PROMOÇÃO DA PARENTALIDADE POSITIVA NA PERSPECTIVA DO CUIDADO EM SAÚDE MENTAL: UMA REVISÃO DE ESCOPO

PROMOTING POSITIVE PARENTING FROM THE PERSPECTIVE OF MENTAL HEALTH CARE: A SCOPING REVIEW

PROMOCIÓN DE LA CRIANZA POSITIVA DESDE LA PERSPECTIVA DE LA ATENCIÓN DE SALUD MENTAL: UNA REVISIÓN DEL ALCANCE

Marcela Pimenta Guimarães Muniz - Doutora em Ciências do Cuidado. Departamento de Enfermagem Materno-infantil e Psiquiátrica da Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa da Universidade Federal Fluminense (DEP/EEAAC/UFF). ORCID: https://orcid.org/0000-0002-8615-7513

Leonardo Guimarães Muniz Pereira - Servidor do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ). Bacharel em Direito e Geografia. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-3771-3042

Eliane Oliveira de Andrade Paquiela - Doutora em Ciências do Cuidado. Escola de Enfermagem da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). ORCID: https://orcid.org/0000-0002-0916-9203

Eluana Borges Leitão de Figueiredo - Doutora em Ciências do Cuidado. Escola de Enfermagem da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). ORCID: https://orcid.org/0000-0002-5462-3268

Amaralina Pimenta Muniz - Mestre em Ensino na Saúde. Enfermeira no Instituto Nacional do Câncer (INCA). ORCID: https://orcid.org/0000-0001-5994-3239

RESUMO

Objetivo: Identificar na literatura nacional e internacional pesquisas que abordem iniciativas de educação parental e promoção da parentalidade positiva tendo como perspectiva o cuidado em saúde mental. Método: Revisão de escopo guiada pelo método de Joanna Briggs Institute Reviewer’s Manual. Resultados: Foram encontrados, inicialmente, um total de 111 estudos, mas somente 16 deles respondiam ao objetivo desta pesquisa. Apresentam-se 2 tabelas contendo a caracterização dos 16 artigos (título, ano, país de origem e autores), bem como os objetivos e a síntese dos seus resultados e, em seguida, discute sobre seus conteúdos. Conclusão: Os estudos apontam que as ações de promoção da parentalidade respeitosa são produtoras de cuidado em saúde mental tanto para as crianças quanto para os seus responsáveis. No entanto, identificou-se que há carência de investigações mais detalhadas, sobretudo, contemplando de forma mais específica as questões de saúde mental envolvidas nas ações de educação parental e na parentalidade positiva.

DESCRITORES: Parentalidade positiva; Educação parental; Saúde Mental.

ABSTRACT

Objective: To identify, in the national and international literature, research that addresses initiatives for parental education and the promotion of positive parenting from a mental health care perspective. Method: Scoping review guided by the Joanna Briggs Institute Reviewer’s Manual method. Results: A total of 111 studies were initially found, but only 16 of them met the objective of this research. Two tables are presented containing the characterization of the 16 articles (title, year, country of origin, and authors), as well as the objectives and summary of their results, followed by a discussion of their contents. Conclusion: The studies indicate that actions to promote respectful parenting produce mental health care for both children and their caregivers. However, it was identified that there is a lack of more detailed research, especially addressing more specifically the mental health issues involved in parental education actions and positive parenting.

DESCRIPTORS: Positive parenting; Parental education; Mental health.

RESUMEN

Objetivo: Identificar en la literatura nacional e internacional investigaciones que aborden iniciativas de educación parental y promoción de la parentalidad positiva, teniendo como perspectiva el cuidado en salud mental. Método: Revisión de alcance guiada por el método del Manual de Revisores del Joanna Briggs Institute. Resultados: Inicialmente se encontraron un total de 111 estudios, pero solo 16 de ellos respondían al objetivo de esta investigación. Se presentan 2 tablas que contienen la caracterización de los 16 artículos (título, año, país de origen y autores), así como los objetivos y la síntesis de sus resultados, y a continuación se discuten sus contenidos. Conclusión: Los estudios indican que las acciones de promoción de la parentalidad respetuosa son generadoras de cuidado en salud mental tanto para los niños como para sus responsables. Sin embargo, se identificó la falta de investigaciones más detalladas, especialmente aquellas que contemplen de forma más específica las cuestiones de salud mental involucradas en las acciones de educación parental y en la parentalidad positiva.

DESCRIPTORES: Parentalidad positiva; Educación parental; Salud Mental.

Recebido: 13/11/2024  Aprovado: 22/11/2024
Tipo de artigo:
Revisão de Escopos

INTRODUÇÃO

 

Uma das maiores ameaças ao desenvolvimento infantil é a violência, a qual ocorre predominantemente no ambiente e contexto familiar. Considerando que a violência não se restringe à esfera física, o presente estudo se pretende contribuir com a prevenção da violência física, mas, sobretudo, com a prevenção das negligências e violências psicológicas. São elas: indiferença, intimidação, humilhação, manipulação, discriminação, desrespeito por meio de ameaça, constrangimento, depreciação, isolamento, agressão verbal, ridicularização, exploração ou xingamento, negligência emocional, negligência educacional(1).

A parentalidade positiva se refere aos “comportamentos parentais respeitosos, acolhedores, estimulantes, não violentos e que promovem o reconhecimento e orientações com o estabelecimento de limites, para fortalecer o pleno desenvolvimento da criança(2).

Neste sentido, desde março de 2024 o Brasil conta com a Lei nº 14.826, a qual institui a parentalidade positiva e o direito ao brincar como estratégias intersetoriais de prevenção à violência contra crianças, se configurando em uma importante conquista para o avanço a favor da promoção da parentalidade respeitosa(3).

O desenvolvimento de um relacionamento saudável e respeitoso com a criança pode ser construído a partir da promoção da parentalidade positiva, bem como a capacidade de regular as expectativas sobre o comportamento da criança. A educação respeitosa e outras abordagens semelhantes oferecem uma variedade de métodos que os pais e cuidadores podem usar para guiar o comportamento de seus filhos de maneira gentil, respeitosa e não violenta. É preciso que pais, professores e cuidadores que recebam apoio na construção de uma parentalidade afetiva junto às crianças, para além do processo de aprendizagem de regras e normas(4).  

As medidas visam a prevenção e proporcionar às famílias, com o suporte necessário, a capacidade de desempenhar suas funções e assumir responsabilidades no cuidado e na educação de crianças, assegurando seu desenvolvimento saudável. O enfoque do trabalho de resiliência parental está na valorização dos fatores positivos e das habilidades dos grupos familiares frente aos riscos, promovendo uma parentalidade positiva e protetora. Isso se opõe a situações de negligência nos cuidados fundamentais ou a práticas educativas parentais coercitivas, que utilizam punições físicas e violência psicológica para tentar controlar o comportamento infantil(5).  

Este estudo teve como objetivo identificar na literatura nacional e internacional pesquisas que abordem iniciativas de educação parental e programas de parentalidade positiva tendo como perspectiva o cuidado em saúde mental.

MÉTODO

Este estudo foi do tipo revisão de escopo guiada  pelas  recomendações  do método de Joanna Briggs Institute Reviewer’s Manual (JBI), desenvolvida mediante cinco etapas: formulação da questão de pesquisa; identificação dos estudos relevantes; seleção de estudos; extração e análise dos dados; síntese e construção do relatório(6).

A pesquisa de revisão de escopo busca mapear a literatura disponível sobre um determinado tema, identificando e resumindo o que já foi publicado em uma área específica. Diferente das revisões sistemáticas, a revisão de escopo se concentra em explorar um tópico de forma mais ampla, fornecendo uma visão geral dos tipos de evidências e lacunas no conhecimento atual. Esse tipo de estudo é contributivo para pesquisadores que desejam compreender o panorama geral de um campo de estudo, especialmente em áreas emergentes ou pouco exploradas, como é o caso do tema da educação parental(6).

Nesta revisão de escopo, realizou-se uma busca em bases de dados para localizar o máximo possível de estudos relacionados ao tema da parentalidade positiva na perspectiva do cuidado em saúde mental. Os resultados foram então organizados e analisados no formato em que se propõe uma revisão de escopo com emprego do mnemônico: População, Contexto e Conceito (PCC), de acordo com o protocolo JBI(6). Estabeleceram-se:  População (P):  pais e professores de crianças; Conceito (C): promoção da parentalidade positiva; Contexto (C): cuidado em saúde mental. A partir disso, construiu-se pergunta  de pesquisa  da  revisão:  Quais  são as iniciativas de educação parental e promoção da parentalidade positiva descritas na literatura nacional e internacional que possuem como perspectiva o cuidado em saúde mental?

Para a busca dos estudos nacionais e internacionais atuais nas bases de dados científicas PubMed, SciELO e BVS no mês de Agosto de 2024, foram utilizados os termos “Educação Parental and Saúde Mental” e utilizado o recorte temporal dos últimos 5 anos. Todos os idiomas e países foram aceitos na seleção. Foram encontrados, inicialmente, um total de 111 estudos. Porém, após a leitura dos resumos, identificou-se que somente 16 estudos abordaram efetivamente o tema da parentalidade no que se refere a intervenções e práticas de educação parental de forma central e na perspectiva do cuidado em saúde mental. Destes, 04 estudos foram desenvolvidos no Brasil, 05 na China, 03 nos Estados Unidos da América (EUA), 01 na Dinamarca, 02 no Reino Unido e 01 na Índia. Somente 04 estudos foram publicados no ano de 2024, sendo 02 realizados na China e 02 no Brasil. Dos 04 estudos brasileiros, 02 deles foram publicados em 2024, 01 deles foi publicado no ano de 2021 e 01 no ano de 2023.

RESULTADOS

A partir da análise do material coletado, evidenciou-se que, embora haja uma frequência expressiva de estudos que versem sobre questões parentais envolvidas com assuntos da saúde mental, os estudos, em sua maioria, não versam sobre intervenções de educação parental ou de ações para a promoção da parentalidade positiva. Por esta razão, de um número inicial de 111 estudos, apenas 16 respondem ao objetivo desta revisão de escopo.

Abaixo, encontra-se na Tabela 1, a identificação dos 16 artigos (título, ano, país de origem e autores) e, na Tabela 2, a síntese de seus conteúdos.

Tabela 1: Caracterização dos 16 artigos: Título, ano, país de origem e autores

TÍTULO

AUTORES

PAÍS

ANO

The effects of a web-based 24-hour movement behavior lifestyle education program on mental health and psychological well-being in parents of children with autism spectrum disorder: A randomized controlled trial(7)

Mengxian Zhao, Yonghao You, Xinsong Gao, Linlin Li, Jiayun Li, Meng Cao

China

2024

Eficácia de Programas Educativos à Distância para pais de crianças com diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista: uma revisão integrativa(8)

Andrade, Jullie Gottschall Lima; Carmo, Andreia Cristina Feitosa do; Tamanaha, Ana Carina; Perissinoto, Jacy

Brasil

2024

Práticas familiares quanto ao cuidado da saúde mental de suas crianças no contexto das necessidades essenciais(9)

Campelo, Lany Leide de Castro Rocha; Alencar, Delmo de Carvalho; Ibiapina, Aline Raquel de Sousa; Angelo, Margareth

Brasil

2024

Efeitos de um grupo educativo nas práticas parentais promotoras do desenvolvimento infantil(10)

Priscila Costa; Maria Cecília Souto Vidigal;

Thatianne Ferreira Gomes Cintra;

Samara Macedo Cordeiro;

Paula Rosenberg de Andrade;

Maria de La Ó Ramallo Veríssimo

Brasil

2023

The Impacts of Family Educational Investment on Mental Health of Chinese Parents: Mediating and Moderating Effects(11)

Ping Zhang; Zhewei Xu

China

2023

Mental Health Literacy for Supporting Children: A Systematic Review of Teacher and Parent/Carer Knowledge and Recognition of Mental Health Problems in Childhood(12)

Johnson CL, Gross MA, Jorm AF, Hart LM.

EUA

2023

Revisão sistemática de intervenções com pais na transição para parentalidade(13)

João M. de Oliveira; Patrícia Alvarenga; Catiele Paixão; Paula K. C. Sales

Brasil

2023

The positive role of parental attachment and communication in Chinese adolescents' health behavior and mental health during COVID‐19(14)

Beiming Yang; Bin-Bin Chen; Yang Qu; Yuanfei Zhu

China

2022

Consequences of serious parental health events on child mental health and educational outcomes(15)

Kristiansen IL.

Dinamarca

2021

The rise of tele-mental health in perinatal settings(16)

16.        Geller PA, Spiecker N, Cole JCM, Zajac L, Patterson CA.

EUA

2021

Promoting sensitive parenting in ‘at-risk’ mothers and fathers: A UK outcome study of Mellow Babies, a group-based early intervention program for parents and their babies(17)

Raouna A, Malcolm R, Ibrahim R, MacBeth A

Reino Unido

2021

Empowerment programs for parental mental health of preterm infants: A meta-analysis(18)

Zhang Q, Wu J, Sheng X, Ni Z

China

2021

Influence of technology usage on family communication patterns and functioning: A systematic review(19)

Ashwini Tadpatrikar;

Manoj Kumar Sharma;

Silpa S. Viswanath

Índia

2021

Parent engagement in an original and culturally adapted evidence-based parenting program, Legacy for Children(20)

So M, Almeida Rojo AL, Robinson LR, Hartwig SA, Heggs Lee AR, Beasley LO, Silovsky JF, Morris AS, Stiller Titchener K, Zapata MI.

EUA

2020

An intervention for parents with severe personality difficulties whose children have mental health problems: a feasibility RCT(21)

Day C, Briskman J, Crawford MJ, Foote L, Harris L, Boadu J, McCrone P, McMurran M, Michelson D, Moran P, Mosse L, Scott S, Stahl D, Ramchandani P, Weaver T.

Reino Unido

2020

Improving Parental Health Literacy in Primary Caregivers of 0- to 3-Year-Old Children Through a WeChat Official Account: Cluster Randomized Controlled Trial (22)

Li, Yun; Xiao, Qiuli; Chen, Min; Jiang, Chunhua; Kang, Shurong; Zhang, Ying; Huang, Jun; Yang, Yulin; Li, Mu; Jiang, Hong.

China

2024

Fonte: Construído pela autora

Tabela 2: Objetivos e síntese dos resultados dos16 artigos

TÍTULO

OBJETIVOS

RESULTADOS

The effects of a web-based 24-hour movement behavior lifestyle education program on mental health and psychological well-being in parents of children with autism spectrum disorder: A randomized controlled trial.

Avaliar os efeitos de um programa de educação sobre estilo de vida de comportamento de 24 horas baseado na web na saúde mental e bem-estar psicológico em pais de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA).

Este estudo representa o primeiro ensaio clínico randomizado envolvendo um programa de educação de estilo de vida sobre comportamento de movimento de 24 horas baseado na web, projetado especificamente para abordar a saúde mental e o bem-estar psicológico de pais de crianças com TEA. As descobertas confirmam o impacto potencial da educação de estilo de vida como uma estratégia funcional e eficaz para pais de crianças com TEA.

Eficácia de Programas Educativos à Distância para pais de crianças com diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista: uma revisão integrativa

Analisar a produção científica sobre programas educativos à distância para pais/responsáveis no desenvolvimento de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA).

Os estudos experimentais destacaram impactos positivos em áreas como rotinas diárias, flexibilidade comportamental e comunicação. A revisão sistemática indicou evidências preliminares de que os programas educativos à distância para pais podem melhorar o conhecimento sobre TEA, aumentar a adesão às intervenções e promover o desenvolvimento de habilidades sociais e de comunicação nas crianças.

Práticas familiares quanto ao cuidado da saúde mental de suas crianças no contexto das necessidades essenciais

Desvelar as práticas familiares quanto ao cuidado da saúde mental de suas crianças no contexto das necessidades essenciais.

O  reconhecimento  das  famílias  de  que  a  saúde  mental  de  suas crianças é resultado do suprimento ou não das necessidades  de  relacionamentos  sustentadores  contínuos,  de  proteção  física, segurança e regulação emocional, de estabelecimento de limites, de continuidade cultural, de experiências que respeitem as diferenças  individuais  e  de  experiências  adequadas  ao  desenvolvimento, mostrou-se indispensável para o bom desenvolvimento e saúde mental das crianças.

Efeitos de um grupo educativo nas práticas parentais promotoras do desenvolvimento infantil

Avaliar  os  efeitos  de  um  grupo  educativo  nas  práticas  parentais  promotoras  do  desenvolvimento  infantil  adotadas  por  familiares  de  lactentes.

Participaram do estudo 21 familiares de lactentes. Após a intervenção, houve um aumento de práticas parentais no grupo experimental, como brincar com objetos domésticos (46,1% versus 12,5% no grupo controle), brincar com brinquedos feitos em casa (38,5% versus 12,5% no grupo controle) e contar histórias com livros infantis (38,4% versus 12,5% no grupo controle). Os grupos educativos apoiaram práticas parentais de promoção do desenvolvimento de lactentes.

The Impacts of Family Educational Investment on Mental Health of Chinese Parents: Mediating and Moderating Effects.

Explorar o impacto do investimento educacional familiar na saúde mental dos pais na China. 

A integração social aponta melhor os efeitos prejudiciais do investimento educacional da família na saúde mental dos pais, e a participação social e a carga de trabalho desempenham um papel moderador negativo e positivo significativo, respectivamente. O investimento educacional da família, particularmente o investimento emocional, desempenha um papel importante na influência da saúde mental dos pais. Para lidar com a pressão crescente trazida pela competição educacional, o estado, a sociedade e os indivíduos precisam mobilizar esforços.

Mental Health Literacy for Supporting Children: A Systematic Review of Teacher and Parent/Carer Knowledge and Recognition of Mental Health Problems in Childhood

Revisar sistematicamente a literatura sobre alfabetização em saúde mental para apoiar crianças entre pais e professores de crianças em idade escolar (5 a 12 anos).

Os adultos parecem ter um bom reconhecimento do TDAH infantil, mas o seu conhecimento de outros quadros de sofrimento psíquico é menos claro. É necessária mais investigação para desenvolver definições padrão e medidas validadas para que as lacunas deste tema possam ser melhor identificadas nas populações que devem promover a saúde mental das crianças.

Revisão sistemática de intervenções com pais na transição para parentalidade

Analisar os efeitos de programas de intervenção com mães e pais à espera do primeiro filho sobre os domínios individual, conjugal e parental da transição para a parentalidade a partir de uma Revisão Sistemática e Meta-análise (PRISMA).

Os artigos foram classificados em três temas correspondentes a cada domínio avaliado. Foram verificados efeitos positivos em cada domínio da transição para a parentalidade, principalmente com intervenções sobre a comunicação de casal, solução de problemas e coparentalidade. Os benefícios para o relacionamento do casal favoreceram a saúde mental dos pais, o que pode promover maior disponibilidade emocional e capacidade de resposta dos pais.

The positive role of parental attachment and communication in Chinese adolescents' health behavior and mental health during COVID‐19

Examinar o papel do apego parental e da comunicação da COVID-19 no comportamento de saúde e na saúde mental dos adolescentes durante a COVID-19.

A segurança do apego dos adolescentes aos pais foi associada ao aumento do comportamento de saúde geral e relacionado à COVID-19, bem como à diminuição da depressão e ansiedade ao longo de 2 meses durante a pandemia. Destacam a importância de promover a segurança do apego e a comunicação sobre a COVID-19 entre pais e adolescentes durante a pandemia, o que pode desempenhar um papel positivo no comportamento de saúde e na saúde mental dos adolescentes.

Consequences of serious parental health events on child mental health and educational outcomes

Identificar as consequências de eventos graves de saúde parental na saúde mental e nos resultados educacionais das crianças

Eventos sérios, porém comuns, de saúde parental na infância têm efeitos imediatos e duradouros na saúde mental e nos resultados educacionais das crianças. Após um evento de saúde parental as crianças têm mais probabilidade de necessitar de terapia e de consumir medicamentos antidepressivos. Mais ainda, as crianças alcançam notas mais baixas em testes e têm taxas de matrícula escolar mais baixas. As consequências se iniciam imediatamente após o evento e persistem pelo menos até o início da idade adulta. Crianças mais expostas a tratamentos médicos tradicionais por demandas de saúde mental têm menor escolaridade no início da idade adulta.

The rise of tele-mental health in perinatal settings.

Discutir sobre o uso da telessaúde mental em cenários que atendem pais em centros de cuidados fetais e pais com crianças recebendo tratamento em unidades de terapia intensiva neonatal.

A rápida introdução da telessaúde mental após as restrições da COVID e nas unidades de terapia intensiva neonatal (UTIN) apresentou oportunidades e desafios. A opção de assistência remota à saúde mental abordou as restrições relacionadas à COVID, bem como forneceu uma opção para abordar questões que existiam antes da COVID. Na UTIN, por exemplo, considera-se que os pais apontam que acham difícil estar fisicamente presentes com seus filhos devido à distância da viagem, ao cuidado de outras crianças, às restrições de emprego ou ao custo da viagem.

Promoting sensitive parenting in ‘at-risk’ mothers and fathers: A UK outcome study of Mellow Babies, a group-based early intervention program for parents and their babies

Avaliar a eficácia do Mellow Babies (MB) no Reino Unido.

O MB é um programa de intervenção parental precoce de 14 semanas que é oferecido em grupos e é direcionado a pais "em risco" (mães e pais) e seus bebês de até 18 meses de idade. Os resultados sugerem resultados positivos de curto prazo para os pais que frequentam o MB. A conclusão do programa foi associada a melhorias significativas na ansiedade e no bem-estar geral, na confiança dos pais e na proximidade percebida do relacionamento entre pais e filhos. 

Empowerment programs for parental mental health of preterm infants: A meta-analysis.

Avaliar a eficácia de programas de empoderamento na saúde mental de pais de bebês prematuros.

Verificou-se que programas de empoderamento têm efeitos positivos na saúde mental dos pais, especialmente das mães. Os programas de empoderamento melhoraram significativamente a saúde mental dos pais, particularmente o estresse e a depressão materna. O estudo fornece evidências objetivas para o desenvolvimento de futuros programas de capacitação.

Influence of technology usage on family communication patterns and functioning: A systematic review

Realizar uma revisão sistemática da literatura publicada entre 1990 e 2020, examinando a relação entre o uso da tecnologia e seu impacto em fatores familiares, como comunicação e relacionamentos familiares.

Os resultados foram categorizados em domínios de 1) uso de tecnologia pela família, 2) comunicação familiar, 3) vínculo familiar, 4) regras para uso de tecnologia, 5) limites mantidos pelos membros da família relacionados ao uso de tecnologia. Os resultados indicam que o uso de tecnologia nas famílias é muito alto, e a comunicação diária máxima acontece por meio da tecnologia. O tempo de lazer da família, o vínculo familiar offline e a comunicação são afetados negativamente devido ao uso da tecnologia. 

Parent engagement in an original and culturally adapted evidence-based parenting program, Legacy for Children

Identificar barreiras e facilitadores ao engajamento dos participantes no programa, usando fontes de dados de monitoramento do programa das perspectivas dos participantes e dos líderes do grupo.

Identificaram-se barreiras distintas (por exemplo, desafios de emprego, desafios relacionados à saúde e consultas) e facilitadores (por exemplo, outras mães no grupo, interesse em tópicos do programa) ao engajamento que surgiram nas versões curriculares em inglês e espanhol; bem como barreiras e facilitadores específicos do currículo também foram documentados. Os resultados oferecem considerações promissoras para otimizar o envolvimento das famílias em programas parentais no contexto de cuidados e educação infantil.

An intervention for parents with severe personality difficulties whose children have mental health problems: a feasibility RCT.

Desenvolver uma intervenção parental especializada para pais afetados por graves dificuldades de personalidade que têm filhos com problemas de saúde mental e conduzir um teste de viabilidade.

Programa Helping Families-Modificado - uma intervenção de 16 sessões usando estratégias estruturadas e orientadas a objetivos e métodos terapêuticos colaborativos para melhorar a parentalidade.

Improving Parental Health Literacy in Primary Caregivers of 0- to 3-Year-Old Children Through a WeChat Official Account: Cluster Randomized Controlled Trial.

Identificar os efeitos de uma intervenção baseada na conta oficial do WeChat (WOA) na educação em saúde dos pais e cuidadores de crianças de 0 a 3 anos envolvendo os temas da Amamentação exclusiva, suplementação de vitamina D, acompanhamento do desenvolvimento infantil.

Após a intervenção de 9 meses, 69,4% (518/746) dos cuidadores assistiram a pelo menos 1 vídeo. Usar uma intervenção de saúde baseada no modelo de educação em saúde da OMS por meio de WOA tem o potencial de melhorar a educação em saúde dos pais envolvendo os temas da Amamentação exclusiva, suplementação de vitamina D, acompanhamento do desenvolvimento infantil. No entanto, estratégias inovadoras e mais estudos baseados em evidências são necessários para envolver mais participantes e atingir melhores resultados de intervenção.

Fonte: Construído pela autora

DISCUSSÃO

Os estudos selecionados para a revisão de escopo destacaram que as intervenções de educação parental trazem impactos positivos para a saúde mental das crianças e dos seus cuidadores (pais, familiares, professores), sobretudo em áreas como rotinas diárias, flexibilidade comportamental e comunicação. Indicam que os programas educativos voltados para cuidadores de crianças podem se dar, inclusive, com estratégias à distância com a finalidade de aumentar a adesão às intervenções e promover o desenvolvimento de habilidades sociais e de comunicação nas crianças a partir dos pais, familiares e professores(7-10, 15-22).

A literatura aponta para o  reconhecimento  das  famílias  de  que  a  saúde  mental  de  suas crianças é resultado do suprimento ou não das necessidades  de  relacionamentos  sustentadores  contínuos,  de  proteção  física, segurança e regulamentação, de estabelecimento de limites, de continuidade cultural, de experiências que respeitem as diferenças  individuais  e  de  experiências  adequadas  ao  desenvolvimento, o que se torna indispensável para o bom desenvolvimento e saúde mental das crianças(7-22).

A revisão de literatura apontou que eventos sérios, porém comuns, de saúde parental na infância têm efeitos imediatos e duradouros na saúde mental e nos resultados educacionais das crianças. Após um evento de saúde parental as crianças têm mais probabilidade de necessitar de terapia e de consumir medicamentos antidepressivos. Mais ainda, as crianças alcançam notas mais baixas em testes e têm taxas de matrícula escolar mais baixas. As consequências se iniciam imediatamente após o evento e persistem pelo menos até o início da idade adulta. Crianças mais expostas a tratamentos médicos tradicionais por demandas de saúde mental têm menor escolaridade no início da idade adulta(10-16).

Após as intervenções de promoção da parentalidade positiva voltadas para pais de crianças lactentes, os estudos apontam que houve um aumento de práticas parentais como brincar com objetos domésticos, brincar com brinquedos feitos em casa e contar histórias com livros infantis. Assim, grupos educativos apoiaram práticas parentais de promoção do desenvolvimento de lactentes(10, 12, 16).

As pesquisas recentes apontam também a importância de se promover a segurança do apego ou educação com apego, bem como a comunicação entre pais e filhos no que diz respeito às adversidades de saúde, como foi com a COVID19, desempenhando um papel positivo no comportamento de cuidados relativos à pandemia e na saúde mental por parte dos filhos(14).

O levantamento do estado da arte indica que o investimento educacional na família, sobretudo o investimento emocional, desempenha um papel importante na influência da saúde mental também dos pais. Para lidar com a pressão crescente trazida pela competição, o estado, a sociedade e os indivíduos precisam mobilizar esforços envolvidos com educação parental(10-15).

Os estudos identificaram ainda efeitos positivos das ações de educação parental na transição para a parentalidade, principalmente com intervenções sobre a comunicação de casal, solução de problemas e coparentalidade. Os benefícios para o relacionamento do casal favoreceram a saúde mental dos pais, o que pode promover maior disponibilidade emocional e capacidade de resposta dos pais para acolher a criança em suas diferentes demandas(9, 11, 16,19).

Há diversas intervenções e programas de educação parental que se organizam em números específicos de encontros, como, por exemplo o Melow Babies (MP) no Reino Unido. O MB é um programa de intervenção parental precoce de 14 semanas que é oferecido em grupos e é direcionado a pais "em risco" (mães e pais) e com bebês de até 18 meses de idade. Os resultados dos estudos sugerem resultados positivos de curto prazo para os pais que frequentam o MB, bem como melhorias significativas na ansiedade e no bem-estar geral, na confiança dos pais e na proximidade percebida do relacionamento entre pais e filhos(8, 12, 14, 21).

Identificou-se também a experiência do Programa Helping Families - Modificado; uma intervenção de 16 sessões usando estratégias estruturadas e orientadas a objetivos e métodos terapêuticos colaborativos para melhorar a parentalidade voltados para pais afetados por graves dificuldades de personalidade que têm filhos com problemas de saúde mental(21).

A revisão aponta ainda para as possibilidades e iniciativas de educação parental adaptadas de programas parentais de outros países. Por exemplo, estudos sobre o “Legacy for Children” adaptado para a realidade brasileira apontam considerações promissoras para otimizar o envolvimento das famílias em programas parentais no contexto de cuidados e educação infantil(20,22).

O levantamento localizou ainda a relevância de ações de educação parental voltadas para o empoderamento na saúde mental de pais de bebês prematuros para uma melhora significativa na saúde mental dos pais, principalmente o estresse e a depressão materna. O estudo fornece evidências objetivas para o desenvolvimento de futuros programas de capacitação(18).

CONCLUSÃO

O estudo atendeu ao seu objetivo ao identificar na literatura nacional e internacional pesquisas que abordem iniciativas de educação parental e programas de parentalidade positiva tendo como perspectiva o cuidado em saúde mental. Apontou-se que, segundo os estudos científicos, a saúde  mental  de  crianças é resultado do suprimento ou não das suas demandas contínuas  de  proteção  física, segurança e regulação emocional, bem como de continuidade cultural, de experiências que respeitem as diferenças  individuais  e  de  experiências  adequadas  ao  desenvolvimento para o bom desenvolvimento e saúde mental das crianças. As pesquisas também apontam que ações de promoção da parentalidade respeitosa são também produtora de cuidado em saúde mental para os responsáveis pelas crianças.

Acredita-se que esta revisão de escopo poderá servir como uma introdução ao tema da promoção da parentalidade positiva na perspectiva do cuidado em saúde mental e para contribuir com o direcionamentos de futuras pesquisas, ao ter identificado áreas que necessitam de investigação mais detalhada, sobretudo, contemplando de forma mais específica as questões de saúde mental envolvidas nas ações de educação parental e na parentalidade positiva.

REFERÊNCIAS

  1. Altafi E, Oliveira RC. Prevenção de violência contra crianças. Comitê Científico do Núcleo Ciência pela Infância. São Paulo: Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal; 2023.
  2. Council of Europe, Committee of Ministers Recommendation, Council of Europe Recommendation Rec on policy to support positive parenting. 2006. Disponível em: https://archive.crin.org/en/library/legal-database/council-europe-recommendation-rec200619-policy-support-positive-parenting.html 
  3. Brasil. Lei nº 14.826, de 20 de março de 2024. Institui a parentalidade positiva e o direito ao brincar como estratégias intersetoriais de prevenção à violência contra crianças. Brasília, 2024.
  4. Unicef Ecaro, Issa. Supporting Families for Nurturing Care: Resource Modules for Home Visitors. The art of parenting: love, talk, play, read. 2016.
  5. Garcia NM, Yunes MAM, Almeida AMT. Educação parental e pedagogia social: avaliação de uma proposta de intervenção. Educação. 2016; 39(1):94–104. Disponível em: https://doi.org/10.15448/1981-2582.2016.1.21396 
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