FATORES ASSOCIADOS AO LETRAMENTO DIGITAL NA SAÚDE DE PESSOAS IDOSAS: UMA REVISÃO INTEGRATIVA

FACTORS ASSOCIATED WITH DIGITAL LITERACY IN THE HEALTH OF ELDERLY PEOPLE: AN INTEGRATIVE REVIEW

FACTORES ASOCIADOS A LA ALFABETIZACIÓN DIGITAL EN LA SALUD DE LAS PERSONAS MAYORES: UNA REVISIÓN INTEGRADORA

Joana Alves da Mata Ribeiro

Enfermeira, Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Gerontologia, Universidade Federal de Pernambuco, Recife, Pernambuco.

ORCID: 0000-0001-6169-8965

Priscylla de Freitas Cavalcante

Assistente social, Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Gerontologia, Universidade Federal de Pernambuco, Recife, Pernambuco.

ORCID: 0000-0002-7503-653X

Raissa Luisa da Silva Batista

Fisioterapeuta, Mestre em gerontologia pela Universidade Federal de Pernambuco, Recife, Pernambuco.

ORCID: 0009-0001-3858-4617

Anna Karla de Oliveira Tito Borba

Docente no Programa de Pós-Graduação em Gerontologia, Universidade Federal de Pernambuco, Recife, Pernambuco.

ORCID: 0000-0002-9385-6806

Eliane Maria Ribeiro Vasconcelos

Docente no Programa de Pós-Graduação em Gerontologia, Universidade Federal de Pernambuco, Recife, Pernambuco.

ORCID: 0000-0003-3711-4194

Autor responsável pela troca de correspondência: Joana Alves da Mata Ribeiro, e-mail: joana.mata@ufpe.br, telefone: (81) 997387057.

RESUMO

Objetivo: Verificar na literatura científica os fatores associados ao letramento digital em saúde em pessoas idosas. Método: Revisão integrativa realizada entre novembro e dezembro de 2024, nas bases Scopus, Pubmed, Embase, Web of Science e Lilacs. Resultado: A amostra contém 7 artigos publicados entre 2018 e 2022. Os fatores associados ao letramento digital em saúde de idosos foram: sexo, renda familiar, escolaridade, estado civil, ocupação, déficit cognitivo, doenças crônicas, consumo de álcool e apoio social. Nível educacional e rede de apoio favorecem o letramento digital, enquanto déficit cognitivo, doenças crônicas e desigualdades socioeconômicas limitam a inclusão digital. Mulheres idosas, pessoas de baixa renda e com menor escolaridade enfrentam maiores dificuldades no uso de tecnologias. Conclusão: É fundamental promover estratégias de inclusão digital para idosos, independentemente de suas condições sociais, contribuindo para alcançar o terceiro Objetivo de Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas, que visa saúde e bem-estar para todos.

DESCRITORES: Inclusão digital; Letramento em saúde; Pessoas idosas; Gerontologia; Enfermagem.

INTRODUÇÃO

A rotina e a socialização das pessoas mudaram significativamente com a popularização do uso de televisões, computadores, celulares e tablets, todos conectados à internet. As Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) possibilitam acesso a grande quantidade de informações e serviços. As mídias digitais permitem o acesso a notícias do mundo inteiro em tempo real, o desenvolvimento de atividades laborais e financeiras, entretenimento e acesso à educação e formação profissional. As TICs se transformaram em ferramentas de inclusão social e qualidade de vida(1,2).

Porém, o acesso e manuseio das TICs são interferidos por vários fatores, e os indivíduos que não estão incluídos digitalmente, enfrentam dificuldades de participação social relacionada a perda da autonomia, visto que vão precisar da intervenção de outras pessoas para ter acesso às informações e serviços proporcionados em meio digital(1,3).

Além do acesso, também é importante considerar a capacidade de letramento digital em saúde, que possibilita os indivíduos procurar, produzir, ler, reconhecer a qualidade, coletar, compartilhar e utilizar em sua rotina, as informações e serviços de saúde proporcionados pelas tecnologias digitais(4,5).

        As pessoas idosas são o grupo etário que menos conviveu com as TICs ao longo da vida. A formação educacional, os vínculos empregatícios, entretenimento e acesso à informação e comunicação, para essas pessoas, foram formados fora do meio digital, então, comparando com outras faixas etárias, as pessoas idosas são as que menos usam as TICs em seu dia a dia e tem maiores chances de não desenvolverem fluência com os instrumentos e linguagens digitais(1,3).

É através das TICs que se dá a produção, revisão, compartilhamento e recebimento de informações sobre saúde e bem-estar, e, considerando as mudanças de perfil epidemiológico característicos do envelhecimento populacional, com maior prevalência de doenças crônicas não transmissíveis, essas informações são essenciais para garantir a autonomia e qualidade de vida das pessoas idosas(3).

A inclusão digital dos idosos não apenas facilita a obtenção de informações e serviços de saúde, mas também contribui para a redução das desigualdades no cuidado, promovendo um envelhecimento saudável e ativo(1,6).

        Esta pesquisa está alinhada ao terceiro Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS 3) da ONU, que busca promover saúde e bem-estar para todas as idades (7). Destacamos a importância de incluir a população idosa no acesso às Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) como uma estratégia essencial para melhorar a qualidade de vida, a autonomia e o acesso a cuidados em saúde.

        Sem acesso às TICs e a internet, as pessoas idosas se veem afastadas da participação e controle social e têm seu exercício de cidadania comprometido(1). É necessário entender quais os fatores que interferem no letramento digital em saúde das pessoas idosas, para pensar em estratégias de inclusão digital que sejam adaptadas às pessoas idosas(6). Desta forma, o objetivo deste estudo é verificar na literatura científica os fatores associados ao letramento digital em saúde em pessoas idosas.

MÉTODO

        Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, que proporciona síntese de conhecimento científico e a aplicabilidade dos resultados encontrados, o que contribui para a prática da enfermagem baseada em evidências. A revisão integrativa foi realizada por meio de seis etapas: 1 – Elaboração de pergunta condutora; 2 – Busca na literatura; 3 – Coleta de dados; 4 – Análise crítica dos estudos incluídos; 5 – Discussão dos resultados; 6 – Apresentação dos resultados(9).

A pergunta condutora foi construída com base na estratégia PICo(9) (P – População: pessoas idosas; I - Fenômeno de interesse: fatores associados; Co – Contexto: Letramento digital em saúde): Quais os fatores associados ao letramento digital em saúde de pessoas idosas descritos na literatura científica?

Foram realizadas buscas nas bases de dados Scopus, National Library of Medicine and National Institutes of Health (Pubmed), Embase, Web of Science e Literatura Latino-Americana em Ciências de Saúde (Lilacs), sendo acessadas por meio da plataforma CAFE, no portal Periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), no mês de novembro de 2024.

Os descritores utilizados na busca estão presentes na plataforma de Descritores em Ciência da Saúde (DeCS) e no Medical Subject Headings (MeSH), sendo: “aged”, “aged, 80 and over”, “digital inclusion”, “health literacy” e “risk factors”, com o operador booleano AND e OR relacionando os descritores entre si, o que culminou na estratégia de busca: ((aged) OR (aged, 80 and over) AND (digital inclusion) AND (health literacy) AND (risk factors)).

        Os critérios de elegibilidade foram: estudos que abordam o uso de TICs no contexto de saúde por pessoas com 50 anos ou mais, artigos originais, com resumo e texto completos disponíveis gratuitamente, que apresentem bom rigor metodológico e reduzido viés de pesquisa e que respondam à pergunta condutora deste estudo. Não foram estabelecidos recortes temporal e de idioma.

        Os critérios de exclusão foram artigos que não responderam à questão de pesquisa, artigos de revisão, reflexão, relatos de experiência, livros, capítulos de livros, cartas editoriais, monografias, dissertações e teses. Os artigos repetidos foram incluídos apenas uma vez.

Os estudos foram exportados das bases de dados para o software gerenciador de referências EndNote(10), onde foram identificados e removidos os duplicados. Em seguida, os dados foram exportados para o aplicativo gerenciador de referências Rayyan (11). A segunda etapa da coleta de dados foi realizada por dois avaliadores independentes que leram os títulos e resumos para a seleção da amostra conforme os critérios de elegibilidade. Por haver discordância na seleção dos estudos, um terceiro pesquisador foi incluído para seleção da amostra. Posteriormente, os estudos selecionados foram lidos na íntegra, para conclusão da amostra final. Os resultados das buscas nas bases de dados, estão apresentados por meio de fluxograma Preferred Reporting Itens for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA) (Figura 1).

        A coleta de dados foi finalizada em dezembro de 2024, para tal foi utilizado um instrumento validado para estudos de revisão integrativa(12), que foi adaptado para contemplar aspectos relevantes a esta pesquisa, contendo: ano, país de publicação e autores; título do artigo; objetivo; desenho de pesquisa, nível de evidência e rigor metodológico; fatores associados ao letramento digital em saúde; e conclusões principais do estudo.

        A avaliação do nível de evidência foi verificada utilizando as recomendações de Melnyk e Fineout-Overholt(13) que categoriza os estudos de acordo com o desenho da metodologia, classificando-os em sete níveis: I - Evidências são provenientes de revisão sistemática ou oriundas de diretrizes clínicas em revisões sistemáticas de ensaios clínicos randomizados; II - Evidências derivadas de, pelo menos, um ensaio clínico randomizado controlado bem delineado; III - Evidências obtidas de ensaios clínicos bem delineados sem randomização; IV - Evidências provenientes de estudos de coorte e de caso-controle bem delineados; V - Evidências originárias de revisão sistemática de estudos descritivos e qualitativos; VI - Evidências derivadas de um único estudo descritivo ou qualitativo; VII - Evidências derivadas da opinião de autoridades e/ou relatório de comissão de especialistas(13).

        Também foi realizada avaliação do rigor metodológico com uso do formulário Critical Appraisal Skills Programme(14). Este formulário é constituído de dez questões, que ajudam a avaliar a qualidade metodológica dos estudos. Estudos com boa qualidade metodológica e reduzido viés de pesquisa possuem de 06 a 10 pontos e foram incluídos na amostra final. Estudos com menos de 06 pontos, foram considerados com potencial de viés aumentado e excluídos da amostra final.

        Os resultados estão expostos através de tabela, que apresentam os artigos por ordem cronológica de publicação (Quadro 1).

RESULTADOS

A busca nas bases de dados identificou 58 estudos, dos quais 04 foram removidos por duplicidade. Em seguida, foram lidos títulos e resumo 54 estudos, resultando na exclusão de 41 estudos por não atenderem aos critérios de elegibilidade. Restaram 13 estudos para leitura na íntegra, dos quais 06 foram excluídos por não responderem à pergunta de pesquisa. A amostra final foi composta por 07 artigos (Figura 1).

Figura 1 -  Fluxograma dos estudos selecionados segundo o Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA). Recife, PE, Brasil, 2024.

A amostra final incluiu 07 artigos, sendo 01 (14,2%) no idioma português do Brasil(15) e 06 (85,8%) publicados na língua inglesa(16-21). As publicações foram provenientes de diversos países: Suíça (n = 02; 28,5%)(20, 21), Brasil (n = 01; 14,2%)(19), Irlanda (n = 01; 14,2%)(16), Reino Unido (n = 01; 14,2%)(17), Portugal (n = 01; 14,2%)(18) e Polônia (n = 01; 14,2%)(19). Os estudos foram publicados no período de 2018 a 2022, com maior concentração em 2021 (n = 03; 30%), com três publicações(18-20). Quanto ao desenho metodológico, destacaram-se estudos descritivos com abordagem quantitativa (n = 03; 42,8%)(19-21). Em relação ao nível de evidência, predominaram estudos de nível VI - evidências derivadas de um único estudo descritivo ou qualitativo (n = 05; 71,4%) (16, 17, 19-21). Todos os estudos selecionados possuem rigor metodológico acima de 6 pontos na ferramenta CASP, indicando menor viés e qualidade metodológica adequada (Quadro 1).

Quadro 1 – Síntese dos artigos incluídos na revisão integrativa. Recife, PE, Brasil, 2024.

Ano/ país de publicação/ autores

Título do artigo

Objetivo

Desenho de pesquisa/ Nível de evidência/ Rigor metodológico

Fatores associados ao letramento digital em saúde

Conclusões principais do estudo

2018/

Brasil/

Rodrigo de Rosso Krug; André Junqueira Xavier; Eleonora    d’Orsi.

Fatores associados à manutenção do uso da internet, estudo longitudinal EpiFloripa Idoso(15)

 

Descrever o uso de internet e identificar os fatores sociodemográficos e de saúde associados a mudanças no uso de internet ao longo de quatro anos em idosos participantes do

estudo EpiFloripa Idoso.

Estudo Longitudinal de coorte com 1.705 pessoas com 60 anos ou mais de idade/

Nível IV/

Rigor metodológico 10.

Sexo masculino, renda familiar superior a 10 salários mínimos, nove ou mais anos de estudo, solteiro e não apresentar déficit cognitivo.

Apesar do aumento do uso, a maior parte da população de pessoas idosas ainda é digitalmente excluída, especialmente as mulheres de menor renda e escolaridade.

2018/

Irlanda/

Grace Fox; Regina Connolly.

Mobile health technology adoption across

generations: Narrowing the digital divide(16)

Utiliza a teoria da motivação de proteção e teoria cognitiva para explorar os fatores que impulsionam a resistência do uso de tecnologias digitais entre

adultos mais velhos.

Estudo transversal com 447 pessoas com 50 anos ou mais de idade/

Nível VI/

Rigor metodológico 09.

Sexo masculino,

nove ou mais anos de estudo,

aposentados, não ter doenças crônicas, ter experiência prévia no uso de tecnologias digitais.

Apesar do aumento ao acesso,  população de pessoas idosas atualmente está excluída digitalmente, e requerem cuidados por parte das organizações tecnológicas e de pesquisa para garantir o acesso inclusivo em matéria de privacidade e confiança às tecnologias digitais.

2020/ Reino Unido/ Mangyeong Lee; Danbee Kang; Junghee Yoon; Sungkeun Shim; Im-

Ryung Kim; Dongryul Oh; Soo-Yong Shin; Bradford W. Hesse; Juhee Cho.

The difference in knowledge and attitudes of

using mobile health applications between

actual user and non-user among adults aged

50 and older (17)

Avaliar o conhecimento, a autoconfiança, os benefícios percebidos e as barreiras do uso de aplicativos móveis de saúde, dependendo da experiência com aplicativos móveis de saúde entre adultos com 50 anos ou mais. Identificar os fatores associados ao uso real de aplicativos móveis de saúde.

Estudo transversal com 323 Pessoas com 50 anos ou mais de idade/

Nível VI/

Rigor metodológico 10.

Sexo masculino, nove ou mais anos de estudo, não ter doenças crônicas, ter experiência prévia no uso de tecnologias digitais.

Apesar do aumento do uso de tecnologias digitais entre adultos com 50 anos ou mais, ainda há pessoas idosas incapazes de usar as tecnologias digitais adequadamente devido à falta de experiência e conhecimento.

2021/ Portugal/

Anna Quialheiro a; Thamara Hubler Figueiró;

Cassiano Ricardo Rech; Larissa Pruner Marques; Karina Mary de Paiva; André Junqueira Xavier; Eleonora d’Orsi.

Can internet use reduce the incidence of cognitive impairment? Analysis of

the EpiFloripa Aging Cohort Study (2009–2019) (18)

Estimar o efeito do uso da internet na incidência de comprometimento cognitivo em idosos.

 

Estudo longitudinal de coorte com 594 pessoas com 60 anos ou mais de idade/

Nível IV/

Rigor metodológico 09.

Não apresentar déficit cognitivo.

O uso da internet foi associado a um declínio na incidência de comprometimento cognitivo entre adultos mais velhos que vivem em áreas urbanas do sul do Brasil após um período de dez anos.

2021/ Polônia/

Mariusz Duplaga.

The association between Internet use

and health‑related outcomes in older adults

and the elderly: a cross‑sectional study(19)

Avaliar a relação entre o uso da Internet e os resultados relacionados à saúde em adultos mais velhos e idosos na Polônia.

Estudo descritivo, com abordagem quantitativa, com 1000 pessoas com 50 anos ou mais de idade/

Nível VI/

Rigor metodológico 10.

Consumo de álcool, sedentários, não ter doenças crônicas.

 

O uso da Internet não está associado a padrões favoráveis de estilo de vida ou maior autoavaliação de saúde em adultos mais velhos e pessoas idosas polonesas. Pessoas com condições crônicas ou deficiências declaram menos frequência no uso da Internet. Adultos mais velhos e pessoas idosas que fazem uso da Internet têm menos probabilidade de utilizar serviços de saúde.

2021/ Suíça/

Erik Piculell; Lisa Skär; Johan Sanmartin Berglund; Peter Anderberg; Doris Bohman.

Using a Mobile Application for Health Communication

to Facilitate a Sense of Coherence: Experiences of Older Persons

with Cognitive Impairment(20)

 

Explicar como os idosos com comprometimento cognitivo experimentaram comunicação em saúde baseada em tecnologia por meio do uso de

um aplicativo móvel para facilitar um senso de coerência.

Estudo descritivo, com abordagem quantitativa, com 16 pessoas com 55 anos ou mais de idade e com comprometimento cognitivo/

Nível VI/

Rigor metodológico 09.

Ter experiência prévia no uso de tecnologias digitais, presença de rede de apoio, não ter doença crônica e não ter déficit cognitivo.

As experiências dos participantes foram influenciadas por seu uso anterior, suporte pessoal, capacidade cognitiva e física e diferentes fontes de informação impactaram o uso.

2022/ Suíça/ Justyna Rój.

What Determines the Acceptance and Use of eHealth by Older

Adults in Poland?(21)

Explorar os determinantes da aceitação e uso do eHealth

por idosos na Polónia.

Estudo descritivo, com abordagem quantitativa, com 400 pessoas entre 60 e 69 anos de idade/

Nível VI/

Rigor metodológico 09.

Sexo feminino,

ter experiência prévia no uso de tecnologias digitais, presença de rede de apoio.

O uso de tecnologias digitais por idosos na Polônia é fortemente influenciado pela expectativa de desempenho, seguida pela expectativa de esforço e pela influência social, enquanto as condições facilitadoras não tiveram impacto significativo.

        Os fatores associados ao letramento digital em saúde de pessoas idosas, identificados nos estudos foram: ser do sexo masculino, solteiros, indivíduos com maior nível educacional, serem aposentados, ter acesso a recursos financeiros e a infraestrutura, ter rede de apoio (social e familiar), fazer consumo de álcool e outras drogas, não apresentar doenças crônicas, não apresentar comprometimento cognitivo e ter contato prévio com as tecnologias digitais ao longo da vida(15-21).

        A maioria dos estudos revisados indicou que a falta de habilidades tecnológicas e a resistência a novas tecnologias são barreiras significativas que limitam a inclusão digital para pessoas idosas(15-19). Além disso, a análise destacou a importância do apoio familiar e da interação social como elementos cruciais para motivar o engajamento das pessoas idosas no uso das TICs(20, 21).

DISCUSSÃO

O letramento digital em saúde entre pessoas idosas é influenciado por uma variedade de fatores socioeconômicos, educacionais, funcionais, rede de apoio social e familiar, bem como acesso às tecnologias da informação e comunicação. Estes fatores reforçam a importância de intervenções direcionadas que considerem as desigualdades estruturais enfrentadas por essa população(3).

A experiência prévia com tecnologias digitais ao longo da vida foi um dos fatores associados entre os estudos analisados(18, 19, 22, 23). Indivíduos com maior familiaridade com tecnologias apresentam maior confiança e habilidades para navegar no ambiente digital(19). Esse fator destaca a importância de abordagens intergeracionais e educacionais que incentivem o uso precoce de tecnologias, preparando as pessoas para a inclusão digital na velhice(5, 8). Os profissionais de enfermagem também podem influenciar no uso de tecnologias digitais, ao usar essas ferramentas na assistência de seus pacientes, incentivar a pessoa idosa a fazer o uso de tais instrumentos, buscando o apoio da família e comunidade, e criar espaços seguros de convívio e aprendizado para pessoas idosas em meio digital(2).

A presença de doenças crônicas(18-22) e déficits cognitivos (17, 20, 22), aparecem como barreiras ao letramento digital em saúde de pessoas idosas, ao limitarem as capacidades físicas e de aprendizado destes indivíduos. Contudo, paradoxalmente, o uso das tecnologias digitais pode contribuir para o manejo dessas condições de saúde, oferecendo acesso a informações de prevenção, tratamento e acesso aos serviços de saúde(2). Estratégias personalizadas de promoção do uso de tecnologias digitais e o incentivo da criação de redes de apoio, impactam no engajamento das pessoas idosas em relação ao uso das TICs, colocando-as como protagonistas no processo de aprendizado e aplicação destas tecnologias no dia-a-dia, mesmo diante das mudanças clínicas naturais do envelhecimento(4, 22).

O sexo mostrou-se um fator significativo para o letramento digital em saúde, com estudos indicando que homens tendem a apresentar maior uso e familiaridade com TICs em comparação às mulheres (17-19, 23). Em apenas um estudo, a amostra indicou maior letramento digital em saúde para mulheres idosas(23). Isso pode estar relacionado a questões históricas de acesso diferenciado à educação e ao trabalho, que influenciam o contato com tecnologias ao longo da vida(17).

A escolaridade também aparece como fator no letramento digital. Os estudos indicam que níveis mais altos de educação estão associados a maior capacidade de compreender e utilizar as TICs (17-19). Pessoas idosas com maior grau de escolaridade tendem a lidar melhor com desafios tecnológicos, enquanto aquelas com menor formação enfrentam dificuldades tanto técnicas quanto de interpretação de conteúdos digitais(2, 17). A resistência ao uso de tecnologias digitais, muitas vezes, é motivada por desconfiança ou falta de habilidades, como evidenciado por Fox e Connolly (18). Esse medo de exposição a fraudes ou uso indevido de dados é um obstáculo que limita o letramento digital em saúde de pessoas idosas

A presença de rede de apoio, seja familiar ou social, aparece nos estudos de Piculell, et al.(22) e Rój(23) como fator associado ao letramento digital em saúde. Estes estudos indicam que indivíduos que contam com suporte de amigos, familiares ou cuidadores têm maior probabilidade de aprender a utilizar TICs, devido ao incentivo e à assistência prática(8).

Em contraponto, o estudo de Krug e D’orsi(17), indica em sua amostra que indivíduos que moram sozinhos e são solteiros apresentaram melhores resultados no uso de tecnologias digitais, sugerindo que a independência e a necessidade de resolver problemas cotidianos de forma autônoma podem ser fatores que impulsionam a familiaridade com as TICs.

Fatores como renda familiar(17) e a aposentadoria(18), apesar de poucos citados entre os estudos, são importantes no contexto do letramento digital em saúde, indicando que indivíduos com maior poder e segurança aquisitiva, possuem maior acesso a dispositivos tecnológicos e infraestrutura. Esses resultados reforçam a necessidade de considerar o contexto socioeconômico e ocupacional no planejamento de estratégias de inclusão digital(5, 8).

Por fim, o artigo de Duplaga(21) observa que o consumo de álcool e outras drogas e o sedentarismo estão associados a maior uso de tecnologias digitais. Esse achado destaca a relação complexa entre os hábitos de saúde e o comportamento digital, indicando que, em alguns casos, o uso de TICs pode coexistir com estilos de vida menos saudáveis.

Mulheres idosas, pessoas de baixa renda e com menor escolaridade enfrentam maiores dificuldades no uso de tecnologias e também constituem a maior parte do público atendido pelos serviços de saúde pública no Brasil(15). Como esses indivíduos têm maior contato com profissionais de enfermagem, surge a oportunidade de utilizar as TICs para melhorar a assistência e a promoção de saúde. A integração dessas tecnologias na prática da enfermagem pode favorecer a criação de ambientes que incentivem a inclusão digital de pessoas idosas, contribuindo para uma assistência mais eficaz, que promova autonomia e amplie o acesso às informações e serviços de saúde(2).

CONCLUSÃO

Este estudo teve como objetivo investigar os fatores associados ao letramento digital em saúde de pessoas idosas, reconhecendo a importância das Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) na promoção da saúde e bem-estar dessa população. A revisão integrativa da literatura permitiu identificar e analisar as barreiras e facilitadores que influenciam a capacidade dos idosos de acessar e utilizar informações e serviços digitais relacionados à saúde.

Os resultados revelaram que o letramento digital em saúde entre os idosos é influenciado por fatores como sexo, escolaridade, renda familiar, estado civil, ocupação, déficit cognitivo, presença de doenças crônicas, rede de apoio e experiência prévia com TICs. Esses resultados demonstram a complexidade das barreiras e facilitadores do uso de tecnologias digitais em saúde nessa população, destacando a necessidade de estratégias inclusivas que levem em consideração as desigualdades estruturais e os contextos individuais.

Observamos, no tamanho reduzido da amostra e na escassez de estudos sobre o tema, que a inclusão digital de pessoas idosas ainda é uma questão emergente na literatura científica e que os fatores associados ao uso adequado das tecnologias digitais por idosos permanecem pouco explorados, exigindo mais pesquisas e produções acadêmicas sobre o assunto para fundamentar o desenvolvimento de estratégias efetivas de inclusão digital para pessoas idosas.

O letramento digital em saúde é essencial para capacitar as pessoas idosas a diferenciar informações confiáveis de conteúdo sem base científica, promovendo decisões de saúde mais seguras. Considerando as mudanças naturais do envelhecimento e a maior incidência de doenças crônicas nessa população, as ferramentas digitais oferecem acesso prático a informações e serviços de saúde. No entanto, indivíduos sem acesso às TICs e sem letramento digital em saúde enfrentam barreiras significativas para acessar e compreender essas informações.

Nesse contexto, a enfermagem desempenha um papel estratégico, podendo atuar em atividades que incentivem o uso de ferramentas digitais pelas pessoas idosas e na criação de espaços seguros e inclusivos para o desenvolvimento de habilidades digitais. Essas intervenções contribuem para alcançar o terceiro Objetivo de Desenvolvimento Sustentável da ONU, que visa promover saúde e bem-estar para todos, independentemente da faixa etária ou condição social.

Para a prática da enfermagem no Brasil, a pesquisa contribui ao evidenciar os desafios enfrentados por idosos no acesso e uso de TICs em saúde. As informações obtidas podem subsidiar o desenvolvimento de intervenções que promovam a autonomia e a qualidade de vida, além de apoiar políticas públicas voltadas para a inclusão digital. A atuação da enfermagem como agente transformador é essencial na promoção do envelhecimento saudável, criando ambientes de apoio social que incentivem o aprendizado e a adaptação às novas tecnologias.

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17.        Lee M, et al. The difference in knowledge and attitudes of using mobile health applications between actual user and non-user among adults aged 50 and older. PLoS ONE. 2020;15(10):e0241350. Disponível em: https://doi.org/10.1371/journal.pone.0241350. Acesso em: 16 dez. 2024.

18.        Quialheiro A, et al. Can internet use reduce the incidence of cognitive impairment? Analysis of the EpiFloripa Aging Cohort Study (2009–2019). Prev Med. 2021;154:01-07. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.ypmed.2021.106904. Acesso em: 16 dez. 2024.

19.        Duplaga M. The association between Internet use and health related outcomes in older adults and the elderly: a cross sectional study. BMC Med Inform Decis Mak. 2021;21:01-12. Disponível em: https://doi.org/10.1186/s12911-021-01500-2. Acesso em: 16 dez. 2024.

20.        Piculell E, Skär L, Sanmartin JB, Anderberg P, Bohman D. Using a mobile application for health communication to facilitate a sense of coherence: experiences of older persons with cognitive impairment. Int J Environ Res Public Health. 2021;18(21):01-16. Disponível em: https://doi.org/10.3390/ijerph182111332. Acesso em: 16 dez. 2024.

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Joana Alves da Mata Ribeiro[1]

Endereço: Rua Silvino Lopes, 396f, Cajá, Vitória de Santo Antão – PE, CEP: 55610-090; E-mail: joana.mata@ufpe.br; Telefone: (81) 997387057

Priscylla de Freitas Cavalcante[2]

Endereço: Rua Ideltonio Galdino dos Santos, 58, Matinha, Abreu e Lima – PE, CEP: 998383860; E-mail: priscyllacavalcantee@hotmail.com; Telefone: (81) 998283860

Raissa Luisa da Silva Batista[3]

Endereço: Rua Sansão Ribeiro, 120, Boa Viagem, Recife – PE, CEP: 51030-820; E-mail: raissa.luisa@ufpe.br; Telefone: (81) 996720281

Anna Karla de Oliveira Tito Borba[4]

Endereço: Rua general Abreu e Lima, 144, Apto 2701, Rosarinho, CEP: 52041-042; E-mail: anna.tito@ufpe.br; Telefone: (81) 987990621

Eliane Maria Ribeiro Vasconcelos[5]

Endereço: Rua Senador Pedro Corrêa, 65, Aflitos, Recife – PE, CEP: 52050 – 400; E-mail: eliane.vasconcelos@ufpe.br; Telefone: (81) 99954-8737


[1] Enfermeira, Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Gerontologia, Universidade Federal de Pernambuco, Recife, Pernambuco. ORCID: 0000-0001-6169-8965

[2]

 Assistente social, Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Gerontologia, Universidade Federal de Pernambuco, Recife, Pernambuco. ORCID: 0000-0002-7503-653X

[3] Fisioterapeuta, Mestre em gerontologia pela Universidade Federal de Pernambuco, Recife, Pernambuco. ORCID: 0009-0001-3858-4617

[4] Docente no Programa de Pós-Graduação em Gerontologia, Universidade Federal de Pernambuco, Recife, Pernambuco. ORCID: 0000-0002-9385-6806

[5] Docente no Programa de Pós-Graduação em Gerontologia, Universidade Federal de Pernambuco, Recife, Pernambuco. ORCID: 0000-0003-3711-4194