FRAGILIDADE EM PESSOAS IDOSAS NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE NO BRASIL: UMA REVISÃO INTEGRATIVA

FRAILTY IN ELDERLY PEOPLE IN PRIMARY HEALTH CARE IN BRAZIL: AN INTEGRATIVE REVIEW

FRAGILIDAD EN PERSONAS MAYORES EN ATENCIÓN PRIMARIA DE SALUD EN BRASIL: UNA REVISIÓN INTEGRATIVA

Resumo

Objetivo: Analisar a produção científica sobre fragilidade em pessoas idosas na Atenção Primária à Saúde no Brasil. Método: Estudo de revisão integrativa realizado na Biblioteca Virtual em Saúde, sendo utilizados os descritores para a busca: “idoso” AND “fragilidade” AND “atenção primária à saúde” OR “atenção básica à saúde”, no período de 2019 a 2024. Os resultados foram avaliados por meio da técnica de análise temática proposta por Minayo (2010). Resultado: A amostra foi composta por 12 artigos. As categorias que caracterizam a produção científica sobre fragilidade em pessoas idosas na APS no Brasil compreendem “Determinantes sociais”, “Autopercepção da saúde” e “Promoção da saúde, prevenção e na APS”. Conclusão: Os resultados encontrados demonstraram que a fragilidade da pessoa idosa na APS é um fenômeno complexo e multifatorial, interligado a processos heterogêneos de envelhecimento.

DESCRITORES: Fragilidade; Idoso; Atenção Primária à Saúde; Determinantes sociais; Políticas Públicas.

INTRODUÇÃO

        O envelhecimento populacional acelerado tem um grande impacto no perfil epidemiológico e nas demandas dos serviços de saúde, representando um desafio significativo para as políticas públicas. Em 2010, a população idosa no Brasil era de 10,8%, enquanto em 2022, essa parcela representou 15,6% da população1.

        O processo de envelhecimento acarreta mudanças inevitáveis, progressivas e heterogêneas, que nem sempre são patológicas, sendo influenciadas por determinantes e condicionantes biopsicossociais2. A multimorbidade e as incapacidades podem contribuir para a vulnerabilidade das pessoas idosas, resultando no consequente desenvolvimento de fragilidade e no declínio do estado de saúde3. 

A fragilidade é considerada uma síndrome geriátrica complexa e um sério problema de saúde pública4. Conceitualmente, a fragilidade compreende um estado clínico dinâmico e multifatorial, que resulta no desequilíbrio das reservas homeostáticas e na redução da capacidade de resposta aos mínimos agravos, desencadeando declínios cumulativos e situações indesejáveis para o organismo5-6.

No Sistema Único de Saúde (SUS) é deficitária a identificação de pessoas idosas frágeis, sendo um desafio para as equipes de Atenção Primária à Saúde (APS) que precisam olhar para a pessoa idosa de forma multidimensional. Dessa forma, minimizando a progressão da fragilidade e reduzindo eventos adversos, possibilitando a manutenção da capacidade funcional da pessoa idosa7.

A APS desempenha um papel fundamental na saúde das pessoas idosas, considerando suas necessidades específicas e a complexidade do envelhecimento. Justifica-se a relevância da temática e a necessidade de estudos que abordam a fragilidade da pessoa idosa, em especial, na APS, com vistas à garantia e manutenção da sua capacidade funcional. Assim, o objetivo deste estudo foi analisar a produção científica sobre fragilidade em pessoas idosas na Atenção Primária à Saúde no Brasil.

        MÉTODO

        O estudo caracteriza-se como uma revisão integrativa, que é a abordagem metodológica mais ampla em relação aos tipos de revisão de literatura. Dessa forma, permite a inclusão de pesquisas experimentais e não experimentais, com o objetivo de proporcionar uma compreensão completa do objeto de estudo8. Para isso, o processo de construção desse estudo seguiu as seis etapas para estudos de revisão integrativa8.

        A base de dados utilizada foi a Biblioteca Virtual em Saúde (BVS). Na pesquisa realizada na BVS, em agosto de 2024, foram utilizados os Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) como termos de busca: “idoso” AND “fragilidade” AND “atenção primária à saúde” OR “atenção básica à saúde”, de modo que essas palavras deveriam estar presentes no resumo dos manuscritos.

        Os critérios de inclusão foram: artigos sobre fragilidade em pessoas idosas na Atenção Primária no Brasil; texto completo disponível; publicados em português, inglês ou espanhol; e com período de publicação entre 2019 e 2024. Os critérios de exclusão foram: teses, dissertações e trabalhos de conclusão de curso; cartas aos editores; relatos de experiência; artigos de revisão; e estudos sobre outras temáticas.

Após a busca dos artigos nas bases de dados, conforme a questão de pesquisa — "Qual a produção científica sobre fragilidade em pessoas idosas na Atenção Primária à Saúde no Brasil?" — e os critérios de inclusão, procedeu-se à leitura dos títulos e resumos dos estudos, realizando-se a leitura completa dos artigos quando necessário. Após essa etapa, foram excluídos os artigos que atendiam aos critérios de exclusão, assim como os artigos duplicados.

Em seguida, os artigos selecionados foram lidos na íntegra para a extração dos seguintes dados de cada estudo: título, periódico, ano de publicação, autores, objetivo do estudo, delineamento metodológico e principais resultados. Os resultados foram avaliados por meio da técnica de análise temática9, buscando responder à questão da pesquisa.

RESULTADO

A síntese dos resultados obtidos nas etapas de busca dos artigos na BVS é apresentada na Figura 1. Sendo assim, a amostra deste estudo de revisão foi composta por 12 artigos.

Figura 1: Estratégia de busca na BVS.

Fonte: Dados da pesquisa (2024).

Dos artigos selecionados para esta revisão integrativa, uma tabela foi desenvolvida (Tabela 1) apresentando as características segundo base de dados, autor principal, ano de publicação, periódico, título do estudo, método e amostra (número de pessoas idosas avaliadas).  Os artigos foram publicados no período de 2019 a 2023, sendo a amostra total dos estudos composta de 53.152 pessoas idosas. Quanto ao método, prevaleceram estudos transversais e quantitativos, o que indica uma necessidade de estudos longitudinais sobre a evolução da fragilidade.

Em relação ao risco de fragilização, os estudos apontaram uma prevalência que variou de 30,6% a 68,1% e em relação às pessoas idosas frágeis, as pesquisas apontaram uma prevalência que variou de 6,6% a 45,5%. Ainda, dois estudos analisaram em conjunto a prevalência de risco de fragilização/presença de fragilidade e descreveram uma prevalência que variou de 30,6% a 50,4%.

Tabela 1: Artigos selecionados (n=12).

Autor

Ano

Periódico

Título

Método

Amostra

Prevalência de risco de fragilização e fragilidade

Barra et al.10

2023

Revista de Saúde Pública

Fragilidade e espacialização de pessoas

idosas do município de Uberlândia

com IVCF-20

Estudo observacional, quantitativo

47182

30,6% em risco ou frágeis

Silva et al.11

2021

Revista de Pesquisa (Univ. Fed. Estado Rio J., Online)

Perfil de fragilidade de idosos atendidos na atenção primária à saúde

Estudo transversal, quantitativo

118

32,2% em risco e 27,9% frágeis

Ribeiro et al.12

2021

Revista Brasileira de Enfermagem

Fragilidade no idoso: possibilidades de rastreio

na Atenção Primária à Saúde

Estudo transversal, quantitativo

396

44,2% frágeis

Tavares et al.13

2021

Cogitare Enfermagem

Acesso e utilização dos serviços de saúde entre idosos comunitários

Estudo transversal, quantitativo

1611

50,4% em risco ou frágeis

Maia et al.14

2021

Revista de Saúde Pública

Impacto do apoio matricial a

idosos na atenção primária:

ensaio comunitário randomizado

Ensaio comunitário randomizado controlado

197

45,5% de frágeis

Ribeiro et al.15

2020

Revista Mineira de Enfermagem

Propriedades psicométricas do Índice de Vulnerabilidade Clínico Funcional 20 na Atenção primária à Saúde

Estudo analítico, quantitativo

396

42,4% em risco e 12,6% frágeis

Santos et al.16

2020

Revista de Enfermagem do

Centro-Oeste Mineiro

Perfil clínico e funcional do idoso na Atenção Primária à Saúde em Belo Horizonte

Estudo transversal, quantitativo

396

42,4% em risco e 12,7% frágeis

Feitosa et al.17

2020

ABCS Health Sciences

Prevalence and associated

factor with frailty syndrome in

the Brazilian elderly attended

in primary care facilities:

a cross-sectional study

Estudo transversal, quantitativo

823

68,1% em risco e 23,8% frágeis

Melo et al.18

2020

Revista Brasileira de Enfermagem

Fragilidade, depressão e qualidade de vida:

um estudo com idosos cuidadores

Estudo transversal, quantitativo

40

52,5% em risco

Freitas et al.19

2020

Ciência & Saúde Coletiva

Fragilidade em idosos na Atenção Primária à Saúde:

uma abordagem a partir do geoprocessamento

Estudo analítico

183

43% em risco e 16,6% frágeis

Maia et al.20

2020

Ciência & Saúde Coletiva

Fragilidade em idosos assistidos por equipes da atenção primária

Estudo transversal, quantitativo

1750

32,2% em risco e 20,1% frágeis

Lima Filho et al.21

2019

Revista Kairós-Gerontologia

Perfil dos idosos participantes de grupos de convivência em unidades básicas de saúde do município de Santa Cruz, RN, Brasil

Estudo transversal, quantitativo

60

6,6% frágeis

Fonte: Dados da pesquisa (2024).

Dos resultados da análise temática, emergiram 03 categorias (Figura 2) que caracterizam a produção científica sobre fragilidade em pessoas idosas na APS no Brasil: “Determinantes sociais da fragilidade”, “Autopercepção da saúde como marcador da fragilidade” e “Promoção da saúde, prevenção e manejo da fragilidade na APS”.

Figura 2: Categorias temáticas.

Fonte: Dados da pesquisa (2024).

As categorias apresentam-se inter-relacionadas no contexto da atenção à saúde da pessoa idosa na APS.

DISCUSSÃO

A heterogeneidade da população idosa acarreta demandas diferenciadas, em que todas as pessoas idosas necessitam de uma avaliação pautada no conhecimento do processo de envelhecimento e suas particularidades, adaptada à realidade sociocultural22.

A fragilidade é compreendida como uma síndrome complexa multifatorial, influenciada por diversos fatores, dentre eles, os determinantes sociais23. Jesus et al.24 descreveram que houve indicativo de que a maior porcentagem de idosos com fragilidade severa estava inserida em áreas de alta vulnerabilidade social e com prevalência do sexo feminino. A feminilização do envelhecimento está associada a diversos fatores socioeconômicos e de saúde, resultando em um envelhecimento mais longo, mas com maiores incidências de doenças crônicas e vulnerabilidades financeiras, emocionais e sociais25.

Outro fator associado à fragilidade é a baixa escolaridade. Estudo indicou que pessoas idosas com baixa escolaridade apresentam maior prevalência de fragilidade, tendem a ter menos acesso a informações sobre saúde e práticas preventivas, o que contribui para o comprometimento da capacidade funcional26. Somado a isso, a baixa escolaridade sugere uma situação socioeconômica desfavorável, com consequências em desigualdades sociais27. Pessoas idosas com menores rendas geralmente apresentam maior prevalência de fragilidade, agravada por problemas de saúde, acesso limitado a cuidados e uma maior carga de doenças crônicas28.

A rede social e familiar exerce papel fundamental na fragilidade das pessoas idosas, oferecendo suporte emocional, instrumental e afetivo, especialmente em contextos de vulnerabilidade social. Estudos demonstram que redes familiares e sociais saudáveis contribuem para o fortalecimento da saúde da pessoa idosa, reduzindo o impacto das incapacidades associadas ao envelhecimento29.

Em relação ao acesso aos serviços de saúde, a APS desempenha um papel central, uma vez que facilita o acesso inicial e contínuo a cuidados preventivos e terapêuticos essenciais para idosos frágeis. O cuidado domiciliar também é uma modalidade importante, especialmente para idosos com mobilidade reduzida, proporcionando continuidade no atendimento e reduzindo internações evitáveis30.

A autopercepção da saúde é uma medida relevante para avaliar as condições de saúde da pessoa idosa. Esse conceito abrange aspectos físicos, cognitivos, emocionais e fatores relacionados ao bem-estar e à satisfação com a própria vida31.

A fragilidade apresenta uma relação negativa com a qualidade de vida da pessoa idosa, ou seja, sua presença implica em uma redução, de diferentes magnitudes, na qualidade de vida dos idosos32.

A capacidade funcional, um conceito multidimensional, é definida como a habilidade de realizar atividades da vida diária de forma independente e autônoma. Estudos apontam maior dependência para a realização dessas atividades em pessoas idosas frágeis33.

A satisfação global com a saúde, um dos componentes do propósito de vida, também está relacionada à fragilidade. Estudos indicam que altos níveis de propósito de vida estão associados a um menor risco de incapacidade, independentemente da presença de fragilidade34.

No contexto da APS, a linha de cuidado em saúde da pessoa idosa apresentada pelo Ministério da Saúde35, pressupõe para as equipes de saúde: conhecer, acompanhar e avaliar as necessidades de saúde das pessoas idosas, com base na sua capacidade funcional e a heterogeneidade do envelhecimento; estabelecer o percurso da atenção de acordo com as necessidades e diferentes perfis de funcionalidade; estabelecer fluxos entre os níveis atenção para o cuidado das pessoas idosas; e, promover a educação permanente dos profissionais da RAS.

A educação permanente (EPS), já apontada na linha de cuidado em saúde da pessoa idosa na APS36, é considerada primordial para a qualificação do cuidado da pessoa idosa frágil na APS. Dessa forma, sugere-se fortemente que o tema da fragilidade esteja presente na agenda de discussão das equipes de APS.

A partir disso, para a identificação de pessoas idosas frágeis, sugere-se a realização da avaliação multidimensional em saúde da pessoa idosa, utilizando-se os instrumentos do manual do Conselho Nacional dos Secretários de Saúde37. Após a identificação da pessoa idosa frágil, parte-se para a elaboração de Projetos Terapêuticos Singulares, envolvendo a equipe multiprofissional de APS e, se necessário, os demais níveis da RAS de forma integrada e continuada. Para isso, pode ser utilizado como norteador o Manual do Conselho Nacional dos Secretários de Saúde37 e a linha de cuidado de saúde da pessoa idosa na APS35.

Destaca-se a urgência do reconhecimento da fragilidade da pessoa idosa na APS para a organização das agendas das equipes, permitindo que estas atuem na prevenção e promoção da saúde, na coordenação do cuidado, na identificação de fatores de risco e, sobretudo, no acompanhamento longitudinal das pessoas idosas, considerando suas particularidades e necessidades de saúde37.

CONCLUSÃO

Conclui-se, com base nos resultados deste artigo de revisão integrativa, cujo objetivo foi analisar a produção científica sobre a fragilidade em pessoas idosas na APS no Brasil, que as publicações sobre a temática são fundamentadas nos determinantes sociais, na autopercepção da saúde e nas estratégias de promoção, prevenção e manejo da fragilidade na APS.

Os conceitos e perspectivas aqui encontrados demonstraram que a fragilidade da pessoa idosa na APS é um fenômeno complexo e multifatorial, interligado a processos heterogêneos de envelhecimento. Existe a necessidade de pesquisas longitudinais sobre o manejo dessa síndrome pelas equipes de APS, principalmente no que se refere a uma linha de cuidado integral e resolutiva dentro da rede de atenção à saúde do SUS.

Como contribuição, um estudo de revisão integrativa apresenta a atual situação da produção científica acerca da fragilidade em pessoas idosas na APS no Brasil no período de 2019 a 2024. Pode-se considerar como limitação deste estudo a busca de artigos em apenas uma base de dados, sendo interessante o mapeamento de estudos brasileiros publicados em bases de dados internacionais, o que permitiria investigar um cenário mais detalhado da fragilidade em pessoas idosas na APS.

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