista de forma nostálgica incide na manutenção do status quo, na reprodução das relações de poder e de dominação entre os diferentes gêneros e até entre as diferentes mulheres[3]* * (23). Logo, quanto mais se distanciam do ideal de feminilidade, mais essas mulheres são preteridas. Porém, é através dessas relações de poder que se traduz a serviço de quais grupos sociais é mantido esse status quo baseado na diferença, quem é considerado/a diferente e o que significa essa diferença, sendo que, o que está em jogo nesses exercícios de poder são, na verdade, as desigualdades. Em contrapartida, a compreensão das diferenças através de uma leitura biológica e naturalizada foi adotada de forma a reservar espaços sociais de maior ou menor empoderamento, influência e participação(23). Essas divisões condizem com o exercício de poder, de forma que, “aumentam a utilidade econômica” ao mesmo passo “diminuem a força política” de determinados indivíduos em posição minoritária, assim como em relação ao gênero feminino(24).

Nesse mesmo sentido, segundo Basaglia(25), o corpo feminino foi o que fundou a escravidão das mulheres devido às suas características, ou seja, a capacidade de procriação foi o que levou a uma associação ao cuidar enquanto função social, que se traduziu, através de características como “doçura, feminilidade, propensão natural à dedicação e ao sacrifício, debilidade, necessidade de proteção e autotutela” (p.14)(22). Em pleno século XXI, as profissões consideradas de cuidado e que exigem dispêndio emocional e interpessoal são ocupadas por mulheres(9), produzindo exaustão tanto por esgotamento emocional (18, 19, 20) quanto a jornada exaustiva de horas de trabalho(6)(11).

É necessário destacar que, segundo Badinter(5), a configuração de uma sociedade a partir das necessidades e valores dominantes de um determinado tempo entabula papéis sociais. Ao pensarmos na sociedade capitalista, que tem como um dos fatores centrais a família, são determinados papéis de mãe, pai e filhos. Uma reificação material desse pressuposto está na distribuição de horas dedicadas aos afazeres domésticos: 21,3h para mulheres e 11h para homens(2).

Além disso, Badinter(5) discorre sobre como a função materna de educadora se aprofunda para além da instrução, incluindo também a transmissão de valores morais. A partir desta função, foi construída socialmente a ideia de um instinto materno, que na psicologia se materializou como profissão por amor, concentrando mulheres na clínica e restringindo a maioria da concessão de bolsas do CNPq a áreas do cuidado, em proporção da metade em relação aos homens(7).

Mesmo que essas formas de existir no mundo abarquem outras funções sociais, que mulheres possam ocupar espaços públicos e gozar de direitos civis mais amplos, ainda é exigido um padrão de feminilidade pautado no cuidado e na atenção para outros ao seu redor, além de ser esperado que mulheres ainda sejam mais passivas e dóceis. Dessa forma, quanto mais as mulheres se dedicam às atividades laborais, de autorrealização e mais se centram nas próprias necessidades, menos estão cumprindo o que é esperado de uma feminilidade normativa, pois, dessa forma, menos estão disponíveis para o cuidado voltado às necessidades alheias. Exempli gratia, o censo PNAD-c(3) assinalou que 30% das mulheres inativas no mercado de trabalho o declararam estar por conta dos filhos e cuidados com outros membros da família, e no caso das mulheres psicólogas, 5,4% responderam similarmente(6).

Outrossim, Zanello(13) afirma que houve uma desvalorização do cuidar ao naturalizar essa característica como algo inato ao feminino, pois as mulheres são vulnerabilizadas em não receber valorização e reconhecimento proporcionais aos seus esforços. Inclusive, em muitos contextos, esses esforços são deslegitimados e tratados como algo da ordem da obrigação, como se houvesse a necessidade de que mulheres performem com a máxima atenção, paciência, compreensão e compaixão voltadas a todos ao seu redor, independente de em qual contexto se encontrem e mesmo que isso signifique deixar de atender às próprias necessidades(12).

Sendo assim, somando-se à forma como mulheres são interpeladas a estarem educando, cuidando e resolvendo diversas demandas ao mesmo tempo em que trabalham, fica em segundo plano o reconhecimento, remuneração e valorização do exercício da profissão. Psicólogas encontram-se em situação de sobrecarga por uma perspectiva pouco compreendida da diversidade de funções que acumulam, quanto da forma como são cobradas a exercer essas funções.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

As psicólogas do Brasil têm muitos desafios para enfrentar, nos seus papéis de cuidadora e de profissional; a carreira de psicologia como ciência e profissão no Brasil ainda é muito incipiente, com apenas de meio século. No entanto, já é possível observar certas tendências, com a prevalência do perfil de psicóloga mulher e com filhos(6). Simultaneamente, esta mulher é embaraçada com a precarização da profissão(11) e uma jornada de trabalho extenuante também na saída do escritório, referente aos cuidados da família e do lar(3). Isso ocorre porque a cultura brasileira responsabiliza e direciona a mulher para o papel de cuidado e esta expectativa se estende ao escritório(11).

O resultado é uma sobrecarga tanto na jornada de trabalho, como no próprio desgaste afetivo e cognitivo que o trabalho exige. Por ser uma profissão de natureza interpessoal, o dispêndio emocional é enorme(13), que não é restaurado em horas de descanso(6). O motivo dessas pressões, tanto internas quanto externas, reside na divisão sexual do trabalho(22) e na interposição do dispositivo materno(5), que preconiza que a mulher possui habilidades naturais de cuidar e que atuar no cuidado, portanto, não seria trabalho. As estatísticas não podem reproduzir a riqueza e os detalhes da experiência humana. No entanto, as diversas histórias de vida, únicas, se repetem e se refletem nos dados: somos mulheres com a mesma voz, que ecoa ao longo de todos os corredores do tempo e da história.

REFERÊNCIAS

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2. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Censo Demográfico 2022. Plataforma SIDRA. IBGE; 2022.

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11. Souza L. O Trabalho das Psicólogas Clínicas: análise de uma intervenção a partir da Perspectiva Feminista e da Psicodinâmica no Trabalho Feminino [tese]. Brasília: Universidade de Brasília - UNB; 2025 (no prelo).

12. McCormarck HM, McIntyre TE. The Prevalence and Cause(s) of Burnout Among Applied Psychologists: A Systematic Review. Front Psychol. 2018;9:1897.

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25. Basaglia F. Mujer, locura y sociedad. México: Universidad Autonoma de Puebla; 1983.


[1]*Risco ocupacional é a possibilidade do trabalhador sofrer dano ou desgaste físico, emocional ou moral devido às condições imanentes do trabalho e seu ambiente(12).

[2]* *Trauma indireto ao expor-se a imagens ou relatos perturbadores de trauma(19).

[3]* *Essa transversalidade ainda se manifesta no recorte social, resultando que a maioria das mulheres psicólogas é branca(6).