ENTRE O LAR E A LOUSA: A DURA CONCILIAÇÃO DA VIDA ACADÊMICA E DA MATERNIDADE

BETWEEN HOME AND THE BLACKBOARD: THE STRUGGLE TO BALANCE ACADEMIC LIFE AND MOTHERHOOD

ENTRE EL HOGAR Y LA PIZARRA: LA DIFÍCIL CONCILIACIÓN DE LA VIDA ACADÉMICA Y LA MATERNIDAD

Tipo de artigo: Artigo de estudo primário

Autores

Ariana Lana Morais Carvalho

Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Psicologia Clínica e Cultura da Universidade de Brasília

ORCID: https://orcid.org/0000-0002-9706-3440

Anne Cristine Fernandes Colombo
Graduanda em Psicologia pelo Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília (UnB).
ORCID:
  https://orcid.org/0009-0006-8391-7210

Beatriz da Cunha Gonçalves Leite
Graduanda em Psicologia pelo Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília (UnB).
ORCID:
https://orcid.org/0009-0002-0830-997X

Carla Sabrina Antloga
Professora Associada do Departamento de Psicologia Clínica e do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Clínica e Cultura da Universidade de Brasília (UnB).
ORCID:
 https://orcid.org/0000-0003-4105-6708

RESUMO

O objetivo deste estudo foi compreender como a maternidade e o trabalho doméstico impactam a vida acadêmica de professoras da Universidade de Brasília. Trata-se de uma pesquisa qualitativa, exploratória e descritiva, com treze participantes, realizada por meio de um formulário online contendo perguntas abertas e fechadas. Os dados foram analisados com base na técnica de análise de conteúdo. Os resultados revelaram que as participantes enfrentam sobrecarga física e emocional, dificuldades em conciliar as esferas pessoal e profissional, impactos negativos na produtividade e na saúde mental, além da ausência de políticas institucionais efetivas voltadas para o apoio à maternidade. Conclui-se que a sobreposição entre as tarefas acadêmicas, maternas e domésticas compromete significativamente a trajetória profissional das docentes, evidenciando a necessidade de políticas inclusivas e sensíveis às especificidades da vida das mulheres na universidade.

DESCRITORES: Docentes; Maternidade; Trabalho Feminino; Saúde Mental; Equidade de Gênero.

ABSTRACT

This study aimed to understand how motherhood and domestic work impact the academic life of professors at the University of Brasília. It is a qualitative, exploratory and descriptive research with thirteen participants, conducted through an online questionnaire containing open and closed questions. The data were analyzed using content analysis. The results showed that the participants experience physical and emotional overload, difficulties balancing personal and professional spheres, negative impacts on productivity and mental health, and the absence of effective institutional policies to support motherhood. It is concluded that the overlap of academic, maternal and domestic responsibilities significantly compromises the professional trajectory of female professors, highlighting the need for inclusive policies that are sensitive to the specificities of women’s lives in the university context.

DESCRIPTORS:

RESUMEN

El objetivo de este estudio fue comprender cómo la maternidad y el trabajo doméstico afectan la vida académica de profesoras de la Universidad de Brasilia. Se trata de una investigación cualitativa, exploratoria y descriptiva, con trece participantes, realizada mediante un cuestionario en línea que contenía preguntas abiertas y cerradas. Los datos se analizaron a partir del análisis de contenido. Los resultados mostraron que las participantes enfrentan sobrecarga física y emocional, dificultades para conciliar las esferas personal y profesional, impactos negativos en la productividad y en la salud mental, además de la ausencia de políticas institucionales eficaces de apoyo a la maternidad. Se concluye que la superposición de responsabilidades académicas, maternas y domésticas compromete significativamente la trayectoria profesional de las docentes, lo que refuerza la necesidad de políticas inclusivas y sensibles a las especificidades de la vida de las mujeres en el contexto universitario.

DESCRIPTORES:

INTRODUÇÃO

Nas últimas décadas, a presença feminina no ensino superior brasileiro cresceu de forma significativa, tanto entre estudantes quanto no corpo docente. No entanto, esse avanço quantitativo não se traduz automaticamente em condições equitativas de permanência, ascensão e reconhecimento para as mulheres nas instituições de ensino superior. No contexto das universidades públicas, professoras ainda enfrentam desafios que se entrelaçam com papéis socialmente atribuídos às mulheres, como o trabalho doméstico e a maternidade, os quais permanecem invisibilizados e desvalorizados no ambiente acadêmico (10); (13).

A dupla ou tripla jornada vivida por essas mulheres impacta diretamente sua produtividade, bem-estar e possibilidades de progressão na carreira (16). O modelo acadêmico atual, sustentado por uma lógica produtivista, exige dedicação integral à docência, à pesquisa e à extensão, desconsiderando as realidades das professoras que, além dessas funções, são também responsáveis pela organização do lar e cuidado com os filhos (20).

Ainda que haja avanços em políticas de inclusão e apoio à maternidade no ambiente universitário, como licenças e auxílios, muitas dessas iniciativas são insuficientes, mal implementadas ou pouco conhecidas pelas docentes (2). Além disso, a ausência de um olhar interseccional nas políticas institucionais agrava a situação de professoras negras, mães solo ou com filhos com deficiência, cujas necessidades são ainda menos contempladas (12); (19)

Embora existam estudos sobre a participação das mulheres na ciência e nas universidades, há uma lacuna importante no que diz respeito à compreensão aprofundada das vivências de professoras que são mães, especialmente em instituições específicas, como a Universidade de Brasília. A escassez de dados qualitativos que dêem voz direta a essas mulheres reforça a necessidade de pesquisas que explorem suas experiências cotidianas, seus enfrentamentos e os impactos subjetivos dessa sobreposição de funções (14).

Diante desse cenário, este estudo tem como objetivo compreender as experiências de professoras da Universidade de Brasília que são mães, buscando identificar como a maternidade e o trabalho doméstico afetam sua vida acadêmica, produtividade, saúde mental e percepção sobre as políticas institucionais de apoio existentes.

MÉTODO

Este é um estudo de natureza qualitativa, de base exploratória e descritiva, com o objetivo de compreender as experiências de professoras da Universidade de Brasília (UnB) que exercem a maternidade, em articulação com as exigências do trabalho doméstico e da vida acadêmica (6).

A coleta de dados ocorreu de forma remota, entre os dias 10 e 21 de janeiro de 2025, por meio de um formulário online disponibilizado no Google Forms, elaborado pelas pesquisadoras. A pesquisa foi conduzida na Universidade de Brasília, sendo a própria instituição o espaço de análise. A amostra foi definida por acessibilidade e composta por 13 professoras universitárias, de diferentes áreas de conhecimento, que se voluntariaram a participar da pesquisa.

Das 13 participantes, considerando o momento da coleta de dados, 3 tinham até 40 anos, 7 estavam na faixa etária entre 41 e 50 anos e 3 tinham mais de 50 anos. Em relação ao tempo de docência na Universidade de Brasília, 7 estavam na instituição há mais de 10 anos, enquanto as demais 6 possuíam entre 1 e 8 anos de vínculo. Esses dados indicam uma composição heterogênea da amostra quanto à idade e à experiência acadêmica, sendo possível identificar tanto trajetórias consolidadas quanto docentes em fase inicial ou intermediária da carreira.

Foram adotados como critérios de inclusão: ser professora da UnB (efetiva ou temporária), atuar na docência superior em qualquer departamento da instituição, e ser mãe de pelo menos um filho. Como critérios de exclusão, foram considerados: não ser docente da universidade, não possuir filhos ou não se identificar com o gênero feminino.

A população-alvo é composta por professoras universitárias em exercício na UnB que são mães, e a seleção das participantes foi feita por meio de convite distribuído em redes sociais, grupos profissionais e e-mail institucional. A adesão foi voluntária, e não houve incentivo financeiro.

O formulário continha perguntas abertas e fechadas organizadas em seis blocos temáticos:

  1. Perfil socioeconômico e acadêmico (idade, estado civil, titulação, tempo na instituição, área de atuação);
  2. Jornada de trabalho (atividades docentes, pesquisa, extensão e administrativas);
  3. Carga doméstica (divisão de tarefas, tempo dedicado às atividades domésticas e cuidados);
  4. Maternidade (número e idade dos filhos, impacto na carreira, rede de apoio);
  5. Saúde mental e bem-estar (efeitos da rotina e do acúmulo de funções);
  6. Políticas institucionais (avaliação de políticas existentes e sugestões de melhorias).

As respostas foram organizadas e analisadas com base na análise de conteúdo, segundo as etapas propostas por Caregnato e Mutti (5): pré-análise, exploração do material e tratamento dos resultados obtidos. A leitura flutuante das respostas permitiu a identificação de categorias temáticas recorrentes, que nortearam a organização e discussão dos achados. Não foram utilizados softwares de análise estatística textual.

A análise estatística descritiva simples foi empregada apenas nas variáveis de caracterização das participantes (faixa etária, tempo na instituição, número de filhos, estado civil), por meio da contagem e percentual dos dados fornecidos nas perguntas fechadas.

A pesquisa seguiu os princípios éticos estabelecidos pela Resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde. Todas as participantes foram informadas sobre os objetivos do estudo e consentiram voluntariamente com a participação por meio do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) incluído no próprio formulário.

RESULTADOS

Sobrecarga Silenciosa: A Persistência da Desigualdade de Gênero no Cotidiano Docente

As mulheres têm conquistado espaço na universidade e no mercado de trabalho formal, mas essa inserção não veio acompanhada de uma redistribuição equitativa das tarefas domésticas e do cuidado. O que se observa, especialmente no cotidiano das professoras-mães, é a sobreposição de múltiplas jornadas, marcadas por uma exaustão persistente e invisibilizada. Os relatos das docentes participantes da pesquisa revelam que, mesmo com altos níveis de formação e atuação acadêmica consolidada, o trabalho doméstico permanece como responsabilidade central na vida dessas mulheres (7).

As respostas ao formulário indicam que a sobrecarga não é apenas física, mas também emocional e mental. As professoras descrevem em detalhes o que fazem em casa — lavar, cozinhar, cuidar dos filhos, gerenciar a rotina familiar — enquanto o trabalho acadêmico, mesmo igualmente exigente, aparece com menos detalhamento. Esse desequilíbrio na forma como descrevem as atividades já evidencia uma naturalização do papel das mulheres como cuidadoras e organizadoras do lar.

Embora sete docentes tenham relatado algum grau de compartilhamento das tarefas com seus parceiros, cinco afirmaram que continuam realizando a maior parte das atividades domésticas. O termo “ajuda” aparece com frequência para designar a participação masculina, o que reforça a ideia de que a responsabilidade principal é feminina. Uma das participantes resume bem essa lógica: “Meu marido está no caminho, mas a carga mental continua sendo para mim, até porque os homens ainda acham que não residem na residência” (15).

Outro relato exemplifica essa assimetria: “Maior parte sou eu, mas marido assume tarefas que gerações passadas de pais não assumiam. Mas ainda é uma divisão 60-40 por aí, não é igualitária”. Mesmo quando há envolvimento dos parceiros, as mulheres ainda carregam o peso da gestão, do planejamento e da responsabilização. Trata-se de uma carga invisível, que não é contada como trabalho, mas que consome tempo, energia e saúde emocional (25).

A maternidade solitária também foi tema recorrente. Expressões como “eu faço tudo, sou sozinha” ou “minha maternidade sempre foi muito solitária” apareceram com força nas respostas. A ausência de uma rede de apoio familiar ou institucional amplia os efeitos da sobrecarga e reforça a necessidade de que a universidade funcione como um espaço de acolhimento e suporte às docentes que enfrentam essa realidade (22).

Maternidade e Carreira Acadêmica: Entre Interrupções e Resistências

A maternidade impacta diretamente a trajetória profissional das professoras. As participantes relataram mudanças significativas em suas rotinas e planos acadêmicos após o nascimento dos filhos. Entre os efeitos mais comuns estão a redução da produtividade, o abandono de projetos, a dificuldade de participar de eventos e editais, e até mesmo a sensação de não conseguir manter o mesmo ritmo de trabalho exigido pela universidade (11).

Uma docente relatou: “Ser mãe impactou diretamente na minha produtividade. Durante os primeiros anos da maternidade, minha produção foi praticamente zero”. Outra afirmou: “A maternidade me fez mudar de área de pesquisa e abandonar projetos em andamento. Tive que recomeçar, me adaptar”. Essas falas revelam que não se trata apenas de ajustar horários, mas de reorganizar toda uma identidade acadêmica diante das demandas do cuidado (8).

A percepção de improdutividade aparece em vários depoimentos. Frases como “nunca mais consegui alcançar o mesmo ritmo de antes” ou “me sinto sempre devendo algo” traduzem o conflito entre as exigências institucionais e as condições reais das mulheres que maternam. As políticas de avaliação por produtividade, centradas em números, datas e prazos, ignoram as experiências de interrupção e recomeço que atravessam a vida das professoras mães (23). 

A ausência de oportunidades ou a impossibilidade de aproveitá-las também foi recorrente. Algumas docentes relataram que não se inscrevem em bolsas no exterior ou recusam convites para eventos por não terem com quem deixar os filhos. Uma professora, mãe solo, escreveu: “Nunca me inscrevi para bolsa no exterior porque sou mãe solo”. Outra comentou: “Tive que recusar convites para eventos importantes por falta de rede de apoio. Essas perdas não aparecem no currículo, mas marcam a carreira”.

Além das dificuldades práticas, surgem relatos de constrangimento e julgamento no ambiente de trabalho. A maternidade, em muitos casos, não é legitimada como parte da experiência profissional. Uma professora relatou: “Precisei faltar para levar meu filho ao médico e ouvi piadas como se fosse desculpa”. Esses episódios reforçam que o cuidado ainda é visto como desvio de conduta no ambiente acadêmico, e não como parte legítima da vida de qualquer profissional (18).

Diante desse cenário, surgem estratégias de resistência: trabalho noturno, adaptação dos temas de pesquisa e redes informais de apoio entre mães. Essas saídas, no entanto, são individuais. Para que haja transformação estrutural, é necessário que a universidade reconheça e considere a maternidade como um marcador legítimo de diferença — e que as políticas institucionais deixem de tratar as mães como exceção (21).

DISCUSSÃO

As respostas das professoras evidenciam, de forma contundente, a sobrecarga vivida pelas mulheres que conciliam a maternidade, o trabalho doméstico e a vida acadêmica. Uma das participantes relatou: “Faço muita coisa, até cansa falar tudo…”. Essa fala resume a exaustão acumulada nas múltiplas jornadas diárias. Embora ocupem cargos de alta qualificação e tenham acesso à informação, as professoras ainda naturalizam a carga de trabalho doméstico como parte de suas obrigações, muitas vezes subestimando o tempo e esforço despendidos. Isso reflete um processo de socialização de gênero que legitima o cuidado e a organização do lar como responsabilidade feminina (10); (13).

O sentimento de solidão também apareceu nas respostas, como quando uma participante afirmou: “Eu faço tudo, sou sozinha.” ou ainda “...minha maternidade sempre foi muito solitária…”. A ausência de uma rede de apoio adequada amplia os impactos negativos sobre a saúde mental, revelando que, para além do acúmulo de tarefas, há também um esvaziamento afetivo e emocional no enfrentamento diário dessas responsabilidades (4). Ainda que se pense, de maneira imediata, em rede de apoio como sinônimo de família, as instituições também podem exercer esse papel — sobretudo quando se trata de um ambiente de trabalho com alta exigência produtiva.

A carga mental, que se refere ao planejamento constante e à organização das demandas da casa e da família, surge como outro elemento central da experiência dessas mulheres. Uma professora compartilhou: “Meu marido está no caminho, mas a carga mental continua sendo para mim, até porque os homens ainda acham que não residem na residência.” Ainda que haja uma maior participação masculina nas tarefas do lar em comparação com gerações anteriores, como aponta outra entrevistada (“Maior parte sou eu, mas marido assume tarefas que gerações passadas de pais não assumiam.”), a divisão segue desigual. Quando as contribuições masculinas são tratadas como “ajuda”, reforça-se a ideia de que a responsabilidade principal continua sendo feminina.

A maternidade impacta diretamente a produtividade acadêmica. Muitas participantes mencionaram dificuldades em avançar na carreira, interrupções em projetos e mudanças nas rotinas de trabalho (3). Algumas sequer conseguem concorrer a determinadas oportunidades por conta da maternidade, como apontou uma professora ao relatar a “inviabilidade de sair do país para realizar pós-doutorado”. Esse cenário reforça o que já é amplamente discutido na literatura: o modelo acadêmico atual, centrado na produtividade e na competitividade, é excludente com quem tem responsabilidades de cuidado (16); (20).

Há também relatos diretos de discriminação, como o constrangimento sofrido por uma professora ao precisar acompanhar o filho doente, ou a exclusão de bolsas por conta da maternidade. Tais vivências demonstram que, para além da falta de apoio, há um julgamento constante da legitimidade do tempo que essas mulheres dedicam ao cuidado, como se fosse incompatível com o desempenho profissional. Isso mostra que a maternidade, dentro do espaço acadêmico, ainda é vista como um obstáculo e não como uma dimensão legítima da vida das trabalhadoras (3).

Sobre as políticas institucionais, a maioria das professoras não conseguiu identificar ações concretas da universidade que favorecessem a permanência e o desenvolvimento das docentes que são mães. Aquelas que citaram políticas existentes destacaram que elas são insuficientes — como no caso do auxílio-creche, definido como “importante, mas absolutamente irrisório”. Essa percepção revela que, mesmo quando há iniciativas, elas não dialogam com a realidade das mães acadêmicas e suas necessidades práticas e emocionais (24).

As falas também reforçam o papel da universidade como possível agente de mudança. As sugestões das docentes vão desde a criação de creches dentro do campus, maior flexibilidade de horários e revisão dos critérios de avaliação para concursos e editais, até o fortalecimento do apoio psicológico. Isso evidencia que as professoras não estão apenas denunciando desigualdades, mas também propondo caminhos para que a universidade se torne um espaço mais justo e acolhedor para todas (17).

CONCLUSÃO

Este estudo teve como objetivo compreender como a maternidade e o trabalho doméstico impactam a vida acadêmica de professoras universitárias. A partir da análise das respostas de treze docentes, foi possível constatar que a sobrecarga de trabalho é uma realidade constante, atravessando tanto o espaço privado quanto o profissional. As participantes relataram que acumulam múltiplas funções, enfrentam solidão no exercício da maternidade e vivenciam prejuízos concretos em sua produtividade e trajetória acadêmica (1).

A investigação evidenciou que, embora algumas mudanças tenham ocorrido nas relações familiares e institucionais, a divisão desigual das tarefas domésticas e a ausência de apoio efetivo ainda recaem fortemente sobre as mulheres. A maternidade, longe de ser reconhecida como dimensão legítima da vida acadêmica, aparece como um fator de exclusão, desvalorização e autocobrança (9).

Como lacuna, destaca-se a necessidade de aprofundar o debate sobre a atuação das universidades enquanto agentes de cuidado institucional, bem como investigar os efeitos da maternidade em diferentes fases da carreira docente. Pesquisas futuras podem explorar comparações entre instituições, diferentes arranjos familiares e os impactos do cuidado em professoras negras, mães solo ou com filhos com deficiência, ampliando a compreensão da desigualdade de gênero no ensino superior.

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AGRADECIMENTOS, APOIO FINANCEIRO OU TÉCNICO, DECLARAÇÃO DE CONFLITO DE INTERESSE FINANCEIRO E/OU DE AFILIAÇÕES:

As autoras agradecem às professoras que participaram da pesquisa, compartilhando suas experiências com sensibilidade e generosidade. Agradecem também ao Programa de Pós-Graduação em Psicologia Clínica e Cultura da Universidade de Brasília pelo apoio institucional.

Este trabalho foi financiado pela Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAP-DF) e pelo Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (CONFAP), por meio da Mobility Confap Italy Call 2023, Edital Nº 71/2023.

As autoras declaram não haver conflito de interesse financeiro e/ou de afiliações.