TECENDO O CUIDADO: ACOLHIMENTO DE DEMANDAS ÀS PESSOAS IDOSAS À LUZ DO ACOMPANHAMENTO TERAPÊUTICO

WEAVING CARE: EMBRACING DEMANDS TO OLDER ADULTS IN THE LIGHT OF THERAPEUTIC MONITORING

TEJIENDO EL CUIDADO: ACOGIENDO LAS DEMANDAS DE LAS PERSONAS MAYORES A LA LUZ DEL SEGUIMIENTO TERAPÉUTICO

Relato de Experiência

AUTORES

Isabella Cristina da Silva Caldana. Graduada em Enfermagem1

Helena Ruas Brandes. Acadêmica de Enfermagem1

Ana Luísa Marques Rodrigues. Acadêmica de Medicina

Thais Aragão Rosa de Moura. Acadêmica de Enfermagem1

Tainá Nikoli Goes. Graduada em Enfermagem1

Fabiana Tomé Ramos. Mestre em Enfermagem1

Juliane Andrade. Doutora em Saúde Coletiva1

Guilherme Côrrea Barbosa. Livre-docente em Saúde Mental1

1Universidade Estadual Paulista (UNESP), Faculdade de Medicina. Botucatu, São Paulo, Brasil.

AUTOR CORRESPONDENTE

Isabella Cristina da Silva Caldana

E-mail: isabella.caldana@unesp.br  Telefone: (14) 998314088

RESUMO

Objetivo: relatar a experiência de estudantes e docentes sobre o processo de preparo, planejamento e execução de uma atividade de acolhimento do projeto de extensão com pessoas idosas à luz do acompanhamento terapêutico. Método: relato de experiência sobre uma atividade de acolhimento de demandas de um grupo de pessoas idosas, embasadas no acompanhamento terapêutico, entre julho e outubro de 2023. Resultado: os participantes destacaram a necessidade de um espaço para socialização, ressaltando a fragilidade das relações no envelhecimento e seus impactos na saúde mental. Foram abordados temas como depressão e solidão. As avaliações indicaram a demanda por encontros mais frequentes e atividades musicais. Conclusão: evidencia-se a importância do acompanhamento terapêutico e da promoção da convivência para a saúde mental dos idosos. As universidades desempenham papel crucial na formação de profissionais capacitados para atender a essa população e na produção de conhecimento sobre o envelhecimento.

DESCRITORES: Saúde do Idoso; Atenção Primária à Saúde; Saúde Mental; Continuidade da Assistência ao Paciente.

ABSTRACT

Objective: to report the experience of students and faculty regarding the preparation, planning, and execution of an extension project activity with elderly people in the context of therapeutic accompaniment. Method: experience report on an activity addressing the needs of a group of elderly people, based on therapeutic accompaniment, conducted between July and October 2023. Results: participants emphasized the need for a space for socialization, highlighting the fragility of relationships in old age and their impact on mental health. Topics such as depression and loneliness were addressed. Evaluations indicated a demand for more frequent meetings and musical activities. Conclusion: the importance of therapeutic accompaniment and the promotion of social interaction for the mental health of elderly people is evident. Universities play a crucial role in training professionals to care for this population and in producing knowledge about aging.

DESCRIPTORS: Health of the Elderly; Primary Health Care; Mental Health; Continuity of Patient Care.

RESUMEN

Objetivo: informar sobre la experiencia de estudiantes y docentes en el proceso de preparación, planificación y ejecución de una actividad del proyecto de extensión conpersonas mayores a la luz del acompañamiento terapéutico. Método: relato de experiencia sobre una actividad de acogida de demandas de un grupo de personas mayores, fundamentada en el acompañamiento terapéutico, realizada entre julio y octubre de 2023. Resultados: los participantes destacaron la necesidad de un espacio para la socialización, subrayando la fragilidad de las relaciones en el envejecimiento y su impacto en la salud mental. Se abordaron temas como la depresión y la soledad. Las evaluaciones indicaron la demanda de encuentros más frecuentes y actividades musicales. Conclusión: se evidencia la importancia del acompañamiento terapéutico y la promoción de la convivencia para la salud mental de los mayores. Las universidades desempeñan un papel crucial en la formación de profesionales capacitados para atender a esta población y en la producción de conocimiento sobre el envejecimiento.

DESCRIPTORES: Salud del Anciano; Atención Primaria de Salud; Salud Mental; Continuidad de la Atención al Paciente.

INTRODUÇÃO

Historicamente, o Brasil enfrentou um período marcado pela desumanização no cuidado à saúde mental. No século passado, o termo "louco" era frequentemente utilizado de forma indiscriminada para rotular qualquer pessoa em sofrimento psíquico ou que não se adequasse aos padrões sociais conservadores e excludentes(1). Os hospitais psiquiátricos funcionavam como verdadeiros depósitos humanos, caracterizados por condições insalubres e tratamentos cruéis, como o isolamento e as punições físicas, negando direitos e dignidade aos pacientes e, consequentemente, marginalizando-os(1).

Felizmente, esse cenário tornou-se alvo de críticas e mobilizações que culminaram na Reforma Psiquiátrica, um movimento voltado à humanização do cuidado e à garantia dos direitos das pessoas com transtornos de saúde mental(1, 2). Esse avanço foi respaldado pela Constituição Federal de 1988 e pela criação do Sistema Único de Saúde, que, alicerçados nos princípios de universalidade, integralidade e direito à saúde, estabeleceram as bases para a transformação desse modelo de atenção(2). Nesse contexto, o Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental, iniciado em 1979, denunciou os abusos praticados em hospitais psiquiátricos e evidenciou a necessidade de reformular as práticas de cuidado(1, 2).

A Lei da Reforma Psiquiátrica consolidou esse processo ao assegurar os direitos das pessoas em sofrimento psíquico, promovendo a extinção gradual das instituições de internação e a implementação de novos serviços voltados à reabilitação psicossocial e ao cuidado no território. A legislação reconheceu que o sofrimento psíquico demanda uma abordagem que vai além das práticas psiquiátricas tradicionais, substituindo-as por uma rede territorial de atendimento que valorize a singularidade dos indivíduos e promova sua inclusão no convívio social(3).

O processo de envelhecimento, caracterizado por declínios cognitivos e físicos, impacta de forma significativa a saúde mental dos idosos. No entanto, o sofrimento psíquico nessa faixa etária é frequentemente agravado por estereótipos etaristas, que associam a velhice à incapacidade, fragilidade e obsolescência(4). Nesse sentido, torna-se fundamental promover atividades no território que estimulem a autonomia e o desenvolvimento de habilidades sociais, contribuindo não apenas para o bem-estar mental dos idosos, mas também para reafirmar seu valor e sua capacidade dentro da sociedade(5).

Nessa perspectiva, o Acompanhamento Terapêutico (AT) surge como uma importante ferramenta nos novos serviços e dispositivos de atenção à saúde mental. Com uma abordagem horizontal, o AT estabelece uma relação colaborativa entre o profissional de saúde e a pessoa acompanhada(6). Suas ações se concentram em atividades integradas ao cotidiano da pessoa e realizadas em seu território, com o objetivo de empoderá-la, fortalecer seus vínculos sociais e desenvolver habilidades para lidar com as demandas do dia a dia(6).

Os projetos de extensão universitária desempenham um papel fundamental na promoção de atividades em território voltadas à promoção da saúde(7). Ao aproximarem a universidade da comunidade, esses projetos possibilitam a aplicação prática de conhecimentos técnico-científicos, a formação de profissionais mais qualificados e o fortalecimento da cidadania(7).

Com isso, destaca-se a importância do protagonismo estudantil nos processos de curricularização da extensão universitária, enfatizando a capacidade dos estudantes de serem autores do próprio processo formativo(8). No entanto, para que isso ocorra, há necessidade de preparo desses alunos, que deve incluir práticas pedagógicas que estimulem a autonomia, o pensamento reflexivo e a integração entre teoria e prática, favorecendo um aprendizado significativo e transformador(8).

Há escassez na literatura referente ao AT na pessoa idosa(9). Diante disso, o presente estudo objetivou relatar a experiência de estudantes e docentes sobre o processo de preparo, planejamento e execução de uma atividade do projeto de extensão com pessoas idosas à luz do AT.

MÉTODOS

Trata-se de um relato de experiência sobre o processo de preparo, planejamento e execução de uma atividade de acolhimento de demandas de um grupo de pessoas idosas por estudantes e docentes da área da saúde, apoiada no referencial de AT(6,9).

 As atividades vinculadas ao projeto de extensão universitária foram realizadas em um Centro de Saúde Escola (CSE) situado em uma cidade do Estado de São Paulo, Brasil. A experiência do processo de preparo, planejamento e execução da atividade ocorreu entre os meses de julho e outubro de 2023.

O Projeto TECER é resultado da integração de dois projetos de extensão universitária com o objetivo de atender às demandas de saúde mental da população idosa da área de abrangência de dois CSE (territórios próximos). O projeto foca na implementação de ações relacionadas ao AT e à Produção de Vida (PV), buscando promover a autonomia dos participantes, ampliar as redes de apoio e incentivar sua participação ativa na vida comunitária.

O nome "Grupo TECER" é um acrônimo que representa os pilares do projeto, principalmente no que tange a abordagem do AT: Terapêutico, Emancipação, Cuidado, Escuta, Reconstruir e Reabilitar, e também faz alusão ao ato de entrelaçar, simbolizando a união de diferentes áreas do conhecimento e a construção de um cuidado integral. Foi pensado coletivamente e aprovado pela população idosa assistida, sendo adotado como identidade dos projetos mencionados.

Participaram dessa experiência estudantes extensionistas dos cursos de graduação em Enfermagem e Medicina, profissionais residentes em saúde mental, alunos de pós-graduação, docentes da área de Enfermagem e as pessoas idosas do CSE.

Quanto aos aspectos éticos, por se tratar de um relato de experiência, não foi necessária a submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa.

RESULTADOS

O encontro ocorreu em outubro de 2023, no CSE, e contou com a participação de 15 pessoas idosas, sendo um número muito positivo. O convite foi feito por dois meios: entrega de um convite impresso, elaborado pelos estudantes, e ligação telefônica, realizada pelos residentes.

No total, 15 pessoas idosas, sete graduandos, uma residente e dois docentes de uma universidade pública participaram da atividade de acolhimento de demandas de um grupo de pessoas idosas.

Os participantes tinham mais de 60 anos, 10 (66,7%) eram do sexo feminino e cinco (33,3%) eram do sexo masculino. Em relação aos graduandos, seis (85,7%) eram da enfermagem, uma (14,3%) da medicina. Todos (100,0%) cursavam o segundo semestre dos cursos. Quanto à residente, tratava-se de uma enfermeira integrante de uma Residência Multiprofissional em Saúde Mental. Ela integrava o projeto de extensão há pelo menos seis meses e já havia participado de atividades teóricas direcionadas à compreensão do AT. Quanto aos docentes, ambos têm experiência na área de saúde e educação, com domínio no emprego de metodologias ativas de ensino. Sua atuação foi essencial para estimular o protagonismo dos alunos no processo de aprendizagem e no desenvolvimento de práticas que valorizassem a independência, autonomia e a participação ativa dos idosos.

A etapa inicial da atividade de extensão universitária envolveu o preparo dos extensionistas e posterior planejamento da atividade de acolhimento de demanda.

Preparo dos alunos

Os alunos aprofundaram seus conhecimentos teóricos sobre AT por meio de pesquisas na literatura e exposições dialogadas com professores, residentes e especialistas em saúde mental. Sobretudo, temas que permeiam o AT, como acolhimento, Reforma Psiquiátrica e a evolução das políticas públicas de saúde mental no Brasil.

Além disso, foram capacitados para a formação de grupos terapêuticos, enfatizando tanto a relevância dessas interações quanto os desafios envolvidos.

Planejamento da atividade

Para estruturar o primeiro contato com os usuários, foi elaborado um roteiro detalhado para guiar a execução da atividade, de acordo com a Figura 1.

Figura 1 – Roteiro para execução da atividade do primeiro encontro do Grupo TECER.

Ressalta-se que a divisão das funções foi organizada de forma que dois estudantes assumissem cada etapa, sendo um responsável principal e o outro como apoio. Além disso, dois graduandos foram designados para observar e registrar as manifestações das pessoas idosas durante a atividade de acolhimento de demandas.

Execução

O convite às pessoas idosas foi realizado através da entrega de um material impresso, elaborado pelos estudantes do projeto utilizando a ferramenta Canva® (Figura 2), e por ligação telefônica realizada pelos residentes.

Figura 2 - Convite para o primeiro encontro do Grupo TECER.

No dia do encontro para a atividade de acolhimento, os convidados optaram por iniciar com o café, que no planejamento inicial estava previsto apenas para o final. Esse momento, no entanto, não foi apenas uma pausa, mas parte essencial da proposta embasada no AT. O café, além de nutrir, proporcionou um espaço de convivência e afeto, favorecendo vínculos entre os participantes e criando um ambiente acolhedor para a atividade. Mesmo com um roteiro pré-definido, os estudantes souberam adaptar-se ao contexto, respeitando as dinâmicas e necessidades do grupo, o que reforçou a importância da escuta sensível e da flexibilidade no processo.

Após a confraternização inicial, o projeto e seus objetivos foram apresentados. Para isso, foi aberto um espaço de diálogo entre os presentes sobre a função daquele espaço, dedicado à educação e à promoção da saúde por meio da troca de conhecimentos e experiências de forma segura e protegida, com ênfase no respeito e na compreensão. Durante toda a conversa, utilizou-se uma linguagem simplificada, evitando-se termos técnicos, para facilitar a compreensão dos usuários.

Em seguida, foi realizada a “dinâmica do barbante”, sendo essa atividade escolhida devido à sua capacidade de promover a construção de vínculo, um dos pilares do AT. Nessa dinâmica, ao se apresentar, cada usuário amarrava o barbante na ponta de seu dedo e passava o novelo para outro participante, de forma aleatória. Durante a dinâmica, observou-se o início da construção de vínculo, já que a atividade proporcionou um momento de descontração e proximidade entre os participantes. Essa interação está diretamente alinhada aos objetivos do AT, que busca fortalecer as relações interpessoais e fomentar a criação de uma rede de apoio afetiva.

Dentro dessa dinâmica, foram planejadas algumas perguntas direcionadas a cada participante: 1) "Qual é o seu nome?"; 2) "O que o trouxe até aqui?" ou "Por que você veio?"; 3) "Quais são suas expectativas?"; e 4) "O que você espera encontrar aqui?". Por meio dessas questões, buscou-se promover uma abordagem ativa, captar as percepções dos usuários sobre o encontro e entender as motivações por trás dessa iniciativa de cuidado em saúde mental no contexto grupal. Ao final da dinâmica, foi realizado um momento de organização e síntese das ideias compartilhadas durante a atividade.

Durante o encontro, muitos usuários expressaram a necessidade de um espaço dedicado à socialização com pessoas diferentes, que possibilitasse a criação de novos laços interpessoais e emocionais com “o outro”. Os participantes discutiram essas questões, destacando que, ao envelhecer, as relações existentes muitas vezes se fragilizam, levando à quebra de vínculos, o que representa um impacto negativo na saúde mental. Implicitamente, nas falas dos presentes, foi possível perceber a presença de outros pontos-chave: a solidão e a exclusão social.

No momento da finalização da dinâmica, os estudantes reconheceram a formação de uma "teia" de barbante e a expuseram aos presentes, fazendo referência ao nome do projeto TECER e à iniciativa de "tecer" a recuperação efetiva, as potencialidades e as habilidades desses membros da comunidade. Ao final, buscou-se a conquista e a reconquista dessas habilidades, além da recuperação da autonomia e da emancipação.

Para encerrar, foi proposta uma avaliação aos usuários por meio de um questionário com as modalidades "Que bom que...", "Que tal se..." e "Que pena que...". Para aqueles com dificuldades de escrita e leitura, foi oferecido auxílio para o preenchimento da avaliação, de modo que cada um desses usuários fosse acompanhado por um estudante.

No levantamento de demandas com as pessoas idosas, identificou-se que a principal necessidade destacada era a de um espaço de convivência aberto, onde fosse possível realizar trocas e criar vínculos entre as pessoas, reduzindo a solidão.

As avaliações mostraram que, embora os participantes tenham gostado do conteúdo dos encontros, muitos sentiram que a frequência mensal poderia ser maior. Vários manifestaram o desejo de continuar no projeto, embora alguns tenham mencionado dificuldades por conta de outros compromissos. Também sugeriram incluir mais momentos com música nos próximos encontros.

A partir do preparo e planejamento da atividade, com o apoio do AT, foi possível acolher e criar vínculos com as pessoas idosas, compreendendo melhor seus anseios e seu cotidiano por meio da sutileza das perguntas realizadas em duplas ou grupos de até quatro pessoas. Essa atividade se mostrou essencial como um ponto de partida para ações concretas do AT, sendo fundamental para sua sustentabilidade, especialmente em ações coletivas.

DISCUSSÃO

Este relato de experiência teve como objetivo descrever o processo de preparo, planejamento e execução de uma atividade de acolhimento de demandas de um grupo de pessoas idosas, por estudantes e docentes da área da saúde, à luz do AT. A atividade permitiu à equipe do projeto identificar as necessidades do grupo de usuários por meio de suas demandas e falas. Assim, identificou-se que a principal necessidade destacada era a de um espaço de convivência aberto, onde fosse possível realizar trocas e criar vínculos entre as pessoas, reduzindo a solidão e a exclusão social, condições frequentemente associadas ao envelhecimento(4).

O envelhecimento é influenciado por fatores biopsicossociais que determinam a maneira como cada indivíduo o vivencia. Embora seja um processo natural, ele está frequentemente associado ao etarismo, um preconceito que permeia diversas esferas, como o mercado de trabalho, o ambiente acadêmico e os meios de comunicação(4). Ao desvalorizar a capacidade de participação ativa e produtiva do idoso, o etarismo gera impactos significativos em sua saúde mental, promovendo o isolamento e a perda de identidade social(4).

Um estudo realizado na Austrália, com participantes de 60 anos ou mais, revelou uma correlação direta entre a discriminação por idade e o desenvolvimento de problemas de saúde mental, como depressão e ansiedade(10). Corroborando esses achados, uma revisão sistemática recente, que analisou 422 estudos, encontrou uma associação em 95,5% das pesquisas entre etarismo e comprometimento da saúde mental dos idosos.(11). Esses dados reforçam a urgência de intervenções para combater esse preconceito profundamente enraizado em nossa sociedade, utilizando recursos terapêuticos disponíveis.

Intervenções que combinam educação e relacionamentos intergeracionais, conforme sugerido por outra revisão sistemática, apresentam grande potencial para reduzir substancialmente o etarismo e devem ser incorporadas a estratégias internacionais para promover uma sociedade mais justa e inclusiva para todas as idades(5).

Nesse contexto, o AT surge como uma prática essencial para desmantelar o tratamento político-ideológico retrógrado que ainda isola pacientes em sofrimento mental, incluindo idosos. O AT busca integrar essas pessoas ao cotidiano que lhes pertence, promovendo sua reabilitação psicossocial por meio do reconhecimento e da valorização de suas singularidades e potencialidades, alinhando-se aos esforços de combater o etarismo e os outros preconceitos que marginalizam as populações mais vulneráveis (5).

Associados ao AT, os grupos de convivência também desempenham um papel significativo na melhoria da saúde mental, especialmente entre idosos. Esses grupos oferecem um espaço coletivo para a troca de experiências, o fortalecimento de vínculos sociais e o apoio mútuo, ajudando a reduzir o isolamento e a solidão(12).         Ao facilitar a socialização em um espaço acolhedor, a grupalidade contribui para o fortalecimento da autoestima, a promoção da autonomia e o bem-estar emocional, complementando a reabilitação psicossocial proporcionada pelo AT (12). Nas avaliações realizadas pelos usuários durante o encontro inaugural, foi extremamente bem recebida a ideia de organizar reuniões para a construção de vínculos e promoção da saúde em um ambiente seguro e confiável.

Além disso, foi sugerido que as atividades propostas fossem acompanhadas de música. Nesse sentido, a música é considerada uma ferramenta extremamente importante para a reabilitação psicossocial, assim como para o estímulo cognitivo e límbico, apresentando um potencial restaurador, especialmente para populações idosas, como indicado em estudo sobre o poder terapêutico da música em idosos institucionalizados(13).

Ademais, as extensões universitárias desempenham um papel crucial na promoção da saúde mental e na inclusão de idosos, criando oportunidades para interação social e fortalecimento de vínculos. Um estudo realizado no Ceára, relata as atividades de um grupo de extensão desenvolvido por graduandos de Enfermagem, o qual permitiu que idosos compartilhassem suas histórias de vida e ressignificassem o processo de envelhecimento(14). Iniciativas como essa não apenas promovem autoestima e autonomia, mas também desafiam o etarismo ao valorizarem a trajetória dos idosos em um ambiente receptivo.

Portanto, este estudo enfatiza a urgência de implementar e expandir iniciativas semelhantes, uma vez que o fortalecimento de redes de apoio e a promoção da saúde mental no território são essenciais para enfrentar as dificuldades que muitos idosos vivenciam em seu cotidiano. Assim, investimentos em projetos de extensão, que refletem o compromisso social das universidades, têm o potencial para melhorar a qualidade de vida dos idosos e enriquecer a comunidade como um todo. Essas iniciativas promovem um ambiente mais inclusivo e acolhedor, em que o saber acadêmico se articula com as necessidades locais, criando vínculos e favorecendo o desenvolvimento individual, social e humano.

Como limitações, destaca-se que o Projeto TECER realizou a atividade em um único serviço de saúde e município, refletindo práticas e condições locais. No entanto, trata-se de uma atividade que pode ser reproduzida em qualquer realidade.

CONCLUSÃO

Identificou-se que a principal necessidade destacada era a de um espaço de convivência aberto, onde fosse possível realizar trocas e criar vínculos entre as pessoas, reduzindo a solidão e a exclusão social, condições frequentemente associadas ao envelhecimento.

As atividades de extensão universitária possibilitam o intercâmbio de conhecimentos e experiências entre a comunidade e a esfera acadêmica. A realização da atividade de acolhimento de demandas à luz do AT e em grupos de convivência é essencial para a reabilitação psicossocial. Nesse sentido, as universidades assumem protagonismo na formação de profissionais capazes de atender às demandas complexas dessa população e de fomentar a produção de conhecimento sobre o envelhecimento.

AGRADECIMENTOS

O presente trabalho foi realizado com apoio da Pró-Reitoria de Extensão Universitária e Cultura (PROEC) da UNESP, por meio do edital “Vamos Transformar o Mundo”.

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1 Graduada em Enfermagem. Residente em Saúde da Família. Instituição: Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, São Paulo/Brasil. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-6459-955

2 Graduanda de Enfermagem. Instituição: Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, São Paulo/Brasil. ORCID:https://orcid.org/0009-0004-2362-3398

3 Graduanda de Medicina. Instituição: Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, São Paulo/Brasil. ORCID:https://orcid.org/0009-0001-8775-2859

4 Graduanda de Enfermagem. Instituição: Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, São Paulo/Brasil. ORCID:https://orcid.org/0009-0002-5064-7382

5 Graduada em Enfermagem. Especialista em Saúde Metal. Instituição: Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, São Paulo/Brasil. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-6378-8443

6 Mestre em Enfermagem. Especialista em Saúde do Adulto e Idoso. Doutoranda em Enfermagem. Instituição: Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, São Paulo/Brasil. ORCID:https://orcid.org/0000-0002-2770-2630

7 Doutora em Saúde Coletiva. Especialista em Formação Pedagógica para Docência. Especialista em Saúde da Família. Professora Assistente e Coordenadora do Curso de Graduação em Enfermagem da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”. Instituição: Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, São Paulo/Brasil. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-4321-0118

8 Livre-docente em Saúde Mental. Professor Associado da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” no curso de Enfermagem. Instituição: Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, São Paulo/Brasil. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-7433-8237