`        IMPACTOS DA COVID 19 NA SAÚDE MENTAL DE PROFISSIONAIS DA SAÚDE E PRESTADORES DE SERVIÇO DE UMA MATERNIDADE PÚBLICA DO ESTADO DO AMAPÁ

                 JACQUELINE BARBOSA DA COSTA (1)

ALJERRY DIAS DO RÊGO (2)

  JULIANA SANTANA RAMOS (3)

GIOVANNA FARIAS REGO (4)

1 -  Médica da Secretária Estadual de Saúde do Governo estado Amapá,

     Ex residente do Programa de residência médica em ginecologia-obstetrícia da Unfap

2 -  Professor curso de Medicina e preceptor do programa de residência médica da Universidade Federal do Amapá

3 – Aluna do curso de Medicina da Universidade Federal

4 – Aluna do curso de Medicina da Cesupa - Pará

RESUMO

A Covid 19 foi um grave problema de saúde mundial. É  altamente transmissível principalmente em locais fechados e ambientes hospitalares. Os profissionais de saúde são particularmente susceptíveis a infecção e durante a assistência resultando muitas vezes em alta carga de estresse  e afetando a saúde mental. O objetivo deste artigo foi: Analisar os impactos da Covid 19 na saúde mental funcionários de  uma maternidade pública do Estado do Amapá. A amostra foi composta por 100 profissionais (área da saúde e prestadores de serviços).  Os resultados mostraram que  houve relatos  de alterações psicológicas como ansiedade, medo, depressão e perda de son. Observou-se que os sentimentos gerados pela pandemia foram compartilhados por todos independente de setor de atuação e formação. Para isso, as redes de atenção à saúde mental devem estar organizadas, inclusive do uso de plataformas  por telefone e Telemedicina,   para uma  comunicação com especialistas em saúde mental, objetivando assegurar uma intervenção psicossocial rápida e eficaz.

Palavras-Chave: Covid-19; Saúde Mental; Impactos; Profissionais da saúde; Prestadores de serviços.

ABSTRACT

Covid-19 has been a serious global health problem. It is highly transmissible, especially in closed spaces and hospital settings. Healthcare professionals are particularly susceptible to infections and during care, often resulting in high stress levels and affecting mental health. The objective of this article was to: Analyze the impacts of Covid-19 on the mental health of employees of a public maternity hospital in the state of Amapá. The sample consisted of 100 professionals (healthcare and service discussion areas). The results showed that there were reports of psychological changes such as anxiety, fear, depression and loss of a child. It should be noted that the feelings generated by the pandemic were shared by everyone, regardless of their sector of activity and training. To this end, mental health care networks must be organized, including the use of telephone and telemedicine platforms, for communication with mental health specialists, aiming to ensure rapid and effective psychosocial intervention.

Keywords: Covid-19; Mental Health; Impacts; Healthcare professionals; Service providers.

Key words: Covid-19; Mental health; Impacts; Health professionals; Service providers.

 INTRODUÇÃO

A COVID-19, doença provocada pelo novo coronavírus (SARS-CoV-2) teve seu primeiro relato no mundo na cidade de Wuhan na China, proveniente de um mercado de frutos do mar e de animais vivos, que rapidamente de um surto transformou-se em pandemia, atingindo todos os continentes dentro de um período de dois meses1.

O Organização Mundial da Saúde (OMS) no mês de janeiro de 2020 considerou a COVID 19 como emergência de Saúde Pública de Importância Internacional e somente no dia 11 de março de 2020 a declarou como pandemia2.

A síndrome respiratória aguda provocada pelo novo coronavírus pode variar de leves totalizando cerca de 80% casos a muito graves com insuficiência respiratória correspondendo 5% a 10% dos casos. A letalidade depende de fatores como idade e co-morbidades assoaciadas3,4. Nos quadros leves da doença, o paciente pode apresentar febre e/ou tosse não produtiva, dor de garganta, congestão nasal, mal-estar geral, cefaleia, mialgia, não requerendo hospitalização. Já os casos mais graves podem necessitar de hospitalização, cerca de 5,0% destes necessitará de internação em unidade de terapia intensiva e 2,3% de ventilação mecânica5.

Em se tratando dos profissionais de saúde no cenário da COVID 19, destaca-se que no Brasil, cerca de 3,5 milhões desses trabalhadores então direta ou indiretamente envolvidos com a prestação de serviços, nas unidades de atenção primária e nos serviços especializados, tanto da rede pública quanto privada6.

O primeiro caso oficial de COVID-19 no Brasil foi identificado no Estado de São Paulo em fevereiro de 20207,8. O primeiro caso no Amapá se confirmou no dia 20 de março de 2020. Em 18 de março de 2021, o estado do Amapá, registrava 90.597 casos confirmados e 1.206 óbitos. Em 21 de setembro, registro de 122.704 casos confirmados,  e 1972 óbitos9.

No que diz respeito aos profissionais de saúde, desde o início da pandemia,990 profissionais em todo país morreram, sendo 551 médicos e 646 profissionais de enfermagem10.

No Amapá, de acordo com a Superintendência de Vigilância em Saúde (SVS) por meio de um levantamento entre  março e  julho, 957 trabalhadores da área da saúde foram infectados pelo novo coronavírus. A maioria das testagens positivas ocorreu entre auxiliares e técnicos de enfermagem. Do total, 30 tiveram complicações e morreram em decorrência da Covid-1911.

         Dessa forma, por estarem atuando na linha de frente prestando assistência aos pacientes com COVID 19, os profissionais de saúde devem receber maior atenção e suporte quanto à exposição e quanto aos aspectos que concernem a sua saúde mental, pois tem sido recorrente o relato de aumento dos sintomas de ansiedade, depressão, perda da qualidade do sono, aumento do uso de drogas, sintomas psicossomáticos e medo de se infectarem ou transmitirem a infecção aos membros da Analisar os impactos da Covid 19 na saúde mental de profissionais de saúde e prestadores de serviço em uma maternidade pública do Estado do Amapá.

        O objetivo deste artigo foi traçar o perfil sócio-demográfico dos profissionais da saúde e prestadores de serviço e comparar o impacto na saúde mental dos profissionais da saúde e prestadores de serviço adquiridos no período de pandemia da Covid 19.

 METODOLOGIA

        Foi realizada uma  pesquisa é do tipo exploratória, descritiva com abordagem quantitativa, no município de Macapá, capital do Estado do Amapá, em uma maternidade pública, referencia em gestação de alto risco – Hospital da Mulher Mãe Luzia (HMML)

De acordo com o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população de Macapá  no ano de 2020 era  de 512.902 habitantes13. 

De acordo com o Sistema de Informações Sobre Nascidos Vivos (SINASC) em Macapá ocorreram 3.945 partos com nascidos vivos (entre janeiro e maio de 2020)14.

A população do estudo foi constituída por profissionais da saúde e prestadores de serviços que atuam no Hospital da Mulher Mãe Luzia.

A amostra foi composta por 02 (dois) grupos com um total de 100 profissionais, Grupo I: 80 profissionais  da área da saúde (20 médicos, 30 enfermeiros e 30 técnicos de enfermagem)

Grupo II:  20 profissionais prestadores de serviços que atuam na limpeza, recepção e transporte de macas.

A  coleta de dados ocorreu nos meses de outubro e novembro de 2020.

          Usamos como  critérios de inclusão:

Profissionais da saúde incluindo médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagem lotados nos setores de admissão, sala parto, centro cirúrgico, ala neonatal e setor de isolamento para Covid 19.

Profissionais prestadores de serviço atuantes na limpeza, recepção e transporte com macas

Os critérios de exclusão foram:

Profissionais que não atuavam nos setores citados, que não se enquadravam nas profissões elencadas e aqueles que não assinaram o consentimento.

O instrumento de coleta de dados utilizado nesta pesquisa foi um questionário (ANEXO 1) criado pelo Ministério da Saúde do FORMSUS (Disponível em: www.formsus.datasus.gov.br/site/formulario.php?id_aplicacao=55458 5/8) e adaptado pela pesquisadora para adequação à realidade local direcionado aos profissionais de saúde e prestadores de serviço do HMML contendo perguntas fechadas e abertas:

- Variáveis sócio-demográficas: sexo, idade, município de residência, bairro/localidade, área de residência, estado civil, raça, cor, escolaridade, religião, ocupação, profissão – saúde ou prestador de serviço, setor de atuação, renda, se tem respeitado o isolamento social e normas de higiene, se possui comorbidades associadas, se já teve diagnóstico para Covid 19 e se conhece algum colega de profissão que atua no hospital que teve sintomas e diagnóstico.

- Variáveis voltadas à avaliação da saúde mental dos profissionais: sentimentos pessoais no momento da entrevista, como se sente geralmente, experiências estressantes envolvendo morte real ou ameaça de morte e o quanto se sente incomodado pela pandemia da Covid 19 nos últimos meses.

Os dados quantitativos foram obtidos pelas variáveis sócio-demográficas e posteriormente foram tabulados, testados estatisticamente e discutidos utilizando análise descritiva, além de serem representados por tabelas e gráficos. Ressalta-se que esse questionário foi destinado e preenchido após autorização pelos profissionais mediante assinatura de Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).

        Pesquisa foi aprovada cepo CEP/UNIFAP -  40786020.0.0000.0003

 RESULTADOS

        Os dados do Gráfico 1 mostram as variáveis sócio-econômicas e demográficas, com  predomínio do sexo feminino, exceto no grupo de médicos.

Gráfico 1: Distribuição dos participantes por sexo (N=100).

Fonte: Dados da pesquisa – Questionário.

        Os resultados para a variável estado civil mostraram predomínio da condição ‘casado’, exceto para os prestadores de serviços prevaleceu a condição ‘solteiro’ (Gráfico 2).

Gráfico 2: Distribuição dos participantes de acordo com o estado civil (N=100).

Fonte: Dados da pesquisa – Questionário.

        O Gráfico 3 traz os resultados para variável raça/cor, com predomínio de pardos, exceto no grupo médicos , com predomínio  da cor branca

Gráfico 3: Distribuição dos participantes de acordo com a raça/cor (N=100).

Fonte: Dados da pesquisa – Questionário.

Os resultados evidenciados no Gráfico 4, mostra  que 9 técnicos de enfermagem e 8 prestadores de serviços não possuem ensino superior.

Gráfico 4: Distribuição dos participantes de acordo com a escolaridade (N=100).

Fonte: Dados da pesquisa – Questionário.

        No que diz respeito à religião, houve predomínio do catolicismo, seguido pela religião evangélica. Gráfico 5

Gráfico 5: Distribuição dos participantes de acordo com a religião (N=100).

Fonte: Dados da pesquisa – Questionário.

        

        A distribuição de renda (Gráfico 6) entre os profissionais difere-se conforme categorias e grau de instrução, em que médicos recebem em sua maioria (11) salários acimas de R$ 15.721,00 reais, enfermeiros (12) recebem salários entre R$ 6.289,00 à 8.384,00 reais, técnicos de enfermagem (9) entre R$ 4.193,00 à 5.240,00 reais e os prestadores de serviços (8) até R$ 1.048,00 reais.

Gráfico 6: Distribuição dos participantes quanto à renda (N=100).

Fonte: Dados da pesquisa – Questionário. 

Os resultados para a presença de Comorbidades entre as categorias profissionais (Gráfico 7) mostram que apesar da maioria informar não possuir nenhuma patologia, houve relatos de presença de doenças crônicas como Hipertensão Arterial Sistêmica com 15 casos, diabetes mellitus com 4 casos, transtornos psíquicos – depressão com 2 casos, ansiedade com 13 casos, além doenças respiratórias com 10 casos e doenças cardiovasculares com 8 casos.

Gráfico 7: Distribuição de Comorbidades por categoria profissional (N=100).

Fonte: Dados da pesquisa – Questionário.

        No que diz respeito ao questionamento se os profissionais já haviam sido diagnosticados para Covid-19, houve predomínio da opção “Sim, e já estou curado” com 13 casos em médicos, 24 casos em enfermeiros, 20 casos em técnicos de enfermagem e 13 casos em prestadores de serviços, conforme especificadas no Gráfico 8.

        

Gráfico 8: Diagnóstico de COVID-19 (N=100).

Fonte: Dados da pesquisa – Questionário.

 

        

Parte 1 -  COMO SE SENTE AGORA? COMO SE SENTE NO MOMENTO?

        Os dados da Tabela 1 mostram uma tendência linear ao comparar os grupos, quanto a como estes se sentiam no momento do preenchimento do questionário. Isto é, não diferiram de forma significante quanto as respostas, mantendo-se entre “BASTANTE” e “UM POUCO” para a maioria das indagações com exceção da indagação - estou arrependido e sinto-me perturbado que houve a maioria das respostas para “ABSOLUTAMENTE NADA”.

Tabela 1: Resultados para a avaliação de como o profissional se sente no momento da entrevista (N=100).

MÉDICOS

ENFERMEIROS

TÉCNICOS DE ENFERMAGEM

PRESTADORES DE SERVIÇOS

SINTO-ME CALMO

MUITÍSSIMO

4

4

3

5

BASTANTE

5

8

9

9

UM POUCO

7

16

15

6

ABSOLUTAMENTE NADA

4

2

3

0

SINTO-ME SEGURO

MUITÍSSIMO

2

3

2

5

BASTANTE

5

7

10

6

UM POUCO

6

11

18

5

ABSOLUTAMENTE NADA

7

9

0

4

ESTOU TENSO/NERVOSO

MUITÍSSIMO

2

0

2

2

BASTANTE

3

1

2

2

UM POUCO

10

21

24

16

ABSOLUTAMENTE NADA

5

8

2

0

ESTOU ARREPENDIDO

MUITÍSSIMO

1

0

0

0

BASTANTE

1

1

1

1

UM POUCO

9

13

17

14

ABSOLUTAMENTE NADA

9

16

12

5

SINTO-ME PERTURBADO

MUITÍSSIMO

1

1

0

0

BASTANTE

1

0

0

0

UM POUCO

9

14

14

18

ABSOLUTAMENTE NADA

9

15

16

2

SINTO-ME ANSIOSO

MUITÍSSIMO

2

3

2

0

BASTANTE

3

8

5

4

UM POUCO

8

18

22

15

ABSOLUTAMENTE NADA

7

1

1

1

SINTO-ME CONFIANTE

MUITÍSSIMO

0

3

6

3

BASTANTE

8

13

11

9

UM POUCO

9

14

12

8

ABSOLUTAMENTE NADA

3

0

1

0

ESTOU AGITADO

MUITÍSSIMO

1

1

0

1

BASTANTE

2

2

1

3

UM POUCO

12

22

19

15

ABSOLUTAMENTE NADA

5

5

10

1

ESTOU PREOCUPADO

MUITÍSSIMO

3

1

2

1

BASTANTE

3

3

6

1

UM POUCO

9

26

20

18

ABSOLUTAMENTE NADA

5

0

2

0

SINTO-ME CONFUSO

MUITÍSSIMO

1

0

0

0

BASTANTE

3

3

4

0

UM POUCO

8

25

18

20

ABSOLUTAMENTE NADA

8

2

8

0

Fonte: Dados da pesquisa – Questionário.  

PARTE 2 –  COMO VOCÊ TEM SE SENTIDO NA ÚLTIMA SEMANA?

        Neste bloco de perguntas especificamente voltado a como o profissional têm se sentido na última semana (Tabela 2), apesar de algumas respostas preocupantes demonstrando tristeza, sensação de fracasso, desânimo quanto ao futuro, decepção quanto a sí mesmo, irritabilidade, choro, sentimento de culpa, falta de interesse pelas outras pessoas, dificuldades em tomar decisões, sensação de punição, falta de sono, cansaço, falta de apetite, perda de peso, desinteresse sexual e preocupação com problemas, notou-se uma unanimidade de respostas nos 21 grupos em que prevaleceu a opção de negativa frente a esses sentimentos e alterações elencadas anteriormente.

Destaca-se neste bloco ainda que nenhum participante da pesquisa relatou possuir ideias suicidas.

Tabela 2: Resultados para a avaliação de como o profissional tem se sentido na última semana?

MÉDICOS

ENFERMEIROS

TÉCNICOS DE ENFERMAGEM

PRESTADORES DE SERVIÇOS

DE QUE MANEIRA VOCÊ TEM SE SENTIDO NA ÚLTIMA SEMANA

GRUPO 1

NÃO ME SINTO TRISTE

17

24

23

15

EU ME SINTO TRISTE

3

6

6

5

ESTOU SEMPRE TRISTE E NÃO CONSIGO SAIR DISTO

0

0

1

0

GRUPO 2

NÃO ESTOU  DESANIMADO QUANTO AO FUTURO

18

26

27

17

EU ME SINTO DESANIMADO QUANTO AO FUTURO

2

4

2

3

ACHO QUE NADA TENHO A ESPERAR

0

0

0

0

ACHO O FUTURO SEM ESPERANÇAS E TENHO A IMPRESSÃO DE QUE AS COISAS NÃO PODEM MELHORAR

0

0

1

0

GRUPO 3

NÃO ME SINTO UM FRACASSO

19

27

30

20

ACHO QUE FRACASSEI MAIS DO QUE UMA PESSOA COMUM

1

3

0

0

QUANDO OLHO PARA TRÁS, NA MINHA VIDA, TUDO O QUE POSSO VER É UM MONTE DE FRACASSOS

0

0

0

0

ACHO QUE, COMO PESSOA, SOU UM COMPLETO FRACASSO

0

0

0

0

GRUPO 4

TENHO TANTO PRAZER EM TUDO COMO ANTES

16

24

24

17

NÃO SINTO MAIS PRAZER NAS COISAS COMO ANTES

4

6

6

3

NÃO ENCONTRO UM PRAZER REAL EM MAIS NADA

0

0

0

0

ESTOU INSATISFEITO OU ABORRECIDO COM TUDO

0

0

0

0

GRUPO 5

NÃO ME SINTO ESPECIALMENTE CULPADO

20

29

28

20

EU ME SINTO CULPADO GRANDE PARTE DO TEMPO

0

0

2

0

EU ME SINTO CULPADO NA MAIOR PARTE DO TEMPO

0

0

0

0

EU SEMPRE ME SINTO CULPADO

0

1

0

0

GRUPO 6

NÃO ACHO QUE ESTEJA SENDO PUNIDO

20

30

28

20

ACHO QUE POSSO SER PUNIDO

0

0

2

0

CREIO QUE VOU SER PUNIDO

0

0

0

0

ACHO QUE ESTOU SENDO PUNIDO

0

0

0

0

GRUPO 7

NÃO ME SINTO DECEPCIONADO COMIGO MESMO

19

27

29

18

ESTOU DECEPCIONADO COMIGO MESMO

1

3

1

2

ESTOU ENOJADO DE MIM

0

0

0

0

EU ME ODEIO

0

0

0

0

GRUPO 8

NÃO ME SINTO DE QUALQUER MODO PIOR QUE OS OUTROS

19

26

28

18

SOU CRÍTICO EM RELAÇÃO A MIM POR MINHAS FRAQUEZAS OU ERROS

1

4

2

2

EU ME CULPO SEMPRE POR MINHAS FALHAS

0

0

0

0

EU ME CULPO POR TUDO DE MAL QUE ACONTECE

0

0

0

0

GRUPO 9

NÃO TENHO QUAISQUER IDEIAS DE ME MATAR

20

30

30

20

TENHO IDEIAS DE ME MATAR, MAS NÃO AS EXECUTARIA

0

0

0

0

GOSTARIA DE ME MATAR

0

0

0

0

EU ME MATARIA SE TIVESSE OPORTUNIDADE

0

0

0

0

GRUPO 10

NÃO CHORO MAIS QUE O HABITUAL

17

26

27

15

CHORO MAIS AGORA DO QUE COSTUMAVA

1

4

3

5

AGORA, CHORO O TEMPO TODO

1

0

0

0

COSTUMAVA SER CAPAZ DE CHORAR, MAS AGORA NÃO CONSIGO, MESMO QUE EU QUEIRA

1

0

0

0

GRUPO 11

NÃO SOU MAIS IRRITADO AGORA DO QUE JÁ FUI

15

24

22

14

FICO ABORRECIDO OU IRRITADO MAIS FACILMENTE DO QUE COSTUMAVA

5

5

6

5

AGORA, EU ME SINTO IRRITADO O TEMPO TODO

0

0

0

0

NÃO ME IRRITO MAIS COM COISAS QUE COSTUMAVAM ME IRRITAR

0

1

2

1

GRUPO 12

NÃO PERDI O INTERESSE PELAS OUTRAS PESSOAS

16

27

26

17

ESTOU MENOS INTERESSADO PELAS OUTRAS PESSOAS DO QUE COSTUMAVA ESTAR

4

3

4

3

PERDI A MAIOR PARTE DO MEU INTERESSE PELAS OUTRAS PESSOAS

0

0

0

0

PERDI TODO O INTERESSE PELAS OUTRAS PESSOAS

0

0

0

0

GRUPO 13

TOMO DECISÕES TÃO BEM QUANTO ANTES

15

22

24

14

ADIO AS TOMADAS DE DECISÕES MAIS DO QUE COSTUMAVA

3

7

5

3

TENHO MAIS DIFICULDADES DE TOMAR DECISÕES DO QUE ANTES

2

1

1

3

ABSOLUTAMENTE NÃO CONSIGO MAIS TOMAR DECISÕES

0

0

0

0

GRUPO 14

NÃO ACHO QUE DE QUALQUER MODO PAREÇO PIOR DO QUE ANTES

18

28

28

18

ACHO QUE HÁ MUDANÇAS PERMANENTES NA MINHA APARÊNCIA, QUE ME FAZEM PARECER SEM ATRATIVO

1

2

1

1

ESTOU PREOCUPADO EM ESTAR PARECENDO VELHO OU SEM ATRATIVO

1

0

0

1

ACREDITO QUE PAREÇO FEIO

0

0

1

0

GRUPO 15

POSSO TRABALHAR TÃO BEM QUANTO ANTES

17

27

28

15

É PRECISO ALGUM ESFORÇO EXTRA PARA FAZER ALGUMA COISA

3

2

2

5

TENHO QUE ME ESFORÇAR MUITO PARA FAZER ALGUMA COISA

0

0

0

0

NÃO CONSIGO MAIS FAZER QUALQUER TRABALHO

0

1

0

0

GRUPO 16

CONSIGO DORMIR TÃO BEM COMO O HABITUAL

18

21

18

17

NÃO DURMO TÃO BEM COMO COSTUMAVA

2

8

11

2

ACORDO 1 A 2 HORAS MAIS CEDO DO QUE HABITUALMENTE E ACHO DIFICIL VOLTAR A DORMIR

0

0

1

1

ACORDO VÁRIAS HORAS MAIS CEDO DO QUE COSTUMAVA E NÃO CONSIGO VOLTAR A DORMIR

0

1

0

0

GRUPO 17

NÃO FICO MAIS CANSADO DO QUE O HABITUAL

14

23

18

14

FICO CANSADO MAIS FACILMENTE DO QUE COSTUMAVA

6

7

11

6

FICO CANSADO EM FAZER QUALQUER COISA

0

0

1

0

ESTOU CANSADO DEMAIS PARA FAZER QUALQUER COISA

0

0

0

0

GRUPO 18

O MEU APETITE NÃO ESTÁ PIOR DO QUE O HABITUAL

18

24

26

16

MEU APETITE NÃO É TÃO BOM COMO COSTUMAVA SER

2

5

2

3

MEU APETITE É MUITO PIOR AGORA

0

1

2

1

ABSOLUTAMENTE NÃO TENHO MAIS APETITE

0

0

0

0

GRUPO 19

NÃO TENHO PERDIDO MUITO PESO SE É QUE PERDI ALGUM RECENTEMENTE

20

25

25

16

PERDI MAIS DO QUE 2 QUILOS E MEIO

0

3

3

2

PERDI MAIS DO QUE 5 QUILOS

0

2

2

2

PERDI MAIS DO QUE 7 QUILOS

0

0

0

0

GRUPO 20

NÃO ESTOU MAIS PREOCUPADO COM A MINHA SAÚDE DO QUE O HABITUAL

17

23

18

17

ESTOU PREOCUPADO COM PROBLEMAS FÍSICOS, TAIS COMO DORES, INDISPOSIÇÃO DO ESTÔMAGO OU CONSTIPAÇÃO

3

7

9

3

ESTOU MUITO PREOCUPADO COM PROBLEMAS FÍSICOS E É DIFÍCIL PENSAR EM OUTRA COISA

0

0

2

0

ESTOU TÃO PREOCUPADO COM MEUS PROBLEMAS FÍSICOS QUE NÃO CONSIGO PENSAR EM QUALQUER OUTRA COISA

0

0

1

0

GRUPO 21

NÃO NOTEI QUALQUER MUDANÇA RECENTE NO MEU INTERESSE POR SEXO

19

28

24

18

ESTOU MENOS INTERESSADO POR SEXO DO QUE COSTUMAVA

1

1

5

2

ESTOU MUITO MENOS INTERESSADO POR SEXO AGORA

0

0

1

0

PERDI COMPLETAMENTE O INTERESSE POR SEXO

0

1

0

0

Fonte: Dados da pesquisa – Questionário.

         

PARTE 3 –SENTIMENTOS NO LOCAL DE TRABALHO: QUAIS FORAM OS PROBLEMAS E EVENTO MAIS ESTRESSANTE PELO QUAL VC PASSOU?

        

Os resultados para os problemas em comum relatados e vivenciados pelos profissionais de saúde e prestadores de serviços no que diz respeito à pandemia de Covid-19 foram relacionados à: sobrecarga de trabalho e aumento no número de plantões, como resultado do número de profissionais doentes e afastados por atestados médicos; a falta de Equipamentos de Proteção Individual (EPI’s) ocasionados principalmente pela demanda aumentada de uso desses equipamentos a nível mundial, nacional e estadual e a baixa capacidade de produção por tratar-se de uma pandemia; Problemas de relacionamento interpessoal com colegas de trabalho sugerindo alta carga de estresse; a perda de pessoas da família para a Covid-19; maior ausência no ambiente família (ausência de casa); quantidade de óbitos provocados pela doença.

        Esses problemas resultaram em sentimentos em comum de acordo com as categorias:

- Médicos: medo, aflição e insegurança;

- Enfermeiros: medo, receio, indisposição, angústia, tristeza, estresse e pressão psicológica;

- Técnicos de enfermagem: estresse, medo, preocupação, raiva e tristeza.

- Prestadores de serviços: medo, mal-estar, estresse e indignação.

         

PARTE 4 - PENSANDO NA PANDEMIA DE CORONAVÍRUS, O QUANTO VOCÊ TEM SIDO INCOMODADO POR ESTE PROBLEMA NO ÚLTIMO MÊS?

        Na Tabela 3, constam os resultados do último bloco de perguntas do questionário, verificou-se que houve predomínio nas respostas para “DE MODO NENHUM”, “NENHUM POUCO” e “MODERADAMENTE” para lembranças indesejáveis, sonhos perturbadores, crenças negativas, sentimentos negativos, culpa, perda de interesse nas atividades, dificuldades de concentração, estado de alerta e estado de apreensão.

Tabela 3: Resultados para a avalição do quanto o profissional tem se sentido incomodado pela pandemia (N=100).

MÉDICOS

ENFERMEIROS

TÉCNICOS DE ENFERMAGEM

PRESTADORES DE SERVIÇOS

LEMBRANÇAS INDESEJÁVEIS, PERTUBADORAS E REPETITIVAS COM A PANDEMIA DE COVID-19?

DE MODO NENHUM

3

13

2

1

NENHUM POUCO

7

6

3

4

MODERADAMENTE

7

7

21

13

MUITO

2

3

4

1

EXTREMAMENTE

1

1

0

1

SONHOS PERTURBADORES E REPETITIVO COM A PANDEMIA DE COVID-19?

DE MODO NENHUM

5

16

10

1

NENHUM POUCO

8

7

10

9

MODERADAMENTE

7

6

8

10

MUITO

0

1

2

0

EXTREMAMENTE

0

0

0

0

DE REPENTE, SENTINDO OU AGINDO COMO SE A EXPERIÊNCIA DE PANDEMIA DE COVID-19 ESTIVESSE ACONTECENDO DE NOVO, REVIVENDO-A?

DE MODO NENHUM

4

13

7

1

NENHUM POUCO

9

6

10

6

MODERADAMENTE

4

9

8

13

MUITO

3

2

5

0

EXTREMAMENTE

0

0

0

0

SENTIR-SE MUITO CHATEADO QUANDO ALGO LEMBRA VOCÊ DA PANDEMIA DE COVID-19?

DE MODO NENHUM

3

12

10

3

NENHUM POUCO

6

6

4

4

MODERADAMENTE

8

7

12

11

MUITO

2

5

3

2

EXTREMAMENTE

1

0

1

0

TER REAÇÕES FÍSICAS INTENSAS QUANDO ALGO LEMBRA VOCÊ DA PANDEMIA DE COVID-19 (CORAÇÃO APERTADO, DIFICULDADES PARA RESPIRAR, SUOR EXCESSIVO?)

DE MODO NENHUM

6

12

10

1

NENHUM POUCO

7

6

6

4

MODERADAMENTE

7

7

10

14

MUITO

0

5

4

0

EXTREMAMENTE

0

0

0

1

EVITAR LEMBRANÇAS, PENSAMENTOS OU SENTIMENTOS RELACIONADOS À PANDEMIA DE COVID-19?

DE MODO NENHUM

5

11

2

1

NENHUM POUCO

10

8

1

6

MODERADAMENTE

5

8

11

10

MUITO

0

2

1

3

EXTREMAMENTE

0

1

0

0

EVITAR LEMBRANÇAS EXTERNAS DA PANDEMIA DE COVID-19 (PESSOAS, LUGARES, CONVERSAS, ATIVIDADES, OBJETOS OU SITUAÇÕES)

DE MODO NENHUM

5

11

9

2

NENHUM POUCO

10

9

3

4

MODERADAMENTE

5

6

15

11

MUITO

0

4

1

3

EXTREMAMENTE

0

0

2

0

NÃO CONSEGUIR SE LEMBRAR DE PARTES IMPORTANTES DA PANDEMIA DE COVID-19?

DE MODO NENHUM

7

15

17

3

NENHUM POUCO

9

7

4

7

MODERADAMENTE

4

7

9

10

MUITO

0

1

0

0

EXTREMAMENTE

0

0

0

0

TER CRENÇAS NEGATIVAS INTENSAS SOBRE VOCÊ, OUTRAS PESSOAS OU MUNDO?

DE MODO NENHUM

5

16

16

4

NENHUM POUCO

10

7

5

7

MODERADAMENTE

5

4

9

9

MUITO

0

2

0

0

EXTREMAMENTE

0

1

0

0

CULPAR A SI MESMO OU AOS OUTROS PELA PANDEMIA OU PELO QUE ACONTECEU DEPOIS DELA?

DE MODO NENHUM

7

15

17

1

NENHUM POUCO

10

8

4

6

MODERADAMENTE

3

5

7

13

MUITO

0

2

2

0

EXTREMAMENTE

0

0

0

0

TER SENTIMENTOS NEGATIVOS INTENSOS COMO MEDO, PAVOR, RAIVA, CULPA OU VERGONHA?

DE MODO NENHUM

7

13

11

3

NENHUM POUCO

6

7

8

6

MODERADAMENTE

6

7

8

11

MUITO

0

3

3

0

EXTREMAMENTE

1

0

0

0

PERDER O INTERESSE EM ATIVIDADES QUE VOCÊ COSTUMAVA APRECIAR?

DE MODO NENHUM

7

14

9

5

NENHUM POUCO

8

7

7

4

MODERADAMENTE

4

6

11

11

MUITO

0

3

3

0

EXTREMAMENTE

1

0

0

0

SENTIR-SE DISTANTE OU ISOLADO DAS OUTRAS PESSOAS?

DE MODO NENHUM

5

14

10

5

NENHUM POUCO

6

7

4

4

MODERADAMENTE

7

6

15

11

MUITO

1

3

1

0

EXTREMAMENTE

1

0

0

0

DIFICULDADES PARA VIVENCIAR SENTIMENTOS POSITIVOS (SER INCAPAZ DE SENTIR FELICIDADE OU SENTIMENTOS AMOROSOS POR PESSOAS PROXIMAS)?

DE MODO NENHUM

5

23

7

4

NENHUM POUCO

6

3

1

4

MODERADAMENTE

5

2

22

12

MUITO

0

1

0

0

EXTREMAMENTE

4

1

0

0

COMPORTAMENTO IRRITADO, EXPLOSÕES DE RAIVA OU AGIR GRESSIVAMENTE?

DE MODO NENHUM

5

24

3

4

NENHUM POUCO

6

3

3

4

MODERADAMENTE

7

0

24

12

MUITO

0

2

0

0

EXTREMAMENTE

2

1

0

0

CORRER MUITOS RISCOS OU FAZER COISAS QUE PODEM LHE CAUSAR ALGUM MAL?

DE MODO NENHUM

6

25

7

0

NENHUM POUCO

6

3

2

0

MODERADAMENTE

5

0

20

20

MUITO

0

2

1

0

EXTREMAMENTE

3

0

0

0

FICAR SUPER ALERTA, VIGILANTE OU DE SOBREAVISO?

DE MODO NENHUM

4

7

4

0

NENHUM POUCO

6

3

1

0

MODERADAMENTE

7

19

24

20

MUITO

0

1

0

0

EXTREMAMENTE

3

0

1

0

SENTIR-SE APREENSIVO OU ASSUSTADO FACILMENTE?

DE MODO NENHUM

5

4

6

0

NENHUM POUCO

7

24

2

0

MODERADAMENTE

5

0

21

20

MUITO

0

1

1

0

EXTREMAMENTE

3

1

0

0

TER DIFICULDADES PARA SE CONCENTRAR?

DE MODO NENHUM

5

5

3

0

NENHUM POUCO

7

22

3

0

MODERADAMENTE

5

1

22

20

MUITO

0

1

2

0

EXTREMAMENTE

3

1

0

0

PROBLEMAS PARA ADORMECER OU CONTINUAR DORMINDO?

DE MODO NENHUM

7

5

3

0

NENHUM POUCO

8

22

2

0

MODERADAMENTE

3

1

24

20

MUITO

0

1

1

0

EXTREMAMENTE

2

1

0

0

Fonte: Dados da pesquisa – Questionário.

DISCUSSÃO

Países como a China, apresentaram dados de aproximadamente 3.000 mil profissionais da saúde infectados com 23 óbitos15,16. Já na Itália, houve a ocorrência de 4.884 casos de profissionais da saúde contaminados com 34 óbitos de médicos17,18.

Diante desse cenário, afirma-se que o momento atípico e de crise que vivemos requer que os profissionais de saúde se atentem para sua saúde mental, pois em pesquisas realizadas a nível mundial demonstram que têm sido recorrentes os relatos de aumento de alterações e sintomas como ansiedade, medo, depressão, perda de sono, sintomas psicossomáticos e uso de drogas19.

        As alterações apresentadas na tabela acima relatadas pelos participantes da pesquisa seguem uma tendência mundial, seja em países desenvolvidos como os países em desenvolvimento como o Brasil. Uma pesquisa realizada por médicos de Wuhan20 na China constatou que os profissionais que trabalham na assistência a saúde sofreram grande pressão, risco de infecção, excesso de trabalho, frustação, isolamento, falta de contato com a família, além de estresse, insônia, sentimento de negação, raiva e medo.

Destaca-se que essas alterações psíquicas podem afetar a atenção, a tomada de decisões e o bem-estar geral do profissional que por muito medo apresenta até resistência em retornar ao seu ambiente de trabalho21.

É importante deixar claro que, mesmo que os resultados para os 21 grupos de perguntas contidas na tabela acima não tenham apresentado muitas variações no estado psíquico dos profissionais, um estudo transversal realizado em 34 hospitais da China com um total de 1.257 profissionais constatou um quantitativo considerável dessas alterações, entre as quais, depressão, ansiedade, insônia e angústia22.

Frente ao exposto, as literaturas ressaltam que as falhas nas medidas de precaução e de proteção por meio dos EPI’s impulsionam às infecções. Dessa forma, a escassez dos EPI’s (máscaras cirúrgicas e do tipo PFF2 e vestuário) são considerados fatores de risco para a contaminação viral37, associados a condições de trabalho precárias, decorrentes de escassez de recursos e materiais ou de características da organização do trabalho em saúde que envolvem carga de trabalho elevadas e prolongamento de jornadas laborais23.

        Salienta-se que pacientes em estado crítico por Covid-19 exigem assistência integral e diferenciada por parte dos profissionais, a exemplo do que ocorre em Unidades de Terapia Intensiva. Dessa forma, durante o período de pandemia, os profissionais por sofrerem grande pressão, podem chegar a estados de fadiga, exaustão, isto é, desgaste físico e psíquico. Nesse caso, recomenda-se que os profissionais possuam tempo de repouso adequado para diminuir a carga de trabalho e assim os níveis de estresse e a ocorrência de erros durante a assistência prestada15.

É evidente que os resultados apresentados nesta pesquisa apontam para a necessidade de implementação a longo prazo de estratégias voltadas a saúde mental dos profissionais da linha frente da pandemia da Covid-19.

De acordo com Schwartz, King e yen (2020)15 é comum que os profissionais de saúde durante a ocorrência de surtos e pandemias como é o caso da COVID 19, trabalhem no limite de sua capacidade, correndo o risco de contaminação e sofrendo forte pressão resultando em quadros de fadiga e exaustão principalmente porque parte dos pacientes acometidos pela doença que recebem assistência evoluem para estado crítico exigindo maior atenção por parte dos profissionais. Neste aspecto, é importante salientar que a sobrecarga no trabalho pode levar o profissional a cometer erros, pois as longas jornadas reduzem o nível de atenção e capacidade resolutiva e de resposta, refletindo diretamente na qualidade da assistência prestada.

Corroborando com tais afirmações, Heliotério et al. (2020)24 recomendam que nessas situações de jornadas de trabalho elevadas, é primordial que o profissional de saúde tenha repouso adequado para recuperação não somente do cansaço físico, mas também psíquico. Seguindo esta premissa, a estratégia de testagem de todos os profissionais de saúde pode diminuir o absenteísmo e consequentemente a sobrecarga laboral, pois profissionais afastados com síndrome gripal e com teste negativo para COVID 19 podem retornar ao trabalho e o rastreamento de assintomáticos por meio de testagem pode quebrar a cadeia de transmissão reduzindo a infecção entre os profissionais25,26.

Em suma, há autores que citam os fatores que podem contribuir para o sofrimento psíquico de profissionais de saúde que atuam na linha de frente de pacientes com COVID-19, entre os quais estão27:

1. Esforço emocional e exaustão física ao cuidar de um número crescente de pacientes com doenças agudas de todas as idades que têm o potencial de se deteriorar rapidamente;

2. Cuidar de colegas de trabalho que podem ficar gravemente doentes e, às vezes, morrer de COVID-19;

3. Escassez de equipamentos de proteção individual que intensificam o medo de exposição ao coronavírus no trabalho, causando doenças graves;

4. Preocupações em infectar membros da família, especialmente membros da família mais velhos, imunocomprometidos ou com doenças crônicas;

5. Escassez de ventiladores e outros equipamentos médicos cruciais para o atendimento dos pacientes graves;

6. Ansiedade em assumir papéis clínicos novos ou desconhecidos e cargas de trabalho expandidas no atendimento a pacientes com COVID-19;

7. Acesso limitado a serviços de saúde mental para gerenciar depressão, ansiedade e sofrimento psicológico.

Em outros países como a China há diretrizes publicadas com foco nas intervenções de crises psicológicas para contemplar os profissionais afetados. A proposta é integrar essas intervenções às estratégias mais gerais de prevenção e controle da pandemia28.

Somado à isso, há também a proposta de utilização de plataformas de aconselhamento por telefone, o que chamamos no Brasil de serviço de aconselhamento para uma primeira escuta e a Telemedicina proporcionando o contato por vídeo diretamente com especialistas em saúde mental (psicólogos, psiquiatras e outros). O objetivo é voltado ao rápido acolhimento dos profissionais e atendimento à crise com uma intervenção psicossocial rápida e eficaz, pois quanto mais rápida for a abordagem, menores os danos psicológicos a médio prazo29.

CONCLUSÃO

- Devido momento atípico de pandemia que vivemos houve relatos de profissionais de saúde e prestadores de serviços para alterações psicológicas como ansiedade, medo, depressão, perda de sono e sintomas psicossomáticos que impactam diretamente na saúde mental destes.

- Especificamente por categoria, os Médicos relataram como sentimentos mais predominantes: medo, aflição e insegurança. Pelos Enfermeiros foram: medo, receio, indisposição, angústia, tristeza, estresse e pressão psicológica. Pelos técnicos de enfermagem foram: estresse, medo, preocupação, raiva e tristeza e por fim pelos Prestadores de serviços foram: medo, mal-estar, estresse e indignação.

- Não houveram diferenças significativas ao comparar as respostas do questionário contendo as variáveis de avaliação da saúde mental entre os profissionais de saúde e os prestadores de serviços. Sendo assim, observou-se que os sentimentos gerados pela pandemia foram compartilhados por todos independente de setor de atuação e formação.

        Assim, é extremamente necessário a implementação de estratégias a longo prazo voltadas a saúde mental dos profissionais da linha frente da pandemia da Covid-19. Para isso, as redes de atenção à saúde mental devem estar organizadas podendo-se lançar mão inclusive do uso de tecnologias como a utilização de plataformas de aconselhamento por telefone e Telemedicina por vídeo mantendo canal direto de comunicação com especialistas em saúde mental (psicólogos, psiquiatras e outros).

Destaca-se que o objetivo disso é assegurar uma intervenção psicossocial rápida e eficaz, pois quanto mais rápida for a abordagem, menores os danos psicológicos a médio prazo.

REFERÊNCIAS

1. Medeiros EA. A luta dos profissionais de saúde no enfrentamento da COVID-19. Acta Paul Enferm. 2020;33:e-EDT20200003.

2. Arons MM, Hat eld KM, Reddy SC et al. Presymptomatic SARS-CoV-2 infections and transmission in a skilled nursing facility. N Engl J Med, 2020; 382 (22):2081-2090.

3. Brasil. Ministério da Saúde. Centro de Operações de Emergências em Saúde Pública COE-COVID-19. Plano de contingência nacional para infecção humana pelo novo coronavírus COVID-19 [Internet]. Brasília: Ministério da Saúde. 2020; 24 p.

4. Marinelli NP, et al. Evolução de indicadores e capacidade de atendimento no início da epidemia de COVID-19 no Nordeste do Brasil, 2020. Epidemiol. Serv. Saude, 2020; 29(3):e2020226.

5. Rafael RMR, et al. Epidemiologia, políticas públicas e pandemia de Covid-19: o que esperar no Brasil? Rev enferm UERJ, 2020; 28:e49570.

6. Rede Covid. A saúde dos profissionais de saúde no enfrentamento da pandemia de COVID-19. 2020; 1-32.

7. Brasil. Ministério da Saúde. Centro de Operações de Emergência em Saúde Pública. Boletim Epidemiológico n.09. Situação Epidemiológica da COVID-19. Brasília, 15 de abril de 2020a. v. n, p.1.

8. Brasil. Ministério da Saúde. Covid no Brasil. 2020b. Disponível em: https://susanalitico.saude.gov.br/extensions/covid-19_html/covid-19_html.html. Acesso em: 27 Set. 2020.

9. Superintendência de Vigilância em Saúde (SVS) do Amapá. Boletim Informativo COVID-19: Amapá. 2020a. Disponível em: https://www.portal.ap.gov.br/noticia/2709/boletim-informativo-covid-19-amapa-27-de-setembro-de-2020. Acesso em 27 Set. 2020.

10. Agência Brasil. Covid-19: 257 mil profissionais de saúde foram infectados no Brasil. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2020-08/covid-19-257-mil-profissionais-de-saude-foram-infectados-no-brasil. Acesso em: 27 Set. 2020.

11. Superintendência de Vigilância em Saúde (SVS) do Amapá. Informe Epidemiológico COVID 19 nº 35: Especial: perfil epidemiológico dos trabalhadores da saúde com COVID-19. 2020b Disponível em:

https://editor.amapa.gov.br/arquivos_portais/publicacoes/SVS_783e007c27e1319efd67ee538f7766af.pdf. Acesso em: 25 Set. 2020.

12. Fiocruz, Ministério da Saúde. Saúde mental e atenção psicossocial na pandemia Covid. Recomendações para gestores. 2020.

13. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Censo Demográfico. 2010. Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/ap/macapa/panorama. Acesso em 25 Set. 2020.

14. Sistema de Informação Sobre Nascidos Vivos (SINASC). Monitoramento de nascidos vivos por Município. Disponível em: http://svs.aids.gov.br/dantps/centrais-de-conteudos/paineis-de-monitoramento/natalidade/nascidos-vivos/. Acesso em: 25 Set. 2020.

15. Schwartz J, King CC, Yen MY. Protecting Healthcare Workers During theCoronavirus Disease 2019 (COVID19) Outbreak: Lessons from Taiwan’s Severe Acute Respiratory Syndrome Response. Clinical Infectious Diseases. ciaa 255, p. 1-3, 2020.

16. Xiang YT, Yang Y, Li, W. et al. Timely mental health care for the 2019 novel coronavirus outbreak is urgently needed. The Lancet Psychiatry, v. 7, n. 3, p. 228- 229, 2020.

17. Anelli F. et al. Italian doctors call for protecting healthcare workers and boosting community surveillance during covid-19 outbreak. BMJ, 368: m1254, p. 1-2, 2020.

18. Em 3 meses, quase triplica número de mortes de enfermeiros no Brasil [Internet]. Rio de Janeiro: Conselho Federal de Enfermagem; 2020. Disponível em: http://www.cofen.gov. br/em-3-meses-quase-triplica-numero-de-mortesde-enfermeiros-no-brasil_81708.html

19. Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Brasil. Ministério da Saúde (MS). Saúde mental e atenção psicossocial na pandemia Covid. Recomendações para gestores 2020. Rio de Janeiro, Brasília: Fiocruz, MS; 2020.

20. Zhang Z et al. Protecting healthcare personal from 2019-nCoV infection risks: lessons and suggestion. Frontiers of Medicine, Mar 2020.

21. Huang L, Lin G, Tang L, Yu L, Zhou Z. Special attention to nurses’ protection during the COVID-19 epidemic. Crit Care 2020; 24(1):120.

22. Lai J, Ma S, Wang Y, Cai Z, Hu J, et al. Factors Associated With Mental Health Outcomes Among Health Care Workers Exposed to Coronavirus Disease 2019. JAMA 2020; 3(3):e203976.

23. Godinho MR. et al. Capacidade para o trabalho e fatores associados em profissionais no Brasil. Revista Brasileira de Medicina do Trabalho, São Paulo, v.15, n.1, p. 88-100, 2017.

24. . Heliotério MC, et al. COVID-19: Por que a proteção da saúde dos trabalhadores e trabalhadoras da saúde é prioritária no combate à pandemia? Preprint, Scielo. 2020; 1-18.

25. Huh S. How to train health personnel to protect themselves from SARS-CoV-2 (novel coronavirus) infection when caring for a patient or suspected case. Journal of Educational Evaluation Health Professions, 2020; 17(10).

26. Zhang Z et al. Protecting healthcare personal from 2019-nCoV infection risks: lessons and suggestion. Frontiers of Medicine, Mar 2020.

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