DETERMINANTES DA INSEGURANÇA ALIMENTAR EM RESIDÊNCIAS COM CRIANÇAS DE 0 A 36 MESES

DETERMINANTS OF FOOD INSECURITY IN RESIDENCES WITH CHILDREN FROM 0 TO 36 MONTHS

DETERMINANTES DE LA INSEGURIDAD ALIMENTARIA EN RESIDENCIAS CON NIÑOS DE 0 A 36 MESES

Tipo de artigo: Artigo de estudo primário

Autores

Wellington Segheto 

Doutor em Ciência da Nutrição e Doutor em Educação Física – Univ. Federal de Lavras.

Orcid: https://orcid.org/0000-0002-5712-7665

Marina de Oliveira Veríssimo

Graduada em Odontologia – Univ. Federal de Lavras.

Orcid: https://orcid.org/0000-0002-6723-9724

Camila Maciente Souza

Mestre em Nutrição e Saúde – Univ. Federal de Lavras.

Orcid: https://orcid.org/0000-0002-6162-8243

Milena Serenini Bernardes

Doutora em Pediatria e Ciências Aplicadas à Pediatria -  Univ. Federal de Lavras..

Orcid: https://orcid.org/0000-0002-2266-2991

João Paulo Lima de Oliveira

Doutor em Plantas Medicinais, Aromáticas e Condimentares – Univ. Federal de Lavras.

Orcid: https://orcid.org/0000-0002-9623-5474

Camila Maria de Melo

Doutora em Psicobiologia – Univ. Federal de Lavras.

Orcid: https://orcid.org/0000-0002-7118-4893

Maysa Helena de Aguiar Toloni

Doutorado em Pediatria e Ciências Aplicadas à Pediatria – Univ. Federal de Lavras..

Orcid: https://orcid.org/0000-0002-0297-0786

RESUMO

Objetivo: Analisar a associação de fatores sociodemográficos, econômicos e de condições de vida com o risco de insegurança alimentar em domicílios com crianças de 0 a 36 meses. Método: Estudo transversal, conduzido com domicílios com crianças nascidas nos anos de 2019, 2020 e 2021. Foram analisados 305 domicílios e reportados dados dos seus responsáveis e crianças. Modelo de regressão logística, ajustado, foi construído. Resultados: Um terço dos domicílios está em risco de insegurança alimentar. Foi observado um maior risco naqueles maiores de 30 anos e naqueles que referiram receber auxílio Bolsa Família (p <0,05), enquanto aqueles com união estável e renda acima de um salário mínimo brasileiro (p < 0,05) apresentaram menores chances de insegurança alimentar. Conclusão: O risco de IA no domicílio foi elevado o que demonstra a necessidade de estratégias e ações que diminuem esse risco em domicílios de baixa renda.

DESCRITORES: Insegurança alimentar. Primeira infância. Domicílios. Condições de vida. Fome

ABSTRACT 

Objective: To analyze the association of sociodemographic, economic, and living condition factors with the risk of food insecurity in households with children aged 0 to 36 months. Methods: A cross-sectional study was conducted with households that had children born in 2019, 2020, and 2021. Data from 305 households, including information about caregivers and children, were analyzed. An adjusted logistic regression model was constructed. Results: One-third of the households were at risk of food insecurity. A higher risk was observed among individuals over 30 years of age and those who reported receiving Bolsa Família assistance (p < 0.05), while those with a stable union and an income above the Brazilian minimum wage (p < 0.05) had lower odds of food insecurity. Conclusion: The risk of household food insecurity was high, highlighting the need for strategies and actions to reduce this risk in low-income households.

DESCRIPTORS: Food insecurity. Early childhood. Households. Life conditions. Hunger

RESUMEN 

Objetivo: Analizar la asociación de factores sociodemográficos, económicos y de condiciones de vida con el riesgo de inseguridad alimentaria en hogares con niños de 0 a 36 meses. Métodos: Estudio transversal realizado en hogares con niños nacidos en los años 2019, 2020 y 2021. Se analizaron datos de 305 hogares, incluyendo información de sus responsables y niños. Se construyó un modelo de regresión logística ajustado.
Resultados: Un tercio de los hogares presentó riesgo de inseguridad alimentaria. Se observó un mayor riesgo entre los mayores de 30 años y aquellos que informaron recibir asistencia del programa Bolsa Familia (p < 0,05), mientras que aquellos con unión estable y con ingresos superiores a un salario mínimo brasileño (p < 0,05) presentaron menores probabilidades de inseguridad alimentaria. Conclusión: El riesgo de inseguridad alimentaria en los hogares fue elevado, lo que resalta la necesidad de estrategias y acciones para reducir este riesgo en hogares de bajos ingresos.

DESCRIPTORES: Inseguridad alimentaria. Niñez temprana. Hogares. Condiciones de vida. Hambre

INTRODUÇÃO

Mundialmente, dados relativos ao ano de 2022 indicaram que a fome afeta, em média, 735 milhões de pessoas (1). No Brasil, cerca de 33 milhões de pessoas estão passando fome (2). Embora o Brasil houvesse saído do mapa da fome em 2014 (3) e com perspectivas de se consolidar em uma posição de destaque no mundo quanto à segurança alimentar, houve um agravamento em nosso país devido a aspectos econômicos e políticos (4), tornando importante a promoção da segurança alimentar.

A Segurança Alimentar e Nutricional (SAN) é definida como a garantia, para todas as pessoas, de condições de acesso aos alimentos básicos, de qualidade e em quantidade suficiente, permanentemente e de forma que o acesso a outras necessidades básicas não seja comprometido (5). Por outro lado, a IA é uma progressão de eventos que começa com a preocupação dos membros da família em ter acesso ao alimento necessário, chegando ao nível de comprometimento (6).

Globalmente, a IA afeta cerca de 2,4 bilhões de pessoas (1). No Brasil, dados da POF 2017-2018 (7) indicaram que 36,7% dos domicílios apresentaram algum nível de IA, sendo que a IA grave foi observada em 10,3 milhões de pessoas. Dados mais recentes, embora indiquem uma redução no número de indivíduos em situação de insegurança alimentar severa, mostram que 2,5 milhões de pessoas ainda passam um dia inteiro ou mais sem se alimentar no Brasil (3).

Os indivíduos em risco de IA grave apresentam um consumo alimentar com escasso aporte energético, com diminuição da ingestão de macronutrientes e inadequado aporte de vitaminas e minerais (8). Nas crianças, a ingestão abaixo do ideal de energia, proteínas e micronutrientes nos primeiros cinco anos de vida tem impactos que suscitam déficit no desenvolvimento físico e psicológico, que podem ter repercussão ao longo da vida, comprometendo o funcionamento cognitivo desses indivíduos (9). A IA na primeira infância pode evidenciar implicações negativas, indo além da saúde física até o desenvolvimento socioemocional (10).

Embora os dados demonstrem que a IA não ocorre igualmente entre as regiões do país, as regiões mais desenvolvidas também são afetados no escopo do acesso à alimentação adequada (11). Em Lavras, município localizado no sul do estado de Minas Gerais, as condições socioeconômicas e a dependência de benefícios governamentais evidenciam uma realidade frequente das cidades distantes de grandes centros urbanos (12). Porém, dados em domicílios com crianças menores de 3 anos são incipientes na literatura.

Estudos que busquem identificar as condições de IA e os fatores associados em cidades de porte médio se fazem importantes com o intuito de gerar evidências científicas para embasar novas estratégias e destinação de recursos para a adoção de políticas públicas para a promoção da saúde e prevenção de doenças no público infantil. Portanto, visando contribuir para a compreensão do mapa de IA no Brasil, o presente estudo aspira analisar a associação de fatores sociodemográficos, econômicos e de condições de vida com o risco de IA em domicílios com crianças de 0 a 36 meses em um município de médio porte de Minas Gerais.

MÉTODO

Trata-se de um estudo transversal, que utilizou os dados da linha de base da pesquisa “Caderneta de Saúde da Criança: Implicações sobre a Segurança Alimentar e Nutricional na Primeira Infância”, a qual avaliou, em particular, a dimensão da Segurança Alimentar e Nutricional (SAN). Todos os procedimentos estabelecidos pela Resolução do Conselho Nacional de Saúde nº 466/2012 e demais normas vigentes na legislação brasileira foram seguidos. O estudo foi submetido e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal XXXXXX (CAAE nº XXXXXXX, parecer nº XXXXXXX).

O estudo foi desenvolvido na cidade de Lavras, localizada no sul de Minas Gerais. Segundo dados de 2022, a população do município é de 104.761 habitantes, sendo 5.780 crianças de 0 a 4 anos de idade (5,52% da população total). O salário médio dos trabalhadores formais é de 2,5 salários mínimos, e o município apresenta um Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) de 0,78 (13). A cobertura da Atenção Primária à Saúde é de 57%, com 19 Estratégias de Saúde da Família (ESF) em funcionamento no território.

Foram elegíveis todas as famílias com crianças de 0 a 36 meses cadastradas nas ESF. O número de famílias foi definido considerando os nascidos vivos nos anos de 2019 (1.456), 2020 (1.374) e 2021 (1.309), totalizando 4.139 nascidos vivos. Para o cálculo amostral, utilizou-se a fórmula para amostras simples de proporção, considerando uma prevalência de IA grave de 18,1% em crianças brasileiras (2), nível de confiança de 95% e margem de erro de 4,5%. O cálculo resultou em uma amostra de 282 crianças. Como a população de crianças em Lavras é finita, aplicou-se a fórmula de correção para populações limitadas, resultando em um número final de 264 crianças. A amostragem foi não probabilística, incluindo todas as crianças que compareceram às consultas na ESF ou que foram visitadas em suas residências, sendo avaliadas 305 famílias.

A coleta de dados iniciou-se com a obtenção de informações secundárias junto à Secretaria de Saúde e/ou às unidades da ESF, abrangendo o nome da criança, data de nascimento e endereço. Com base nesses registros, a coleta foi realizada nos dias de atendimento pediátrico nas ESF e/ou em visitas domiciliares, entre março e outubro de 2022. A equipe de coleta foi composta por alunos, previamente treinados para a aplicação dos instrumentos. Após a apresentação dos objetivos da pesquisa e dos procedimentos, aqueles que concordaram em participar assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e, quando aplicável, o Termo de Assentimento, iniciando-se então a coleta.

Para a avaliação do risco de IA domiciliar, utilizou-se o instrumento Triagem para Risco de Insegurança Alimentar (TRIA), validado para a população brasileira (5,6,14). O TRIA é composto por duas questões: “1. Nos últimos três meses, os alimentos acabaram antes que você tivesse dinheiro para comprar mais comida? (Não/Sim)” e “2. Nos últimos três meses, você comeu apenas alguns alimentos que ainda tinha porque o dinheiro acabou? (Não/Sim)”. A presença de respostas positivas ("Sim") para ambas as questões caracterizou o domicílio como em risco de IA.

As variáveis independentes foram: idade da mãe (categorizada em “≤ 30 anos” e “> 30 anos”); cor da pele autodeclarada (categorizada em “branca” e “não branca”); estado civil (categorizado em “solteiro” e “união estável”); escolaridade do responsável (categorizada em “< 9 anos”, “9 a 12 anos” e “> 12 anos”); ocupação atual do responsável pelo domicílio (categorizada em “sem ocupação” e “trabalho remunerado”); renda familiar total em salários mínimos (categorizada em “< 1 salário mínimo”, “1 a 2 salários mínimos” e “> 2 salários mínimos”); número de moradores no domicílio (categorizado em “≤ 3 moradores” e “≥ 4 moradores”); recebimento de cesta verde e/ou cesta básica (categorizado em “não” e “sim”); peso ao nascer da criança (categorizado em “≤ 2.500 g” e “> 2.500 g”); estado nutricional da mãe (categorizado em “normal” e “excesso de peso”); condição do esgoto da residência (categorizada em “fechado” e “aberto”); tabagismo atual (categorizado em “não” e “sim”); e consumo atual de bebida alcoólica (categorizado em “não” e “sim”).

Os dados antropométricos foram obtidos por meio de balança pediátrica (para crianças menores de 24 meses) e balança digital WiSO (W801), com capacidade máxima de 180 kg e precisão de 100 g, para as demais crianças e adultos. Para a aferição da estatura, utilizou-se o estadiômetro portátil digital da marca Altura Exata, com escala em centímetros e precisão de 1 mm. A partir dessas medidas, o estado nutricional do responsável foi calculado por meio do índice de massa corporal (IMC = massa corporal/estatura², em metros quadrados), seguindo protocolo recomendado (15). Para as análises, o estado nutricional foi categorizado em normal (< 25 kg/m²) e excesso de peso (≥ 25 kg/m²).

O controle de qualidade, a digitação e a verificação da consistência dos dados foram realizados. A digitação foi feita em dupla entrada, utilizando o programa EpiInfo®, a fim de identificar erros. A descrição da amostra foi realizada por meio da apresentação das frequências absolutas e relativas do desfecho e das variáveis independentes. Para a estimativa das razões de chances (odds ratios - OR) brutas e ajustadas, com seus respectivos intervalos de confiança de 95% (IC95%), utilizou-se a regressão logística binária. Variáveis associadas ao desfecho em nível de significância de p < 0,20 foram incluídas na análise múltipla. O modelo final foi construído utilizando o método backward, em que as variáveis foram retiradas uma a uma até permanecerem apenas aquelas associadas ao desfecho com p < 0,05. As análises estatísticas foram conduzidas no programa Statistical Software for Professional (STATA), versão 13.1.

RESULTADOS

Participaram do estudo 305 famílias, com média de idade da mãe de 29,8 anos (±9,7 anos). Um terço dos domicílios apresenta risco de IA (33,77%). As perdas de seguimento em relação à avaliação de IA não foram significativas (p = 0,493). As características dos responsáveis, do domicílio e da criança estão descritas na Tabela 1.

TABELA 1 - Características dos domicílios, responsáveis e das crianças em Lavras, MG, Brasil, 2022

Variáveis

n

%

Idade da mãe

≤ 30 anos

185

60,66

> 30 anos

120

39,34

Cor da pele autoreferida

Branco

76

24,92

Não branco

229

75,08

Estado civil

Solteiro

129

42,30

União estável

176

57,70

Escolaridade do responsável

< 9 anos

71

23,28

9 – 12 anos

92

30,16

> 12 anos

142

46,56

Ocupação atual do responsável pelo domicílio

Sem ocupação

147

48,20

Trabalho remunerado

158

51,80

Renda total da família em salário mínimo brasileiro

< 1 salário mínimo

65

21,31

1 – 2 salários mínimos

128

41,97

> 2 salários mínimos

112

36,72

Número de moradores na residência

≤ 3 moradores

98

32,13

≥ 4 moradores

207

67,87

Recebimento de bolsa família

Não

206

67,54

Sim

99

32,46

Cesta verde/cesta básica

Não

271

88,85

Sim

34

11,15

Peso da criança ao nascer

≤ 2500gramas

41

13,44

> 2500 gramas

264

86,56

Estado nutricional das mães

Normal

138

45,25

Excesso de peso

167

54,75

Condições do esgoto da residência

Fechado

294

96,39

Aberto

11

3,61

Tabagismo atual

Não

269

88,20

Sim

36

11,80

Consumo atual de bebida alcoólica

Não

213

69,84

Sim

92

30,16

Insegurança alimentar (número de domicílios)

Não

202

66,23

Sim

103

33,77

Fonte: Elaboração dos autores a partir dos dados da pesquisa.

Aqueles que autodeclararam a cor como não branca (p < 0,01) apresentaram maiores chances de risco de IA no domicílio, assim como aqueles que informaram receber Bolsa Família (p < 0,01) e que indicaram a cesta verde/cesta básica como origem da sua alimentação (p < 0,01). Por outro lado, aqueles em união estável (p < 0,01), com mais de 9 anos de escolaridade (p = 0,01), que possuem trabalho remunerado (p = 0,04) e renda superior a 1 salário mínimo (p < 0,01) apresentaram menores chances de risco de IA no domicílio.

TABELA 2 - Odds Ratio e intervalo de confiança de 95% na análise bruta das variáveis relacionadas com o risco de insegurança alimentar no domicílio em Lavras, MG, Brasil.

OR

IC 95%

p

Idade da mãe

0,16

≤ 30 anos

1

1

> 30 anos

1,42

0,87 – 2,33

Cor da pele autoreferida

<0,01

Branco

1

1

Não branco

2,30

1,24 – 4,24

Estado civil

<0,01

Solteiro

1

1

União estável

0,39

0,24 – 0,64

Escolaridade do responsável

0,01

< 9 anos

1

1

9 – 12 anos

0,48

0,25 – 0,91

> 12 anos

0,44

0,24 – 0,80

Ocupação atual do responsável pelo domicílio

0,04

Sem ocupação

1

1

Trabalho remunerado

0,61

0,38 – 0,98

Renda total da família em salário mínimo brasileiro

<0,01

< 1 salário mínimo

1

1

1 – 2 salários mínimos

0,25

0,13 – 0,47

> 2 salários mínimos

0,07

0,03 – 0,16

Número de moradores na residência

0,11

≤ 3 moradores

1

1

≥ 4 moradores

1,52

0,90 – 2,58

Recebimento de bolsa família

<0,01

Não

Sim

3,84

2,31 – 6,40

Cesta verde/cesta básica

<0,01

Não

1

1

Sim

4,30

2,03 – 9,10

Peso da criança ao nascer

0,07

≤ 2500gramas

1

1

> 2500 gramas

0,54

0,28 – 1,05

Estado nutricional das mães

0,56

Normal

1

1

Excesso de peso

0,87

0,54 – 1,40

Condições do esgoto da residência

0,85

Fechado

1

1

Aberto

1,12

0,32 – 3,93

Tabagismo atual

0,29

Não

1

1

Sim

1,47

0,72 – 2,99

Consumo atual de bebida alcoólica

0,58

Não

1

1

Sim

0,86

0,51 – 1,46

Fonte: Elaboração dos autores a partir dos dados da pesquisa.

OR: Odds Ratio; IC 9%: Intervalo de Confiança de 95%

Após ajustes, permaneceram positiva e independentemente associadas ao risco de IA no domicílio a idade superior a 30 anos (p < 0,01) e o recebimento do auxílio Bolsa Família (p < 0,01), enquanto ter uma união estável (p = 0,02) e ter uma renda acima de um salário mínimo brasileiro (p < 0,01) diminuíram as chances de risco de IA no domicílio.

TABELA 3 - Odds Ratio e intervalo de confiança de 95% no modelo final das variáveis relacionadas com o risco de insegurança alimentar no domicílio em Lavras, MG, Brasil.

Variáveis

OR

IC 95%

p

Idade da mãe

<0,01

≤ 30 anos

1

1

> 30 anos

2,50

1,24 – 4,08

Estado civil

0,02

Solteiro

1

1

União estável

0,50

0,28 – 0,88

Renda total da família em salário mínimo brasileiro

<0,01

< 1 salário mínimo

1

1

1 – 2 salários mínimos

0,34

0,17 – 0,68

> 2 salários mínimos

0,11

0,05 – 0,25

Bolsa Família

<0,01

Não

1

1

Sim

2,30

1,29 – 4,11

Fonte: Elaboração dos autores a partir dos dados da pesquisa.

OR: Odds Ratio; IC 9%: Intervalo de Confiança de 95%

DISCUSSÃO

Este trabalho objetivou analisar o risco de IA em domicílios com crianças de até 36 meses e sua associação com características dos responsáveis, do domicílio e da criança. A prevalência de risco de IA no domicílio foi de 33,77%. Esse resultado foi inferior ao observado no mesmo município ao estudar a IA em gestantes (16). Independentemente da prevalência observada, há evidências de que as famílias que estão em risco ou em IA encontram limitações de estrutura e de tempo que interferem nas escolhas alimentares, no planejamento das refeições e na alimentação das crianças (17).

O risco de IA em domicílios com crianças de até 36 meses pode comprometer o desenvolvimento infantil. Um estudo conduzido para verificar o desenvolvimento infantil em duas favelas observou que as crianças que vivem em ambiente familiar com IA grave apresentam uma probabilidade menor de retroceder de um atraso marginal para um estado normal, quando comparadas àquelas em ambientes familiares com segurança alimentar (18). Ações de políticas públicas se fazem necessárias para evitar que os domicílios em risco de IA possam progredir para IA grave e influenciar o crescimento e desenvolvimento das crianças que fazem parte do núcleo familiar dos domicílios avaliados em nosso estudo.

Encontramos associação do risco de IA no domicílio com a faixa etária superior a 30 anos, com o estado civil, a renda familiar em salários mínimos brasileiros e com o recebimento de Bolsa Família. A associação da idade com o risco de IA está pouco documentada na literatura. Um estudo conduzido em Salvador identificou que aqueles com idade entre 30 e 59 anos apresentaram maior chance de IA (19). Essa categorização é similar à utilizada em nosso estudo, assim como os resultados quanto ao risco de IA no domicílio, que foi maior naqueles com idade superior a 30 anos. Por outro lado, há indicativo de que, em domicílios com moradores com idades inferiores a 18 anos, a proporção de IA é maior, principalmente quando aumenta o número de moradores nessa faixa etária (2).

Os domicílios nos quais o entrevistado referiu estar em uma união estável foram menos propensos ao risco de IA. Isto é esperado, visto que a responsabilidade de prover o alimento necessário a todos os membros do agregado familiar tem a participação de mais pessoas, o que pode ser um fator positivo para diminuir o risco de IA. Esse resultado difere do observado em uma cidade do interior do Paraná, no qual o estado civil não esteve associado à IA (20). Apesar dessa contradição, é importante destacar que a falta de um parceiro resulta no desprovimento da colaboração financeira e, por consequência, na existência de apenas um provedor, o que pode limitar os recursos para o domicílio, afetando a alimentação.

Observamos que os domicílios que referiram uma renda igual ou superior a um salário mínimo brasileiro apresentaram menores chances de risco de IA. Essa associação também foi observada ao avaliar a prevalência de IA em gestantes (16) e na cidade de Salvador (19). Há evidências de que, para as famílias brasileiras, a renda é um dos principais fatores para a ocorrência de IA (21). Um maior poder aquisitivo parece ser um fator importante na diminuição do risco de IA. A fome é um problema social independente da disponibilidade de alimentos, estando relacionada ao acesso limitado em função da falta de recursos para adquiri-los (16).

Receber um auxílio do governo, como o Bolsa Família, pode contribuir para uma melhor aquisição de alimentos; entretanto, em nosso estudo, as famílias beneficiárias apresentaram uma probabilidade maior de viver em domicílio com risco de IA. Uma possível explicação para essa associação é o fato de a coleta de dados ter ocorrido em situação de isolamento social, durante a pandemia da COVID-19. Nesse período, os benefícios do governo foram, para muitas famílias, a única fonte de renda para suprir todas as demandas daquele domicílio, como alimentação, aluguel, luz, saúde, dentre outras, o que pode ter limitado o acesso aos alimentos, colocando esses domicílios em risco de IA.

Os achados da presente pesquisa evidenciam que o risco de IA tem colocado desafios importantes para as famílias que possuem crianças de 0 a 36 meses em seu núcleo, pois permanece a necessidade desafiadora de redução das desigualdades sociais, consoante os fatores associados. As políticas e estratégias recém-formuladas tendem a ser executadas gradativamente, conforme o princípio da justiça social, considerando os distintos grupos e cenários brasileiros e priorizando os mais vulneráveis, a fim de conduzir a um acesso equitativo à alimentação. Por fim, destaca-se que, no cenário atual, ações descentralizadas, como o trabalho intersetorial, são fundamentais para manter a redução da prevalência de IA no país, uma vez que as características e a intensidade dos fatores associados podem variar em função do contexto em que a família está inserida.

Os pontos fortes deste estudo incluem sua representatividade municipal, o uso de medida consistente, validada e objetiva do risco de IA, sendo analisada em diferentes parâmetros, permitindo a discussão deste fenômeno. Importante destacar que a amostra deste estudo possui percepções e experiências diferentes acerca das informações de IA, influenciando nos dados obtidos. É importante ainda considerar, na interpretação dos resultados, que os dados apresentados podem não refletir a total realidade encontrada, uma vez que a amostra exclui a população sem endereço residencial, a qual apresenta elevada probabilidade de IA.

CONCLUSÃO

Em domicílios com crianças de até 36 meses, no município de Lavras – MG, observou-se que um terço dos lares apresenta IA. A IA esteve positivamente associada à idade superior a 30 anos e ao recebimento de auxílio governamental, enquanto a união estável e a renda familiar superior a um salário mínimo brasileiro se associaram negativamente à ocorrência de IA. Embora esses resultados sejam relevantes e possam subsidiar a elaboração de políticas públicas intersetoriais — voltadas para a redução das desigualdades socioeconômicas, a garantia da segurança alimentar e nutricional (SAN), a promoção da saúde e a prevenção de doenças —, novos estudos são necessários. É importante considerar, especialmente, os domicílios com população infantil que não possuem endereço fixo ou não estão cadastrados nas Estratégias de Saúde da Família, para uma avaliação mais abrangente.

REFERÊNCIAS

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6.        Poblacion A, Segall-Corrêa AM, Cook J, Taddei JA de AC. Validity of a 2-item screening tool to identify families at risk for food insecurity in Brazil. Cad Saude Publica. 2021;37(6):e00132320.

7.        Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE. Pesquisa de orçamentos familiares 2017-2018: avaliação nutricional da disponibilidade domiciliar de alimentos no Brasil. 2020. 61 p.

8.        Kubo SE dos AC, da Costa THM, Gubert MB. Intakes of energy, macronutrients and micronutrients of a population in severe food insecurity risk in Brazil. Public Health Nutr 2020 ;23(4):649–59.

9.        Gallegos D, Eivers A, Sondergeld P, Pattinson C. Food Insecurity and Child Development: A State-of-the-Art Review. Int J Environ Res Public Health. 2021;18(17):8990.

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AGRADECIMENTOS

        Agradecemos a Fundação Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) pelas bolsas de mestrado e Pós-doutorado concedidas e a todos os envolvidos no estudo.

DECLARAÇÃO DE CONFLITO DE INTERESSE FINANCEIRO E/OU DE AFILIAÇÕES

Não há nenhum conflito de inresse a relatar.