ARTIGO ORIGINAL

AVALIAÇÃO DA FORÇA MUSCULAR, ESTADO NUTRICIONAL E QUALIDADE DE VIDA DE PACIENTES ONCOLÓGICOS EM QUIMIOTERAPIA / ASSESSMENT OF MUSCLE STRENGTH, NUTRITIONAL STATUS AND QUALITY OF LIFE IN CANCER PATIENTS UNDERGOING CHEMOTHERAPY / EVALUACIÓN DE LA FUERZA MUSCULAR, EL ESTADO NUTRICIONAL Y LA CALIDAD DE VIDA EN PACIENTES CON CÁNCER SOMETIDOS A QUIMIOTERAPIA 

Lilian de Souza Cavalcante – Nutricionista Especialista pelo Programa de Residência em Nutrição Clínica do Hospital das Clínicas de Pernambuco HC/UFPE, Recife, PE, Brasil.

Hellba Karts Maria e Silva – Nutricionista Especialista pelo Programa de Residência em Nutrição Clínica do Hospital das Clínicas de Pernambuco HC/UFPE, Recife, PE, Brasil.

Renata Pereira da Silva – Mestre em Nutrição Clínica; Nutricionista do Hospital das Clínicas de Pernambuco HC/UFPE, Recife, PE, Brasil.

RESUMO

Objetivo: avaliar a força muscular nesses pacientes e investigar se essa condição se associa com o estado nutricional e a qualidade de vida. Métodos: estudo do tipo transversal, com indivíduos de ambos os sexos, diagnosticados com câncer em quimioterapia, recrutados no Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco. Foram coletados dados clínicos, demográficos, antropométricos, força de preensão palmar e qualidade de vida. Resultados: avaliados 55 pacientes com idade média de 64 anos. O índice de massa corporal médio foi de 25,6 ± 4,8 kg/m², sendo 45,5% eutróficos. Já circunferência do braço 50,9%, apresentaram desnutrição, enquanto 60% tinham circunferência da panturrilha adequada e 30,9% baixa força de preensão palmar. Foi verificado correlação direta entre a força de preensão palmar e a função física (p<0,001) e função cognitiva (p=0,01). Conclusão: a maioria apresentou força muscular preservada, estado nutricional comprometido e uma qualidade de vida relativamente satisfatória.  

DESCRITORES: Câncer; Força Muscular; Qualidade de Vida; Estado nutricional.

 INTRODUÇÃO

        O câncer é um dos principais problemas de saúde pública no mundo e está entre uma das três causas principais de morte antes dos 70 anos de idade. (1)

        No triênio de 2023 a 2025, estima-se que o Brasil apresentará aproximadamente 704 mil novos casos de câncer anualmente, com notável ênfase nas regiões Sul e Sudeste, as quais respondem por cerca de 70% da incidência da doença. O levantamento revela que o tipo de câncer maligno mais incidente no país é o de pele não melanoma, representando 31,3% do total de casos, seguido pelos de mama feminina (10,5%), próstata (10,2%), cólon e reto (6,5%), pulmão (4,6%) e estômago (3,1%). (1)

        O tipo de câncer, a localização, o estadiamento, além dos tratamentos, são determinantes que podem levar a alterações físicas, psíquicas, sociais e ao comprometimento do estado nutricional. (1)

        Nesse contexto, destacam-se a caquexia e a desnutrição, que são os principais distúrbios nutricionais encontrados no paciente oncológico devido ao aumento na demanda energética e de nutrientes promovidos pelo tumor. Assim como na resposta do indivíduo ao tumor e as terapias oncológicas que podem acarretar os efeitos indesejáveis como a anorexia, alteração do paladar, xerostomia, náuseas, vômitos, mucosite, estomatite, odinofagia, diarreia e constipação.(2)  Além disso, estudos revelam que existe associação entre a perda da massa muscular e desfechos ruins, como mortalidade pós-operatória elevada, toxicidade quimioterápica, sobrevida reduzida, maiores taxas de infecção, aumento do tempo de internação e aumento da taxa de mortalidade.(3)

        A qualidade de vida (QV) engloba um conceito amplo e subjetivo associado à forma como os indivíduos se situam na vida, considerando o contexto cultural e os seus valores, juntamente com suas metas, expectativas e preocupações. Suas interações são variadas e podem ser influenciadas pelo estado de saúde físico-psíquico, nível de independência, relações sociais e características ambientais. Além disso, a mensuração da QV durante a quimioterapia é crucial para avaliar as implicações clínico terapêuticas do tratamento. (4)

        E para avaliar a QV, alguns estudos utilizam instrumentos para investigação, com o objetivo de medir até que ponto o câncer pode interferir na saúde, capacidade funcional, sintomas, bem-estar psicossocial e satisfação de vida. Dentre eles, destaca-se o European Organization for Research and Treatment of Cancer Quality of Life Questionnaire Core 30 (EORTC QLQ-C30). (4-5)  

        Assim, o propósito deste estudo consistiu em examinar a relação entre a diminuição da força muscular, o estado nutricional e a qualidade de vida em pacientes com câncer submetidos à quimioterapia. O objetivo é fornecer informações relevantes para aprimorar a intervenção nutricional e o gerenciamento dos sintomas, visando a melhoria geral do bem-estar desses indivíduos.

MÉTODOS

        Estudo transversal analítico, de natureza quantitativa envolvendo adultos e idosos com idade ≥ 20 anos de ambos os sexos, em tratamento quimioterápico exclusivo, atendidos no ambulatório de oncologia e nutrição do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco, em 2023. Incluiu pacientes diagnosticados com diversos tipos de câncer em qualquer estágio da doença que estavam no mínimo no 1º ciclo do tratamento quimioterápico. Foram excluídos da pesquisa: gestantes, pacientes com edema e/ou ascite que não puderam realizar a avaliação nutricional, bem como aqueles que sofriam de doenças crônicas como doença renal crônica (DRC), insuficiência cardíaca (IC) e hepatopatias.

Foi aplicado um questionário estruturado e personalizado, contendo perguntas relacionadas à idade, sexo, nível de escolaridade, local de nascimento, bem como informações clínicas, tais como o tipo de câncer, o tempo desde o diagnóstico, o tipo de tratamento e as condições médicas concomitantes. Além da aferição de medidas antropométricas (peso, altura, circunferência do braço, circunferência da panturrilha, força de preensão palmar) foram registradas.

O peso foi aferido utilizando uma balança plataforma antropométrica da marca Welmy® com escala de precisão de 100g e capacidade de até 200kg.

Para mensurar a circunferência do braço (CB), o paciente permaneceu com o braço estendido ao longo do corpo e palma da mão voltada para a coxa, marcando-se o ponto medido entre o acrômio e o olecrano. Contornando o braço do paciente com uma fita antropométrica inelástica (SANNY®). Os resultados foram calculados pela fórmula de adequação e posteriormente classificados com pontos de corte. (6) 

A circunferência da panturrilha (CP) foi aferida ainda no momento da entrevista, através de fita antropométrica inelástica, mensurada com o paciente sentado com as pernas ligeiramente afastadas e em um ângulo de 90° sendo colocada na região mais protuberante da panturrilha. (6) Os valores da CP para idosos, <33 cm para mulheres e <34 cm para homens foram considerados como ponto de corte, de acordo com valores validados para esta população e para os adultos <31 cm. (6-7)  

        Com o propósito de avaliar o estado funcional e a força total, a força de preensão palmar (FPP) foi aferida a partir da contração isométrica dos músculos da mão com a utilização do dinamômetro digital (JAMAR®), com o indivíduo posicionado sentado com o ombro abduzido e levemente rodado, cotovelo fletido a 90° e antebraço e punho em posição neutra. A aferição repetiu-se por 3 vezes no braço dominante, com intervalos de 1 minuto, registrando-se o maior valor, utilizando o ponto de corte para os idosos <27kg/f para homens e <16kg/f para mulheres. (7) O ponto de corte < P10 foi adotado para a análise em adultos. (8)  

Já o índice de massa corporal (IMC) foi obtido pela razão entre o peso corporal (kg) e a estatura (cm) ao quadrado e na classificação foram utilizados os pontos de corte recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS, 1995) para adultos e da Organização Pan-Americana de Saúde - OPAS (2002) para os idosos. (6)

Para a avaliação da QV, aplicou-se o instrumento European Organization for Research and Treatment of Cancer Quality of Life Questionnaire Core 30 (EORTC QLQ-C30). O questionário é composto de 30 perguntas relacionadas a cinco escalas funcionais (física, funcional, emocional, social e cognitiva), uma escala sobre o estado de saúde global, três escalas de sintomas (fadiga, dor e náuseas/vômitos) e seis itens de sintomas adicionais (dispneia, insônia, perda de apetite, constipação, diarreia e dificuldades financeiras). Os escores do questionário variam de 0 a 100. O princípio da pontuação das escalas foi calculado de acordo com o EORTC QLQ-C30 Scoring Manual. (9) 

Os dados foram tabulados no EXCEL e a análise estatística realizada pelo Statistical Package For Social Sciences (SPSS), versão 25.0. As variáveis contínuas foram testadas quanto a normalidade pelo teste de Kolmogorov-Smirnov, as variáveis com distribuição normal, foram descritas na forma de média e desvio padrão, e as com distribuição não normal, na forma de mediana e intervalo interquartílico.

As variáveis categóricas foram descritas na forma de proporções. Para comparar duas médias e/ou medianas foram utilizados os testes t de Student e U de Mann-Whitney, respectivamente. E para avaliar a relação entre duas variáveis quantitativas, foi utilizado a correlação de Spearman. Para comparar três ou mais medianas foi utilizado o teste de Kruskal-Wallis. Foi utilizado o nível de significância de 5% para rejeição da hipótese de nulidade.

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa envolvendo seres humanos do HC/PE, de acordo com a resolução Nº 466/12 do Conselho Nacional de Saúde/Ministério da Saúde, sob o CAEE Nº 67934223.5.0000.8807. Os pacientes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido – TCLE.

RESULTADOS

Amostra foi composta de 55 pacientes portadores de variados tipos de câncer, com idade ≥ 20 anos, dos quais 52,7% eram homens. A média de idade foi de 64 anos e 41,8% possuíam nível médio de escolaridade. Na amostra os principais locais acometidos pelo câncer, foram o cólon, o ceco, o íleo, o ânus e o reto (Tabela 1).  No que diz respeito à força de preensão palmar (FPP), nota-se que 30,9% da amostra foi classificada com baixa FPP enquanto 69,1% dos participantes se encontravam com a FPP normal (Tabela 1).

Tabela 1. Distribuição das características e variáveis nutricionais em pacientes com câncer em tratamento quimioterápico (n = 55)

Variáveis

n

%

Faixa etária

Adulto

15

27,3

Idoso

40

72,7

Sexo

Feminino

26

47,3

Masculino

29

52,7

Escolaridade

Não alfabetizado

3

5,5

Fundamental completo

8

14,5

Fundamental incompleto

18

32,7

Ensino médio completo

23

41,8

Ensino médio incompleto

2

3,6

Superior completo

1

1,8

Local/tipo de câncer

Próstata

7

12,7

Mama

9

16,4

Cólon, ceco, íleo, ânus e reto

15

27,3

Esôfago, parótida e laringe

4

7,6

Ovário e endométrio

5

9,1

Fígado, estômago e pâncreas

9

16,3

Pulmão

3

5,5

Índice de Massa Corporal

Baixo peso/magreza

11

20,0

Eutrofia

25

45,5

Sobrepeso

9

16,4

Obesidade

10

18,2

Classificação Circunferência do Braço

Desnutrição

28

50,9

Eutrofia

23

41,8

Sobrepeso

2

3,6

Obesidade

2

3,6

Circunferência da Panturrilha

Inadequado

22

40,0

Adequado

33

60,0

Força de Preensão Palmar

Baixa força

17

30,9

Força adequada

38

69,1

        A média do índice de massa corporal (IMC) encontrada foi de 25,6 ± 4,8 kg/m², sendo 20% classificados com desnutrição, 45,5% eutróficos e 34,6% excesso de peso. Em relação à circunferência do braço (CB), constatou-se que 50,9% dos participantes apresentaram desnutrição. Enquanto 60% dos participantes mantiveram adequada circunferência da panturrilha (CP) (Tabela 2).

Tabela 2. Comparação entre média e/ou mediana de acordo com a força muscular em pacientes com câncer em tratamento quimioterápico. (n = 55)

Variáveis

FPP

Baixa força (n = 17)

Força normal (n = 38)

Média ± DP

Média ± DP

p – valora

IMC (kg/m²)

24,3 ± 5,4

25,6 ± 4,8

0,400

Adequação CB (%)

86,9 ± 14,9

91,7 ± 14,7

0,276

CP (cm)

33,4 ± 4,4

35,0 ± 3,9

0,198

Funcionais

Mediana (IQ)

Mediana (IQ)

p - valorb

Função física

73,3 (36,7 – 86,7)

86,7 (58,3 – 100,0)

0,101

Função desempenho

50,0 (16,7 – 100,0)

66,7 (45,8 – 100,0)

0,502

Função emocional

83,3 (33,3 – 100,0)

83,3 (66,7 – 100,0)

0,993

Função cognitivo

66,7 (50,0 – 100,0)

83,3 (66,7 – 100,0)

0,057

Função social

Sintomas

83,3 (50,0 – 100,0)

83,3 (62,5 – 100,0)

0,985

Fadiga

22,2 (5,5 – 55,6)

22,2 (0,0 – 36,1)

0,241

Náuseas/vômitos

0,0 (0,0 – 25,0)

16,7 (0,0 – 33,3)

0,591

Dor

16,7 (0,0 – 50,0)

16,7 (0,0 – 33,3)

0,576

Dispneia

0,0 (0,0 – 16,7)

0,0 (0,0 – 0,0)

0,696

Insônia

33,3 (0,0 – 66,7)

0,0 (0,0 – 66,7)

0,430

Perda de apetite

33,3 (0,0 – 100,0)

0,0 (0,0 – 41,7)

0,345

Constipação

0,0 (0,0 – 16,6)

0,0 (0,0 – 33,3)

0,516

Diarreia

0,0 (0,0 – 33,3)

0,0 (0,0 – 41,7)

0,630

Dificuldade financeira

33,3 (0,0 – 66,7)

33,3 (0,0 – 100,0)

0,254

Saúde Global

75,0 (50,0 – 87,5)

70,0 (56,2 – 91,7)

0,594

aTeste t de Student; bTeste U de Mann-Whitney.

DP: Desvio padrão; IQ: Intervalo interquartílico; CB: Circunferência do braço

        Nos domínios da escala funcional, nesse estudo a variável que apresentou maior impacto na piora da qualidade de vida foi a função desempenho (66,67). Os sintomas prevalentes na amostra incluíram fadiga (22,22), dor (16,67), insônia (33,33) e dificuldade financeira (33,33), conforme ilustrado no Gráfico 1 e foram os principais contribuintes para o declínio da pontuação final na qualidade de vida dos participantes desta pesquisa. Quanto a avaliação do estado geral de saúde, a amostra apresentou mediana de 75,5 (Gráfico 1).  

Gráfico 01 – Pontuação das escalas do questionário de QV em pacientes com câncer em tratamento quimioterápico. (n = 55)

        Não foram verificadas diferenças estatisticamente significativas nas medianas dos valores de medidas nutricionais e pontuação da QV em função da FPP (Tabela 2).

        Foi verificado correlação direta entre a FPP e a função física (p<0,001), a função cognitiva (p = 0,01) e correlação inversa entre a FPP e fadiga (p = 0,002) além de FPP e dor (p = 0,046). Houve correlação inversa entre IMC e sintoma de dispneia (p = 0,0039) (Tabela 3).

Tabela 3. Correlação entre as variáveis antropométricas e força de preensão palmar (FPP) com as variáveis da qualidade de vida e seus componentes (n = 55)

Componentes

IMC

%CB

CP

FPP

p

p

p

p

Saúde global

0,164

0,233

0,072

0,602

0,071

0,606

0,285

0,035

Física

0,036

0,794

-0,019

0,891

0,155

0,260

0,474

<0,001

Funcional

0,237

0,081

0,141

0,306

0,248

0,068

0,179

0,191

Emocional

0,012

0,932

-0,050

0,718

0,184

0,182

0,148

0,285

Cognitivo

0,122

0,376

0,034

0,804

0,134

0,330

0,344

0,010

Social

0,122

0,375

0,009

0,946

0,107

0,439

0,207

0,130

Fadiga

0,038

0,783

0,097

0,482

-0,096

0,485

-0,414

0,002

Náuseas

-0,004

0,977

0,098

0,476

0,002

0,990

-0,096

0,486

Dor

-0,229

0,092

-0,169

0,217

-0,253

0,062

-0,270

0,046

Dispneia

-0,280

0,039

-0,199

0,145

-0,234

0,085

0,010

0,943

Insônia

0,116

0,397

0,274

0,043

0,088

0,523

-0,213

0,119

Perda de apetite

-0,207

0,130

-0,209

0,126

-0,237

0,082

-0,203

0,137

Constipação

-0,078

0,574

0,026

0,850

-0,170

0,214

0,006

0,967

Diarreia

-0,102

0,458

0,046

0,739

0,079

0,565

-0,097

0,481

Dificuldade financeira

-0,049

0,722

-0,006

0,965

0,031

0,821

-0,037

0,787

Correlação de Spearman

Não houve associação entre o estado nutricional avaliado pelo IMC e os escores de qualidade de vida (tabela 4).

Tabela 5. Escore da Qualidade de vida e seus componentes de acordo o estado nutricional

Itens da escala

Estado nutricional

p

Desnutrição

(n=11)

Eutrofia

(n=25)

Sobrepeso

(n=9)

Obesidade

(n=10)

Estado geral de saúde/Qualidade de vida

58,3 (41,7 91,7)

75,0 (50 – 91,7)

75,0 (66,6 – 91,7)

70,8 (56,2 – 93,8)

0,428

Escala funcional

Física

73,3 (40,0 - 86,7)

66,7 (53,3 – 100,0)

86,7 (80,0 – 100,0)

76,6 (45,0 – 95,0)

0,406

Funcional

50,0 (16,7 - 66,7)

66,7 (25,0 – 100,0)

100,0 (50,0 – 100,0)

83,3 (37,5 – 100,0)

0,243

Emocional

83,3 (33,3- 100,0)

83,3 (60,4 – 91,7)

83,3 (54,1 – 100,0)

91,6 (62,5 – 100,0)

0,940

Cognitivo

50,0 (33,3 - 100,0)

83,3 (83,3 – 100,0)

83,3 (58,3 – 100,0)

66,7 (62,5 – 100,0)

0,176

Social

83,3 (33,3 - 100,0)

83,3 (66,7 – 100,0)

100,0 (58,3 – 100,0)

83,3 (50,0 – 100,0)

0,755

Escala de sintomas

Fadiga

22,2 (11,1 - 44,4)

22,2 (0,0 – 50,0)

33,3 (0,0 – 44,4)

16,6 (0,0 -36,1)

0,966

Náuseas e vômitos

0,0(0,0 - 16,7)

33,3 (0,0 – 50,0)

0,0 (0,0 – 33,3)

0,0 (0,0 – 16,7)

0,071

Dor

33,3 (16,7 - 50,0)

16,7 (0,0 – 50,0)

0,0 (0,0 – 33,3)

0,0 (0,0 – 33,3)

0,216

Dispneia

0,0 (0,0 - 33,3)

0,0 (0,0 – 0,0)

0,0 (0,0 – 16,6)

0,0 (0,0 – 0,0)

0,216

Insônia

33,3 (0,0 - 66,7)

0,0 (0,0 – 66,7)

33,3 (0,0 – 83,3)

33,3 (0,0 – 100,0)

0,769

Perda de apetite

33,3 (0,0 - 100,0)

33,3 (0,0 – 66,7)

0,0 (0,0 – 66,5)

0,0 (0,0 – 8,3)

0,119

Constipação

0,0 (0,0 - 33,3)

0,0 (0,0 – 33,3)

0,0 (0,0 – 0,0)

0,0 (0,0 – 0,0)

0,105

Diarreia

33,3 (0,0 - 66,7)

0,0 (0,0 – 33,3)

0,0 (0,0 – 50,0)

0,0 (0,0 – 41,7)

0,687

Dificuldade financeira

0,0 (0,0 - 66,7)

33,3 (0,0 – 66,7)

66,7 (0,0 – 100,0)

33,3 (0,0 – 66,7)

0,715

Teste Kruskall-Wallis

DISCUSSÃO

O presente estudo encontramos a predominância de idosos do sexo masculino e que apresentavam como principal sítio de localização o câncer intestinal, assim como um recente estudo que observou uma maior ocorrência de pacientes com neoplasia gástrica (58,82%), seguida por câncer de cólon (31,37%) e reto (9,80%), o que está em consonância com os resultados que encontramos. (10) 

        Uma situação comum em pacientes com câncer é a desnutrição, que prejudica significativamente a qualidade de vida, uma vez que afeta vários aspectos que a compõem. Em nossa amostra foi verificado que 20% apresentaram desnutrição quando avaliados pelo IMC. Resultado semelhante foi observado em um estudo que apresentou uma média de IMC de 24,2 Kg/m², sendo 47,4% da amostra, eutróficos. (11)  

A desnutrição apresentou maior prevalência no presente estudo ao analisarmos a circunferência do braço (CB) como parâmetro de composição corporal, evidenciando que os pacientes apresentavam uma depleção da reserva adiposa, resultando no comprometimento do estado nutricional. (12)  

Outro parâmetro avaliado foi a FPP que não se limita a medir apenas a força da mão, mas também serve como um indicador da força global do corpo. A força manual é um bom indicativo do desempenho da força muscular dos membros, o que a torna aplicável em diversas populações. (13) Nos dados coletados, a FPP revelou depleção da força em 30,9% dos pacientes avaliados, enquanto 69,1% apresentaram FPP dentro dos parâmetros adequados.

A desnutrição foi encontrada com maior prevalência em nossa amostra através da CB e esse fato pode ser explicado devido aos sintomas pós quimioterapia que levam a perda do apetite, além da dificuldade ao acesso à alimentação de qualidade devido à baixa renda, pois existe uma associação significativa de maior taxa de desnutrição naqueles indivíduos com maior idade, baixa renda e moradores de localidade rural. (14)    

        Buscando avaliar através de instrumentos o impacto do câncer na saúde, destaca-se o Questionário de Qualidade de Vida do European Organization for Research and Treatment of Cancer Core 30 (EORTC QLQ-C30), o qual foi empregado neste estudo. (5,9)

Nos campos da escala funcional presentes no questionário (EORTC QLQ-C30), ao correlacionarmos a escala funcional com a FPP, o fator que teve maior impacto negativo foi o desempenho funcional. Por outro lado, a função cognitiva (p = 0,057) manteve-se mais preservada no grupo com FPP normal, indicando uma qualidade de vida satisfatória.

 Já as variáveis de insônia (33,3), fadiga (22,22), dor (16,67) e dificuldade financeira (33,3), emergiram como os principais fatores contribuintes para o declínio na qualidade de vida dos participantes nesta pesquisa. A insônia foi o domínio mais impactado em recente estudo que registrou uma taxa de 39,22%, seguida por fadiga com 26,80%, dor com 26,47% e perda de apetite com 26,14%, o que é comum nos pacientes em tratamento antineoplásico. (10)  

Ao avaliar qualidade de vida em outo estudo, os pesquisadores observaram que na escala de sintomas, um dos domínios com maiores valores médios foi a insônia (43,3 ± 31,3 pontos), semelhante a outro estudo no qual os domínios mais afetados foram a insônia (41,35 ± 43,7), seguida de dor (39,66 ± 40,5) e constipação (29,54 ± 43,6) perda de apetite (29,11 ± 38,9).(15-16) A insônia é um dos sintomas mais relatados nos estudos e está relacionada a alterações no metabolismo e do processo inflamatório provocados pelo próprio câncer através da liberação de citocinas inflamatórias, as quais afetam o ciclo circadiano, podendo modular e favorecer a sua ocorrência.(17-18)

        Não foi identificada diferença estatisticamente significativa nas pontuações de Qualidade de Vida (QV) em relação a FPP e estado nutricional pelo IMC. Ao avaliar a qualidade de vida, constatou-se que a nossa amostra apresentou uma mediana situada entre 75,0 pontos, indicando um estado geral de saúde e qualidade de vida relativamente satisfatórios para os participantes. Este resultado está em consonância com um estudo similar, onde uma mediana de 75,0 foi encontrada. (19) 

        Ao realizar a correlação de Spearman entre as variáveis antropométricas e força de preensão palmar (FPP) com as variáveis da qualidade de vida e seus componentes, encontramos resultados significativos entre as variáveis dispneia e IMC (p = 0,039), %CB e insônia (p = 0,043), FPP e QV (p = 0,035), FPP e física (p < 0,01), FPP e cognitivo (p = 0,010), FPP e fadiga (p = 0,002), FPP e dor (p = 0,046), foram encontradas correlações positivas e negativas que interferiram diretamente nos escores finais da qualidade de vida dos pacientes estudados. Resultado semelhante foi encontrado em estudo anterior, corroborando com os nossos achados. (19) 

        Ao analisarmos os escores de qualidade de vida e seus componentes com base no estado nutricional, observamos que os indivíduos com desnutrição apresentaram medianas mais baixas nas avaliações do estado geral de saúde (58,3), funcionalidade cognitiva (50,0) e funcionalidade geral (50,0).

        Na análise feita, os pacientes apresentaram na escala funcional melhores medianas de função física, emocional, cognitivo, social e funcional, não foi encontrado associação entre o estado nutricional e a qualidade de vida. Resultados divergentes foram observados em um estudo que encontrou menores pontuações para a função física, funcional, cognitiva e sintomas que foram mais prevalentes nos pacientes desnutridos, demonstrando que o estado nutricional prejudicado pode piorar a qualidade de vida dos pacientes. (19)

Ao analisar 162 mulheres sobreviventes de câncer de mama, um estudo revelou valores significativos em várias escalas do Questionário de Qualidade de Vida, dentre eles os aspectos como funcionamento físico e geral, fadiga, náusea, dor, dispneia, insônia, perda de apetite, constipação, diarreia e dificuldades financeiras. Na comparação entre mulheres abaixo do peso/peso normal e sobrepeso/obesidade, os escores relacionados ao funcionamento físico, geral, fadiga, dor e dispneia indicaram resultados mais desfavoráveis, corroborando com os nossos achados. (20)

Diante dos nossos resultados, ressaltamos a complexidade da relação entre nutrição, força muscular e qualidade de vida em pacientes com câncer, enfatizando a necessidade de abordagens integradas no cuidado desses indivíduos. Entre as limitações, destaca-se sua abordagem transversal, que impossibilita estabelecer associações de causa e efeito. Adicionalmente, é importante mencionar o número limitado de participantes na pesquisa.

CONCLUSÃO

        Embora a maioria dos pacientes tenham apresentado uma FPP normal, um resultado significativo foi identificado em casos de FPP baixa, que pode estar relacionada a diversos fatores, como desnutrição, efeitos colaterais do tratamento, metástases e condições neurológicas provocadas pelo câncer. Este achado ressalta a importância da avaliação da força muscular nesse contexto clínico, proporcionando direcionamento adequado nas decisões terapêuticas.

        Apesar da classificação do Índice de Massa Corporal (IMC) ter indicado uma amostra dentro da faixa de eutrofia, a avaliação da circunferência do braço (CB) revelou uma presença significativa de desnutrição entre os pacientes.

        A correlação entre a força de preensão palmar e as variáveis de qualidade de vida, reforça a relevância desse parâmetro para compreender o impacto global do câncer na vida dos indivíduos.

        De modo geral, a maioria dos pacientes apresentou força muscular preservada, mas o comprometimento do estado nutricional aponta para a necessidade de abordagens integradas para otimizar a qualidade de vida desses indivíduos.

CONFLITO DE INTERESSE

        Os autores declaram que não houve conflito de interesses.

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Autores:

1Lilian de Souza Cavalcante –  Endereço: E-mail: lilian.2610@hotmail.com; Telefone: (81) 98969-5314.

2Hellba Karts Maria e Silva – Endereço: E-mail: hellbakarts@gmail.com; Telefone: (81)                  

3Renata Pereira da Silva – Endereço: E-mail: renata.ufpe.hc@gmail.com; Telefone: (81)

1Nutricionista Especialista pelo Programa de Residência em Nutrição Clínica do Hospital das Clínicas de Pernambuco HC/UFPE, Recife, PE, Brasil. - https://orcid.org/0000-0002-1887-8917 

2Nutricionista Especialista pelo Programa de Residência em Nutrição Clínica do Hospital das Clínicas de Pernambuco HC/UFPE, Recife, PE, Brasil. - https://orcid.org/0000-0003-2880-8426 

3Mestre em Nutrição Clínica; Nutricionista do Hospital das Clínicas de Pernambuco HC/UFPE, Recife, PE, Brasil. https://orcid.org/0009-0008-7901-6094