ESTADO NUTRICIONAL, RESILIÊNCIA E ESPERANÇA DE VIDA DE IDOSOS COM DIABETES NA PANDEMIA DA COVID-19
ESTADO NUTRICIONAL, RESILIENCIA Y ESPERANZA DE VIDA DE LOS ADULTOS MAYORES CON DIABETES EN LA PANDEMIA DE COVID-19
NUTRITIONAL STATUS, RESILIENCE AND LIFE EXPECTANCY OF OLDER ADULTS WITH DIABETES IN THE COVID-19 PANDEMIC
Autor correspondente: Ítala Farias Cronemberger, mestre em gerontologia, Universidade Federal de Pernambuco, Orcid: 0000-0001-9732-2687
Anna Karla de Oliveira Tito Borba, doutora em nutrição, Universidade Federal de Pernambuco, Orcid: 0000-0002-9385-6806
Ana Paula de Oliveira Marques, pós-doutora em enfermagem, Universidade Federal de Pernambuco, Orcid: 0000-0003-0731-8065
Yasmin Cunha Alves, bacharel em enfermagem, Universidade Federal de Pernambuco, Orcid: 0000-0003-2384-9739
Thais Monteiro de Lucena, bacharel em enfermagem, Universidade Federal de Pernambuco, Orcid: 0009-0000-1642-5255
RESUMO
OBJETIVO: avaliar a associação da resiliência e esperança de vida com o estado nutricional de pessoas idosas com diabetes tipo 2 na pandemia da COVID-19. MÉTODO: estudo seccional, analítico, quantitativo, com 98 indivíduos com idade igual ou superior a 60 anos, com diagnóstico de Diabetes Mellitus tipo 2, assistidos em um hospital público na cidade do Recife. Foram investigadas variáveis sociodemográficas, clínicas e as escalas de esperança de vida de Herth e de resiliência de Connor-Davidson. RESULTADOS: a obesidade esteve presente em 41.8% da amostra. Aqueles que apresentavam peso adequado, pontuaram maior resiliência. As pessoas idosas com obesidade apresentaram baixa resiliência. A análise multivariada mostrou um risco 51% maior nos indivíduos obesos (1,36 – 1,69) e 42% maior em sobrepeso (1,08 – 1,88) em apresentar baixa resiliência e baixa esperança de vida. CONCLUSÃO: faz-se necessária a inclusão dos aspectos psicológicos que afetam o tratamento e sua interferência na manutenção do peso adequado.
DESCRITORES: Resiliência; Esperança de vida; Estado nutricional.
ABSTRACT
OBJECTIVE: evaluate the association of resilience and life expectancy with the nutritional status of elderly people with type 2 diabetes in the COVID-19 pandemic. METHOD: sectional, analytical, quantitative study, with 98 individuals aged 60 years or over, diagnosed with type 2 Diabetes Mellitus, treated at a public hospital in the city of Recife. Sociodemographic and clinical variables and the Herth life expectancy and Connor-Davidson resilience scales were investigated. RESULTS: obesity was present in 41.8% of the sample. Those who had adequate weight had greater resilience. Older people with obesity had low resilience. The multivariate analysis showed a 51% higher risk in obese individuals (1.36 – 1.69) and a 42% higher risk in overweight individuals (1.08 – 1.88) of having low resilience and low life expectancy. CONCLUSION: it is necessary to include psychological aspects that affect treatment and their interference in maintaining adequate weight.
DESCRIPTORS: Resilience; Life Expectancy; Nutritional Status.
RESUMEN
OBJETIVO: Evaluar la asociación de la resiliencia y la esperanza de vida con el estado nutricional de personas mayores con diabetes tipo 2 en la pandemia de COVID-19. MÉTODO: estudio seccional, analítico, cuantitativo, con 98 personas, con edad igual o superior a 60 años, diagnosticadas con Diabetes Mellitus tipo 2, atendidas en un hospital público de la ciudad de Recife. Se investigaron variables sociodemográficas y clínicas y las escalas de esperanza de vida de Herth y de resiliencia de Connor-Davidson. RESULTADOS: la obesidad estuvo presente en el 41,8% de la muestra. Aquellos que tenían un peso adecuado tuvieron mayor resiliencia. Las personas mayores con obesidad tenían baja resiliencia. El análisis multivariado mostró un riesgo 51% mayor en personas obesas (1,36 – 1,69) y un riesgo 42% mayor en personas con sobrepeso (1,08 – 1,88) de tener baja resiliencia y baja esperanza de vida. CONCLUSIÓN: es necesario incluir aspectos psicológicos que inciden en el tratamiento y su interferencia en el mantenimiento del peso adecuado.
DESCRIPTORES: Resiliencia; Esperanza de vida; Estado nutricional.
INTRODUÇÃO
Coronavirus Disease (COVID-19), causada pelo vírus SARS–Cov–pode acometer pessoas de qualquer idade. A doença é geralmente acompanhada por um conjunto de sintomas semelhantes aos da gripe, mas, pode incluir a Síndrome da Angústia Respiratória Grave (SARS) e gerar falência múltipla de órgãos1.
Alguns fatores de risco foram identificados e relacionados ao COVID, dentre eles, a presença do diabetes mellitus (DM) que pode afetar a capacidade funcional das pessoas idosas, refletindo sobre a sua autonomia e independência. Embora muitas pessoas idosas enfrentem diariamente as adversidades impostas pela enfermidade, percebe-se que alguns indivíduos apresentam uma capacidade de superação, o que pode estar associado à resiliência, esta pode agir como fator de proteção em relação às desordens psicológicas, levando ao aumento da autoestima, autoeficácia, habilidades para resolver problemas, atuando como moderador dos efeitos negativos do estresse2.
A quarentena imposta como medida de prevenção contra a COVID-19, ocasionou uma modificação nas atividades diárias da população. A restrição total ao domicílio pode claramente impactar o estilo de vida da população, especialmente em termos de dieta e atividade física. Especialmente em indivíduos com diabetes mellitus tipo 2 (DM2), exercícios e dieta têm um papel importante no controle da doença, e quaisquer mudanças perturbadoras podem resultar em efeitos importantes para a saúde e piora no controle metabólico do diabetes3.
Nesse sentido, torna-se válido manter a esperança frente a qualquer situação adversa, pois é sabido que a esperança afeta o binômio saúde/doença de maneira positiva, ajudando o indivíduo a enfrentar as incertezas do futuro de uma forma mais eficaz e com resultado satisfatório3. Os desafios que a doença crônica traz nem sempre são enfrentados de maneira adequada, podendo ocasionar dificuldades no manejo da doença, gerando estresse e sofrimento4.
Aliado ao diabetes tipo 2, a obesidade constitui outro fator de risco para o desenvolvimento das formas mais graves da COVID-19. As emoções influenciam o comportamento alimentar, sentimentos de solidão, raiva e prazer têm sido associados aos seus hábitos alimentares. O excesso de peso e o aumento da adiposidade visceral estão associados com alterações metabólicas, como aumento da resistência insulínica, hipertensão, além de desregulação do sistema imunológico5.
A pandemia da COVID -19 trouxe, além de um grave problema de saúde, implicações negativas para a saúde mental da população, especialmente das pessoas idosas. Diante deste cenário, faz-se necessário aprofundar a compreensão dos fatores psicológicos que estão relacionados ao sobrepeso e obesidade. Com isso, o objetivo do estudo foi avaliar a associação da resiliência e esperança de vida com o estado nutricional de pessoas idosas com diabetes tipo 2 durante a pandemia da COVID-19.
METODOLOGIA
Trata-se de estudo seccional, analítico, com abordagem quantitativa, realizado no Ambulatório de Endocrinologia de um hospital público, na cidade do Recife, Pernambuco.
Participaram do estudo, indivíduos com idade igual ou superior a 60 anos, com diagnóstico de Diabetes Mellitus tipo 2. Para a determinação do tamanho da amostra, foi utilizada a equação de cálculo de amostra para estudo de proporção em população finita. Considerando o nível de significância de 95%, a margem de erro na estimativa de 5%, a prevalência esperada de 50% para idosos com diabetes e sobrepeso ou obesidade e um número total de 104 idosos com diabetes atendidos em 4 meses no serviço durante a pandemia de COVID-19, foi definido um total de 82 indivíduos para compor a amostra. Considerando-se um percentual de 20% para as eventuais perdas, o tamanho amostral necessário foi de 98 indivíduos.
A coleta se deu por conveniência, onde fizeram parte da amostra todas as pessoas idosas com diabetes atendidas no período de janeiro a março de 2022 e que aceitaram a participação na pesquisa. Os critérios de inclusão foram: possuir idade igual ou superior a 60 anos, de ambos os sexos, tempo de diagnóstico de DM2 superior a um ano.
Os critérios de exclusão foram: presença de distúrbio cognitivo, avaliada por meio de 3 perguntas contidas na 4a edição da caderneta de saúde da pessoa idosa (item 2.7, página 44)6. Tais questões indicam possíveis lapsos de memória e a presença de incapacidade cognitiva7, apresentar insuficiência renal crônica terminal (realizar diálise); possuir doença pulmonar obstrutiva crônica e diagnóstico de Câncer,
As variáveis sociodemográficas avaliadas foram: sexo, idade, raça/cor, escolaridade, renda familiar, possuir companheiro, arranjo de moradia. Aa variáveis clínicas foram: tempo de diagnóstico de diabetes, presença de complicações/comorbidades, tabagismo, consumo abusivo de álcool, hemoglobina glicada, saúde autopercebida e saúde comparada com pessoas da mesma idade.
A avaliação do estado nutricional se deu através da aferição do Índice de Massa Corporal. O peso foi obtido segundo os critérios de Lohman8. O cálculo do IMC foi realizado através da divisão do peso, em quilogramas (kg) pela estatura, em metros(m), ao quadrado. O resultado foi expresso em kg/m². A avaliação do IMC seguiu a seguinte recomendação: baixo peso (≤ 23 kg/m²); Peso adequado9.
A esperança de vida foi avaliada pela Escala de Esperança de Herth, instrumento adaptado e validado para a língua portuguesa, aplicado em indivíduos com doenças crônicas. O instrumento é composto de 12 itens escritos de forma afirmativa e a graduação dos itens ocorre por escala tipo Likert de 4 pontos. O escore total varia de 12 a 48 sendo que quanto maior o escore, mais alto o nível de esperança10,11.
A resiliência foi avaliada pela Escala de Resiliência de Connor-Davidson (RISC-Br), adaptada e validada para a língua portuguesa. Possui 25 itens descritos de forma positiva com resposta tipo Likert, com as seguintes opções de respostas: nem um pouco verdadeiro (zero); raramente verdadeiro (um); às vezes verdadeiro (dois); frequentemente verdadeiro (três), quase sempre verdadeiro (quatro). As pontuações totais podem variar entre zero a 100 pontos, valores próximos a 100 indicam melhor resiliência12,13.
Devido à ausência de pontos de corte específicos para essas escalas, neste estudo, os resultados foram divididos em tercis, sendo que os indivíduos no grupo do 1º tercil foram considerados com baixa resiliência e aqueles no grupo do 3º tercil foram considerados com alta resiliência.
A construção do banco de dados foi realizada através da compilação e armazenamento no programa Microsoft Office Excel e, posteriormente foram importados para o software Statistical Package for the Social Sciences versão 13.0 e Stata, versão 14 para serem realizadas as análises estatísticas.
As variáveis quantitativas foram testadas quanto à normalidade da distribuição por meio do teste de Kolmogorov-Smirnov e, por terem apresentado distribuição normal, foram expressas por meio de médias e respectivos desvios-padrão. Já a análise de associação foi realizada por meio do teste do Qui-quadrado para Tendência e a análise ajustada de associação se deu com aplicação da Regressão de Poisson com ajuste robusto da variância. Nessa análise multivariada entraram no modelo as variáveis com p-valor < 0,20, tendo sido aplicado o método backward e permaneceu no modelo final as variáveis com p-valor < 0,05. Em todas as análises foi considerada significância estatística quando p-valor < 0,05 (nível de significância de 5%).
O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Universidade Federal de Pernambuco. Todos os entrevistados foram previamente informados dos objetivos da pesquisa, bem como dos métodos a serem adota dos. Mediante o consentimento das pessoas idosas, ocorreu a assinatura ou impressão digital no Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Este estudo foi aprovado pelo Comitê de ética e Pesquisa do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal de Pernambuco (CEP/CCS/UFPE), sob o número 51778221.40000.5208.
RESULTADO
Em relação às características sociodemográficas, Das 98 pessoas idosas entrevistadas, a maioria é do gênero feminino (71,4%), média de idade de 67,7 anos (DP 5,82), cor parda ou morena (58,2%), possuem até 8 anos de estudo (70,4%), renda familiar de um a dois salários mínimos (77,5%), possui companheiro (51%) e reside também com filhos e outros familiares (55,1%).
As complicações oftalmológicas foram mais prevalentes, seguidas das doenças cardiovasculares. A hipertensão arterial foi relatada por 84,4% das pessoas idosas. Apenas 3 participantes se declaram fumantes e a maioria nunca fumou (55,1%). Em relação ao consumo abusivo de álcool, os homens consumiram 5 ou mais doses em uma mesma ocasião, já as mulheres não referiram tal prática. Quanto ao controle do diabetes, os dados de hemoglobina glicada foram coletados de 71 participantes que possuíam exames dos últimos 6 meses, os resultados indicaram pior controle glicêmico. A saúde autopercebida foi em sua maioria considerada regular, enquanto a saúde comparada com pessoas da mesma idade foi considerada boa/muito boa (Tabela 1).
Tabela 1 - Caracterização clínica de pessoas idosas com diabetes assistidos a nível ambulatorial. Recife-PE, Brasil, 2022.
Variáveis | N | % | IC95% |
Tempo de Diagnóstico de Diabetes (anos) | 16,6±9,0* | - | - |
Complicações do diabetes | |||
Sim | 53 | 54,1 | 43,7 – 64,2 |
Não | 45 | 45,9 | 35,8 – 56,3 |
Doenças Cardiovasculares* | |||
Sim | 19 | 32,2 | 20,6 – 45,6 |
Não | 40 | 67,8 | 54,4 – 79,4 |
Doença Renal* | |||
Sim | 10 | 16,9 | 08,4 – 29,0 |
Não | 49 | 83,1 | 71,0 – 91,6 |
Oftalmológicas* | |||
Sim | 33 | 55,9 | 42,4 – 68,8 |
Não | 26 | 44,1 | 31,2 – 57,6 |
Neuropatia* | |||
Sim | 03 | 05,1 | 01,1 – 14,1 |
Não | 56 | 94,9 | 85,9 – 98,9 |
Pé diabético* | |||
Sim | 07 | 11,9 | 04,9 – 22,9 |
Não | 52 | 88,1 | 77,1 – 95,1 |
Hipertensão Arterial | |||
Sim | 84 | 85,7 | 77,2 – 92,0 |
Não | 14 | 14,3 | 08,0 – 22,8 |
Dislipidemia | |||
Sim | 62 | 63,3 | 52,9 – 72,8 |
Não | 36 | 36,7 | 27,2 – 47,1 |
Tabagismo | |||
Fumante | 3 | 03,1 | 00,6 – 08,7 |
Ex-Fumante (6 meses ou mais) | 41 | 41,8 | 31,9 – 52,2 |
Nunca Fumou | 54 | 55,1 | 44,7 – 65,2 |
Hemoglobina Glicada | 9 (±4,44)** | - | - |
Consumo de 5 doses ou mais | |||
Sim | 05 | 83,3 | 35,9 – 99,6 |
Não | 01 | 16,7 | 00,4 – 64,1 |
Consumo de 4 doses ou mais | |||
Sim | 00 | 00,0 | - |
Não | 05 | 100 | 100 – 100 |
Saúde autopercebida | |||
Boa/ Muito Boa | 27 | 27,6 | 19,0 – 37,5 |
Regular | 53 | 54,1 | 43,7 – 64,2 |
Ruim/ Muito Ruim | 18 | 18,4 | 11,3 – 27,5 |
Saúde comparada com pessoas da mesma idade | |||
Boa/ Muito boa | 47 | 48,0 | 37,8 – 58,3 |
Regular | 32 | 32,6 | 23,5 – 42,9 |
Ruim/ Muito Ruim | 19 | 19,4 | 12,1 – 28,6 |
Diagnóstico de COVID-19 (exame ou profissional de saúde) | |||
Sim | 19 | 19,4 | 12,1 – 28,6 |
Não | 79 | 80,6 | 71,4 – 87,9 |
IC95% - intervalo de confiança de 95%; *Incluído apenas as pessoas idosas que autorrelataram a presença de complicação. **Incluídos apenas os valores obtidos dos últimos seis meses anteriores à coleta de dados.
Apenas 19,4% foram diagnosticados com COVID-19 por exame ou profissional de saúde, desses, apenas 3 precisaram de internamento. Dois participantes precisaram de suporte ventilatório. Em relação à vacinação contra a COVID-19, 90,6% completaram o esquema vacinal, incluindo a primeira dose de reforço. O estado nutricional foi verificado a partir do IMC, onde a média encontrada foi de 29 Kg/m2 (DP=4,75) e a maior parte dos idosos foi diagnosticada com obesidade. Apenas 11,2% foram classificados como baixo peso (Tabela 2).
Em relação ao estado nutricional e a resiliência, aqueles que apresentavam peso adequado, pontuaram maior resiliência. Bem como, as pessoas idosas com obesidade apresentaram baixa resiliência (P=0,001) (Tabela 2). A média de resiliência da população estudada foi de 77,8 (DP=15,3), sendo incluído no terceiro tercil que corresponde à alta resiliência. Já a média de esperança de vida foi de 37,6, também incluído no terceiro tercil que corresponde à alta esperança de vida (DP=4,94).
Tabela 2 - Associação do estado nutricional com a resiliência de pessoas idosas com diabetes. Recife-PE, Brasil, 2022.
Estado Nutricional | n | % | Resiliência | Resiliência | |||
Baixa | Elevada | ||||||
N (%) | IC95% | N (%) | IC95% | P-valor | |||
0,001* | |||||||
Baixo peso | 11 | 11,2 | 00 (00,0) | 00,0 – 28,5 | 06 (54,5) | 23,4 – 83,3 | |
Peso adequado | 37 | 37,8 | 08 (21,6) | 09,8 – 38,2 | 15 (40,5) | 24,8 – 57,9 | |
Sobrepeso | 09 | 09,2 | 03 (33,3) | 07,5 – 70,1 | 04 (44,4) | 13,7 – 78,8 | |
Obesidade | 41 | 41,8 | 21 (51,2) | 35,1 – 67,1 | 09 (22,0) | 10,6 – 37,6 | |
IC95% - intervalo de confiança de 95%;
*Teste do Qui-quadrado para Tendência.
Comparando o estado nutricional com a esperança de vida, as pessoas idosas com sobrepeso apresentaram esperança de vida mais baixa, porém, sem significância (p=0,09) (Tabela 3).
Tabela 3 - Associação do estado nutricional com a esperança de vida de pessoas idosas com diabetes. Recife-PE, Brasil, 2022.
Estado Nutricional | n | % | Esperança de vida | Esperança de vida | |||
Baixa | Elevada | ||||||
N (%) | IC95% | N (%) | IC95% | P-valor | |||
0,090* | |||||||
Baixo peso | 11 | 11,2 | 01 (09,1) | 00,2 – 41,3 | 04 (36,4) | 10,9 – 69,2 | |
Peso adequado | 37 | 37,8 | 13 (35,1) | 20,2 – 52,5 | 18 (48,6) | 31,9 – 65,6 | |
Sobrepeso | 09 | 09,2 | 05 (55,6) | 21,2 – 86,3 | 01 (11,1) | 00,3 – 48,2 | |
Obesidade | 41 | 41,8 | 13 (31,7) | 18,1 – 48,1 | 09 (22,0) | 10,6 – 37,6 | |
IC95% - intervalo de confiança de 95%;
*Teste do Qui-quadrado para Tendência.
Foi realizada análise multivariada que indicou que a baixa resiliência era 51% vezes maior entre as pessoas idosas com obesidade, (RP 1,51 IC-1,36-1,69) e (p=0,000), 34% e 22% maiores para sobrepeso e peso adequado respectivamente, para ambas as condições antropométricas (RP 1,34 IC 1,10-1,64) (p ˂0,004) e (RP 1,22 IC 1,07-1,40) (Tabela 4).
Tabela 4 - Análise ajustada (multivariada) da associação do estado nutricional com a resiliência em idosos com diabetes. Recife-PE, Brasil, 2022.
Estado Nutricional | Resiliência Baixa | Resiliência Elevada | ||||
RP | IC95% | P-valor* | RP | IC95% | P-valor* | |
Baixo peso | 1 | - | - | 1 | - | - |
Peso adequado | 1,22 | 1,07 – 1,40 | 0,004† | 0,91 | 0,74 – 1,11 | 0,347‡ |
Sobrepeso | 1,34 | 1,10 – 1,64 | 0,004† | 0,92 | 0,70 – 1,21 | 0,566‡ |
Obesidade | 1,51 | 1,36 – 1,69 | 0,000† | 0,77 | 0,63 – 0,94 | 0,010‡ |
RP – razão de prevalência; IC95% - intervalo de confiança de 95%; Ref. – categoria de referência;
*Regressão de Poisson com ajuste robusto da variância;
†Análise ajustada pelas variáveis ‘renda familiar’, ‘dislipidemia’ e ‘COVID-19’;
‡Análise ajustada pelas variáveis ‘Possui Companheiro’ e ‘Cor da pele’.
Para a esperança de vida, na tabela 5, pode ser observado pela análise multivariada, que foi 42 vezes maior entre as pessoas com sobrepeso, (RP 1,42 IC 1,08-1,88) (p=0,013), para aqueles com peso adequado, a esperança de vida foi 23% maior, (RP 1,23 RP 1,00-1,51) (p ˂ 0,047).
Tabela 5 - Análise ajustada (multivariada) da associação do estado nutricional com a esperança de vida em idosos com diabetes. Recife-PE, Brasil, 2022.
Estado Nutricional | Esperança de vida | Esperança de vida | |||||
Baixa | Elevada | ||||||
RP | IC95% | P-valor* | RP | IC95% | P-valor* | ||
Baixo peso | 1 | - | - | 1 | - | - | |
Peso adequado | 1,23 | 1,00 – 1,51 | 0,047† | 0,96 | 0,77 – 1,20 | 0,744‡ | |
Sobrepeso | 1,42 | 1,08 – 1,88 | 0,013† | 0,70 | 0,54 – 0,92 | 0,010‡ | |
Obesidade | 1,22 | 0,98 – 1,50 | 0,069† | 0,82 | 0,66 – 1,01 | 0,057‡ | |
RP – razão de prevalência; IC95% - intervalo de confiança de 95%; Ref. – categoria de referência;
*Regressão de Poisson com ajuste robusto da variância;
†Análise ajustada pelas variáveis ‘Escolaridade’, ‘Cor’ e ‘tabagismo’;
‡Análise ajustada pelas variáveis ‘COVID’ e ‘Dislipidemia’.
DISCUSSÃO
O processo de envelhecimento traz consigo grandes alterações biológicas, psicológicas e sociais, além do aparecimento das doenças crônicas que se elevam a partir dos 60 anos, destacando-se o diabetes mellitus. Nesse sentido, torna-se válido manter bons níveis de funcionamento e de bem-estar físico e psicológico, frente às condições econômicas, sociais e de saúde, ajudando o indivíduo a enfrentar as incertezas do futuro de uma forma mais eficaz e com resultado satisfatório3.
Um estudo com 300 adultos e idosos realizado na Paraíba utilizando a Escala de Resiliência de Connor-Davidson mostrou que o elevado nível de resiliência foi maior nos participantes com: menos de 60 anos; aqueles com mais de oitos anos de estudo; em pessoas que ganhavam três ou mais salários mínimos e em indivíduos brancos, além disso, foi maior em pessoas que não apresentaram comorbidades e complicações, e naqueles que consumiam bebida alcoólica14.
A escolaridade é um importante determinante das condições de saúde e pessoas idosas com baixa escolaridade apresentam maior prevalência de HAS e DM, implicando em condições de vida e saúde deficitários. Uma revisão sistemática identificou que o baixo nível de escolaridade aumentou em 64% as chances de multimorbidade (OR: 1,64, IC95% 1,41-1,91), sendo essa associação mais forte em populações mais idosas do que nas mais jovens. Isso pode refletir em uma maior dificuldade em reconhecer suas necessidades de saúde e de aderir a tratamentos, e dificuldades de acesso aos serviços de saúde15.
Estudos apontam que mesmo pessoas mais idosas (85 anos ou mais) podem ter elevados níveis de resiliência, podendo ser ainda maior do que nas de idade mais jovem. Estes níveis de resiliência na velhice caracterizam um fenômeno próximo ao conceito do "paradoxo do bem-estar subjetivo", que afirma que os níveis de bem-estar psicológico permanecem estáveis ao longo da velhice, apesar das perdas associadas ao envelhecimento16.
De acordo com o estudo desenvolvido por Azizah (2021)17, os indivíduos com diabetes apresentam alta resiliência, indicando que eles têm discernimento para adaptar seu estilo de vida a fim de gerenciar os efeitos adversos do diabetes. Essa resiliência motivaria o paciente a cuidar de si, elevando ainda mais a sua resiliência.
Foi realizado um ensaio clínico randomizado com 3.199 pessoas idosas (72,2 ± 6,2 anos), com diagnóstico de DM2, comparando uma intervenção intensiva de estilo de vida para perda de peso, à educação e suporte ao diabetes. Os participantes foram acompanhados observacionalmente após uma intervenção de 10 anos. A resiliência foi medida através da Brief Resilience Scale e a média do IMC foi de 34,2 (± 8,2 kg/m2). Como resultado, observou-se que uma maior resiliência esteve associada com menor IMC18.
Os fatores de risco para consequências psicológicas negativas durante a quarentena incluíram: medo da infecção, frustração, tédio, falta de acesso a suprimentos, informações inadequadas sobre a situação da pandemia e perdas financeiras. Poucos meses após o surto de COVID-19, foi publicada uma revisão de oito estudos, incluindo 687 indivíduos, descrevendo os efeitos psicológicos da quarentena. Esta revisão mostrou o desenvolvimento de ansiedade em 35,1%, depressão em 16,9%, solidão em 5,7% e desespero em 0,9%19.
Uma meta-análise envolvendo 33 estudos realizados em diversos países examinou a associação entre resiliência e sofrimento psicológico em profissionais de saúde, população em geral e pessoas doentes durante a pandemia de COVID-19. Desses estudos, apenas três avaliaram pessoas com doenças crônicas e câncer. Encontrou-se uma relação negativa moderadamente significativa entre resiliência geral e sofrimento psicológico (r agrupado = −0,43; IC 95%: −0,52 a −0,33;p < 0,001). As pessoas que convivem com doenças crônicas, desenvolvem uma capacidade adaptativa ao longo do tempo em resposta aos eventos estressores e dificuldades de lutar nas doenças crônicas. Por esta razão, tendem a ter maior resiliência porque, ao lidar com sua doença em longo prazo, eles têm tempo para se adaptar à sua doença20.
Em relação à esperança, um estudo realizado na Itália entre os meses de abril e maio de 2020, analisou as condições físicas e psicológicas dos italianos durante a pandemia. Alguns participantes mostraram baixos níveis de ansiedade e depressão, sobretudo, aqueles que possuíam alto nível de otimismo e esperança. Essas pessoas possuem uma visão positiva do futuro e confiança de que suas ações podem melhorar a situação negativa e atenuar seu sofrimento psicológico21.
Um estudo piloto realizado nos Estados Unidos objetivou avaliar o impacto de um grupo de autogestão de educação e apoio sobre resultados relacionados ao bem-estar em adultos com doença mental grave. Setenta e nove mulheres adultas participaram da pesquisa e possuíam pelo menos uma doença crônica. Como resultado após um seguimento de 3 meses, não houve diferença no escore de esperança, porém, gerou um impacto positivo na qualidade do sono, alimentação saudável e prática de exercícios, mostrando que intervenções de maior duração são mais associadas a mudanças comportamentais que impactam no estilo de vida22.
Dados de uma pesquisa comunitária realizada na Carolina do Norte avaliaram as relações entre esperança e índice de massa corporal e esperança e autoavaliação de saúde entre 434 mulheres adultas e idosas. O IMC médio foi de 29,6 (variação de 16,2 a 77,9) e a correlação entre esperança e IMC foi negativa (r = −0,164), sugerindo que as mulheres com maior esperança apresentaram menor IMC. Além disso, a correlação entre esperança e autoavaliação de saúde foi positiva (r = 0,35), sugerindo que as mulheres com maior esperança possuíam maior autoavaliação de saúde23.
Isso se deve ao fato de os indivíduos com maior esperança estarem mais propensos a estabelecer metas apropriadas e encontrar caminhos para atingir essas metas, bem como, possuírem motivação para cuidar de sua saúde, evitando o sobrepeso e a obesidade22. As características sociodemográficas dos participantes são semelhantes a outros estudos com DM, os quais apontam o predomínio do gênero feminino, casados, com baixa escolaridade e que recebem menos de 3 salários mínimos4.
A média de IMC encontrada no estudo foi de 29 (±4,75), semelhante ao encontrado em um estudo realizado no Piauí com idosos membros de uma associação de diabéticos (27,4±4,06), bem como, a maioria dos participantes foram diagnosticados com sobrepeso (IMC acima de 27kg/m²)24. Assim como neste estudo, onde a maioria da população possui sobrepeso e obesidade.
Este estudo apresentou a limitação de se tratar de um estudo transversal, por não ser possível concluir qual a natureza da relação entre exposição e evento nestas situações. Apesar dessa limitação, este estudo fornece resultados úteis sobre a relação entre resiliência e estado nutricional de pessoas idosas com diabetes, tendo em vista que a pesquisa nessa área é limitada.
CONCLUSÃO
Grande parte da população estudada possui um longo tempo de convívio com o diabetes, sendo frequente a presença de complicações e comorbidades. Em relação ao estado nutricional, a maioria das pessoas idosas era obesa, refletindo-se no seu nível de resiliência que foi mais baixo. Bem como, aquelas com excesso de peso que pontuaram menor nível de esperança.
Diante do exposto, faz-se necessária a inclusão dos aspectos psicológicos no tratamento das pessoas idosas com diabetes. Além disso, a criação de programas sociais com foco na prevenção e controle da doença e, assim, prevenir ou retardar o aparecimento de complicações agudas e crônicas, promovendo mais qualidade de vida.
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