CUIDADO INTEGRADO A PACIENTE COM LESÃO RAQUIMEDULAR: UM RELATO DE EXPERIÊNCIA DE ALUNOS DE MEDICINA

INTEGRATED CARE FOR PATIENTS WITH SPINS INJURY: AN EXPERIENCE REPORT FROM MEDICAL STUDENTS

ATENCIÓN INTEGRADA AL PACIENTE CON LESIÓN DE ESPINA: UN REPORTE DE EXPERIENCIA DE ESTUDIANTES DE MEDICINA

Afrânio Gonçalves Neto - Acadêmico de medicina na Faculdade de Ciências Médicas Afya - Bragança (PA). ORCID: 0009-0003-7200-0173

Analina Costa de Brito Freitas - Acadêmica de medicina na Faculdade de Ciências Médicas Afya - Bragança (PA). ORCID: 0009-0008-2262-905X

Diego Simeone - Doutor em Biologia Ambiental, Professor de Métodos Científicos em Medicina e Sistemas Orgânicos Integrados na Faculdade de Ciências Médicas Afya – Bragança (PA). ORCID: 0000-0003-0190-6659

Miguel Costa Filho - Acadêmico de medicina na Faculdade de Ciências Médicas Afya - Bragança (PA). ORCID: 0009-0008-2756-5892

Kailany Milena Moreira Corrêa - Acadêmica de medicina na Faculdade de Ciências Médicas Afya - Bragança (PA). ORCID: 0009-0008-7054-5045

RESUMO

Objetivo: Evidenciar a experiência de acadêmicos de medicina diante do acompanhamento domiciliar a paciente com lesão raquimedular durante 6 meses, observar as necessidades, desafios, assistência e convívio social diante do quadro de saúde apresentado, buscar estratégias de intervenções que possam melhorar ou amenizar os problemas de saúde do paciente. Método: trata-se de um relato de experiência descritivo com abordagem qualitativa pautado em visitas domiciliares. Resultados: Por meio dessas visitas, foi possível observar o impacto do tratamento integral e multiprofissional na melhora física, psicológica e social do paciente, como também se observou um regresso generalizado do quadro em momentos os quais parte desse tratamento foi negligenciado. Conclusão: Constata-se a Visita Domiciliar como peça fundamental para fortalecer o vínculo médico-paciente e garantir uma assistência centrada no indivíduo como um todo, procurando satisfazer suas necessidades de forma integrada e descentralizada.

DESCRITORES: Atenção Domiciliar; Qualidade assistencial; Lesão Medular Traumática; Reabilitação; Equipe multidisciplinar

ABSTRACT

Objective: To demonstrate the experience of medical students in providing home care to patients with spinal cord injuries for 6 months, to observe the needs, challenges, care and social interaction in light of the health condition presented, and to seek intervention strategies that may improve or alleviate the patient's health problems. Method: This is a descriptive experience report with a qualitative approach based on home visits. Results: Through these visits, it was possible to observe the impact of comprehensive and multidisciplinary treatment on the physical, psychological and social improvement of the patient, as well as a generalized regression of the condition at times when part of this treatment was neglected. Conclusion: Home visits are seen as a fundamental element in strengthening the doctor-patient bond and ensuring care focused on the individual as a whole, seeking to meet their needs in an integrated and decentralized manner.

DESCRIPTORS: Home Care; Quality of Care; Traumatic Spinal Cord Injury; Rehabilitation; Multidisciplinary Team

RESUMEN

Objetivo: Evidenciar la experiencia de los estudiantes de medicina en el acompañamiento domiciliario de un paciente con lesión medular durante 6 meses, observar las necesidades, desafíos, asistencia y convivencia social frente al cuadro de salud presentado, y buscar estrategias de intervención que puedan mejorar o aliviar los problemas de salud del paciente. Método: se trata de un relato de experiencia descriptivo con enfoque cualitativo basado en visitas domiciliarias. Resultados: A través de estas visitas, fue posible observar el impacto del tratamiento integral y multiprofesional en la mejora física, psicológica y social del paciente, así como también se observó una regresión generalizada del cuadro en momentos en los que parte de este tratamiento fue descuidado. Conclusión: Se constata que la Visita Domiciliaria es fundamental para fortalecer el vínculo médico-paciente y garantizar una asistencia centrada en el individuo en su totalidad, buscando satisfacer sus necesidades de forma integrada y descentralizada.

DESCRIPTORES: Atención Domiciliaria; Calidad asistencial; Lesión Medular Traumática; Rehabilitación; Equipo multidisciplinario.

Recebido: 05/06/2024  Aprovado: 17/06/2024

Tipo de artigo: Relato de Experiência

INTRODUÇÃO

A lesão medular traumática se trata de uma situação complexa e delicada que além de afetar boa parte do sistema locomotor, é responsável por afetar profundamente o estilo de vida do indivíduo acometido (1). É uma das condições de maior impacto no desenvolvimento humano e traz consequências que tanto alteram o psicológico do indivíduo quanto a rotina familiar, por conta da possibilidade de invalidez das funções cotidianas. A legislação brasileira tenta acompanhar os avanços no mundo em relação aos direitos dos portadores de deficiência e, nesse sentido, vem apresentando importantes conquistas ao longo dos últimos anos (2-4). O direito à aposentadoria por invalidez está reservado àqueles que não conseguem desenvolver atividade laboral após a lesão, sendo considerados pela perícia médica da Previdência Social incapacitados para exercer suas atividades ou outro tipo de serviço que lhes garanta o sustento (5). Ao identificar que a lesão medular acomete predominantemente a população jovem, em idade produtiva, este estudo tem como objetivo o acompanhamento de um paciente paraplégico lesionado após um acidente de trabalho e analisar o suporte e os serviços oferecidos pela Unidade Básica de Saúde e os cuidados destinados ao paciente, bem como contribuir para o fortalecimento dessa relação e analisar o papel do médico e da equipe multidisciplinar.

MÉTODO

Trata-se do relato de experiência vivenciado durante visitas domiciliares a um paciente com lesão medular, decorrente de traumatismo, realizadas no segundo semestre de 2023.

As visitas aconteceram conforme calendário estabelecido pela ACS e familiares com a realização de perguntas quanto ao estado de saúde, informações acerca do acidente, tempo de internação, diagnóstico médico, tratamento medicamentoso que realizou e realiza, frequência com que procura a UBS, apoio psicológico e social que recebe, o contexto familiar, social, profissional e estrutural, devido ao paciente necessitar de cadeira de rodas para seu deslocamento.

Após a compilação das informações, foram levantadas estratégias de intervenções de maneira a reverter os agravos observados, como melhoria na acessibilidade no interior do domicílio; suporte psicológico; suporte social, uma vez que, teve o benefício social negado e melhorar a adesão e a relação paciente e equipe da UBS.

RESULTADOS

O paciente acompanhado lesionou as vértebras T11-T12 na região que acomete a Intumescência Lombar, o que o tornou paraplégico. Possui 44 anos e está impossibilitado de trabalhar. Ao realizar a perícia, o médico responsável pelo seu exame, aprovou a aposentadoria permanente, porém, mesmo com o deferimento, teve o benefício suspenso. Além disso, ele e seus familiares apresentam dificuldades em lidar com o novo estilo de vida, uma vez que, os cuidadores são idosos e apresentam também limitações de saúde.

Através das visitas domiciliares, observou-se o quão devastadoras foram as consequências na vida do paciente, levando a graves prejuízos funcionais, psíquicos e sociais. O trauma apresentado pela lesão medular é um fator limitante e demanda uma completa modificação no comportamento e estilo de vida do paciente e requer uma rede de apoio familiar e multiprofissional que ofereça suporte integral e contínuo ao paciente (6).

Durante a visita, se percebeu certa fragilidade do apoio familiar, limitado pela idade e condições de saúde dos cuidadores, que são seus pais, já idosos, e que também necessitam de acompanhamento e cuidados. Uma das principais queixas relatadas pelo paciente foi a suspensão do benefício social, direito assegurado pela Lei N° 8.213/1991. Com a suspensão do salário, não há como custear as despesas, o que gera um agravo psicológico e emocional maior.

Sobre as queixas relacionadas ao seu estado de saúde, paciente relatou dor neuropática e bexiga neurogênica. Conforme as Diretrizes de Atenção à Pessoa com Lesão Medular (7), a ocorrência de dor após a lesão medular é muito frequente, 60% dos casos terão dor em alguma fase da vida. De acordo com Porto (2015) a dor neuropática caracteriza-se por sensação desconfortável geralmente imprecisa em queimação, choque ou formigamento em região na qual há perda ou diminuição da sensibilidade. É compreendida como resultado da ativação anormal da via nociceptiva (fibras de pequeno calibre e trato espinotalâmico). A dor pode ser um fator incapacitante e tem implicações funcionais, psicológicas e socioeconômicas (8)

A Reabilitação física, através da fisioterapia, é uma rotina de exercícios e atividades funcionais que, além de trazer benefícios fisiológicos inerentes à atividade (por exemplo, liberação de endorfinas), pode favorecer não somente a analgesia, mas também o desvio do foco por parte do paciente do seu quadro álgico, melhorando as possibilidades de sucesso das terapias (9). Além disso, o engajamento em atividades do cotidiano favorece a experimentação do potencial produtivo, com reflexos no humor e na motivação do indivíduo.

A bexiga neurogênica caracteriza-se pela disfunção da bexiga decorrente de alteração do mecanismo do controle vesicoesfincteriano por lesão neurológica, causando inadequação do armazenamento e do esvaziamento da bexiga (7). As repercussões urológicas causadas pela lesão na medula espinhal constituem umas das maiores preocupações no processo de reabilitação, pois o mau funcionamento vesical pode acarretar complicações que vão desde a infecção urinária, cálculos vesicais até fístulas peno escrotais, refluxo vésico-ureteral, hidronefrose e em casos extremos, perda da função renal (10).

A micção envolve complexos mecanismos de integração do sistema nervoso autônomo (involuntário) e piramidal (voluntário). O ciclo normal de micção deve permitir armazenamento de urina, percepção de bexiga cheia e eliminação voluntária com baixa pressão vesical (11) (TORTORA; DERRICKSON, 2023). Para o esvaziamento vesical adequado, deve haver relaxamento voluntário do esfíncter em sincronia com a contração do detrusor (involuntária). Se o relaxamento do esfíncter externo não é possível e ocorre contração involuntária do detrusor, há aumento da pressão intravesical com risco de refluxo vésico ureteral e falência renal a longo prazo por obstrução pós-renal (11).

A estase urinária leva infecções urinárias de repetição e risco de cálculos urinários (12). O manejo da bexiga neurogênica deve garantir esvaziamento vesical a baixa pressão, evitar estase urinária e perdas involuntárias. Na maior parte dos casos, este esvaziamento deverá ser feito por cateterismo vesical intermitente, instituído de forma mandatória, independente da realização precoce do exame de urodinâmica, desde a alta hospitalar. Além dos riscos clínicos (infecção e insuficiência renal), a incontinência urinária causa isolamento social e tem grande impacto na autonomia funcional do paciente. Infecções do trato urinário são extremamente frequentes nos lesados medulares sendo a principal doença infecciosa que os acomete tanto na fase aguda quanto na fase crônica da lesão medular. A principal causa relaciona-se com a retenção e esvaziamento incompleto da bexiga.

Levando em consideração esses aspectos, torna-se necessária a avaliação periódica do trato urinário do paciente lesado medular durante toda a sua vida. O paciente, no entanto, interrompeu o cateterismo meses após a inserção do cateter e, por meio de uma orientação incorreta, começou a utilizar “copos” na micção. Voltou afazer uso do cateter há apenas três meses, quando apresentou infecção urinária e procurou o serviço de pronto atendimento.

DISCUSSÃO

Ainda com base nas Diretrizes de Atenção à Pessoa com Lesão Medular (2015), O paciente portador de lesão medular passa por fases comportamentais, que correspondem a: Choque, Negação, Reconhecimento e Adaptação. Na fase de choque não há a noção da magnitude da lesão e suas consequências, havendo um “congelamento” das funções psíquicas de modo a preservar-se. Na fase de Negação o paciente inicia um contato com a realidade, no entanto, de forma distorcida, podendo agir de forma passiva ou agressiva como uma forma de manifestar sua revolta ou inconformismo. Na fase de reconhecimento o paciente já visualiza a paralisia como definitivo, o que pode gerar sentimento de desamparo e depressão. E por último a fase de Adaptação, onde o paciente visualiza sua reabilitação como uma forma de integração biopsicossocial.

Para qualquer que seja a fase comportamental, a importância da família e da equipe multiprofissional de saúde é de extrema importância para o processo de reabilitação. E foi possível observar, através dos relatos do paciente, algumas dessas fases, como o choque, após o acidente; a negação, meses após o acidente, onde relatou uma queda da cadeira de rodas, no intuito de “minimizar” os esforços feitos pela sua companheira em uma tarefa doméstica. O paciente hoje reconhece a sua condição e busca um processo de adaptação.

Nesse reconhecimento e buscando melhores condições para o processo de reabilitação, buscou atendimento no Hospital Sarah Kubitschek, em São Luís do Maranhão, uma rede de hospital destinada ao atendimento de vítimas de politraumatismo e problemas de locomoção, onde ficará por dois meses sendo acompanhado por especialistas e equipe multiprofissional.

Ao que pôde-se acompanhar, a falta de estrutura, apoio familiar e de problemas financeiros acentuam o problema de saúde gerado pela lesão medular, pois, mesmo tratando-se de um paciente com dificuldades de locomoção, o mesmo, por diversas vezes relatou interromper tratamentos e seguimento com consultas médicas, psicólogo e fisioterapeuta em virtude da dificuldade de chegar ao local de atendimento. O acompanhamento psicológico deve ser integrado à equipe multiprofissional, visando a reabilitação biopsicossocial. No entanto, houve a evasão do paciente, julgando desnecessário a psicoterapia. Como reflexo da não adesão, as fases de reconhecimento e adaptação, tornam-se mais difíceis e dolorosas emocionalmente.

Muitas são as barreiras vivenciadas por um paciente com paralisia e as adaptações nos ambientes são necessárias para que se minimize barreiras e favoreçam um deslocamento com segurança, tanto em ambientes domésticos quanto comunitários. Como forma de garantir acesso, o paciente providenciou a confecção de uma rampa para que pudesse adentrar e sair de sua residência

CONCLUSÃO

O acompanhamento através de visitas domiciliares permitiu concluir a necessidade da rede de cuidado integral e contínuo a pacientes com lesão medular. Os pacientes com lesão medular são acompanhados pelos profissionais da atenção Básica e direcionados aos centros de especialidades, como os centros de fisioterapia, para minimizar danos relacionados a lesão, processo esse articulado pela Unidade Básica de Saúde. As experiências relatadas pelo paciente sugerem afirmar que a qualidade de vida após a lesão medular está fortemente associada a qualidade da abordagem multiprofissional, da integração entre os profissionais, do suporte terapêutico, psicológico, apoio familiar e social que recebe. Ao que se observou, falta uma maior integração entre a equipe de saúde que o acompanha, uma vez que, não há acompanhamento psicoterapêutico e a fisioterapia está sendo realizado na rede particular, custeada por amigos. Durante a escuta ao paciente é possível compreender todas as fases vivenciadas pós lesão. O cérebro requer um tempo para entender que a vida continua, mas que, para isso necessita de adaptações, mudanças e principalmente, suporte. A associação entre as perdas motoras decorrentes da lesão e as barreiras arquitetônicas reduz ainda mais as possibilidades de locomoção do indivíduo com lesão medular e tornam mais difíceis a reinserção social e o enfrentamento à nova condição.

BIBLIOGRAFIA

  1. Cruz LG, Machado CS, Afiúne FG. Os aspectos emocionais do lesado medular frente ao seu diagnóstico. Revista Científica da Escola Estadual de Saúde Pública de Goiás “Cândido Santiago”. 2021; 7: e700004.
  2. Brasil. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal; 1988.
  3. Brasil. Decreto n.º 3.298, de 20 de dezembro de 1999. Regulamenta a Lei nº 7.853, de 24 de outubro de 1989, dispõe sobre a Política Nacional para a Integração da Pessoa Portadora de Deficiência, consolida as normas de proteção, e dá outras providências. Diário Oficial da União 28 abr 1999;
  4. Brasil. Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015. Institui a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência). Diário Oficial da União 7 jul 2015;
  5. Brasil. Lei n° 8.213, de 24 de julho de 1991. Dispõe sobre os Planos de Benefícios da Previdência Social e dá outras providências. Brasília, DF: Diário Oficial da União, 1991.
  6. Murta SG, Guimarães SS. Enfrentamento à Lesão medular traumática.  Estudos de Psicologia (Natal), 2007;12(1):57-63.
  7. Brasil. Ministério da Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas: Diretrizes de Atenção à Pessoa com Lesão Medular, 2015.
  8. Porto CC, Porto AL. Clínica Médica na Prática Diária. 2. ed. São Paulo: Grupo GEN, 2015.
  9. Moreira DO. Fisioterapia: uma ciência baseada em evidências. Fisioterapia em Movimento, 2017;30(1):9
  10. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos, CONITEC. Cateter hidrofílico para cateterismo vesical intermitente em indivíduos com lesão medular e bexiga neurogênica. Relatório de Recomendações, 2019.
  11.  Tortora GJ, Derrickson B. Princípios de Anatomia e Fisiologia. (16ª edição). Grupo GEN; 2023.
  12. Heilberg IP, Schor N. Abordagem diagnóstica e terapêutica na infecção do trato urinário: ITU. Revista da Associação Médica Brasileira, 2003;49(1):109–116.