ATITUDES DE ESTUDANTES DE ENFERMAGEM FRENTE À PESSOA COM TRANSTORNOS RELACIONADOS AO USO DE ÁLCOOL
ATTITUDES OF NURSING STUDENTS TOWARDS PEOPLE WITH ALCOHOL USE DISORDERS
ACTITUDES DE ESTUDIANTES DE ENFERMERÍA HACIA PERSONAS CON TRASTORNOS POR CONSUMO DE ALCOHOL
Tipo de artigo: Original
Autores
Maria Renata de Lucena
Enfermeira pela Universidade Federal de Pernambuco.
Orcid: https://orcid.org/0009-0005-9144-8111
Myrela Vitória Alves Martins
Graduana em Nutrição pela UFPE.
Orcid: https://orcid.org/0009-0004-5914-1454
Matheus Vinicius Barbosa da Silva
Enfermeiro pela Universidade Federal de Pernambuco.
Orcid: https://orcid.org/0000-0003-1295-6301
Ellen Cristina Barbosa dos Santos
Enfermeira, Mestre e Doutora em Enfermagem pela USP, Professora da UFPE.
Orcid: https://orcid.org/0000-0001-9938-6721
Michel Gomes de Melo
Enfermeiro pela UNINASSAU, Mestre em Neuropsiquiatria e Ciências do Comportamento e Doutor em Ciências Biológicas pela UFPE.
Orcid: https://orcid.org/0000-0001-7782-4014
Amélia Kariny Lins Tavares Teixeira
Graduada em Psicologia pela FAFIRE, Doutora em Ciências da Educação pela FICS.
Orcid: https://orcid.org/0009-0007-8412-8798
Fernanda Jorge Guimarães
Graduada e Mestre em Enfermagem pela UFPB, Doutora em Enfermagem pela UFC, Professora da UFPE.
Orcid: https://orcid.org/0000-0003-4618-3730
Juliana Lourenço de Araújo Veras
Enfermeira pela UFPE, Mestre em Hebiatria pela UPE, Doutora em Neuropsiquiatria e Ciências do Comportamento pela UFPE, Professora da UFPE.
Orcid: https://orcid.org/0000-0003-3833-8421
RESUMO
Objetivo: Identificar as atitudes dos estudantes de enfermagem frente à pessoa com transtornos relacionados ao uso de álcool. Método: Trata-se de um estudo transversal, descritivo, exploratório, realizado com os estudantes de graduação de enfermagem, no período de fevereiro a abril de 2023. Foi utilizada para a coleta de dados, a escala validada de Atitudes Frente ao álcool, ao Alcoolismo e as pessoas com transtornos relacionados ao uso do álcool, e um questionário sociodemográfico para caracterização da amostra. Resultados: Os resultados evidenciaram atitudes positivas dos estudantes de enfermagem frente à pessoa com transtornos relacionados ao uso de álcool, entretanto, foram observadas algumas atitudes negativas, como o medo da agressividade das pessoas com transtornos relacionados ao uso do álcool. Conclusão: Concluiu-se que os estudantes de enfermagem apresentaram atitudes predominantemente positivas frente à pessoa com transtornos relacionados ao uso de álcool, entretanto, evidenciou-se uma tendência a atitudes negativas em relação às pessoas.
DESCRITORES: Álcool; Alcoolismo; Estudantes; Enfermagem.
ABSTRACT
Objective: to identify the attitudes of nursing students towards people with alcohol use disorders. Method: cross-sectional, descriptive, exploratory study, carried out with undergraduate nursing students, from February to April 2023. The validated scale of Attitudes Towards Alcohol, Alcoholism, and People with Alcohol Use Disorders was used for data collection, as well as a sociodemographic questionnaire to characterize the sample. The analysis was performed using descriptive statistics, and frequency tables to present the data. Results: the results showed positive attitudes of nursing students towards people with alcohol use disorders, however, some negative attitudes were observed, such as fear of aggression from people with alcohol use disorders. Conclusion: it was concluded that nursing students presented predominantly positive attitudes towards people with alcohol use disorders, however, a tendency towards negative attitudes towards people was evidenced.
DESCRIPTORS: Alcohol; Alcoholism; Students; Nursing.
RESUMEN
Objetivo: identificar las actitudes de los estudiantes de enfermagem frente a la persona con transtornos relacionados con el uso de alcohol. Método: estudo transversal, descritivo, exploratório, realizado com os estudantes de graduação de enfermagem, no período de fiebre a abril de 2023. Foi utilizado para a coleta de dados, a escala validada de Atitudes Frente al álcool, ao Alcoolismo e as pessoas com transtornos relacionados ao uso do álcool, e um questionário sociodemográfico para caracterização da mostramos. A análise foi realizado por medio de estadísticas descriptivas, y tablas de frecuencia para presentación de datos. Resultados: os resultados evidenciaram atitudes positivas dos estudantes de enfermagem frente à pessoa com transtornos relacionados ao uso de álcool, entretanto, foram observadas algumas atitudes negativas, como o medo da agressividade das pessoas com transtornos relacionados ao uso do álcool. Conclusión: concluimos que los estudiantes de enfermedad presentan actitudes predominantemente positivas frente a las personas con transtornos relacionados con el uso de alcohol, entretanto, evidencia una tendencia a actitudes negativas en la relación con las personas.
DESCRIPTORES: Alcohol; Alcoholismo; Estudiantes; Enfermería.
INTRODUÇÃO
O álcool é a substância psicoativa mais consumida no mundo. Aproximadamente, dois bilhões de pessoas no mundo consomem bebidas alcoólicas. No Brasil, em 2021, o Sistema Único de Saúde (SUS) registrou 400.300.000 milhões de atendimentos a pessoas com transtornos mentais e comportamentais devido ao uso de álcool e outras drogas. O número mostrou um aumento de 12,4% em relação a 2020, ano com 356 milhões de registros1-2.
Os transtornos mentais relacionados ao uso de substâncias psicoativas são os mais prevalentes entre os transtornos orgânicos e mentais, o que resulta em um importante problema de saúde pública. Dentre as substâncias psicoativas, o álcool é um dos principais fatores que contribuem, direta ou indiretamente, para os danos à saúde, sendo responsável por 5,1% da carga mundial de doenças e lesões, e por 5,3% de todas as mortes; além das consequências para a saúde, o uso nocivo do álcool provoca perdas sociais e econômicas significativas para os indivíduos, e para a sociedade em geral1,3.
Estudo realizado no Nordeste brasileiro demonstrou que os transtornos mentais e comportamentais devido ao uso de álcool e outras substâncias psicoativas foram responsáveis por um total de 11.250 casos de internações hospitalares em 2018, de modo que o álcool foi identificado com a maior taxa das internações nos Estados de Alagoas e Pernambuco, com 17,75 e 17,3 a cada 100.000 habitantes, respectivamente4.
Ademais, a assistência às pessoas com transtornos relacionados ao uso de substâncias não se limita apenas aos serviços especializados. Nos serviços de atenção primária a saúde (APS) também é comum a presença de pessoas que fazem o uso de álcool em padrões que merecem atenção por parte dos profissionais de saúde. Um inquérito domiciliar realizado na cidade do Rio de Janeiro, observou que, 29,6% dos usuários da Estratégia de Saúde da Família (ESF) consumiam o álcool com algum risco para a saúde, e que 5,7% dos participantes apresentaram uma provável dependência5.
A APS é a porta de entrada para o cuidado das pessoas com transtornos por uso de SPA, por desempenhar um papel fundamental na abordagem dessas pessoas, de modo que, é o nível de atenção que conhece a população, o território e os determinantes sociais que interferem nas mudanças comportamentais, dispondo, assim, de melhores condições para o manejo desses usuários. Assim, espera-se que os enfermeiros que atuam nos mais diversos cenários da assistência conheçam os transtornos por uso de SPA e estejam preparados para lidar e assistir pessoas com essa condição2.
Entretanto, percebe-se uma tendência dos profissionais de saúde voltarem à atenção para as necessidades físicas, com pouca importância para os aspectos psíquicos e emocionais do paciente. Além do mais, a equipe de enfermagem não se sente à vontade no cuidado às pessoas em sofrimento mental, devido à falta de qualificação ou por sua formação ter sido focada exclusivamente no modelo manicomial6-7.
Neste sentido, uma pesquisa qualitativa realizada com estudantes de enfermagem de uma Universidade pública de São Paulo mostrou que a vivência com esses pacientes durante a formação acadêmica, possibilitou uma mudança de percepção, geralmente equivocada, do cuidado a pessoa com transtorno relacionado ao uso do álcool (TUA)8.
Poucos estudos no Brasil avaliaram as atitudes de estudantes de enfermagem frente às questões relacionadas ao álcool8-10, e representações sociais negativas, influenciadas por estigmas que envolvem os usuários de substâncias, como ideias de culpabilização, ou de que essas pessoas não têm força de vontade, podem acarretar a ausência de interesse destes futuros profissionais no desenvolvimento de ações de cunho preventivo e assistencial a esse público11.
Dessa forma, o estudo teve como objetivo identificar as atitudes dos estudantes de enfermagem de uma Universidade pública do interior de Pernambuco, frente à pessoa com transtornos relacionados ao uso de álcool.
MÉTODO
Tipo de estudo
Trata-se de um estudo transversal, descritivo, exploratório, com abordagem quantitativa.
Local do estudo
O estudo foi realizado em uma Universidade Pública federal situada no município de Vitória de Santo Antão, cidade do interior do Estado de Pernambuco (PE), Brasil.
Período
A coleta dos dados ocorreu entre fevereiro a abril de 2023.
População
A população foi composta por estudantes de graduação do curso de enfermagem. Quanto ao número total da população, havia 324 estudantes de enfermagem matriculados na universidade, onde a pesquisa foi realizada, durante o período de coleta dos dados. Destes, 108 alunos encontravam-se matriculados do 7º ao 10º período. O tamanho amostral foi estimado por meio da fórmula para estudos com a população finita, considerando os seguintes parâmetros: coeficiente de confiança (Zα) = 95% e erro amostral (e) = 6%. Estimou-se uma amostra com 67 participantes, porém, foram incluídos no estudo 68 participantes. Foi adotado o processo de amostragem por conveniência.
Critérios de Seleção
Foram selecionados os estudantes de enfermagem com idade acima de 18 anos; regularmente matriculados na referida instituição, e cursando do 7º ao 10º período. Tal critério fundamentou-se no entendimento de que estes alunos já concluíram a maior parte do curso, receberam informações/conteúdos quanto à área de substâncias psicoativas. Foram excluídos os estudantes ausentes durante o período da coleta de dados, por licença médica ou outros motivos.
Participantes
Participaram do estudo 68 estudantes do curso de enfermagem.
Instrumentos utilizados para a coleta das informações
Foram utilizados na coleta de dados dois instrumentos; um questionário sociodemográfico, com a proposta de caracterizar a amostra, com informações sociodemográficas e acadêmicas, e a Escala de Atitudes Frente ao Álcool, Alcoolismo e a pessoa com transtorno relacionado ao uso do álcool – EAFAA, para avaliar as atitudes dos estudantes de enfermagem frente à pessoa com transtorno relacionado ao uso do álcool.
Esta escala foi construída e validada (α=0,85) no Brasil12, e constitui-se em um instrumento confiável para identificar as atitudes de estudantes de enfermagem frente ao álcool, ao alcoolismo e a pessoa com transtornos relacionados ao uso de álcool para uso nesta população.
A EAFAA é uma escala do tipo likert com cinco pontos, composta por 50 itens distribuídos em 4 fatores, a saber: O Fator 1: O trabalho e as relações interpessoais com pacientes com transtornos relacionados ao uso do álcool, o qual possui 16 afirmações; Fator 2: A pessoa com transtornos relacionado ao uso do álcool, constituído por 13 afirmações; Fator 3: O alcoolismo (etiologia), que contém 11 afirmações, e o fator 4: As bebidas alcoólicas e seu uso, com 10 afirmações. A maioria dos itens da EAFAA mede atitudes negativas quanto ao álcool, ao alcoolismo e à pessoa com transtornos relacionados ao uso do álcool, o que significa dizer que, quanto maior for o desacordo do respondente em relação a esses itens, mais positivas serão suas atitudes12.
Para fins deste estudo, analisou-se apenas os fatores 1 e 2; o fator 1 agrega itens relacionados à percepção, opiniões, sentimentos e atitudes relativas ao prestar cuidado de saúde a pacientes com transtornos relacionados ao uso do álcool (F1.01, F1.05, F1.09, F1.13, F1.21, F1.25,F1.37 F1.41, F1.46, F1.50), ao relacionar-se com pacientes com transtornos relacionados ao uso do álcool (F1.29, F1.42, F1.44), a habilidade/preparo para trabalhar com pessoas com transtornos relacionados ao uso de álcool (F1.49), bem como sua percepção sobre sua legitimidade profissional para trabalhar com essas questões (F1.17, F1.48)12.
Já o fator 2 abrange itens referentes às concepções, percepções, opiniões e atitudes relativas ao paciente com transtornos relacionados ao uso do álcool; seus itens expressam concepções sobre as características pessoais dessa clientela (F2.02, F2.06 F2.10, F2.14, F2.18, F2.22, F2.30, F2.45, F2.47) e as expectativas que o respondente tem quanto ao trabalho com esse paciente (F2.26, F2.33, F2.34, F2.38)12.
Com o intuito de facilitar a apresentação dos dados, procedeu-se o agrupamento dos itens 1 - discordo totalmente e 2 - discordo em 1 - discordo, 2 - indiferente e 4 - concordo e 5 - concordo totalmente em 3 -concordo, de acordo com o seguinte esquema (1= discordo 2= indiferente 3= concordo), em consonância com o já realizado no estudo de Vargas11.
Coleta de dados
Os estudantes foram convidados a participar da pesquisa em sala de aula, durante os intervalos das aulas, por meio da explicação do objetivo do estudo, seu caráter voluntário e garantia do sigilo e anonimato, seguida das orientações de preenchimento dos instrumentos, como a necessidade de respostas individuais; como também, a apresentação do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) e esclarecimento de todas as dúvidas. Especificamente, para os alunos de graduação do 10º período, que se encontravam em atividades de estágio fora da ambiência da Universidade, a coleta se deu no formato virtual, por meio de um formulário eletrônico no Google Forms.
Tratamento e Análise dos dados
Os dados foram organizados em uma planilha EXCEL e foram analisados descritivamente, por meio de frequências absolutas e percentuais com o programa Statistical Package for Social Sciences (SPSS®), na versão 25.0.
Aspectos Éticos
Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa Envolvendo Seres Humanos do Centro Acadêmico de Vitória (CEP/CAV) sob o parecer nº 5.934.996 e CAAE: 63830122.0.0000.9430. Foram respeitados os óbices éticos e científicos descritos na Resolução CNS nº 510 de 2016 em todas as suas etapas, e todos os participantes envolvidos na pesquisa assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).
RESULTADOS
Na Tabela 1 se apresenta os resultados relativos às características dos participantes. Verificou-se que, a maioria dos estudantes era do sexo feminino, tinha 19 a 34 anos, com média de 22,90 anos (±2,13), mediana igual a 22,0 anos, solteiro e se diziam católicos. O menor percentual dos discentes pertenceu ao 10o período, e os percentuais dos outros períodos estudados variaram de 29,4% a 35,3%.
Tabela 1 – Distribuição dos estudantes de enfermagem (n=68), segundo as variáveis sociodemográficas. Vitória de Santo Antão, PE, Brasil, 2025
Variável | n (%) |
Sexo | |
Masculino | 10 (14,7) |
Feminino | 58 (85,3) |
Faixa etária (em anos) | |
19 a 23 | 47 (69,1) |
24 ou mais | 21 (30,9) |
Situação conjugal | |
Solteiro | 47 (69,1) |
Casado/ União estável | 21 (30,9) |
Período | |
7° | 24 (35,3) |
8° | 20 (29,4) |
9° | 21 (30,9) |
10° | 3 (4,4) |
Religião | |
Católica | 48 (70,6) |
Evangélica | 19 (27,9) |
Ortodoxa | 1 (1,5) |
Total | 68 (100,0) |
Fonte: Elaboração própria.
As tabelas 2 e 3 apresentam as respostas dos estudantes de enfermagem relacionadas ao trabalho, e as relações interpessoais com pessoas com transtornos relacionados ao uso do álcool, da escala EAFAA.
Dos resultados contidos na tabela 2 sobre o fator 1, que avalia o trabalho e as relações interpessoais com pessoas com transtornos relacionados ao uso do álcool, evidenciou-se que a maior parte dos estudantes discordou das afirmações F1.48, F1.1, F1.25, F1.50, F1.29, F1.21, F1.9, F1.37, F1.44 e F1.49; e concordou com as afirmações F1.17, F1.46 e F1.5. Nas afirmações F1.13 e F1.41 o maior percentual de respostas foi indiferente, e na afirmação F1.42 os dois maiores percentuais foram próximos nas categorias “discordo” e “indiferente”.
Tabela 2 – Distribuição e percentual dos estudantes de enfermagem (n= 68), segundo as afirmações do fator 1 da escala de atitudes frente ao álcool, ao alcoolismo e ao alcoolista. Vitória de Santo Antão, PE, Brasil, 2025
Variável | Concordo | Indiferente | Discordo |
n (%) | n (%) | n (%) | |
F1.1. Eu tenho medo de abordar o problema do álcool com meus | 4 (5,9) | 8 (11,8) | 56 (82,4) |
pacientes | |||
F1.5. Eu tenho medo da agressividade de pacientes com | 34 (50,0) | 22 (32,4) | 12 (17,6) |
transtornos relacionados ao uso de álcool | |||
F1.9. Sinto-me frustrado quando trabalho com pacientes com | 4 (5,9) | 24 (35,3) | 40 (58,8) |
transtornos relacionados ao uso de álcool | |||
F1.13. De todos os meus pacientes, o paciente com transtornos | 4 (5,9) | 43 (63,2) | 21 (30,9) |
relacionados ao uso de álcool é aquele que dá mais trabalho | |||
F1.17. Devo cuidar do paciente com transtornos relacionados ao | 64 (94,1) | 2 (2,9) | 2 (2,9) |
uso de álcool, mesmo que ele acredite não precisar de cuidado de | |||
Saúde | |||
F1.21. Mesmo quando não intoxicado o paciente com transtornos | 2 (2,9) | 25 (36,8) | 41 (60,3) |
relacionados ao uso de álcool, é desrespeitoso com os membros | |||
da equipe | |||
F1.25. Sinto raiva ao trabalhar com pacientes com transtornos | 1 (1,5) | 11 (16,2) | 56 (82,4) |
relacionados ao uso de álcool | |||
F1.29. Pacientes com transtornos relacionados ao uso do álcool | 2 (2,9) | 22 (32,4) | 44 (64,7) |
nunca aceitam o que os profissionais de saúde falem sobre seus | |||
problemas com bebida | |||
F1.37. Abordar o problema do álcool com pacientes com | 4 (5,9) | 28 (41,2) | 36 (52,9) |
transtornos relacionados ao uso de álcool significa menos para os | |||
demais pacientes | |||
F1.41. Eu prefiro trabalhar com pacientes com transtornos | 1 (1,5) | 36 (52,9) | 31 (45,6) |
relacionados ao uso de álcool a trabalhar com outros pacientes | |||
F1.42. A pessoa com transtornos relacionados ao uso de álcool é | 17 (25,0) | 25 (36,8) | 26 (38,2) |
uma pessoa difícil de relacionar-se | |||
F1.44. Eu considero difícil estabelecer um relacionamento terapêutico com pacientes com transtornos relacionados ao uso de álcool | 6 (8,8) | 27 (39,7) | 35 (51,5) |
F1.46. É preciso tomar cuidado para não ser agredido ao trabalhar com pacientes com transtornos relacionados ao uso de álcool | 35 (51,5) | 27 (39,7) | 6 (8,8) |
F1.48. Quando o paciente com transtornos | |||
relacionados ao uso de álcool não aceita que tem problemas | |||
relacionados ao uso de álcool, a melhor decisão é desistir de | |||
ajudar | 2 (2,9) | 6 (8,8) | 60 (88,2) |
F1.49. Quando trabalho com pacientes com transtornos relacionados ao uso do álcool, não sei como conduzir a situação | 18 (26,5) | 18 (26,5) | 32 (47,1) |
F1.50. Cuidar de pacientes com transtornos relacionados ao uso de álcool não é gratificante para mim | 4 (5,9) | 12 (17,6) | 52 (76,5) |
Fonte: Elaboração própria.
Na Tabela 3 encontram-se os resultados relativos ao fator 2, que analisou as atitudes dos discentes em relação a pessoa com transtornos relacionado ao uso do álcool. Observou-se que a maioria das respostas correspondeu a categoria “discordo” nas variáveis F2.18, F2.33, F2.2, F2.30, F2.6, F2.38, F2.10, F2.47, F2.26 e F2.22; e “indiferente” nas afirmações F2.45, F2.14 e F2.34.
Tabela 3 – Distribuição e percentual dos estudantes de enfermagem (n=68), segundo as afirmações do fator 2 da escala de atitudes frente ao álcool, ao alcoolismo e ao alcoolista. Vitória de Santo Antão, PE, Brasil, 2025
Variável | Concordo | Indiferente | Discordo | |
n (%) | n (%) | n (%) | ||
F2.2. Pessoas com transtornos relacionados ao uso de álcool | 2 (2,9) | 12 (17,6) | 54 (79,4) | |
não tem bom senso | ||||
F2.6. Pessoas com transtornos relacionados ao uso de álcool | 3 (4,4) | 12 (17,6) | 53 (77,9) | |
são mal-educadas | ||||
F2.10. Pessoas com transtornos relacionados ao uso de | 9 (13,2) | 22 (32,4) | 37 (54,4) | |
álcool são irresponsáveis | ||||
F2.14. Pacientes com transtornos relacionados ao uso do | 20 (29,4) | 31 (45,6) | 17 (25,0) | |
álcool tem maior probabilidade de se transformarem | ||||
violentos contra mim | ||||
F2.18. Penso que pessoas que desenvolvem o alcoolismo | 2 (2,9) | 1 (1,5) | 65 (95,6) | |
são fracas | ||||
F2.22. Eu percebo que pacientes com transtornos | 10 (14,7) | 27 (39,7) | 31 (45,6) | |
relacionados ao uso de álcool não querem se cuidar | ||||
F2.26. Não confio nas informações que pacientes com | 11 (16,2) | 24 (35,3) | 33 (48,5) | |
transtornos relacionados ao uso de álcool relatam | ||||
F2.30. Penso que a pessoa com transtornos relacionados ao | 6 (8,8) | 8 (11,8) | 54 (79,4) | |
uso de álcool é culpada por seus problemas de saúde | ||||
F2.33. Considero o paciente com transtornos relacionados ao uso de álcool como um caso perdido | 1 (1,5) | 3 (4,4) | 64 (94,1) | |
F2.34. A pessoa com transtornos relacionados ao uso de álcool acaba sempre voltando ao serviço de saúde com o mesmo problema | 22 (32,4) | 28 (41,2) | 18 (26,5) | |
F2.38. De todos os meus pacientes, o paciente com | ||||
transtornos relacionados ao uso de álcool é mais difícil de lidar | 5 (7,4) | 25 (36,8) | 38 (55,9) | |
F2.45. Pacientes com transtornos relacionados ao uso de álcool são pacientes que cooperam com seu tratamento | 8 (11,8) | 40 (58,8) | 20 (29,4) | |
F2.47. Pessoas com transtornos relacionados ao uso de álcool não levam o tratamento a sério | 2 (2,9) | 29 (42,6) | 37 (54,4) | |
Fonte: Elaboração própria.
DISCUSSÃO
Os resultados evidenciaram o predomínio de atitudes positivas dos estudantes de enfermagem frente à pessoa com TUA, contudo, foram observadas algumas atitudes negativas, na medida em que uma grande parte dos estudantes não apresentou atitude formada frente a alguns itens dos fatores, e se alocou na categoria “indiferente”; e terem concordado com alguns itens negativos da escala.
Em relação ao trabalho e as relações interpessoais, analisados no fator 1, observou-se que os estudantes de enfermagem apresentaram atitudes positivas em relação ao paciente com TUA; de modo que, a maioria discordou dos itens considerados negativos. Destacou-se que, grande parte dos estudantes acredita que mesmo que a pessoa não aceite que tem problemas relacionados ao uso do álcool, eles não devem desistir de ajudar; e mostram-se dispostos a abordar o problema do álcool com as mesmas, como também, trabalhar com pessoas com TUA.
Entretanto, uma grande parcela dos estudantes revelou que têm medo da agressividade das pessoas com TUA, e que é preciso tomar cuidado ao trabalhar com estas pessoas para não ser agredido. Isto pode ser atribuído a duas razões; a primeira estaria relacionada ao estigma social de que a pessoa com TUA é violenta e agressiva, e a segunda, ao pouco preparo recebido para atuar nesse contexto, o que pode levar o estudante a ficar inseguro para tal atuação13-14.
Os estigmas são reações negativas da sociedade referente às características ou crenças que se desviam da norma padrão. É perceptível que estigmas sociais são uns dos principais motivadores para a discriminação dos profissionais de saúde no que concerne ao problema do alcoolismo. Por conseguinte, essa questão reflete-se tanto nos profissionais, quanto no indivíduo, que não procuram ajuda profissional por receios, além de ser criada uma grande barreira para que esses sujeitos sejam atendidos de forma empática e humanizada15.
Ademais, o uso do álcool afeta a saúde mental das pessoas, o que pode impactar consideravelmente a qualidade de vida, e dificultar o convívio social, inclusive com os profissionais de saúde, que os consideram sujeitos como persuadíveis e sem controle. É importante ressaltar que essas adversidades se apresentam como um entrave para uma boa assistência, comunicação e desenvolvimento do tratamento16.
Ressalta-se que, o estigma social sobre o alcoolismo pode afetar consideravelmente as pessoas com TUA, por meio da criação de um estigma internalizado, em que essas pessoas acreditam fielmente que todos os padrões normalizados socialmente sobre a sua dependência é a verdade absoluta sobre a sua condição, consequentemente, essas pessoas negligenciam a sua saúde mental e física, abdicando da sua recuperação, o que agrava ainda mais a situação, que pode por muitas vezes até a aumentar o consumo excessivo do álcool17.
Além disso, alguns autores apontam que há uma lacuna educacional nos cursos de graduação, que não apresentam uma formação ampliada sobre a problemática do abuso de substâncias, considerando que é um problema que deveria ser frequentemente discutido, por questões de saúde pública e de caráter social que envolve diversas áreas. Nesta perspectiva, é necessária a formação e qualificação dos estudantes de enfermagem18.
No que se refere ao Fator 2 a pessoa com TUA, identificou-se que, a maioria dos participantes não concordou que as pessoas que desenvolvem o alcoolismo são fracas, e que a pessoa com TUA é um caso perdido, como também, discordou que estas são pessoas mal-educadas e culpadas por seus problemas, o que revelou que estes estudantes de enfermagem apresentaram atitudes positivas frente a pessoa com TUA.
Porém, observou-se uma alta frequência de respostas “indiferente” aos seguintes itens negativos da escala: “Pacientes com transtornos relacionados ao uso do álcool são pacientes que cooperam com o seu tratamento”, e “A pessoa com transtorno relacionado ao uso do álcool acaba sempre voltando ao serviço de saúde com o mesmo problema”, o que sugere uma tendência a atitudes negativas por parte desses estudantes. Segundo alguns autores10, a alta frequência de respostas “indiferente” parece demonstrar que os estudantes não se sentem confortáveis e nem aptos a se posicionarem frente aos itens da escala, fato que pode ser explicado como consequência da falta de conhecimento desses estudantes em relação à temática do álcool, e outro fator que pode explicar esse achado é a dificuldade de assumirem suas reais atitudes, como se fosse mais confortável para os mesmos colocarem-se em posições neutras ou sem uma opinião formada.
Sobre esse achado, um estudo qualitativo realizado com enfermeiros atuantes na estratégia de saúde da família sobre a abordagem da temática do álcool e de outras drogas19 evidenciou que a falta de capacitação faz com que a equipe sinta-se desmotivada no que diz respeito ao tratamento destes usuários, de modo que um dos principais desafios para tratar o problema está na necessidade de aperfeiçoar e motivar os profissionais que trabalham na prestação da assistência aos pacientes com TUA e seus familiares20.
Por fim, observou-se que a formação no ensino superior é um instrumento fundamental para formação de enfermeiros qualificados, de modo que, a falta de conteúdo acerca deste tema durante a graduação pode conduzir os estudantes a desenvolverem concepções errôneas sobre as pessoas com TUA, o que pode influenciar sua futura prática profissional. Portanto, é importante que a formação profissional envolva conteúdos adequados ao contexto atual do país, através de modalidades educativas associadas a práticas humanizadas e reflexivas, seja sobre o álcool ou outras drogas, e que se distanciem de modelos moralizantes21.
Dentre as limitações do estudo, destaca-se o fato de que a amostra estimada dos participantes não foi alcançada; apesar do estudo ser uma pesquisa de campo, os dados são dependentes da colaboração dos indivíduos frente aos questionamentos. Além disso, o referido trabalho trata-se de um estudo transversal, com recorte temporal, o que dificulta o estabelecimento das relações de causalidade frente ao manejo do álcool e alcoolismo.
Sendo assim, sugere-se a elaboração de estudos com estudantes universitários com a finalidade de promover discussões sobre a formação profissional e as matrizes curriculares dos cursos acerca do manejo das pessoas com TUA, considerando que este é um problema de saúde pública que pode provocar inúmeros problemas de ordem social e de saúde.
CONCLUSÃO
Os resultados encontrados no estudo possibilitaram identificar atitudes predominantemente positivas dos estudantes de enfermagem frente à pessoa com TUA, entretanto, uma grande parte dos estudantes não apresentou uma atitude definida em relação aos indivíduos com TUA, e outra concordou com alguns itens negativos da escala, com destaque para as características comportamentais do paciente com TUA.
REFERÊNCIAS